Da importância de vassouras e enxadas

“Os vivos são pó levantado, os mortos são pó caído; os vivos são o pó que anda, os mortos são o pó que jaz”.

Padre Antônio Vieira

Acho a humildade um dever do ser humano. Humildade vem da raiz humos, que quer dizer terra. Humildade é uma virtude da alma condizente com a realidade. Glamour, photoshop, e televisão são cosméticos que tem seu papel até o ponto em que não nos deixem esquecer que são só isso: cosméticos.

O orgulho nos tira da realidade e por isso a Bíblia me diz que ele precede a queda.(1) Quem não enxerga a realidade acaba por tropeçar feio. Minha história é marcada pela arrogância. Especialmente a arrogância intelectual. Nunca fui um grande estudante, mas sempre gostei de ler e escrever. Quem me conhece sabe que até uma fila de banco é para mim um bom momento para ler um livro.

Remeto-me a meus tempos de criança (quando eu sabia tudo) e estudava no seminário. Lá eu estava em minha terra. Falando do que eu gostava e estudando o que pela primeira vez na vida me interessava. Rapidamente eu comecei a me destacar, receber elogios e ter resultados promissores em tudo que tivesse a ver com acadêmico. Então junto com o crescimento intelectual eu fui presa da síndrome de todo universitário novato: achar que descobriu o Brasil antes mesmo que os próprios índios. Logo se formaram os clubes de interesse, ou seja, a turminha VIP do seminário. Com ela uma atitude de superioridade foi criando distância das pessoas que não se incluíam dentro de minha categoria “VIP”. Perdi minha raiz, meus “humos”, meu sentimento de ser pó da terra, frágil embora capaz de grandes construções. Quando olho para trás e vejo a mim mesmo, penso: “que patético”! Como é preciso tão pouco pra gente ficar com o rei na barriga.

Hoje vejo a necessidade que tenho de uma vassoura e uma enxada para me trazerem de volta a realidade do pó. Não, não gosto nem um pouco de varrer, nem tampouco do trabalho dito braçal. Mas tenho abraçado cada um deles, porque eles me lembram de coisas fundamentais a minha vida: sou da terra como toda a família humana. “Aprenda que se você for fazer o trabalho de um profeta, não precisa de um cetro, mas de uma enxada” já aconselhava Bernard Clairvaux.

Como gostaria que as pessoas desse tempo fossem mais a funerais. Vejo as pessoas fugindo e dizendo: “não gosto dessas coisas”. Talvez porque force a pensar. Um funeral deixa tudo muito claro. Em cada um deles eu reafirmo duas coisas: “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã” e que um dia será a minha vez, o meu nome será o da chamada.

A lembrança de ser da terra também veio de outra maneira. Senti há uns cinco anos atrás que estava ficando sério demais. Pensei comigo: Não quero perder o coração no meio do caminho. Não quero pregar salvação, sendo um morto vivo. Então decidi desatar o riso dentro de mim. Humor também vem de terra: humos. Os arrogantes não conseguem rir, a não ser para debochar dos outros.

Jesus ensinou algo parecido. Ele veste o avental(2) e lava os pés poeirentos de seus discípulos expondo a eles um modelo de vida. É interessante que a igreja preservou a ceia, e o batismo, mas esqueceu-se do lava pés. Eis uma boa lembrança.

Jim Collins (autor de um livro fantástico de administração que você deveria ler), conta a história de seu primeiro ano como professor na escola de Stanford, quando ele procura o professor John Gardner para buscar conselho sobre como se tornar melhor professor. O comentário que ele recebeu mudou sua vida, e deve nos fazer pensar:

-Me parece Jim, que você gasta muito tempo tentando ser interessante. Porque você não investe mais tempo sendo interessado?

