Da terra do nunca para a terra prometida

Vemos hoje surgir um tipo diferente de homem. Como jamais tenhamos visto antes. O metrossexual, o homem sensível, o menino dócil e adaptado ao sistema como nenhum outro. Claro que isso é tendência, e não generalização. Robert Bly, chama de “macho frouxo”, o que em minha opinião é a melhor definição.

A situação começa a mudar pra os rumos da masculinidade quando vemos surgir na década passada dos sessenta a revolução sexual, onde o amor livre levou toda a cultura ocidental a uma desagregação familiar. Grande parte das famílias hoje é liderada por mulheres, as que não são, o são de fato, pois os homens desgastados por uma rotina intensa e uma competição selvagem não encontram tempo para serem pais, e legarem aos seus filhos homens a necessária “energia masculina”. Os divórcios em geral configuram pais saindo de casa e mães assumindo os filhos. Dificilmente você verá os homens dessa geração lutando pela guarda dos filhos.

Em função dessa situação vemos a formação dos homens hoje carecendo da presença de outro homem, o que é fatal para o chamado e a vocação masculina.

Antes que qualquer pessoa me acuse de homem de Neandertal, apresso-me a dizer que acho o machismo, uma caricatura da masculinidade, da mesma forma que o feminismo acaba sendo para as mulheres. Um homem “machão” nega uma realidade que Deus colocou dentro de todo o ser humano: os sentimentos e a sensibilidade. Quando o homem nega essa realidade ele imerge em um processo de autodestruição. Como discípulos de Jesus, vemos a Jesus como a referência máxima de masculinidade, e nele não habita nem o machão nem o “macho frouxo”. No entanto é preciso dizer que os homens estão fugindo do seu chamado divino.

Outro dia conversava com uma adolescente sobre Olimpíadas escolares, e perguntava entusiasmado sobre como estavam os jogos, pois na época em que estava no ensino médio, esse era um tempo de frisson para nós, e ela fez uma declaração que me surpreendeu:

– Os meninos não querem mais saber dos jogos na escola, porque não querem ficar fedorentos, suarem ou correrem o risco de se machucarem.

Esse é o homem formado a partir da ausência paterna. Um homem sem coragem pessoal para os desafios mínimos da existência. São homens que estranham qualquer coisa que não seja prazerosa, confortável e animadora.  São homens criados a sombra de suas mães, sem contarem com o equilíbrio da presença paterna. As mães formam a afetividade e os pais legam a firmeza e a coragem.

A propósito de exemplificar o que digo  dou o exemplo do menino que se machuca durante um jogo de futebol com os amigos. Quando chega em casa a mãe limpa o ferimento, acaricia o filho e fala: pobrezinho, não vai mais jogar futebol com teus amigos. Quando topa com o pai o filho ouve: limpa isso, e volta para o jogo. As duas realidades são importantes para formação, mas nossos homens tem tido somente a primeira e por isso hoje estão tão frágeis e suscetíveis.

Em um retiro de jovens que participei na última semana em Florianópolis, conversava com os homens sobre esse tema, quando um dos participantes já com os seus 34 anos, compartilhou sua experiência no quartel. Ele dizia:

– Tenho percebido a mudança na atitude dos homens nos últimos anos. Até certo tempo, quando os soldados eram confrontados e chamados atenção e o superior gritava como é tradicional no exército: Pede pela mãe! O soldado mordia o lábio e aguentava firme. De uns tempos para cá, a atitude mudou radicalmente, agora o jovem homem formado na barra da saia da mãe grita chorando na primeira confrontação: – Eu quero a mãe. Algo impensável no passado.

Além disso, temos o fenômeno da metrossexualidade como falamos no início: as mulheres ensinadas por suas mães  sobre a  truculência masculina, exigem deles cada vez mais uma aparência semelhante a delas: unhas pintadas, corpo sem pelos e sobrancelhas bem feitas. Os homens embarcam sem nenhuma dificuldade, pois eles mesmos guardam dentro de si um sentimento de desprezo sobre a figura masculina. É comum vermos homens mais refinados intelectualmente proclamarem a superioridade feminina. Via de regra eles submetem-se a suas companheiras e buscam inconscientemente mulheres semelhantes a suas mães.

Esse ressentimento pode ser constatado facilmente nas novelas, filmes e produções que formaram nossa cultura pós-moderna. O homem é descrito como um tipo egoísta, fraco e mau caráter. Para mim a propaganda da Tigre, na qual o homem vai dizendo o que fazer ao construtor e a mulher atrás decidindo o que realmente será feito, descreve bem a imagem masculina cultivada por homens e mulheres desse tempo. Homer Simpson também é um personagem paradigmático. Ali não vemos apenas diversão e humor, mas também uma ideia de homem. Leia alguns trechos da “sabedoria de Homer”:

Oh meu Deus, alienígenas espaciais! Não me comam! Eu tenho uma mulher e filhos! Comam eles!

