Sexo: resgatando a alegria do corpo no Corpo

Nós da  tribo evangélica (não vou negar minhas raízes históricas) temos muitos problemas que demandam atenção. Somos igreja de gente em processo de crescimento até que chegue aquele que é perfeito. E um dos maiores  é a relação com nossa humanidade.

Crente em geral tem três problemas ligados a sua humanidade: problema no admitir e expressar emoções, crises teológicas quando enfrenta doenças, perdas e dores e um profundo desconforto com sua sexualidade.

Quero falar primeiramente da sexualidade e do que tenho visto em minha experiência de mais de 20 anos aconselhando e falando em diferentes denominações. Vamos  lavar um pouco da roupa suja?

Os crentes tendem a enxergar seus pastores e líderes como figuras assexuadas. Não sei se nós colaboramos para isso ao não abordarmos temas sexuais de forma explícita. Pastor que lê isso, qual foi a última vez que você abordou assuntos relacionados com sexualidade em sua igreja de forma tranquila, aberta e distensionada? Uma querida irmãzinha amada mas desinformada expressou-se da seguinte forma para minha esposa e eu quando soube durante uma conversa de que nós fazíamos sexo: “Pastor eu nunca imaginei que vocês também faziam essas coisas”. É pois é.

Os crentes por sua falsa moralidade (o que eles admitem publicamente e o que eles fazem de fato) dificilmente publicarão ou ensinarão algo realmente útil no quesito como dar e receber prazer na relação sexual. Filosoficamente os livros cristãos são em geral bem sólidos, só que no aspecto prático (quais os botões apertar), são infinitamente inferiores aos chamados “seculares”. Minha esposa palestrou em um Congresso de mulheres inteiramente sobre sexualidade e as reações foram surpreendentes. Muitas mulheres consideram os órgãos sexuais como Pero Vaz de Caminha os descreveu em sua carta para Portugal a 500 anos atrás: “suas vergonhas”. Creem que a mesma boca que beija e que faz sexo, não pode louvar e adorar a Deus, mas antes e depois deve se purificar. Me faz lembrar o costume que católicos praticantes tinham de fechar o nicho da santa que ficava no quarto na hora de terem relações sexuais. Outras mulheres cada vez que faziam sexo, após terminarem iam até um quarto ao lado pedirem perdão a Deus. Sinceramente me compadeço destes casamentos e sempre tenho vontade de ajudar essas pessoas. Quanta infelicidade sem razão!

Os crentes quando falam em sexo na igreja em geral é para apresentar listas obsessivas  sobre o que não pode se fazer. Líderes mal resolvidos querem ser policiais da sexualidade alheia. Se você ver gente assim por aí, cuidado essas pessoas tem um tarado por dentro! Lembro de uma líder que mandava as meninas colocarem  farinha de trigo nos genitais com o fim de vencerem a  tentação do sexo. !!!!!!!Meu Deus quanta obsessão doida!

Os crentes associam sensualidade (prazer dos sentidos) com “espírito de prostituição”. Prostituição é vender o corpo. Um membro de uma igreja chegou no escritório de um pastor amigo pedindo oração a ele porque sua esposa estava com o tal “espírito de prostituição”. O pastor perguntou o que ela estava fazendo e ele respondeu que ela tinha comprado lingeries novas e sensuais para estar com ele. Em outros lugares seminários de libertação levam as lingeries portadoras de espíritos de prostituição para queimarem e descartá-las. Oh Deus misericórdia. Não esqueço quanto alívio tenho visto nas pessoas depois de seminarios nos quais desmascaramos essas mentiras escandalosas que fazem nosso povo mais infeliz.

Os crentes para minha vergonha e perturbação, depois de se converterem não raro começam a ter uma vida sexual menos prazerosa. Ouvi de muitos maridos que suas esposas se tornaram extremamente  complicadas e cheias de “não me toques” depois de se converterem. Alguns homens depois de participarem algum tempo na igreja chegaram em casa e disseram a suas mulheres: Agora que a gente se converteu vamos ter que parar de “fazer essas coisas”.