Observo tanta gente embriagada pelo glamour e fico pensando no tamanho da crise que será quando a ficha cair. Enquanto isso vou preservando minha sanidade, com uma enxada e uma vassoura.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1) Provérbios 16:18

(2) João 13

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A Enquete de Mardoqueu parte final

1. Use sua influência para defender quem não pode se defender. Quantas vezes você se indignou quando falaram mal de você pelas costas e você não teve condições de se defender de uma grande injustiça. Seu sangue ferveu! Mas o pior que isso são as vezes que você ouve injustiças de outra pessoa e não diz nada, só pra não se incomodar. Pôncio Pilatos sabia que Jesus era justo, tinha o poder de livrá-lo, mas temeu por sua carreira política e lavou suas mãos. Deus não nos chamou para lavarmos nossas mãos, mas tomarmos posição.Mas não só quando o que está em jogo são nossos interesses. Vejo na Bíblia uma figura que me chama a atenção: o desconhecido servo etíope Ebede-Meleque. Ele arrisca seu conforto para ajudar o profeta a manter-se vivo. Dietrich Bonhoeffer foi uma voz solitária na Alemanha seduzida pelo nazismo. Com uma coragem pessoal impressionante abandonou sua posição privilegiada de professor  nos EUA e voltou para ajudar a seus compatriotas a saírem do seu estado de letargia espiritual e aos judeus vilipendiados por um sistema perverso. Mas você tem pequenas situações cuja ajuda e posição poderiam fazer toda diferença. Faça, agora.

2. Use sua influência para promover quem tem capacidade.

O mundo é uma grande fofoca. Reputações são facilmente destruídas. Quase ninguém procura checar as informações. Mas você pode se transformar em um bom fofoqueiro. Pode começar a promover quem você vê que faz um bom trabalho. Não fique só para você. Divulgue. Abra portas. Procure pessoas que podem ajudar quem faz as coisas bem feitas. Estou constantemente ministrando em diferentes lugares. Lugares que muitas vezes não me conheciam de antemão, só porque alguém foi lá e falou do meu trabalho. Agradeço a eles e estou comprometido a fazer o mesmo. Comprometa-se você também. Não deixe um grande trabalho passar despercebido. Bote a boca o trombone.

3. Use sua influência para desarmar bombas atômicas.

Sabe quando o marido chega em casa querendo fazer guisadinho de uma outra pessoa? Ou a esposa reclamando enfurecida de uma situação? Quantas vezes somos gasolina nas chamas da ira? Incendiários desavisados, fomentando destruição. Ouça, deixe que as pessoas desabafem, mas traga uma palavra de sobriedade. Sempre me arrependi daquilo que fiz de cabeça quente, e agradeço a Deus por minha esposa, desarmar meu coração em momentos de descontrole.

Ano passado quando estava na fila de entrada de um jogo de futebol aqui em Pelotas, percebi como começam as tragédias entre as torcidas. Os torcedores adversários passavam na frente da nossa fila e eram atacados com palavras, alguns se irritavam e começavam a atiçarem-se mutuamente, falando do outro que nem conheciam como se algo de maligno houvesse nele, só porque ele vestia uma camiseta diferente da nossa. Onde eu estava comecei a falar forte, dizendo que aquilo era uma bobagem, que estávamos ali para nos divertir e tal e coisa. Felizmente nada demais aconteceu. Mas acontecem, porque quem tem a cabeça no lugar acaba se omitindo covardemente.

4. Use sua influência para propor novos caminhos.

O grande problema em todos os ambientes é que as pessoas se preocupam mais com quem vai levar a glória das novas ideias do que com quem vai se beneficiar delas. Preocupa-me também os evangélicos que tem bom discernimento, mas não se envolvem. Acham que o único lugar em que devem atuar é na igreja. Muitas de nossas associações de bairro carecem de gente boa de Deus que proponha caminhos novos para a comunidade. Envolva-se com seu bairro, e com os problemas que ele enfrenta. A pior coisa do mundo é um crítico sem propostas.