Ora seu grande…! E precisa de algum motivo para que eu estrangule você! Eu vou te dar um jeito…!

Eu tenho três filhos e nenhum dinheiro, por que não posso ter nenhum filho e três dinheiros?

Bart! Com 10 mil dólares, seremos milionários! A gente poderia comprar várias coisas úteis, como o amor!

Crianças, vocês tentaram e falharam miseravelmente. A lição que aprenderam é: nunca tentem.

A culpa é minha, e eu coloco em quem eu quiser.

Calebe e Josué contra os 10 espias enviados a Canaã, são o exemplo bíblico do confronto dessas duas mentalidades: Terra do nunca x Terra prometida.(1) Israel ainda pensando como escravo luta para assumir sua masculinidade castrada pelo Egito, e Calebe assumindo seu chamado: “Subamos e tomemos posse da terra. É certo que venceremos!”

Minha palavra às mulheres, ao enfraquecerem a figura masculina diante dos filhos homens, vocês os enfraquecem e seu potencial para fazerem a diferença na sociedade.

Minha palavra aos homens: é tempo de sairmos à busca de nossa identidade perdida. De olharmos para as Escrituras e para Jesus e começarmos a unir os pedaços de nosso chamado para sermos homens.

Minha palavra aos líderes, é tempo  de resgatarmos a Jesus como homem forte, que tendo se entregado a morte por nós, não deixou de ser firme, duro e direto quando foi necessário.

Minha palavra aos jovens homens em formação: saiam da barra da saia da mãe e se unam a outros homens que temem a Deus e olham para Jesus.

Peter Pan, teu tempo acabou!

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

 

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Procuram-se ouvidos

– Preciso falar contigo Fabiano.  Estou passando uma série de problemas. Posso falar contigo terça-feira a  tarde.

– Claro, respondi prontamente.

Clara chegou duas horas da tarde, logo após deixar os filhos da escola. Conversou, conversou, conversou.  Naquela época, minha inexperiência não me permitiu estabelecer um tempo para conversa e então para surpresa minha, nosso bate papo se estendeu durante três horas. Durante todo esse tempo, eu apenas fazia perguntas de checagem de dados, e procurava entender o que ela estava tentando me dizer. Abruptamente, antes que eu pudesse dar qualquer conselho ou aprofundar o assunto, ela saltou  da cadeira:

– Tá na hora de pegar meu filho na escola. Muito obrigado pelo aconselhamento disse ela.

Eu já estava sentindo um pouco de cansaço, e me preparava para falar algo, quando ela saiu estabanada porta afora. Me senti frustrado porque não consegui exercer minha função de conselheiro, e aquela situação toda me surpreendeu. Mas qual não foi minha estupefação quando a líder de mulheres veio conversar comigo dizendo:

– Olha, a Clara nunca tinha pedido conselhos pra ninguém. Pela primeira vez ela se abriu com alguém. Ela está maravilhada com os conselhos que tu destes a ela. Disse que foi uma experiência libertadora.

Eu só pude dizer com sinceridade:

– Mas eu não falei absolutamente, nada pra ela. Eu só ouvi…

Essa experiência foi marcante na minha vida no entendimento de uma necessidade desesperada dos pós modernos : a de serem ouvidos. Simplesmente, em qualquer lugar que chego, percebo que se você der um instante de sua atenção, se tornará um confessionário ambulante.

Ouvi a história de um monge que  após partir do monastério para o trabalho social entre populações pobres declarou:  “o tempo de falar acabou”.  Não serei tão radical, mas ouso dizer: é tempo de falar menos, e ouvir mais.

Os cristãos tem fama de falarem demais, de darem conselhos sem entenderem bem os problemas. De simplificarem tudo com chavões famosos, que frustram a qualquer um que necessite uma conversa mais profunda. São pérolas como: Deus vai te dar vitória, Não esquenta, Não fique assim, Estamos em Cristo, não em crise. E com essa palavras vamos sendo descartados.

Cristo é a resposta declaramos, mas não queremos ouvir as perguntas. Eu arriscaria dizer que nestes tempos em que vivemos se quisermos alcançar as pessoas com o evangelho, precisaremos de mais ouvidos ungidos e menos línguas falantes. Seja tardio para falar, aconselha Tiago na sua epístola, e pronto para ouvir.(1)

Um grupo de estudantes universitários americanos teve a ideia de montar uma barraca no meio do campus universitário da faculdade com o simples propósito de ouvir os estudantes. Eles se surpreenderam com o sucesso da iniciativa. Pessoas dos mais diversos panos de fundo abriam seu coração com aqueles desconhecidos. Eles queriam ser ouvidos.