Os crentes por muitos anos aboliram e condenaram a  dança na vida do casal reputando-a por mundanismo. A dança a dois faz com que nos sintamos a vontade com o nosso corpo, algo fundamental para uma vida sexual sadia. Está na hora de voltarmos para a pista de dança com nossos companheiros. Ah meu Deus, será que serei apedrejado por ter escrito isso?!

Deus nos deu o sexo para a alegria. Como diz meu cunhado “dar uma alegria para o corpo” é fundamental para essa vida que já tem seus fardos e lutas cotidianas. Não temos necessidade de acrescentar mais peso ainda. E se alguém quer contestar por favor leia Cantares com um bom comentário na mão e verá que o que digo é verdade. O sexo precisa ser resgatado em nossos arraiais. Deus nos ajude.

O discipulo gaudério.

Os Filhos da Insegurança

Perder tempo com um inimigo ilusório, e esquecer-se do inimigo real. Isso foi o que aconteceu com Saul dominado pela insegurança. Enquanto os filisteus invadiam os territórios de Israel trazendo opressão e destruição, o rei Saul desperdiçava suas energias  perseguindo um inimigo que não existia: Davi.

De forma semelhante líderes e pessoas em todas as instâncias da vida dão a luz a comportamentos de auto sabotagem quando dominados pela insegurança. Muitos sequer conseguem discernir que estão apavorados, e por isso mesmo são um perigo gigantesco.

Por isso apresento hoje os filhos da insegurança para que  possamos em primeiro lugar admiti-la em nós e depois impedir que ela nos derrube em meio aos desafios que enfrentamos.

1. Quando sou inseguro tenho a tendência de querer agradar a todo mundo.  Uma sucessão de decisões que visam agradar a todos colocará pessoas em qualquer organização em guerra aberta. Muitos lugares devastados por conflitos crônicos são liderados por pessoas que não tem coragem de confrontar e de tomar decisões impopulares mas necessárias.

2. Quando sou inseguro tenho a necessidade de fazer sempre a minha vontade. Em alguns lugares pessoas assim são chamadas de  fortes, mas não são. A segurança de ser quem eu sou (um ungido de Deus) me guarda desse complexo de Deus. E mesmo Deus, se “encolheu” para que nós pudéssemos ser pessoas com livre arbítrio.

3. Quando sou inseguro, não aceito que alguém além de mim receba reconhecimento. Quando esse ano cheguei de minhas férias, um membro da igreja me chamou em sua casa e me disse:” A igreja estava melhor do que nunca! Nunca ouvi palavras tão abençoadas.” E eu respondi: Foi exatamente para isso que esses líderes foram treinados. Você costuma abrir portas para que outras pessoas cresçam?

4. Quando sou inseguro tento impressionar as pessoas. Dependendo do estilo de sua igreja você pode impressionar de diferentes formas. Em certas igrejas  diplomas e citações de autores famosos em pregações farão você ganhar prestígio, em outros lugares propagandas de milagres realizados por você ou relato de visões sobrenaturais granjearão respeito,  em outros lugares os números de resultado de sua liderança colocarão a todos de boca aberta. Independente do que seja, correr atrás de qualquer uma dessas coisas fará com que você se desvie do seu propósito primário: servir as pessoas e não impressioná-las.

5. Quando sou inseguro evito correr riscos. Sei como isso é sutil. Por isso cada ano que começa eu peço ao Senhor que eu possa envolver-me em projetos que venham a trazer aquele frio na barriga. Todos precisamos daquele frio na barriga para sairmos de nossa comodidade e crescermos.

6. Quando sou inseguro vivo comparando meu trabalho com o de outros. As comparações são sempre nocivas. Produzem orgulho quando me sinto superior ou depressão quando me sinto inferior. Só Deus sabe a história por detrás das conquistas de cada um. No meu caso vou continuar me preocupando em fazer o melhor com o que tenho nas mãos.

7. Quando sou inseguro tenho dificuldade em elogiar e reconhecer o trabalho dos outros. Ah quanto trabalho bem feito ao nosso redor é esquecido. O clima do lugar onde você vive e trabalha depende de sua capacidade de elogiar.

8. Quando sou inseguro não confio em ninguém para me ajudar no trabalho. Existe um grande número de pessoas sofrendo e carregando fardos porque não conseguem compartilhar seu trabalho com outras pessoas.

