Movimentos Decadentes da Igreja

Igrejas também morrem. Quando lemos as advertências de Jesus para as sete igrejas do Apocalipse não podemos fazer outra coisa que não seja nos identificarmos com suas realidades espirituais. Aquelas igrejas não existem mais. Morreram de dentro para fora. Apesar do triunfalismo para quem a cegueira é conveniente, precisamos dizer que caminhamos em uma linha fina, e é fácil nos desviarmos para a direita e para a esquerda. Ignorar isso é caminhar para o abismo.

Vejamos o que Jesus disse a algumas delas:

“Tens fama de estar vivo, mas estás morto.”

“Estou a ponto de vomitar-te”

 “Abandonaste teu primeiro amor”

 “Eis que estou à porta e bato…”

A mais surpreendente para mim, é esta última. Utilizávamos este texto para evangelizar no começo dos anos 80, e se não me engano ainda é utilizado.  Parece que Jesus está pedindo passagem ao coração de alguém que não crê. Mas a realidade é bem mais assustadora. Ele está pedindo para entrar na igreja. Sim, conforme o Apocalipse, igrejas podem colocar Jesus porta afora. Repetindo o que  Israel fez quando sacrificava animais em seu templo enquanto o Cordeiro de Deus chegava em Jerusalém montado em um jumento.

Observando a igreja, a Palavra e a história é possível perceber movimentos decadentes das instituições que nascem como fruto do sopro de Deus, que acabam  tendo fama de vivas, mas mortas de fato.

O primeiro movimento decadente de uma igreja é quando ela se move da paixão por Jesus para a paixão pela instituição e ou Personagem. Creio que daí decorrem os outros movimentos decadentes dos quais escreveremos.

Ora, muitos se preocupam com a sobrevivência da igreja, mas segundo o próprio Jesus, não há porque se preocupar. Deveríamos nos preocupar em permanecer na sua essência que é Jesus. Quando ele diz: “Edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” ele quer dizer que todo o movimento que dEle viver, cuja essência for seu exemplo, cujos objetivos forem o Seu Reino, cujo estilo de vida for o Seu, nunca de nenhuma forma morrerá.

Se você observar o lugar onde Jesus estava quando proferiu essa palavra era Cesaréia de Filipe. Não foi coincidência não. Tinha uma razão de ser. A cidade ficava na base de um penhasco de onde havia água fluindo. Durante  certo momento do ano, na base do penhasco a água jorrava da boca de uma caverna. Os pagãos da época de Jesus acreditavam que os seus deuses se recolhiam ao mundo subterrâneo durante o inverno e retornavam a terra durante a primavera. Eles viam a água como símbolo do mundo subterrâneo e acreditavam que seus deuses viajavam através daquelas cavernas. Para a mente pagã a água e a caverna formaram uma porta para o mundo subterrâneo. Literalmente “Portas do Inferno”. A fim de atrair a volta de seu deus Pan cada ano os moradores de Cesaréia de Filipe envolviam-se em práticas repulsivas que incluíam prostituição e relações sexuais entre humanos e bodes. Um judeu devoto jamais pensaria em chegar naquele lugar. Mas Jesus chegou para demonstrar de forma contundente que o Reino com Ele avançaria, em qualquer lugar.

Mas o que acontece com frequência é que sutilmente, sem abandonar o Senhor, Senhor, as pessoas mudam seus afetos. Apaixonam-se pela instituição. Lembro-me de um indivíduo que vi com uma camiseta que dizia em letras garrafais “Sou …” e o nome da denominação que ele fazia parte. Na parte de baixo da camiseta em letras pequenas, quase ilegíveis: “Disse Jesus: Eu sou o caminho, a verdade e a vida.” Era só uma camiseta, mas dizia muito.

Faço parte de uma mesma denominação há 25 anos, mas não beijo a camisa. Sei que com o tempo, os delírios megalômanos podem tomar conta de qualquer instituição. Vejo a todo o momento pessoas participando de igrejas apenas porque elas representam uma grife. Elas têm orgulho de dizer onde estão. Essa atitude é o começo do fim. Nenhum afeto pode sequer competir com os afetos de uma comunidade pelo Senhor Jesus. Mas o que acabamos ouvindo é: “ninguém tem a visão que nós temos”, “vejam o trabalho incrível que nós fazemos”, “orgulho de ser…”. O pior de tudo é que quanto maior se torna uma instituição, maior é a tendência de que se torne uma máfia religiosa. As instituições mais organizadas que conheci estão afundadas na burocracia e na luta de facções internas, mas ninguém larga o osso. Vendo isso, olho com ceticismo essas construções e procuro sempre a simplicidade. Sei que posso ficar assim também.

Alguns se apaixonam por líderes carismáticos. Em geral são lugares em que todos procuram ser uma cópia do líder em tudo. Aparência, jeito de falar. O líder recebe adoração e não recusa. Os títulos se atropelam. Cada dia aparece um novo. Então basta um deslize do líder para que a vida espiritual de muitos venha abaixo. Ou então a opressão se torna tão massacrante que as pessoas não aguentam mais e ficam vacinadas contra tudo e contra todos. Mas que fé é essa? Em Jesus? Não, o final da história mostra o tanto que estavam alicerçados no personagem e não no Cristo.

O que há de mais precioso na igreja é a presença de Jesus. Não há nada na igreja, humanamente falando, que o mundo não faça melhor. Eles têm música de mais qualidade, recursos abundantes, prédios melhores. E nem deveríamos nos preocupar com isso. Quem sai atrás de mais talento, mais dinheiro e mais estrutura para medir forças com o mundo acaba perdendo sua essência.

Que Deus nos guarde de expulsarmos a Jesus de nossas igrejas.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

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