Vejo como é importante para meu filho que eu o ouça. Pai, Pai, olha pra mim! Ele costuma dizer, enquanto fala as coisas que aconteceram na escola. Com certeza o fato de ser ouvido edifica a autoestima de qualquer um e quando olho nos olhos dele e pergunto  sobre os detalhes de suas aventuras escolares, algo mais profundo está sendo sedimentado na alma dele: sou importante!

Nosso problema moderno com ouvir, vem do fato que nunca estamos presentes no momento. Sempre estamos no futuro ou no passado. Essa ansiedade crônica priva as pessoas do nosso ouvido. As vezes até estamos presentes com o corpo, mas viajando no espírito. Enquanto as pessoas falam, nossa alma competitiva está pensando como se defender, ou falar algo tão interessante quanto o que estamos ouvindo. Ou então olhamos o relógio, olhamos para o lado, sacudimos a perna com ansiedade, comunicando o fato que não estamos mais ali.

Desaprendemos a arte de ouvir. Não saboreamos as palavras. Não discernimos  para além do que é dito. Os tons, as ênfases, as pausas. Talvez um novo curso devesse fazer parte de nossos currículos: como aprender a  arte de ouvir as pessoas, sem dar a impressão que você é uma estátua!

Como substituto aos antigos ouvidos de amigos, a sociedade criou o profissional ouvidor, o psicanalista e o psicólogo. Não que esses profissionais não tenham sua importância, longe disso. Tenho formação em aconselhamento e sei muito bem a utilidade das ferramentas que uso, mas certamente teríamos gente mais centrada, sadia emocionalmente se as pessoas recebessem a graça de serem ouvidas.

Não ser ouvido, produz isolamento, e o isolamento produz fantasmas em nossas mentes. Acabamos acreditando em todas as viagens de nossa mente, pois precisamos das pessoas para serem nossos espelhos e nos darem a real. Dificilmente chegamos à fonte de nossos problemas, se alguém não nos ouvir. Nosso processamento de dados sempre estará defeituoso, sem um ouvido humano.

Pense no drama de nossas crianças que passam seu dia inteiro na escola, ou que a vida passa diante da televisão. Quando os pais chegam pela noite, exaustos e ansiando por uma compensação por sua jornada de trabalho competitiva e estressante, já não tem mais a paciência para ouvi-los e os encaixarão em algum divertimento que os distraia convenientemente. Eles vão formando uma geração cheia de medos. Os fantasmas do quarto não vão embora, apenas amadurecem e continuam atormentando os adultos, fortalecendo o consumo de substâncias que são paliativos, para uma formação carente de ouvidos.

Quero desafiar você a pedir, que o Senhor, unja seus ouvidos. Quero pedir a você, que comece a parar para ouvir, e ver o que acontece. Seu mundo nunca mais será o mesmo. Sentado na roda de chimarrão estou esperando ouvir você compartilhar aqui neste espaço sua experiência.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1)    Tiago 1:19

Vale de Baca: a segunda estação da jornada do crescimento

A vida é uma jornada selvagem, dura e injusta. Nenhum de nós quando  jovem se prepara para as dificuldades. Sonhamos com um caminho mais glorioso. Mas com o tempo precisamos enfrentar as perdas. Perdemos sonhos. Muito daquilo que queríamos já não faz nossos olhos brilharem ou fogem totalmente de nossas possibilidades. Enfrentamos decepções. Pessoas que nos pareciam incríveis, nos revelam sua face mais horrenda. Lembro da estima que eu tinha por um ancião, que considerava um gigante espiritual, mas que acabei descobrindo que era uma grande farsa.

Ninguém deveria confundir Deus com a vida. Essa confusão faz com que muitos se ressintam com Deus. Esperavam que certas coisas jamais lhes acontecessem, e entendem que o que lhes aconteceu de ruim foi determinação de Deus.  Não foi.  E de nada vai nos adiantar pedir a Deus, uma jornada mais fácil. Não ore por facilidades, ore por fortaleza.

Se permitirmos que as perdas, decepções e durezas da vida nos ensinem as lições erradas estaremos condenados a repetir os erros de outras pessoas e gerações com roupas novas.

Uma voz sinistra fala…

Ao coração da mulher decepcionada com um homem:

Não entregue seu coração a ninguém, todos vão quebra-lo.

Ao amigo fiel que confiou sua própria alma a outro amigo:

Não confie em ninguém, todos irão traí-lo.

A quem ousou sonhar com realidades diferentes na igreja, empresa, sociedade:

Desista de mudar qualquer coisa, seu burro!

Uma mulher nunca mais foi à igreja porque no dia em que foi na igreja sua casa foi roubada.