9. Quando sou inseguro jamais admito meus erros. Meu professor de aconselhamento, Werner costumava contar a história de uma senhora que foi abandonada pelo marido e foi procurar aconselhamento. Em uma das sessões, ele pega um quadro faz um gráfico e pergunta: De O a 100 qual a porcentagem de responsabilidade da senhora neste abandono. A mulher olha para ele e responde enfaticamente: Nenhuma. Ele com sinceridade germânica lhe responde: Tá vendo, quem é que consegue conviver com uma mulher perfeita!

Discernindo os filhos da insegurança podemos começar hoje mesmo um caminho de confiança na soberania de Deus que me ungiu como seu amado, e que prometeu que apesar de minhas fraquezas fará a obra comigo e apesar de mim.

O discípulo gaudério.

Síndrome de Highlander

Dinossauros como eu que habitaram a terra nos anos 80 lembram o filme Highlander estrelado por Sean Connery e Christopher Lambert. Nos filmes alguns guerreiros sobrenaturais  habitavam a terra, no entanto só um deles podia sobreviver. A tarefa de cada um deles era aniquilar os outros até que só um permanecesse . Há vinte e cinco anos nos bastidores de igrejas e conhecendo os intestinos de muitas instituições posso dizer que uma porção de líderes é tentada por esse diabólico princípio. São líderes cuja insegurança dominou seus pensamentos e ações e não conseguiram mais ver ninguém ao seu redor florescer sem tentar puxar o tapete ou prejudicar com maquiavélicas armações. É a Síndrome do Highlander.

Dois dos principais líderes de Israel também sofreram com insegurança:

Saul dizia:

“Acaso não sou eu um benjamita, da menor das tribos de Israel, e não é o meu clã o mais insignificante de todos os clãs da tribo de Benjamim?”

I Samuel 9:21; 10:22.

Davi dizia algo semelhante:

“Quem sou eu, e o que é minha família ou clã de meu pai em Israel, para que eu me torne genro do rei?”

I Samuel 18:18; 24:14.

Todos sofrem com insegurança. De uma maneira ou de outra.

Como aprendi que o poder se aperfeiçoa na fraqueza, vou admitir, sofri muito com insegurança, e ainda sofro. Todas as vezes que preciso ministrar a Palavra sinto o peso da responsabilidade e um frio na barriga que ameaça me arruinar. Em razão de ter começado tudo muito cedo, minha capacitação sempre foi questionada. Cheguei no seminário com 17 anos, era o aluno mais novo que havia. Para completar o quadro ostentava uma voz grave que as vezes escorregava e traía minha adolescência em final de carreira. Acrescentado a isso um “bigode” daqueles que todos dão aqueles conselhos infames do que fazer para crescer.

Lembro que comecei no ministério de tempo integral com 22 anos e já naquele tempo aconselhava pessoas com problemas familiares  com seus quarenta e tantos anos. Em uma ocasião uma pessoa me perguntou: Fabiano, o que tu fazes durante todo o dia na igreja? Ao que respondi: Aconselhamento. Com indisfarçada cara de deboche e um sorrisinho maroto ela me perguntou novamente: Quantos anos tu tens? E eu respondi: 22. Ela sorriu novamente e completou: Aconselhamento, com 22 anos? E não seguiu a conversa. Eu não respondi nada, me despedi e  saí dali lutando com meus pensamentos de insegurança.

Quando assumi a liderança da igreja que hoje pastoreio, lembro de ser chamado pejorativamente por um líder mais tradicional de “pastor da geração coca-cola”.

