Da importância de vassouras e enxadas

“Os vivos são pó levantado, os mortos são pó caído; os vivos são o pó que anda, os mortos são o pó que jaz”.

Padre Antônio Vieira

Acho a humildade um dever do ser humano. Humildade vem da raiz humos, que quer dizer terra. Humildade é uma virtude da alma condizente com a realidade. Glamour, photoshop, e televisão são cosméticos que tem seu papel até o ponto em que não nos deixem esquecer que são só isso: cosméticos.

O orgulho nos tira da realidade e por isso a Bíblia me diz que ele precede a queda.(1) Quem não enxerga a realidade acaba por tropeçar feio. Minha história é marcada pela arrogância. Especialmente a arrogância intelectual. Nunca fui um grande estudante, mas sempre gostei de ler e escrever. Quem me conhece sabe que até uma fila de banco é para mim um bom momento para ler um livro.

Remeto-me a meus tempos de criança (quando eu sabia tudo) e estudava no seminário. Lá eu estava em minha terra. Falando do que eu gostava e estudando o que pela primeira vez na vida me interessava. Rapidamente eu comecei a me destacar, receber elogios e ter resultados promissores em tudo que tivesse a ver com acadêmico. Então junto com o crescimento intelectual eu fui presa da síndrome de todo universitário novato: achar que descobriu o Brasil antes mesmo que os próprios índios. Logo se formaram os clubes de interesse, ou seja, a turminha VIP do seminário. Com ela uma atitude de superioridade foi criando distância das pessoas que não se incluíam dentro de minha categoria “VIP”. Perdi minha raiz, meus “humos”, meu sentimento de ser pó da terra, frágil embora capaz de grandes construções. Quando olho para trás e vejo a mim mesmo, penso: “que patético”! Como é preciso tão pouco pra gente ficar com o rei na barriga.

Hoje vejo a necessidade que tenho de uma vassoura e uma enxada para me trazerem de volta a realidade do pó. Não, não gosto nem um pouco de varrer, nem tampouco do trabalho dito braçal. Mas tenho abraçado cada um deles, porque eles me lembram de coisas fundamentais a minha vida: sou da terra como toda a família humana. “Aprenda que se você for fazer o trabalho de um profeta, não precisa de um cetro, mas de uma enxada” já aconselhava Bernard Clairvaux.

Como gostaria que as pessoas desse tempo fossem mais a funerais. Vejo as pessoas fugindo e dizendo: “não gosto dessas coisas”. Talvez porque force a pensar. Um funeral deixa tudo muito claro. Em cada um deles eu reafirmo duas coisas: “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã” e que um dia será a minha vez, o meu nome será o da chamada.

A lembrança de ser da terra também veio de outra maneira. Senti há uns cinco anos atrás que estava ficando sério demais. Pensei comigo: Não quero perder o coração no meio do caminho. Não quero pregar salvação, sendo um morto vivo. Então decidi desatar o riso dentro de mim. Humor também vem de terra: humos. Os arrogantes não conseguem rir, a não ser para debochar dos outros.

Jesus ensinou algo parecido. Ele veste o avental(2) e lava os pés poeirentos de seus discípulos expondo a eles um modelo de vida. É interessante que a igreja preservou a ceia, e o batismo, mas esqueceu-se do lava pés. Eis uma boa lembrança.

Jim Collins (autor de um livro fantástico de administração que você deveria ler), conta a história de seu primeiro ano como professor na escola de Stanford, quando ele procura o professor John Gardner para buscar conselho sobre como se tornar melhor professor. O comentário que ele recebeu mudou sua vida, e deve nos fazer pensar:

-Me parece Jim, que você gasta muito tempo tentando ser interessante. Porque você não investe mais tempo sendo interessado?

Observo tanta gente embriagada pelo glamour e fico pensando no tamanho da crise que será quando a ficha cair. Enquanto isso vou preservando minha sanidade, com uma enxada e uma vassoura.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1) Provérbios 16:18

(2) João 13

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