Você vive a situação descrita na composição dos Engenheiros do Hawaii:

Um dia me disseram

Que as nuvens não eram de algodão

Um dia me disseram

Que os ventos às vezes erram a direção

E tudo ficou tão claro

Um intervalo na escuridão

Uma estrela de brilho raro

Um disparo para um coração

Um dia me disseram

Quem eram os donos da situação

Sem querer eles me deram

As chaves que abrem essa prisão

E tudo ficou tão claro

O que era raro ficou comum

Como um dia depois do outro

Como um dia, um dia comum

Nesse momento, você deve aprender a lição número 2 para parar de andar em círculos:

Aprenda o verdadeiro ensino por detrás de suas experiências.

Experiência não é o que acontece com a gente, mas o que fazemos com o que acontece com a gente já dizia Aldous Huxley.  Como são felizes os que em ti encontram sua força, os que são peregrinos de coração! Ao passarem pelo vale de Baca, fazem dele um lugar de fontes escreve o salmista (1)

Pergunte sempre a si mesmo e aos amigos sábios a sua volta: o que funcionou e o que não funcionou?

Aprenda com a experiência dos outros. Ouvir o drama de outros pastores mais velhos do que eu me ajudou a evitar erros muito comuns.

Aprenda com as incompreensões. Talvez você tenha que se comunicar melhor, do jeito certo, no momento certo. Talvez, só tenha que dar tempo ao tempo.

Aprenda com os maus exemplos. Sim você pode aprender tudo o que não deve fazer na sua vida. Pessoas parecidas comigo e que me irritam, me mostram como eu não quero ser. São uma advertência.

Aprenda com as diferentes estações da vida. Como na natureza há tempo na vida de semear, esperar e colher  em uma frequência  indefectível. Qual o tempo você está vivendo agora? Não gosta do que está colhendo, veja o que está semeando. Acha que está esperando demais, não esqueça que o fruto sempre vem.

Aprenda dos momentos de sucesso. Nem tudo está tão bom quanto parece!

Aprenda dos momentos de fracasso. Nem tudo é tão ruim quanto todos estão dizendo!

Aprenda dos momentos de doença. Existem pessoas que você pode contar, preste atenção nelas.

Aprenda dos momentos de perda. Que se algo se perdeu, não significa que tudo se perdeu. Talvez você não veja agora, mas algo se ganhou.

Aprenda dos momentos de mudança. Que o passado já passou, e que seu tempo é agora.

Aprenda com seus livros. Escreva o que você aprendeu, para  guardar com você e talvez ensinar a outros. Mas só ensine quando lhe perguntarem alguma coisa.

Nunca faltarão lições, nem sabedoria para aquele que mantém uma alma de aprendiz! É isso que significa ser discípulo.  Nosso tempo de vida pode acrescentar sabedoria, ou presunção.  Escolha a sabedoria e seja um armazém aberto para que outros possam abastecer sua própria vida. O mundo está precisando disso! Ah, uma perguntinha, o que você está aprendendo com o que está acontecendo agora na sua vida? Pare e pense.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1)    Salmos 84:5,6

Como parar de andar em círculos?

Quando observamos a caminhada dos hebreus no deserto, percebemos que eles vagaram 40 anos em círculos. A distância do Egito até a terra prometida era de 150 km, percurso passível de ser percorrido em no máximo um mês.

Existem pessoas que estão cansadas, entediadas com sua vida e que sentem que  estão sempre metidas nas mesmas enrascadas e enfrentando os mesmos problemas no trabalho, no casamento e em qualquer lugar onde aportarem. Alguns se sentem perseguidos pelas leis do destino, ou até mesmo por Deus. Eles pensam dentro de si: O que tu tens contra mim, Deus? Quanto mais eu oro, mais assombração me aparece! Elas se sentem como se estivessem andando em círculos. Mas andar em círculos não é maldição, é escolha. Você está hoje, onde escolheu estar.

Mas se você reúne indignação e vontade de romper esse círculo vicioso, quero compartilhar alguns princípios para você avançar:

1º Olhe para sua vida com sinceridade brutal. Brasileiros tem a cultura mais polida que eu conheço. Podem ser de uma delicadeza extrema, muitas vezes à custa de muita falsidade. Em geral falham em fazer análises precisas, e também se ressentem quando ouvem uma verdade brutal. Preferem uma doce mentira que uma verdade amarga. Mas são as verdades amargas que nos ajudam a crescer. Isso é verdade para nossa vida pessoal, para a empresa que lideramos ou o ministério que dirigimos. Se quisermos avançar precisamos ter a coragem de dizer quando necessário: está péssimo, não está funcionando, desse jeito seremos destruídos.

Você já percebeu como somos viciados no “tudo bem”? Falamos, e no final arrematamos com um “tudo bem”, quando não está tudo bem. Vou dar um exemplo de encarar a realidade que tem tudo a ver comigo. Há algum tempo venho observando que grande parcela dos pastores não acaba bem! Uma pesquisa entre americanos constatou que a grande maioria deles não consegue chegar inteiro (espiritualmente falando) até os 60 anos. O que eu faço com essa informação? Se eu for sábio, vou começar a cuidar minha alma como nunca, para observar os sinais de decadência em minha vida e coração.