Mas quando olho para a Palavra e vejo a vida de Saul e Davi, e suas mesmas lutas contra a insegurança me pergunto o que fez com que eles tivessem destinos diferentes. Os dois foram ungidos por Deus mas Saul teve um final decadente enquanto Davi foi lembrado como “o homem segundo o coração de Deus”. A Saul vemos os soldados  abandonando em um momento de crise, já a Davi vemos seus soldados cruzando um caminho perigoso só para trazer a água da porta de Belém que ele ansiava beber.(1)

A diferença entre eles vim a perceber residia no lugar onde eles colocavam seus olhos. Saul continuou olhando para si mesmo e lambendo suas feridas, por isso feriu a todos os que estavam ao seu redor. Davi olhou para a unção de Deus sobre sua vida e foi uma bênção para sua nação. A unção  significa duas coisas: identidade e propósito. Quando alguém é ungido, essa unção quer dizer que a pessoa pertence a Deus e é escolhida para um propósito específico. Nenhum ser humano pode mudar isso! Nem Deus muda isso pois a Palavra me diz que o dom e a vocação de Deus são irrevogáveis.(2)

No entanto permanece minha liberdade nesse assunto: posso viver tentando compensar minha insegurança quando sou questionado ou me sinto incapaz ou posso lembrar que Deus me escolheu e capacitou e nada vai mudar isso. Essa é a diferença entre quem se torna uma bênção e entre quem se torna um Saul na vida dos outros.

Mas será que eu sou um ungido de Deus? Sabe o que a Palavra me diz? Todos fomos ungidos!(3) Descubra seu chamado e lembre-se que ele é pura graça de Deus. Para o seu bem e para o dos outros também. Quando medito sobre isso peço a Deus que eu como líder jamais venha levantar a mão contra um ungido de Deus, que Ele possivelmente colocou ao meu lado para me ajudar  de maneiras impensadas. Deus me livre de profanar a sacralidade do chamado de Deus em qualquer pessoa. Amanhã escreveremos mais sobre isso.

O discípulo gaudério.

(1)II Samuel 23:15

(2)Romanos 11:29

(3)II Coríntios 1:21

Alfabetização Espiritual: o Silêncio

A vida do coração é cultivada no silêncio.

No entanto…

Não conseguimos dirigir sem estarmos com o som ligado.

Não conseguimos correr sem o MP3 ligado em nossos ouvidos.

Não podemos estar em casa sem ligar a televisão.

Já vi gente com o computador, música e televisão ligados ao mesmo tempo.

Um jovem me confidenciou: ficar em silêncio me enlouquece!

Não foi sem crise e ameaças de boicotes que pedimos em um acampamento que todos os celulares fossem entregues para a coordenação do evento para que tivéssemos um tempo mais proveitosos durante o final de semana.

Veja alguns textos da Bíblia sobre o assunto:

“Faça silêncio e escute ò Israel”

Deuteronômio 27:9

“O Senhor, porém, está em seu santo templo;

Diante dele fique em silêncio toda a terra”.

Habacuque 2:20

“Ao romper do dia, Jesus foi para um lugar solitário. As multidões o procuravam, e, quando chegaram até onde ele estava, insistiram que não as deixasse.”

Lucas 4:42

“Os meus olhos antecipam as vigílias noturnas, para que eu medite nas tuas palavras.”

Salmos 119:148

Como então o silêncio contribui para o meu crescimento espiritual?

1. O Silêncio proporciona o necessário encontro comigo mesmo.

“Conta-se frequentemente a história de um homem que marcou uma consulta com o famoso psicólogo Carl Jung, a fim de encontrara a ajuda para sua depressão crônica. Jung disse ao homem que diminuísse as horas de trabalho, de catorze para oito, fosse diretamente para casa e passasse as noites em seu gabinete, quieto e completamente sozinho.

O homem deprimido dirigia-se ao gabinete todas as noites, fechava a porta, e lia um pouco de Herman Hesse ou Thomas Mann, tocava algumas peças de Frederic Chopin ou de Mozart.

Depois de semanas, assim, retornou a Jung, queixando-se de que não conseguia ver nenhuma melhora. Ao saber como o homem tinha passado seu tempo, Jung disse:

– Mas você não entendeu. Eu não queria que você estivesse com Hesse, Mann, Chopin ou Mozart. Eu queria que você ficasse completamente sozinho.

O homem ficou horrorizado e exclamou: – Não consigo pensar em pior companhia!

Jung respondeu: – Mas esse é o eu que você impõe as pessoas 14 horas por dia!”

Sem encontrarmos a nós mesmos,  nos tornamos um perigo para os outros.