5.  Use sua influência para desmascarar mentiras vestidas de verdade.

Precisamos com inteligência tomarmos posição por aquilo que entendemos ser a verdade. Recordo que quando estava no curso de inglês, debatíamos muitos assuntos polêmicos na sala de aula. Em uma dessas ocasiões defendi o direito do feto a vida. Fui criticado e fiquei sozinho na defesa de minhas ideias, mas cumpri com meu dever de consciência.

Já na época de eleições recebi muitos e-mails de todo o tipo, defendendo um ou outro candidato. Toda vez que percebi que as palavras não correspondiam aos fatos, como denúncias que eram obviamente boatos mal intencionados, respondi com contundência. Não é mais tempo de ouvirmos asneiras e ficarmos calados. Aliás, nunca foi o tempo.

Na esperança de que você seja despertado de um sono confortável deixo uma frase que sempre me perturba:

“Os melhores sentem falta de toda convicção; enquanto os piores estão cheios de intensidade apaixonada.” W. B. Yeats.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

A Enquete de Mardoqueu – parte 1

Imagine a seguinte situação:Se você fosse Ester e  sua nação estivesse sob ameaça de extermínio. E você estivesse em uma posição privilegiada, através da qual você pudesse salvar toda nação, mas para isso você teria que arriscar seu conforto. O que você faria?

1. Opção espiritual: pediria a Deus que tocasse no coração do rei, para que evitasse uma tragédia.

2. Opção mais espiritual: amarraria o demônio de extermínio e declararia salvação para meu povo.

3. Opção superespiritual: agradeceria a Deus porque no meio de tantas pessoas Ele livrou só a minha pele.

4. Opção songa monga: fingiria que não havia recebido o recado do meu tio Mardoqueu.

5. Opção tudo ou nada: agarraria o touro pelas guampas e entraria no palácio porta adentro, para pedir pela salvação do meu povo.

Ok. Você pode pensar: eu não tenho nada a ver com o que aconteceu há quase 2500 anos atrás. Mas isso não é verdade. O lugar onde você está hoje tem certamente um objetivo claro de Deus.

Nos anos 60 uma geração foi as ruas e engajou-se na política a fim de ver mudadas realidades sociais. Hoje a mensagem que todo jovem ou adulto recebe desde que é pequeno é a seguinte: não tente mudar sua realidade, apenas adapte-se. A mensagem de Jesus é o oposto: vocês são sal e luz. Embrenhem-se no meio das pessoas e façam a diferença.

Todos nós, embora em diferentes escalas, que dependem de nosso caráter e preparo, temos um nível de influência sobre as pessoas que nos rodeiam na família, na vizinhança e no trabalho. É preciso consciência que estamos constantemente exercendo essa influência em coisas menores. Veja por exemplo que até mesmo uma criança tem influência sobre os seus pais que são adultos. Sabe aquela coisa de “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”, acontece a todo momento. A criança vai lá pede uma vez, duas, três veze e você decide dar a ela o que ela pede com aquele jeito só dela.

Quando somos confrontados com o livro de Ester, somos tocados pelas palavras contundentes de Mardoqueu a Ester:

“Quem sabe se não foi para um momento como este que você chegou à posição de rainha?”(1)

Você tem influência! Portanto, use a sua influência para o bem daqueles que estão na sua volta. Não seja daqueles que esperam grandes eventos na vida pra fazer a diferença. Tudo começa nas pequenas coisas do dia a dia. Imperceptíveis mas que mudam o rumo das coisas.

Você já ouviu aquela história do efeito borboleta: segundo Edward Lorenz pequenas mudanças na natureza podem deflagrar uma reação em cadeia que gerariam grandes mudanças. Conforme explanado por ele mesmo: o bater de asas de uma borboleta no Brasil, poderia causar um tornado no Texas.

Continua daqui a pouco…

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

Casos e causos

Uma das coisas que nos une como raça humana é o gosto por histórias. Desde os antigos contadores de histórias que se reuniam em torno de uma fogueira, até os dias de hoje com livros a mancheia, filmes novos saindo a cada mês, o acompanhamento de folhetins televisivos tem por detrás a paixão por histórias. “Deus criou o homem porque gosta de histórias” escreveu Elie Wiesel.