Quando fui diagnosticado com hipertensão, eu tentei tomar chazinho, comer menos sal e tudo o mais. Para solucionar o problema tive de encarar o fato de que minha pressão não baixaria sem tratamento e sem a realização de exames mais detalhados.

Meu cunhado é comandante de aviões comerciais. Sua responsabilidade é imensa e pilotar um avião envolve uma série de detalhes cujo esquecimento pode significar a perda de dezenas de vidas. O avião é revisado regularmente, o plano de voo estudado obsessivamente e os pilotos checam sua saúde de seis em seis meses. Qualquer alteração no sangue pode significar a perda do direito de pilotar. Além disso, eles também fazem testes semestrais com um simulador de voo em situações de crise. Tudo para que a aviação seja o transporte mais seguro do planeta como de fato é. Ora, não deveríamos todos fazer o mesmo? Nossa vida jamais deveria ser desperdiçada.

Líderes resistem ao fato de que há um tempo em que devem largar o que fizeram durante anos e preparar alguém para ficar em seu lugar. Falhar nisso é fatal pra o futuro da organização que lideram e para história que desejam escrever. Que patético é ver alguém agarrado a um posto, que já não lhe compete mais. É preciso coragem para fazer transições.

Casamentos caem porque as pessoas não decidem encarar que as coisas estão indo rumo ao abismo! Elas não resolvem questões que se arrastam por anos e então vem o fim. Mães que tem filhos com necessidades especiais deixam de ajudar seus filhos porque custam a admitir que seus filhos tenham problemas e que precisam de tratamento especializado. Enquanto negam a realidade, seus filhos pioram.

Davi ficou dois anos sem ver seu filho e achou que apenas um abraço e um beijinho iria solucionar um problema profundo. O que aconteceu depois não é preciso dizer. Uma revolta de dimensões nacionais que culminaram com a morte de Absalão. Ele se negou a enxergar o que era óbvio. (1)

O profeta Jeremias adverte o povo em relação aos falsos profetas porque eles maquiam a realidade. Em geral quem diz que tudo está bem é popular. O povo foi levado cativo porque não quis encarar a realidade do seu colapso espiritual. Foram 40 anos clamando e insistindo para que não fosse necessário o lamento que ele escreve em quatro capítulos melancólicos de seu livro. (2)

O povo pediu mudanças para Roboão e ele não ouviu quem lhe “dava a real” de que aquele povo estava no limite e pronto a se rebelar. E rebelaram-se. (3)

Um falso conceito de soberania de Deus permeia a mente dos crentes: não importa o que eu faça tudo irá bem, mesmo que minhas decisões sejam as piores possíveis. Essa negligência acaba gerando muita dor desnecessária.

Alicerçados na verdade, vamos construir um caminho de crescimento e tomar o rumo da terra prometida. Não se acostume a andar em círculos. Deus não lhe chamou para viver repetindo sua existência em uma sequência perversa.  Amanhã a conversa continua.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1)    II Samuel 14:28-33

(2)    Jeremias 7

(3)    II Reis 12

 

 

O Pecado Inconfesso

A inveja é a admiração que apodreceu, corrompeu-se e transformou-se no monstro que devora nossa felicidade. Chamada por Shakespeare de o “monstro de olhos verdes”, não respeita classe, educação ou religião.

Esse monstro é motivo de ansiedade para grande parte das pessoas. Existem no mercado amuletos, simpatias e o popular adesivo  “Sai fora olho gordo”, ironicamente aposto nos carros com menos probabilidade de serem vítimas de inveja.

As pessoas preocupadas com a inveja costumam enxergar um inimigo em cada esquina. Além de sentirem medo de que estejam fazendo alguma macumba para elas. O baixo espiritismo explora muito esse tema. Se alguém chegar com qualquer tipo de problema na terreira, quase sempre ouvirá: Alguém fez um trabalho para acabar contigo e tu vais ter que fazer algo para combater. Então a pessoa vai lá compra coisas, paga a mãe de santo e entra em espiral de guerra que parece não terminar nunca.

Pior que isso é o neopentecostalismo, que explora em nome de Jesus o temor das pessoas com campanhas como as que estão sendo divulgadas pela Igreja Universal nos ônibus de muitas cidades brasileiras: Vela acesa contra a inveja!

Essa indústria se baseia na máxima: Criemos o medo e depois vendamos a solução!

Tristemente aqueles que têm medo de “olho gordo” se habituam a não divulgar suas conquistas e as coisas boas que recebem. Perdem o prazer da celebração, com medo de sabotagem dos olhos invejosos.