Sem encontrarmos a nós mesmos,  é impossível experimentar verdadeira transformação.

Sem encontramos a nós mesmos construímos uma imagem mentirosa.

Sem encontramos a nós mesmos, vivemos confusos.

2. O Silêncio prepara um ambiente no qual Deus pode falar.

Porque o silêncio envolve perda do controle. Falamos muito porque queremos o controle.

Quando silencio a Palavra é levada para todas as dimensões do meu ser. Desce para além da mente.

NEle eu entendo meu real chamado em lugar de ficar atendendo as expectativas dos outros.

3. O Silêncio me ajuda a perceber o que é realmente importante.

O que é realmente necessário vem a tona. E o supérfluo é colocado em xeque-mate.

Será que eu preciso mesmo daquele novo produto?

O barulho anestesia as percepções.

“Eis que o sujeito desce na estação do metrô: vestindo jeans, camiseta e boné, encosta-se próximo à entrada, tira o violino da caixa e começa a tocar com entusiasmo para a multidão que passa por ali, bem na hora do rush matinal.

Mesmo assim, durante os 45 minutos em que tocou, foi praticamente ignorado pelos passantes.

Ninguém sabia, mas o músico era Joshua Bell, um dos maiores violinistas do mundo, executando peças musicais consagradas num instrumento raríssimo, um Stradivarius de 1713, estimado em mais de 3 milhões de dólares.”

Todos os dias um espetáculo divino se desenrola ao seu redor, você tem percebido?

4. O Silêncio me ajuda entender o que acontece ao meu redor.

O sistema que vivemos quer que nós  venhamos apenas  reagir. Ou agir sem reflexão. Somos fanáticos de nosso sistema. Parecemos hamsters que correm em um roda giratória sem sair do lugar em uma gaiola.  Nossa adaptação ao sistema é até motivo de orgulho. Mas no silêncio Deus nos convoca a revolução.

Faça lugar no seu dia para o silêncio e enxergue, sinta, cheire e pense como jamais fez.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

Alfabetização Espiritual: Matéria 1

Andar na contramão desta geração. Um estado geral de inconformidade é uma exigência do discipulado. Como podemos ser diferentes, como podemos ser mais conscientes de nós mesmos e assim vivermos pacificados e pacificando aqueles que estão na nossa volta? Como podemos nos alfabetizar espiritualmente?

Jesus tinha muitos expedientes típicos da escola rabínica de sua época para despertar as pessoas e fazê-las pensar. Como um típico Rabi do primeiro século, ele sempre tinha uma pergunta que chacoalhava o senso comum e fazia vir a tona os pensamentos e as motivações do coração. Vejam algumas: O que é permitido fazer no sábado: o bem ou o mal, salvar a vida ou destruí-la? Pois o que adiantará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma ? Se alguém possui cem ovelhas, e uma delas se perde, não deixará as noventa e nove nos montes, indo procurar a que se perdeu?

Conta-se que um certo homem chegou a um Rabino e o confrontou: Por que os rabinos sempre respondem uma pergunta com outra pergunta? Ao que o Rabino não se intimidou e tascou: O que há de mal com uma pergunta?

Sim perguntas removem nossas máscaras como nada mais que eu conheço. Lembro das sessões de aconselhamento durante o tempo de seminário que faziam com que entrássemos em crise, pois nos faziam entrar em contato com uma realidade pessoal que não imaginávamos que existia dentro de nós. Mas “não era uma crise, era só o fim de uma ilusão.”

A mudança só chega quando estamos dispostos a encarar a realidade nua e crua. “A realidade morde se não for respeitada” já escreveu Brennan Manning. E como aqueles momentos de questionamentos mudaram para sempre e para melhor nossa vida.

Tenho na minha biblioteca dois livros que considero preciosos e recomendo a todos. São livros que podem ser encontrados na maioria dos sebos: O livro das perguntas de Gregory Stock e O livro das perguntas sobre amor e sexo do mesmo autor. As vezes como família sentamos e discutimos questões que nos deixam pensando por muito tempo. Algumas perguntas levantadas pelo livro:

Qual a maior realização de sua vida? Existe algo que espera fazer que seja ainda melhor?