Nossas amizades mais prazerosas se constroem a partir de histórias em comum. Quantas vezes ansiamos reencontrar alguém que está longe, para podermos contar nossas novas histórias e recontar as velhas que são lembradas vez após vez, sem que jamais cansemos delas. Atreveria-me a dizer que amigos são aqueles que tem histórias para contar juntos.

Aqui no sul o pessoal costuma chamar uma história que não é fato de causo. Por isso nosso tema a partir daqui será casos e causos. Porque vamos contar aqui verdades da vida real e da imaginação. Toda semana vamos postar uma história da qual  você poderá se beneficiar e até mesmo se divertir. Eu aconselharia a qualquer pregador, que jamais falasse de qualquer verdade sem que pudesse encarna-la com uma boa história. O verbo virou gente (1) e a palavra que falamos tem vida quando ganha substância através da história. O que são esses ossos secos? Esses ossos secos são tuas palavras sem histórias.

Erasmo de Roterdam percebeu essa realidade com argúcia no seu livro “Elogio da Loucura” quando diz: “… quando o pregador aborda o assunto com seriedade e apoiado em argumentos, o auditório dorme, boceja, tosse, assoa o nariz, relaxa o corpo, inteiramente enjoado. Se, porém, o orador, como quase sempre é o caso, conta uma velha fábula, ou um milagre da lenda, então o auditório logo se agita, os dorminhocos despertam, todos os ouvintes, levantam a cabeça, arregalam os olhos, prestam atenção.” Embora a visão de Erasmo seja negativa, podemos nos aproveitar de suas observações.

Vejamos como a  Bíblia é um livro de histórias por excelência. Cheias de significados, essas histórias são utilizadas por diferentes pregadores e revelam diferentes camadas de significados que nos surpreendem. Observe que Natã confronta a Davi com uma história, e se contarmos os livros essencialmente de histórias podemos dizer que mais da metade da Bíblia é constituída de histórias, sem falar em Jesus e as suas parábolas.

Estou lendo um livro maravilhoso sobre a importância de contar histórias (2), cujos pontos principais traduzo aqui:

“Onde a teologia se torna extremamente abstrata, conceitual e sistemática, ela acaba separando pensamento e a vida, fé e prática, palavras e corpo; tornando mais difícil, se não impossível, crermos com o nosso coração o que nós confessamos com a nossa boca.”

“Como a história é a única maneira através da qual a realidade interpessoal da humanidade pode se expressar plenamente cognitiva e afetivamente e como nosso relacionamento com Deus é fundamentalmente interpessoal, segue-se que ouvir e contar historias providenciam os meios mais apropriados de capacitar-nos a viver nesse relacionamento.”

“A teologia sistemática envolve o intelecto; contar histórias envolve coração e a pessoa como um todo. A teologia sistemática é a reflexão posterior sobre a história de Cristo; a história é a primeira expressão de Cristo.”

“Proposições são frases em uma página; histórias são eventos na vida. Doutrina é o material dos textos; história é o sumo da vida.”

Sobre as características das histórias ele escreve também:

Histórias provocam curiosidade e nos estimulam repeti-las.

Histórias nos unem aquilo que temos em comum na existência.

Histórias são uma ponte para nossa cultura e raízes.

Histórias nos ligam com toda a família humana na terra.

Histórias nos ajudam a lembrar.

Histórias restauram o verdadeiro poder da palavra.

Histórias providenciam um escape para nossos problemas.

Histórias evocam em nós imaginação e ternura.

Histórias promovem cura.

Histórias providenciam um fundamento para esperança e a ética.

Nesse ponto eu já estou achando que é melhor acabar essa conversa e mandar logo a primeira história de casos e causos: a história de Marta e Fred.

Fred e Marta voltavam para casa após um culto na igreja.

