Ideias que fazem a cabeça da juventude: parte 1

“Podemos dizer que é pelo elemento intermediário que o homem é homem: porque pelo seu intelecto ele é mero espírito, e pelos seus apetites mero animal.”

C. S. Lewis

As ideias têm consequências. Ideias constroem ou destroem. Não são inocentes. Pensamentos entretidos em nossa mente forjam um estilo de vida. Uma das ideias mais difundidas entre a juventude é a seguinte: se você se sentir bem, faça. É uma simplificação daquilo que os filósofos chamam de hedonismo. É a vida governada por um único referencial de conduta: o que me dá prazer.

Devo dizer como ressalva, que o evangelho não é inimigo do prazer. Só não faz dele a referência máxima da vida. A referência máxima da vida no evangelho é o amor.

O problema com o hedonismo é que por detrás de nossos desejos percebidos, existem outros desejos mais profundos. Pense no caso do sexo. Por detrás de uma sede descontrolada de sexo está um desejo profundo de intimidade. Chesterton dizia que até aquele que batia em um prostíbulo pela noite estava na verdade em busca de Deus. Isso quer dizer que meus desejos são tão desencontrados dentro de mim, que jamais podem servir de referência única para minhas decisões e estilo de vida. A geração que aí está, tem sido criada nesta base filosófica. Assim é que quando eles têm vontade de queimar um índio, queimam. Quando são rejeitados por alguém que desejam, matam.

É preciso dizer que há uma diferença básica entre desejo e necessidade. As pessoas não conseguem ver a diferença, e isso explica muito a situação que nos encontramos. Consideremos uma pessoa que não bebe água há muitos dias. Assim que ela encontrar água ela desejará bebê-la sem restrições. Mas se ela fizer isso, morrerá. Segundo os médicos, ela precisará ir acostumando seu corpo a água pouco a pouco ate o ponto em que possa beber água aos goles. Desejo não é necessidade.

Além disso, podemos ter nossos sentidos tão distorcidos a ponto de nos acostumarmos a sentir prazer naquilo que é perverso. Lembro-me de um personagem de minha infância. Um bêbado profissional que se chamava Sabará. Ele bebia com regularidade invariável. Um dia o dono do bar resolveu fazer uma brincadeira com ele. Em lugar de lhe dar um martelo (era assim que se chamava uma dose de aguardente), de canha, ele deu a ele uma medida de água. Só que o Sabará estava com muita sede, mas não sentia mais sentia sede de água. Quando enfiou o copo inteiro na boca, e sentiu o gosto da água, cuspiu com veemência da sua boca, como se tivesse sorvido veneno. Todos riram. Mas vejam como isso acontece com frequência: quantos daqueles que estão lendo esta postagem, já não sentiram sede de Coca-cola?

Uma vida centrada no prazer tem consequências terríveis. É lamentável que as pessoas só consigam perceber a dor dos sintomas, mas não consigam identificar as causas. A primeira consequência é o nascimento de uma geração de viciados. Os estudiosos nos dizem que todos nós temos o potencial de nos viciarmos em alguma coisa, só que hoje além de nossa fraqueza interior nós temos o apoio de toda uma maneira de pensar. Assim é que mais do que nunca precisaremos em nossas comunidades estarmos preparados para tratarmos com viciados. Nunca antes tivemos tanta necessidade de estudarmos os 12 passos dos alcóolicos anônimos e aplica-los ao nosso atendimento as pessoas. Há viciados em comida, em internet, em sexo, em drogas, em jogos de azar, em adrenalina e tudo o mais que você puder imaginar como fonte de prazer para as pessoas. O que sustenta essa mazela social do vício? A filosofia hedonista da vida centrada no prazer.

A psicologia dos anos 70 sustentava que dizer não aos filhos causaria uma série de traumas. Uma geração que recebeu muitos “nãos” agora achava que a solução seria dizer sim para tudo. E eis que nos vemos cercados por pessoas que não sabem ouvir “não”, e, portanto não sabem dizer não a si mesmos. Nossa geração ainda está embriagada de democracia. Não consegue se curar do trauma da ditadura. Fomos do não para o sim, sem nenhuma parada no equilíbrio.

