“Eu não escuto música do mundo”

“Eu não escuto música do mundo, só escuto louvores.” É uma frase que ouço com uma freqüência maior do que gostaria, em nosso meio evangélico. É uma frase que revela uma mentalidade  estreita e irrefletida. É como se tudo que tivesse o nome de Deus e se dirigisse a Ele tivesse o seu aval aposto e fosse a única maneira de glorificá-lo. Como se só o que fosse confessadamente batizado e participante da igreja, pudesse dizer algo bom, honroso e verdadeiro. Como se as paredes da igreja e de nossos recintos religiosos fosse um selo de qualidade dos céus. Como se o batismo nas águas se equivalesse a um ISO 9001 do trono de Deus.

Bom, eu já pensei assim, e foram muitas as vezes que me senti culpado por gostar do som da Legião Urbana ou mesmo dos Beatles. Ah mas eles(os Beatles) disseram que eram mais famosos que Jesus. Pois é, mas Pedro o apóstolo disse depois de 3 anos com Jesus que não o conhecia e mesmo assim escreveu cartas que servem de referência espiritual para nós. Mas esse tempo já passou. Um olhar para Jesus dissipa todas as dúvidas sobre o assunto e deixa tudo mais claro.

Vejamos o que ele diz: Os filhos das trevas são mais sábios que os filhos da luz (1) Ele diz que jamais viu em Israel, (geografia da fé) uma fé como a de um centurião romano(2), ele diz comovido no íntimo para a mulher siro-fenícia depois de chamá-la de cachorrinha: Mulher grande é a tua fé!(3)

Ou seja: muitas vezes a melhor expressão de louvor e verdade vem da boca daqueles que jamais empunharam um microfone em qualquer grupo de música em uma igreja, muitas vezes a fé mais despojada vem de uma pessoa que nunca se assentou entre nós.  Outras vezes as ações mais coerentes com o amor ao próximo vem de Samaria e não de Jerusalém. Por essa razão não me sinto nem um pouco obrigado por consciência de votar em irmão, porque irmandade está para além das aparências e interesses eclesiásticos e está  ligada a um espírito com o qual se fazem as coisas. Porque  Jesus não se encaixota em nossa ditadura de fé que o enclausura no gueto evangélico como se dele só pudesse sair coisas boas pelo simples fato de ter o Seu nome.

Assim é que escuto uma música como “Há tempos” e vejo nela um salmo da angústia existencial de uma geração que perdeu o sonho. Escuto um verso como Pai afasta de mim esse cálice (cale-se) e entendo como a denúncia profética da ditadura que a igreja nunca ousou fazer. Sabendo que com isso sou fiel ao espírito de Jesus, que não se encabresta e nem se deixa guiar pelas rédeas da cultura evangélica. Jesus não é nosso, nós é que somos dEle.

Por entender que a graça também se derrama onde quer que Ele queira, eu também digo a meus irmãos de caminhada que não me encaixotarei, seguirei a ousadia do Mestre. Como Paulo chamou Epimênides de profeta (4), sem que ele sequer fosse conhecedor da fé eu também serei livre para ouvir as profecias de Dostoievski, os salmos existenciais da Legião Urbana e tantas outras coisas mais com discernimento e prazer.

O discípulo gaudério.

(1) Lucas 16:8

(2) Mateus 8:5

(3) Mateus 15:21-28

(4) Tito 1:12

2 pensamentos sobre ““Eu não escuto música do mundo”

  1. Tá demais!! assino embaixo! já nos aconteceu como grupo de dança tradicionalista de ser “podados” num evento “evangélico” por tentar dançar o “Canto alegretense”!!! Motivo: “porque essa música da louvor a cultura gaúcha” da pra acreditar??? Não cantemos mais então: parabéns pra você,hino Nacional, nem façamos mais homenagens as nossas mães e pais dedicando um dia inteiro do ano pra isso.Com certeza a igreja está bitolada e fechada no seu mundinho bacana e confortável!

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