– Fred – disse Marta -, você notou que o sermão do pastor foi um pouco fraco hoje?

– Não, realmente não – respondeu Fred.

– Bem, então você notou que o coral estava desafinado?

– Não, não notei – ele respondeu.

– Com certeza você percebeu o jovem casal com os filhos bem na nossa frente fazendo todo aquele barulho e tumulto durante o culto inteiro!

– Desculpe, querida, mas não notei.

Por fim, com desgosto, Marta disse:

– Honestamente, Fred, não sei por que você se dá ao trabalho de ir à igreja!

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1)    João 1

(2)    Storytelling Imagination and Faith de William J. Bausch

12 lições que aprendi depois de ser pai

1.  Que é mais fácil criar os filhos dos outros. Como é fácil disciplinar os filhos alheios, mas como é preciso uma generosa dose de determinação, energia e sacrifício para disciplinar os nossos. É fácil ser duro, e impor limites quando você não está envolvido até as entranhas com aquela pessoinha diante de você.

2.  Que você tem que ter cuidado quando diz: Quero um filho que tenha personalidade forte! Porque pode acontecer, e aí, você vai ver o que é bom pra tosse.

3.  Que não existe receita infalível para educar. Cada ser humano é um universo a ser explorado. Se você quiser algo infalível, tente cuidar de cães e  contrate o Cesar Millan do Animal Planet. Você deve ter princípios e dar limites, mas nem tudo vai sair do jeito que você imaginava. Enquanto seus filhos estão aprendendo a ser gente, você também está aprendendo a ser pai.

Outro dia estava conversando com meu amigo e pastor da PIB de Gravataí, Pastor Marcelo Mallet, e eu falava que reconhecia alguns erros na educação que dei aos meus filhos, e disse a ele: Agora só conto com a misericórdia de Deus.

E ele logo respondeu: A gente sempre conta só com a misericórdia de Deus.

Pois é. Depois de termos feito nosso melhor, nos entregamos nas mãos de Deus.

4.  Que você começa a entender os seus pais como nunca, quando tem seus próprios filhos. Especialmente aquela parte do banho demorado e que a gente ouvia: “tu tá pensando que eu sou sócio da CEEE.”

5.  Que as coisas que mais irritam em nossos filhos são justamente aquelas em que eles são iguaizinhos a nós.

6.  Que tudo que dói neles, sempre doerá em você ao quadrado.

7.  Que você acaba tentando se realizar através do seu filho, o que é um erro.

8.  Que a despeito de todos os manuais, cursos, e livros que você tenha lido, você vai chegar a conclusão que errou com eles.

9.  Que algumas virtudes que você tentou inculcar  não se desenvolveram e outras que você não fez nenhuma questão de semear, brotaram espontaneamente no coração deles.

10.  Que você fica estressado quando todos eles enlouquecem ao mesmo tempo, mas que quando eles não estão dá uma saudade que não se aguenta.

11.  Que você começa a entender o dilema de Deus e o mundo livre. Que alegria poder abraçar aquele filho e dizer “eu te amo”, mas que dolorido deixa-lo ser livre e quebrar a cabeça sozinho.

12.  E que depois de tudo isso dito, ainda poderia escrever que: a aventura está apenas começando.

Um  abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

Ideias que fazem a cabeça da juventude: parte 1

“Podemos dizer que é pelo elemento intermediário que o homem é homem: porque pelo seu intelecto ele é mero espírito, e pelos seus apetites mero animal.”

C. S. Lewis

As ideias têm consequências. Ideias constroem ou destroem. Não são inocentes. Pensamentos entretidos em nossa mente forjam um estilo de vida. Uma das ideias mais difundidas entre a juventude é a seguinte: se você se sentir bem, faça. É uma simplificação daquilo que os filósofos chamam de hedonismo. É a vida governada por um único referencial de conduta: o que me dá prazer.

