Fome de pai

Eu havia chegado com meu carro e deixado em frente da igreja. Enquanto abria a porta, o menino chegou perto de mim. Era menor do que os meninos da idade dele. Tinha uma energia visível e olhos arregalados. Os pés estavam descalços e vestia apenas um calção. A rua estava deserta e naquele momento só ele trafegava por ali como se fosse um animalzinho que procura um lugar onde estar. Ao avistar meu movimento ele veio correndo em minha direção.

– tudo bem tio?

– Tudo bem. Eu respondi sem me preocupar muito com a presença dele. Continuei colocando algumas coisas para dentro da igreja e voltando para o carro a fim de descarregar tudo. Quando já me preparava para voltar para casa ouvi aquela vozinha novamente:

– Tio!?

– Sim, querido. Respondi sem estar preparado para o que vinha.

– Tu não quer ser meu pai?

O desejo exposto da alma do menino, é o mesmo que eu vi vez após vez e que me impressionou nas aulas de aconselhamento. Todos nós tínhamos que passar por sessões de análise e algumas delas diante dos outros colegas. Era assustador, mas profundamente libertador. Dou graças pela herança que me deixaram aqueles exercícios de mergulho na alma. Para minha surpresa havia um fio que ligava as nossas dores e questões pessoais: nosso relacionamento com o pai. Todos nós dávamos volta tentando inconscientemente driblar nosso conselheiro, mas quando éramos questionados a respeito do nosso pai a casa caía. Não foram poucos, eu entre eles, que despencávamos chorando quando confrontados com a nossa até então desconhecida “fome de pai”.

Grande parte dos principais problemas que enfrentamos no dia a dia, tem a ver com essa fome. Não foi a toa que antes de encarar quarenta dias de jejum e enfrentar o diabo e suas tentações, Jesus precisou ouvir em alto e bom som do Pai: Tu és meu filho amado, em quem tenho prazer. As palavras ditas pelo Pai, são as que anelamos também receber de nossos pais. Queríamos no fundo de nossa alma que nosso pai olhasse um dia em nossos olhos e dissesse com segurança e sinceridade: Meu filho eu tenho orgulho de ti. Tenho prazer em olhar tudo que és e fazes.

A canção popular em muitos momentos captou essa necessidade visceral de nossa alma de identificação total com nosso pai como nos versos cantados por Cesar Passarinho:

“Quero gaita de oito baixos pra ver o ronco que sai

Botas feitio do Alegrete e esporas do Ibirocai

Lenço vermelho e guaiaca compradas lá no Uruguai

Pra que digam quando eu passe sai igualzito ao pai”

Quantos queriam querer ser “igualzito ao pai”.

Ou ainda a canção inspirada de Fábio Junior:

“Pai! Pode crer, eu tô bem

Eu vou indo

Tô tentando, vivendo e pedindo

Com loucura prá você renascer…”

O que eu vim a descobrir é que por detrás daquele guri fumando crack,   escondida naquelas pessoas que não se encaixam em lugar algum, que parecem ter ojeriza a qualquer figura de autoridade, sim, talvez a totalidade deles tem fome de pai. Aquele que busca a fama a todo custo, o que se atira no mercado de trabalho em busca de sucesso, a mulher que dança nos braços de um homem diferente a cada momento, todos eles tem em comum a fome de pai. Sem querer simplificar a questão eu iria mais longe e diria que  enraizada na alma desses tantos que hoje nos surpreendem se confessando homossexuais está esta a fome de pai.

O coração de um filho esquecido pode tentar se vingar do pai de maneiras sutis, e isso me parece tão óbvio quando assisto propagandas como a  da Tigre sobre o “recanto do guerreiro” que você vê abaixo e o famoso cartoon dos Simpsons. A mãe é sensível e honesta mas o pai é um pulha fraco, desonesto e egoísta.

É tempo de discernirmos nossa fome, é tempo de sermos pais e mães espirituais dessa geração órfã, é tempo de voltarmos para a casa do nosso Pai, sem as firulas da superespiritualidade e dizermos: Pai, que saudade!

O discipulo gaudério.

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