A inveja que deve nos preocupar é aquela que habita nossa alma e se manifesta de maneiras sutis buscando se esconder atrás de nomes bonitos. Somos tentados especialmente quando alguém que ocupa a mesma posição e faz o mesmo que nós e obtém resultados mais significativos. Ouvi um professor dizer: chorar com os que choram é difícil, mas mais difícil ainda é encontrar quem consiga se alegrar com nossas vitórias.

Aconselho pessoas há mais de 23 anos, e, portanto estou habituado a ouvir de tudo que você possa imaginar. De adultérios a corrupção financeira. Orgulho, ciúmes, preguiça e avareza. Mas um pecado permanecesse inconfesso na minha prática pastoral: a inveja.

Quando digo ouvir, falo de alguém admitindo em alto e bom som: eu estou invejando uma pessoa e preciso de ajuda. O que em geral a gente escuta é :

– Estou tendo problema com a Glaucia porque ela é uma exibida e está sempre tentando fazer a gente se sentir menor do que é!

Que traduzido para a língua da verdade é:

– Não consigo suportar o sucesso da Glaucia, ela é bem sucedida em tudo que faz, e não consigo encontrar um motivo para diminuir seu sucesso.

Lembro-me de uma história que deve ser fictícia, mas verdadeira na sua essência que conta o seguinte:

Um evangelista pregava e um pastor invejoso no banco pensava consigo:

– Ninguém vai se converter.

E o evangelista fez o apelo e muitos se converteram.

Então o pastor invejoso pensou:

Ninguém vai se batizar. Mas muitos se batizaram.

Finalmente o pastor invejoso disse:

– Vão todos se desviar!

Percebi esse processo perverso de uma maneira bem evidente na minha vida quando estava no seminário. Todos nós sonhávamos em adquirir uma coleção de comentários versículo por versículo do Novo Testamento apelidada por todos de “Azulão”. Era uma coleção cara e distante das possibilidades de um reles seminarista que contava seus tostões para pagar as fotocópias do mês.

Um colega nosso, que não se destacava muito nos estudos foi para o ministério de final de semana, ocasião em que ajudávamos igrejas da região. O dono da casa onde ele estava hospedado lhe levou até sua extensa biblioteca onde ele se topou com uma coleção novinha do “Azulão”. Em razão de o homem ser um advogado, ele se surpreendeu e comentou:

– Puxa, você tem uma coleção do Novo Testamento versículo por versículo que usamos no seminário.

O homem respondeu prontamente:

– É, mas eu não uso nunca! Se você usa, vou te dar para você levar! Pegue.

Ele contou isso pra nós transbordando de felicidade. Mas eu não esqueço e com vergonha digo o que passou pela minha mente enquanto ele contava:

– Senhor, mas tu dás pão para quem não tem dente! Eu aqui tirando boas notas e mal consigo comprar um livrinho texto pra estudar!

Logo desse pensamento tortuoso, senti uma cutucada do Senhor: Lembra que eu já te capacitei de outra maneira!

A inveja nasce na alma quando nos acostumamos ao processo mental de comparação. Saul andava bem até que escutou o cântico comparativo das mulheres: “Saul  feriu aos seus milhares, mas Davi feriu aos seus dez milhares”.

Olhe pra dentro de si mesmo e se despreocupe com as macumbas da vida, e preocupe-se com as macumbas na sua alma. Pense nos sintomas de quem inveja e olhe-se no espelho:

Você vive de mau humor?

Você critica intensamente a quem é apreciado por todos?

Você é violento em suas palavras e atitudes?

Você vive desconfiado e teme a inveja por parte dos outros?

Então olhe com mais atenção.

Cultivar a inveja é apontar uma arma contra nossa própria alma, pois enquanto pensamos em diminuir os outros esquecemos de desenvolver nossos próprios potenciais. Por não suportar o sucesso dos outros nosso amor é limitado, pois a essência do amar é querer o bem do outro. Viveremos em guerra permanente, sem desfrutar de alegria. Por outro lado quando nos fazemos partícipes da alegria dos outros nunca nos faltarão motivos de festejo.

Quanto aos que lhe invejam saiba que Jesus mesmo nunca se perturbou com a inveja. Ele sabia que os fariseus o atacavam não somente  por suas ideias, mas muito mais por seu apelo junto ao povo. Eles não suportavam a possibilidade de compartilhar seu lugar de autoridade e eminência com quem quer que fosse.

Não seja ingênuo, mas não fique obcecado: “Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, a sombra do Onipotente descansará”. Os acusadores de Daniel conspiraram contra ele, mas Deus corria na frente, assim como corre até hoje. Quando pequeno ouvi em minha terra a seguinte frase que apesar de tosca diz o que precisa ser dito: “Praga de urubu magro, não pega em cavalo gordo!”