Se você fosse morrer esta noite e não tivesse a menor chance de se comunicar com ninguém, o que mais lamentaria não ter dito a alguém? Por que não disse até agora?

Ao pensar nas pequenas e grandes coisas em que você e seu par são diferentes, qual é a diferença que mais admira na pessoa amada?

Mas eu também quero deixar algumas perguntas que serão um excelente começo para nossa alfabetização espiritual. Mas por favor não se apresse em responder. Pense lentamente.

Você é orgulhoso? Por favor seja corajoso e pergunte a sua esposa ou aos seus pais ou aos seu irmãos e ouça a resposta.

Você se coloca no lugar das pessoas antes de fazer um julgamento a respeito delas?

Você sabia que as pessoas com as quais tem mais dificuldades, são as mais parecidas com você?

Você já se perguntou por que determinadas situações lhe irritam tanto?

Como você reage quando está sob oposição?

Como você reage quando está sem dinheiro?

Como você reage quando é rejeitado?

Como você reage quando seu trabalho não é reconhecido?

Como você reage quando seu trabalho não é reconhecido?

E por fim, não fuja daqueles que certamente usados pela Providência, cruzam seu caminho e lhe fazem perguntas que incomodam.

Você precisa saber!

O discípulo gaudério.

Uma geração de tiriricas I

Pois é, o Tiririca conseguiu. Driblando com malandragem brasileira todos os obstáculos se postou no Congresso Nacional como nosso (what?) representante. A parcela consciente da população se incomoda e se envergonha. Como um analfabeto em um amplo sentido poderá nos representar? Prá dizer a verdade eu estou mais preocupado com a geração de tiriricas que anda em cada estrato social de nosso país e mundo.

Somos parte da era da informação, no entanto a informação mais importante de nossas vidas não podemos encontrar no Google. Quem somos nós de verdade? O que está no interior do copo? O que acontece por detrás dos cosméticos? O que minha produção exterior esconde? O que meu espelho não diz? Eu preciso saber, você precisa saber.

Subentendido nos textos que Cristo que  falam do cuidado que devemos ter em não julgar em Mateus 7, está a necessidade de nos conhecermos. O profeta Isaías conta sua visão e ensina que um verdadeiro encontro com Deus produz auto conhecimento, alfabetização espiritual. Jesus fala de um analfabeto espiritual total: o fariseu. Ele não conhece a Deus, não conhece a si mesmo e não conhece o publicano. Preocupam-me os analfabetos espirituais, pois eles são muitos e é muito o dano que eles  fazem a quem os rodeia.

Como é então um analfabeto espiritual?

1. Perde o controle frequentemente. Os impulsos emocionais comandam a vida inteira, fazendo do analfabeto uma bomba relógio, colocando a todos em tensão permanente.

2. Implica com pessoas sem razão aparente. Não conheço e não gostei é o lema dessas pessoas.

3. Ofende-se com facilidade. Ora, aquele que está escondido em Cristo, a medida que cresce vai se ofendendo cada vez menos, pois ouve mais aquilo que Deus diz que ele é, e menos aquilo que os outros dizem. “Sou o que sou diante de Deus e nada mais” dizia Francisco de Assis.

4. Usa as palavras sem qualquer seleção de vocabulário para se referir aos outros. Burro, idiota, desgraçado, são facilmente achados nessa boca. Sempre procuro lembrar que por mais “mala” que uma pessoa seja, ela é amada de Deus.

5. Está sempre envolvida nos mesmos problemas em diferentes lugares. As histórias se repetem seja no trabalho, em casa ou na vizinhança.

6. Jamais entende o problema dos outros. O que dói nos outros é “frescura”.  Stephen Covey  conta a história do homem que entra com seus filhos gritando e bagunçando no ônibus onde ele já estava confortavelmente sentado . Irritado com a omissão do pai com aquela situação, ele se levanta e chama a atenção do homem que lhe responde: Ah desculpe senhor. É que a mãe deles morreu essa noite, e eu não sei o que fazer.

“Quando o outro não faz..

É preguiçoso.

Quando você não faz…

Está muito ocupado.

Quando o outro fala…

É intrigante.

Quando você fala…

É crítica construtiva.

