Místicos, intelectuais e ativistas

Três vertentes dominam nossas comunidades. A vertente mística, intelectual e a ativista. Cada um de nós tem simpatia por uma delas. Elas poderiam conviver dentro das pessoas em paz, mas em geral produzem muita divisão e guerras em  nosso meio.

A vertente mística simpatiza com visões, oração e revelações. As pessoas que a representam em nossas comunidades são profundamente intuitivas, sensíveis e viscerais. Onde ouvirem ou souberem rumores de que há milagres ou homens trazendo mensagens específicas dos céus, estas pessoas estarão lá. Em geral elas têm uma grande simpatia por tudo que tenha a ver com guerra espiritual, e costumam dizer que querem andar no sobrenatural de Deus. Ironicamente as pessoas mais místicas que já conheci, vieram de ambientes intelectualmente consistentes e áridos. A razão parece ser óbvia: elas se fartaram do que é apenas natural, embora não seja preciso opor uma coisa a outra. Tanto o que é natural como aquilo que é sobrenatural são criações da boa mão de Deus.

Sim o misticismo apresenta seus perigos, pessoas que pendem para esse lado tem a tendência de achar que todo problema é do diabo e que a solução será sempre alguma reunião de libertação ou mais oração. Dentro dessa linha também habitam pessoas que não aceitam coisas como a importância do conhecimento médico condenando aqueles que procuram solução para seus problemas de enfermidade. Atendimento psicológico nem pensar! Tratamento para depressão então é o fim. Em um momento mais exacerbado o misticismo pode levar pessoas a  serem controladas por um líder com dons chamados “sobrenaturais” atendendo todas as suas solicitações por mais absurdas que elas possam parecer.

Apesar disso os cristãos devem  ser místicos em um certo sentido, pois é uma dimensão real da vida. Jesus também foi aquilo que podemos chamar de místico: ele conhecia o coração das pessoas bem antes que essas lhe falassem, fazia milagres e revelava as intenções e até palavras do coração das pessoas.   Ignorar, ou desprezar essa realidade só porque existem maus representantes dela seria uma tolice sem tamanho. Em um dos muitos momentos místicos de minha vida, uma decisão radical que eu havia tomado foi totalmente mudada em razão de um encontro com um homem que trouxe uma palavra de revelação para minha vida. A palavra se mostrou verdadeira como tudo indicava que fosse: eu não conhecia o homem, ele    também não me conhecia e o que ele falou era assunto de oração que eu não conversava nem com minha esposa. Mas depois da experiência, não o procurei mais buscando uma resposta direta da boca de Deus para cada decisão que teria que tomar. Por isso a todo aquele que se inclina para este lado digo: busque sempre a Deus e não experiências específicas, e tudo vai ficar bem. Quando Ele entender que qualquer coisa deve acontecer a você, acontecerá.

A Vertente Intelectual

Seguindo os místicos encontramos em nossas comunidades os intelectuais. Os habitantes dessa tribo são por essência questionadores, reflexivos e buscam entender todas as coisas. Se você chegar na casa de um deles verá livros por toda a parte. Eles estão sempre em busca de uma boa conversa, podem ficar horas distraídos em uma esquina se o papo girar em torno de alguma nova ideia teológica ou polêmica na internet. Os intelectuais apreciam uma boa pregação, anotam ideias, tem um vocabulário variado e sempre tem uma frase de impacto na ponta da língua.

O lado negro da força intelectual é que não raro eles fazem seu próprio clubinho e acreditam que estão acima de qualquer convenção social. Tem a tendência de se isolarem, e desprezarem quem não fala o que eles falam ou não se enquadra dentro do perfil “papo cabeça”. Em geral se afastam da igreja ou não se comprometem muito com a comunidade porque consideram a todos no fundo de sua alma como medíocres que não estão à altura de sua grandeza intelectual. Aqueles que permanecem em comunidade são como aquele grupo de uma igreja que conheço, e que diante do desafio de um jovem possesso, começaram a debater teologicamente o que deveriam fazer: vamos nos ajoelhar e orar, o outro dizia: não, não podemos nos ajoelhar diante do diabo e outro começou a chorar até o momento em que mandaram o indivíduo possesso embora por total falta de consenso teológico.

O conhecimento é importante para a vida. Fé sem reflexão é fanatismo em ação, já disse alguém, é importante que tenhamos pessoas que questionem dentro de nossas igrejas. Jesus mesmo era intelectualmente robusto e dedicou grande parte do seu ministério a ensinar e a responder questionamentos. Os apóstolos deixaram de atender as mesas para se dedicarem a palavra e a oração. Mesmo assim os intelectuais deveriam ser estimulados a entenderem que “o evangelho não é uma ideia, mas uma pessoa, não é uma mesa de discussão mas um relacionamento dinâmico com o Cristo ressuscitado”. Os intelectuais devem entender que há coisas que não podem ser explicadas, há sempre o mistério, devem ser encorajados a saírem do papel de críticos do sistema para proponentes e encarnação de uma nova realidade nas nossas comunidades de fé.

A Vertente Ativista

A terceira e última vertente é a dos ativistas. Ativistas querem ver as coisas acontecerem. Querem números, e buscam resultados. Essas pessoas são em geral pura adrenalina, agitadas e inquietas. Não conseguem parar para conversar se a conversa não tiver um objetivo claro e definido. Estão sempre olhando para o relógio para controlarem seus compromissos. Em geral tem mais atividades do que podem atender. Igrejas lideradas por pessoas assim são igrejas cheias de programas, onde ninguém consegue respirar.

O perigo com a vertente ativista é o da superficialidade. Uma vida cheia de compromissos pode ser apenas uma agitação nervosa de alguém fugindo de si mesmo. Pessoas assim costumam ser uma patrola que vai derrubando quem aparece pela frente. À medida que edificam algo significativo também destroem relacionamentos vitais como amigos e família.

Jesus também foi profundamente ativo. O seu dia era carregado de propósitos e objetivos muito bem definidos. Não podemos ignorar a passagem de Jesus que nos fala do julgamento final, na qual Ele diz que nossa fé será avaliada segundo o que fizemos ao que tinha fome, ao que estava preso e ao que estava nu. Mesmo assim em sua humanidade era também aberto ao imprevisto, ao diálogo no meio do caminho.   Aos ativistas deveria ser lembrado que “não adianta o homem ganhar o mundo inteiro e perder sua alma.”

A referência da vida de Jesus nos chama não para optarmos por um lado outro, mas para que nós sejamos como ele, pessoas integradas. Não há receitas aqui, mas um princípio: um projeto de espiritualidade que valha a pena é um projeto que vivencia o místico, o intelectual e a ação. Uma das primeiras pessoas que conheci assim foi o pastor Caio Fábio. Homem de uma inteligência fora do comum, também é um homem de busca de Deus, além de um empreendedor incansável. Depois dele nas páginas da história encontrei a John Wesley, mente arguta, homem de oração e produtivo como poucos. E nestes últimos tempos tenho encontrado a Brennan Manning. Inspirado neles, quero essa vida de imensa riqueza para mim. Deus nos livre das amputações.

O discípulo gaudério.

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