Como um cavalo engordado pela mão do Seu  dono, sigo em paz.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

Jesus a encarnação do paradoxo – Parte Final

Esse post é continuação do post de ontem. Por favor leia primeiro aquele para poder entender este.

2º Paradoxo: Jesus era reflexivo sem deixar de ser ativo.

Vemos que tudo que Jesus faz é a partir do seu entendimento da vontade de Deus. Ele não se move a manivela. Não está debaixo da pressão. Já desde o começo do seu ministério quando o diabo lhe propõe atalhos para o coração do homem Ele rejeita contundentemente esse caminho. E o faz a partir da Palavra de Deus. Por outro lado ele não transforma sua reflexão em covardia. Seu momento de retiro não é um escape, não é uma proteção para se tornar um crítico infecundo do sistema. Muitos intelectuais da fé, transformaram nas palavras de Spurgeon, seu escritório no castelo do covarde. Ele não se furtava da briga diária. Enfrentava perguntas e as respondia. Era desafiado, apertado, perturbado, e interrompido como qualquer pessoa. Suas mãos estavam sujas de trabalho, seu rosto molhado de suor.

3º Paradoxo: Jesus era forte sem perder a doçura.

Fui ensinado muitas vezes que um seguidor de Jesus deveria ser absolutamente dócil e não questionar nada daquilo que lhe propunham. Aceitar o que diz o patrão, o professor e o policial. Não questionar autoridades, pois essa era a vontade de Deus. O Jesus dos evangelhos não era assim. Vemos que Ele não teme autoridades, e as questiona quando vê algo que não se coaduna com o propósito de Deus. Não é um anarquista ressentido que gosta de ver o circo pegando fogo, mas sabe botar o dedo na ferida. Quando Herodes o manda sair de seu território, Ele o chama de raposa e diz que vai ficar mais dois dias. Quando sua mãe lhe pressiona para agir, Ele diz que sabia a hora de fazer tudo. No entanto ninguém poderia ser mais doce do que Jesus. Ao leproso que há anos não sabia o que era ser tocado, Ele estende sua mão e o toca antes de purificá-lo, e declara sua vontade: Quero, seja limpo. À prostituta, diante dos olhos da comunidade religiosa que o questiona, Ele honra publicamente. Você teria coragem de fazer o mesmo? Contrastando com os líderes da igreja que até medo de mulheres têm. Aos seus discípulos de pés poeirentos das estradas da Galiléia,Ele sem nenhuma cerimônia passa a lavar. Imagino a cena repetidas vezes na minha cabeça e me prostro em corpo e alma diante dEle. A Pedro que depois de três anos sendo treinado, falha clamorosamente no momento decisivo, Jesus chama de volta para o seu meio e reafirma três vezes na presença de todos sem nenhum ressentimento pessoal: apascenta os meus Cordeiros!

4º Paradoxo: Jesus manifestava poder sobrenatural sem deixar de ser humano.

Desconfio de qualquer espiritualidade que queira produzir super homens de Deus. Isso não existe. É uma impostura gritante. Olhar para Jesus desfaz essa falcatrua.O diabo lhe propõe o espetáculo como um meio para alcançar as multidões. Jogar-se do alto de um monte e  ser sustentado por anjos seria um espetáculo digno de David Copperfield, e teria um apelo brutal sobre a multidão. Quantos pregadores sem o poder que Jesus tem, usam esse expediente para obter a atenção das multidões, agindo como estelionatários. No entanto Ele não trabalha no atacado. Ele toca cada pessoa e interage com elas. Sua motivação em todos os momentos de cura é o amor. Jamais o faz por exibicionismo. Quando alguém quer provas e demonstrações de poder, ele descarta prontamente: a uma geração incrédula nenhum sinal lhe será dado a não ser o de Jonas.  Nunca recebe oferta pelo que faz. Zaqueu dá seus bens aos pobres, e o leproso leva sua oferta ao sacerdote. Comove-se com a atitude perseverante da mulher siro-fenícia que suporta o silêncio e o ser chamada de cachorrinha. Exulta diante da fé das pessoas. Surpreende-se. Ele não faz de si mesmo um personagem. Não banca o misterioso. Ele lamenta com dor profunda o afastamento de Jerusalém do amor de Deus. Ele se compara com a galinha que quer juntar os pintinhos debaixo de suas asas. Humanamente sobrenatural e sobrenaturalmente humano.

 

5º Paradoxo: Jesus exercia poder para servir, sem jamais se servir do poder.