Quando o outro se decide a favor de um ponto…

é “cabeça dura”.

Quando você o faz…

Está sendo firme.

Quando o outro não cumprimenta,

é mascarado.

Quando você passa sem cumprimentar…

É apenas distração.

Quando o outro fala sobre si mesmo,

é egoísta.

Quando você fala…

É porque precisa desabafar.

Quando o outro se esforça para ser agradável,

tem uma segunda intenção.

Quando você age assim…

É gentil.

Quando o outro encara os dois lados do problema,

está sendo fraco.

Quando você o faz…

Está sendo compreensivo.

Quando o outro faz alguma coisa sem ordem,

está se excedendo.

Quando você faz…

É iniciativa.

Quando o outro progride,

teve oportunidade.

Quando você progride…

É fruto de muito trabalho.

Quando o outro luta por seus direitos,

é teimoso.

Quando você o faz…

É prova de caráter.

7.  Sente-se perseguido pelo mundo. O analfabeto espiritual pensa que quando chove é porque ela precisa que não chova, que quando faz sol é só porque ela precisa que chova. Ela vê o Universo conspirando contra ela.

8. Perde o rumo da vida quando enfrenta crises.

9. Lê cada uma dessas características e pensa que se referem unicamente aos outros e não a si mesmo.

É tempo de uma nova alfabetização! Uma jornada ao planeta alma.

O discípulo gaudério.

O vampiro que habita em mim

Domingo de páscoa. Jesus deu seu sangue e ressurgiu dos mortos. Mesmo assim uma criatura dentro de mim se espreita por detrás de minhas palavras, sutilezas e comportamento: um vampiro. Ao contrário de Jesus, ele não quer dar seu sangue, ele quer sugar o sangue dos outros. Ele tampouco ressurgirá no domingo como fez Jesus, mas andará mais morto do que vivo, pálido, sôfrego e insaciável. Ele é o vampiro que habita em mim.

Os vampiros estão com tudo. Séries de TV, blockbusters de hollywood, livros e tudo o mais.  Nós evangélicos como é nosso cacoete estamos preocupados e já começamos a nos movimentar com livros e pregações em nossos púlpitos sobre o perigo que representa esse vampirismo generalizado para fé que “de uma vez por todas foi dada aos santos.”

Mas os monstros criados pela mente humana  são projeções simbólicas das partes mais assustadoras que vivem dentro de nossa alma. Eis que o vampiro não está nas telas, nem nos livros mas sim dentro de mim.

Cuide bem do seu amor, recomenda Herbert Vianna em canção inspirada e cada relacionamento de amor demanda cuidado. Mas algo de podre acontece quando cruzamos a fronteira invisível do cuidado e chegamos na terra do controle: nos tornamos vampiros daqueles que amamos.

O texto de I Reis 12 nos fala do filho de Salomão que apesar da grande fama de sábio havia esgotado o povo de Israel durante 40 anos a fim de manter o ritmo nababesco de obras de Jerusalém. Roboão queria ir mais longe, queria sugar um pouco mais e o resultado foi ruptura. Quem convive com vampiros sofre, perde a espontaneidade, cuida cada passo que dá, não respira e acumula um desejo de libertação que ás vezes surge como violência de atitude e palavras. Violência gera violência.

Existem vampiros em todos os relacionamentos. Há vampiros entre amigos. São os super carentes que querem se assegurar que vamos sempre ter o melhor tempo para eles, as palavras exclusivas e que eles vão habitar o pedestal supremo de nossa afeição. Não querem ser um amigo, querem ser o amigo.

Há esposas e maridos vampiros. Estes podem ligar a cada minuto e momento para o outro querendo saber onde estão e o que fazem, com quem andam. Querem ter a certeza que sua alma não será machucada como talvez um dia foi, mas tentando preservar a alegria dentro de si a matam no outro. Vigio diariamente para não cruzar essa fronteira.

