Na leveza de uma pandorga ao vento

Hoje adulto, descobri que tive uma infância incrível, cheia de experiências fundamentais para um montão de coisas boas que fazem parte de mim.

As estações de nossa vida de menino eram deliciosas. Havia tempo de tudo. Ah! Como era gostoso fazer carrinho de lomba,  jogar bolinha de gude,  pescar na sanga perto de casa,  jogar botão, e os jogos de mesa como o  banco imobiliário. Mas uma das estações que mais me causam nostalgia até hoje, é o tempo da pandorga.

Aprendi a fazer pandorga com meu irmão  mais velho. Ele fazia com excelência. Nunca atingi o nível de construção dele. Mas aprendi a fazer uma pandorga que pudesse voar. É difícil explicar qual a sensação, mas sempre que me lembro, os olhos marejam de uma emoção que não sei dizer o que é.

Lembro de dois detalhes importantes sobre pandorgas.  Primeiro ela só sobe se houver vento. Por mais que se corra, não se faz a pandorga voar. É totalmente inútil e cansativo tentar fazê-la subir sem vento. Mas depois que ela voa, é muito simples.

Segundo é que a direção da pandorga depende totalmente da direção do vento. É necessária uma interação da natureza e a gente.  Não posso escolher para que lado ela vai.

Soltar pandorga tem tudo a ver com a vida espiritual. A Bíblia diz que o Espírito Santo é como o vento: indomável e imprevisível. Se quiser andar com Deus preciso dessa humildade, disponibilidade e flexibilidade para ver minha vida levada e levantada pelo vento de Deus.

Igrejas morrem quando não são mais sensíveis as mudanças do vento. Quando transformam organismo em organização. Quando tentam dar manivela no Espírito Santo. Quando as reuniões de liderança decepam novas direções com a frase mortal para o crescimento: nos nunca fizemos isso antes. Quando se apegam a programas antigos, que não funcionam mais. Quando a linguagem não diz mais nada e as palavras antigas comunicam o oposto do que se quer dizer. Quando a liderança não cresce pessoalmente e o pastor é a imagem de um museu, e a pregação tem cara de comida requentada.

Quando há mais de quinze anos cheguei à igreja que hoje pastoreio tive de encarar o fato de que ela estava em processo de morte. Após esforços gigantescos na busca de uma nova realidade, eu disse para Deus: Senhor quero uma igreja viva. Não importa o que seja necessário. Muda essa realidade. Estou disposto a pagar o preço. Quatro meses após essa oração, as dores de parto começaram, e duraram uns longuíssimos 10 anos ate que pudéssemos ver algo novo nascendo de fato.

Hoje ainda continuo fazendo perguntas que me forcem a mudar para melhor. Será que estamos sendo relevantes? O que posso aprender daqueles que nos criticam?

Para alguns parece ser mais fácil perder a fé do que mudar um costume.  O professor  ateu de C. S. Lewis guardava após muitos anos o costume presbiteriano de vestir-se aos domingos pela manhã com uma roupa própria de ir à igreja.

Líderes que falam dia após dia, deveriam ser capazes de reinventar-se periodicamente para continuarem comunicando o imutável evangelho. “A minha teologia eu escrevo a lápis” dizia o professor Hans, em suas aulas. Tomo o conselho para mim. Deus é muito grande para que qualquer teologia pessoal possa compreender.

Uma vida de obediência e oração nos levará a reescrever muitas coisas que dissemos.  Pessoalmente a noção de um Deus cujos atos podem ser explicados detalhadamente já não faz parte de minha vida. Deus não cabe na lógica humana. Jesus é a encarnação do paradoxo.

Casamentos também entram em colapso quando engessam. Uma estagnação confortável vai assolando a relação dia a após dia. Ninguém muda e ambos se criticam.  É preciso se incomodar com o que está ruim. Um nível saudável de descontentamento conosco mesmo deve ser cultivado.

Agências para eclesiásticas procuram sobreviver do passado porque perderam a capacidade de entender e adaptar-se a mudanças. Não percebem que os esforços para continuar a ser relevante devem ser constantemente avaliados.

“Planeje surpreender-se”  ouvi em um filme.

Planejamento de um discípulo de Jesus que não está aberto a mudanças radicais é na verdade plane-jumento. Veja como Jesus é flexível no seu dia a dia. Ele conversa com quem não tinha marcado hora. Deixa-se surpreender pela fé de um centurião e de uma mulher estrangeira sem deixar de ser uma pessoa de propósitos. Assim que ao longo dos anos mantenha uma leveza diante  de Deus que te possibilite ser levado por seu Vento e veja por você mesmo como manter uma pandorga com vento dá menos trabalho e muito mais alegria.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

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