Uma vida centrada no prazer traz consigo uma série de abismos que chamam outros abismos, como a busca cada vez mais extravagante por satisfação. Sabemos que quanto mais rápido um desejo é satisfeito, menos satisfação ele produz. Quem provou uma dose de crack, não consegue sentir a mesma coisa com a dose anterior. Uma noite de sexo, jamais curará a luxúria. Será como dar água do mar, para uma pessoa sedenta. A compra de um novo bem de consumo traz um prazer capaz de durar apenas alguns dias. Tão logo passa o sentimento de novidade, sentimos desejo por algo novo e assim sucessivamente.

Em seguida a busca extravagante por satisfação, chega a destruição dos relacionamentos mais fundamentais. Como dizia C.S. Lewis: todo vício leva a crueldade. Conosco e com os outros. Não é preciso relatar o que acontece com a família do viciado. Vai erodindo junto com ele. Lembro-me de um pai de família  dominado pelo vício do jogo, que após gastar tudo que havia em casa, arrancava as aberturas da sua casa para continuar jogando.

Em seguida a pessoa centrada no prazer, não consegue desenvolver os dons e os potenciais de Deus depositados em sua vida. Não consegue por que precisaria de disciplina, e disciplina significa abrir mão, esforço e suor do rosto. E sua alma não foi preparada para isso.

E finalmente uma vida centrada no prazer é incapaz de reagir diante de um problema. Pode ver o que está diante de si. Pode ter entendimento, mas não terá a perseverança requerida para resolver um problema. Sua energia está direcionada única e exclusivamente ao prazer. Hoje dificilmente veremos revoluções em nossa sociedade. A fibra da alma não existe mais, não há poder de decisão, só impulsos cuja direção nunca é a mesma. São imprevisíveis.

O prazer como motor da existência tem sua raiz no desespero. Não há mais esperança para além do imediato. Nossos horizontes se tornaram simplesmente o agora. A desconfiança tomou conta. O chamado que o discípulo recebe neste tempo é o de sustentar a esperança, mostrando com sabedoria e amor aonde pode levar esse estilo de vazio ao mesmo tempo em que ajuda os feridos do sistema. Quem decidir dar rédeas soltas aos seus desejos acabará por devorar aquilo que está sua volta, sem, contudo encontrar satisfação.

Caminhos do evangelho

Renúncia é uma necessidade básica do ser humano. Dos exercícios espirituais, o jejum me parece uma prática fundamental a essa geração, pois ajuda o discípulo a praticar em doses mínimas a renúncia sem deteriorar para o ascetismo. Jesus não nos chama a sermos ascetas. Ele mesmo comeu, e bebeu bem e foi ungido com um caro perfume, sem dramas de consciência. No entanto reconheceu que haveria tempos em que o jejum deveria ser praticado.

Precisamos entender duas coisas a respeito do jejum. A primeira é que ele não é uma renúncia pela renúncia. Não é masoquismo. Antes é uma renúncia de algo comum pela busca de algo extraordinário. A segunda coisa é que não devemos entender o jejum legalistamente, como renuncia de comidas apenas. Poderíamos pensar no jejum de mídia. Em nossa igreja decidimos propor um jejum de mídia, a fim de beneficiar nossos relacionamentos familiares. Em lugar de ligarem qualquer mídia durante a noite (rádio, internet ou televisão) propomos a cada família uma lista com 10 perguntas que ajudavam a iniciar diálogos mais profundos. Muitas pessoas confessaram descobrir coisas de sua família que jamais pensaram. Já ouvi falar por aí de jejum de compras. Acho isso necessário, sempre e quando temos um objetivo claro.

A morte do egocentrismo nos levará a experimentarmos o mais alto nível de vida. Duas palavras foram muito abusadas e desgastadas ao longo do tempo: santidade e obediência. Fomos chamados para ambas por Cristo. Santidade é qualidade de vida. Não arrogância. Ou esnobismo religioso.  A outra palavra é obediência. Dallas Willard define muito bem essa palavra dizendo que ela equivale a “vida em abundância”.  “Pois nós, que estamos vivos, somos sempre entregues à morte por amor a Jesus, para que a sua vida também se manifeste em nosso corpo mortal.” Veja bem: fala da morte do eu hoje, mas também fala em ressurreição hoje. Deus nos ajude a vivermos com discernimento na contramão do sistema.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

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