Há pais e filhos vampiros. O mundo é assustador, furioso mais do que nossos filhos podem imaginar. Eles querem voar, mas nós queremos um cordão que os mantenha em segurança. Então sufocamos nossos filhos, não permitimos que eles corram riscos (que nós queríamos correr sozinhos). Lembro de mentir para a  professora   quando as escolas eram ainda ingênuas e os professores acreditavam em meninos de seis anos que meu pai ia me pegar mais cedo na escola para me levar ao médico. Tudo porque eu queria experimentar a sensação e a aventura de voltar para casa sozinho. Mas hoje quando minha filha de 16 anos quer sair do ninho, o vampiro ataca. Quero controle, não quero vê-los chorar, a dor deles será bem maior em mim, eu sei. Mas há filhos vampiros também.  Filhos que não crescem, com síndrome de Peter Pan, não querem sair de casa, ou quando saem de casa, a casa não sai deles, são vampiros dos pais exigindo-lhes atenção prioritária e privilégios  de uma criança de oito anos de idade.

Há pastores vampiros. Não se contentam em pregar, querem obediência sem consciência. Querem se certificar que a ovelha seja igual no jeito e no trejeito. Querem que cada decisão tenha sua chancela. Conheci um rapaz cristão que não podia conversar com os amigos sem a presença do discipulador. O cuidado virou controle.

Há crentes vampiros, cometem o pecado essencial do paganismo, tiram Deus do trono e querem que Ele seja seu garoto de recados, atento a cada desejo e vontade. Pessoalmente entrei muitas vezes em crise quando encontrava paradoxos na Bíblia. Mas que grande libertação foi para mim desistir de controlar e explicar Deus. Um peso saiu de minhas costas.

Domingo de páscoa. Jesus deu seu sangue para que todo vampiro sacie sua sede nele e comece a viver e a deixar os outros viverem!

O discípulo gaudério.

O discípulo gaudério

A última ceia

Esse é o primeiro post daquilo que pretendo  seja um blog de um discípulo que interesse a outros discípulos. Não escondo que sou discípulo de Jesus. Quando estudava no seminário uma pergunta costumava pipocar em nossas mesas de debate: Creio em Cristo por causa da Bíblia ou na Bíblia por causa de Cristo?

Há vinte anos atrás minha resposta seria: Creio em Cristo por causa da Bíblia! Ah, mas agora né não. Creio na Bíblia por causa de Cristo. Sempre surpreendente, suas perguntas e trajetória continuam me fascinando depois de haver tomado uma decisão de segui-lo há uns curtíssimos 25 anos. De três em três anos uma nova revolução acontece na minha vida, só porque eu insisto em continuar lendo os evangelhos sem nenhuma cartilha evangélica em mãos.

Lembro de que nos anos oitenta ouvíamos: crente não bebe, não vai ao cinema e não dança. Uma checagem constante me demonstrou que o que a cultura de igreja ensinou não expressava a liberdade e o vigor de Jesus. Eis que ele bebe (what?), era chamado de beberrão e vejam só transformou água em vinho, ele não vai no cinema mas vai em banquetes muito mal falados com gente não recomendável (a tal roda dos escarnecedores) e para acabar com tudo ele ainda vai a festas, e festa em Israel todos sabem tinha que ter dança.

Falo dessas coisinhas pequenininhas só para reforçar o fato de ser um aprendiz. No melhor e no pior sentido. As vezes ando sobre as águas e as vezes afundo. As vezes tenho uma paciência de Jó e outras vezes a ira de João. Sou capaz de eloquentes declarações de fé para depois ver minhas palavras deteriorarem em fanfarronice. Creio, para em seguida pedir  ajuda na minha pouca fé. Sim sou aprendiz. Sou formando, sou um gerúndio interminável.

Sou gaudério também. Tenho história e raízes. Beijo minha terra e tenho um sentimento de nacionalidade com o Rio Grande. Vejo a cuia que roda de pessoa em pessoa como um símbolo da Ceia, da comunhão, da confraria aberta prá quem quiser chegar. Quando a cortina se abrir e a realidade vier a tona, avisto chegando no céu uma turma bonita de gaúchos (e prendas) de bota, bombacha e espora  juntamente com toda língua, tribo e nação celebrando o Cordeiro.

Comprometido com minhas raízes e com o que quero ser é que espero transbordar por aqui com palavras e imagens que façam a diferença.

O discípulo gaudério