Devo dizer como ressalva, que o evangelho não é inimigo do prazer. Só não faz dele a referência máxima da vida. A referência máxima da vida no evangelho é o amor.

O problema com o hedonismo é que por detrás de nossos desejos percebidos, existem outros desejos mais profundos. Pense no caso do sexo. Por detrás de uma sede descontrolada de sexo está um desejo profundo de intimidade. Chesterton dizia que até aquele que batia em um prostíbulo pela noite estava na verdade em busca de Deus. Isso quer dizer que meus desejos são tão desencontrados dentro de mim, que jamais podem servir de referência única para minhas decisões e estilo de vida. A geração que aí está, tem sido criada nesta base filosófica. Assim é que quando eles têm vontade de queimar um índio, queimam. Quando são rejeitados por alguém que desejam, matam.

É preciso dizer que há uma diferença básica entre desejo e necessidade. As pessoas não conseguem ver a diferença, e isso explica muito a situação que nos encontramos. Consideremos uma pessoa que não bebe água há muitos dias. Assim que ela encontrar água ela desejará bebê-la sem restrições. Mas se ela fizer isso, morrerá. Segundo os médicos, ela precisará ir acostumando seu corpo a água pouco a pouco ate o ponto em que possa beber água aos goles. Desejo não é necessidade.

Além disso, podemos ter nossos sentidos tão distorcidos a ponto de nos acostumarmos a sentir prazer naquilo que é perverso. Lembro-me de um personagem de minha infância. Um bêbado profissional que se chamava Sabará. Ele bebia com regularidade invariável. Um dia o dono do bar resolveu fazer uma brincadeira com ele. Em lugar de lhe dar um martelo (era assim que se chamava uma dose de aguardente), de canha, ele deu a ele uma medida de água. Só que o Sabará estava com muita sede, mas não sentia mais sentia sede de água. Quando enfiou o copo inteiro na boca, e sentiu o gosto da água, cuspiu com veemência da sua boca, como se tivesse sorvido veneno. Todos riram. Mas vejam como isso acontece com frequência: quantos daqueles que estão lendo esta postagem, já não sentiram sede de Coca-cola?

Uma vida centrada no prazer tem consequências terríveis. É lamentável que as pessoas só consigam perceber a dor dos sintomas, mas não consigam identificar as causas. A primeira consequência é o nascimento de uma geração de viciados. Os estudiosos nos dizem que todos nós temos o potencial de nos viciarmos em alguma coisa, só que hoje além de nossa fraqueza interior nós temos o apoio de toda uma maneira de pensar. Assim é que mais do que nunca precisaremos em nossas comunidades estarmos preparados para tratarmos com viciados. Nunca antes tivemos tanta necessidade de estudarmos os 12 passos dos alcóolicos anônimos e aplica-los ao nosso atendimento as pessoas. Há viciados em comida, em internet, em sexo, em drogas, em jogos de azar, em adrenalina e tudo o mais que você puder imaginar como fonte de prazer para as pessoas. O que sustenta essa mazela social do vício? A filosofia hedonista da vida centrada no prazer.

A psicologia dos anos 70 sustentava que dizer não aos filhos causaria uma série de traumas. Uma geração que recebeu muitos “nãos” agora achava que a solução seria dizer sim para tudo. E eis que nos vemos cercados por pessoas que não sabem ouvir “não”, e, portanto não sabem dizer não a si mesmos. Nossa geração ainda está embriagada de democracia. Não consegue se curar do trauma da ditadura. Fomos do não para o sim, sem nenhuma parada no equilíbrio.

Uma vida centrada no prazer traz consigo uma série de abismos que chamam outros abismos, como a busca cada vez mais extravagante por satisfação. Sabemos que quanto mais rápido um desejo é satisfeito, menos satisfação ele produz. Quem provou uma dose de crack, não consegue sentir a mesma coisa com a dose anterior. Uma noite de sexo, jamais curará a luxúria. Será como dar água do mar, para uma pessoa sedenta. A compra de um novo bem de consumo traz um prazer capaz de durar apenas alguns dias. Tão logo passa o sentimento de novidade, sentimos desejo por algo novo e assim sucessivamente.

Em seguida a busca extravagante por satisfação, chega a destruição dos relacionamentos mais fundamentais. Como dizia C.S. Lewis: todo vício leva a crueldade. Conosco e com os outros. Não é preciso relatar o que acontece com a família do viciado. Vai erodindo junto com ele. Lembro-me de um pai de família  dominado pelo vício do jogo, que após gastar tudo que havia em casa, arrancava as aberturas da sua casa para continuar jogando.

Em seguida a pessoa centrada no prazer, não consegue desenvolver os dons e os potenciais de Deus depositados em sua vida. Não consegue por que precisaria de disciplina, e disciplina significa abrir mão, esforço e suor do rosto. E sua alma não foi preparada para isso.

E finalmente uma vida centrada no prazer é incapaz de reagir diante de um problema. Pode ver o que está diante de si. Pode ter entendimento, mas não terá a perseverança requerida para resolver um problema. Sua energia está direcionada única e exclusivamente ao prazer. Hoje dificilmente veremos revoluções em nossa sociedade. A fibra da alma não existe mais, não há poder de decisão, só impulsos cuja direção nunca é a mesma. São imprevisíveis.

O prazer como motor da existência tem sua raiz no desespero. Não há mais esperança para além do imediato. Nossos horizontes se tornaram simplesmente o agora. A desconfiança tomou conta. O chamado que o discípulo recebe neste tempo é o de sustentar a esperança, mostrando com sabedoria e amor aonde pode levar esse estilo de vazio ao mesmo tempo em que ajuda os feridos do sistema. Quem decidir dar rédeas soltas aos seus desejos acabará por devorar aquilo que está sua volta, sem, contudo encontrar satisfação.

Caminhos do evangelho

Renúncia é uma necessidade básica do ser humano. Dos exercícios espirituais, o jejum me parece uma prática fundamental a essa geração, pois ajuda o discípulo a praticar em doses mínimas a renúncia sem deteriorar para o ascetismo. Jesus não nos chama a sermos ascetas. Ele mesmo comeu, e bebeu bem e foi ungido com um caro perfume, sem dramas de consciência. No entanto reconheceu que haveria tempos em que o jejum deveria ser praticado.

Precisamos entender duas coisas a respeito do jejum. A primeira é que ele não é uma renúncia pela renúncia. Não é masoquismo. Antes é uma renúncia de algo comum pela busca de algo extraordinário. A segunda coisa é que não devemos entender o jejum legalistamente, como renuncia de comidas apenas. Poderíamos pensar no jejum de mídia. Em nossa igreja decidimos propor um jejum de mídia, a fim de beneficiar nossos relacionamentos familiares. Em lugar de ligarem qualquer mídia durante a noite (rádio, internet ou televisão) propomos a cada família uma lista com 10 perguntas que ajudavam a iniciar diálogos mais profundos. Muitas pessoas confessaram descobrir coisas de sua família que jamais pensaram. Já ouvi falar por aí de jejum de compras. Acho isso necessário, sempre e quando temos um objetivo claro.

A morte do egocentrismo nos levará a experimentarmos o mais alto nível de vida. Duas palavras foram muito abusadas e desgastadas ao longo do tempo: santidade e obediência. Fomos chamados para ambas por Cristo. Santidade é qualidade de vida. Não arrogância. Ou esnobismo religioso.  A outra palavra é obediência. Dallas Willard define muito bem essa palavra dizendo que ela equivale a “vida em abundância”.  “Pois nós, que estamos vivos, somos sempre entregues à morte por amor a Jesus, para que a sua vida também se manifeste em nosso corpo mortal.” Veja bem: fala da morte do eu hoje, mas também fala em ressurreição hoje. Deus nos ajude a vivermos com discernimento na contramão do sistema.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.