Os chamados homens de Deus tem jeito de servo? Jesus era o máximo exemplo do serviço. Ele não faz exigências de superstar. Um conhecido pregador brasileiro faz exigências dignas de um show do Luan Santana: hotel cinco estrelas, e uma oferta mínima de 70.000 reais. Quem contrata tem tanta culpa quanto quem cobra! Jesus não faz exigências de números mínimos para ministrar. Ele vai a pequenas aldeias. Aliás, se fosse interessado em projeção teria começado seu ministério em Roma e não em Nazaré. Ele faz o mar calar,  mas se dispõe a ouvir desaforos dos homens. Ele abre os ouvidos dos surdos, mas permite que os incrédulos se fechem para Ele. Ele faz os cegos verem, mas permite que quem não quer ver continue cego. Ele recebe adoração, e também recebe a zombaria. Ele revela sua glória na transfiguração, mas convida seus discípulos para o duro caminho da cruz. Ele que poderia derrotar seus inimigos com sua destra de justiça, se submete a injustiça dos homens para salvá-los.

6º Paradoxo: Jesus amava as pessoas, mas não se movia pelo aplauso dos homens.

 Ele vê a dor da multidão e sua falta de liderança servidora, no entanto no momento  que qualquer pregador deste mundo se sentiria na glória, ele prega uma palavra impopular e todo povo vai embora, sem medir consequências ele vai ainda mais fundo e pergunta aos seus discípulos que restaram: Vocês também não querem ir? Jesus não ficava deslumbrado com os ajuntamentos ao seu redor, Ele sabia que as multidões tinham um coração volúvel!

7º Paradoxo: Jesus foi o único santo, mas tinha preferência por pecadores assumidos.

Ele nunca foi chegado a reuniões cheias de pose. Simpatizava com pessoas que perdiam tudo, a não ser o desejo de o conhecerem. Ali entre eles, nem sequer um traço de condenação, mas aceitação total e irrestrita. Ele inverte a lógica da religião: o puro contagia os impuros.

8º Paradoxo: Jesus foi o único Messias, mas confiou todo poder e autoridade aos Seus discípulos.

O líder natural reúne todos os poderes em sua mão. Briga para se manter no topo. Discerne seus inimigos potenciais. Ataca-os. Herodes é a antítese de Jesus. Até matar seus filhos matou, para impedir que seu poder fosse tocado. Sabendo de sua morte iminente, lança uma ordem para o assassínio de todos os seus inimigos conhecidos para que não houvesse alegria no dia de sua morte. Mas Jesus diz que os Seus discípulos poderiam, se cressem, fazer obras maiores que as dEle. Ele dá poder a eles, confia que eles serão como Ele.

Por essas razões e pelo fato de um dia esse Jesus, se importar com aquele guri de Bagé assustado e desesperado, é que sou definitivamente seguidor d’Ele. Nenhuma instituição, personagem ou pessoa tem ou terá meu afeto como Ele. Sou Teu meu Jesus. Obrigado por aceitar esse gaudério.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

Jesus: a encarnação do paradoxo

Quero me desculpar por esse título pomposo. Sou um adepto da simplicidade a todo custo, mas às vezes a simplicidade não é possível. Paradoxo segundo o Aurélio quer dizer: “Conceito que é ou parece contrário ao comum, contradição  aparente”.  Essa palavra também me traz a memória  uma líder de juventude que se inspirou em uma de suas pregações e começou a falar no paradoxo de Deus. Bom, um de nossos jovens ficou impressionado com essa palavra e depois da pregação foi lá conversar com ela sobre esse conceito do paradoxo de Deus e perguntou: “O que é paradoxo?” A menina olhou pra cima como que buscando a palavra em sua mente e disse: “Sabe que eu não sei!”

Há algumas semanas atrás um pastor brasileiro famoso, disse que não acreditava que Deus fosse soberano. Segundo seu raciocínio, soberania e amor se auto excluíam. Segundo a lógica humana exata e precisa, é verdade. Não dá nem pra tentar conciliar as duas coisas. Mas sem nenhum desejo de entrar nesse debate, quero dizer que Jesus é a encarnação do paradoxo. Nele habitam os extremos que na vida humana parecem irreconciliáveis.

Devemos desistir já de encaixar a Deus na teologia sistemática. Categorias podem nos ajudar a entender algo, mas jamais entender tudo. Requer-se do discípulo que aceite o mistério, o inexplicável, o fim do arrazoamento onde simplesmente adoramos aquele que nos fez conhecer seu amor. As perplexidades da vida derrotarão os sistemáticos, derrubarão todas suas teses, estilhaçarão os vitrais de sua teologia. Abracemos a Cristo e seus paradoxos.

“Acho que vou perder minha fé” dizia um colega, agora pastor nos tempos de seminário enquanto líamos um volume sobre predestinação e livre-arbítrio. O que hoje considero de utilidade apenas como exercício mental. Naquele volume quatro teólogos americanos debatiam essa questão teológica milenar. Calvinismo e Arminianismo como refeição diária, talvez possa abalar a teologia sistemática, mas jamais abalará um discípulo de Jesus, pois em Jesus as duas realidades habitam sem drama.

Quem me ensinou esta verdade foi Chesterton quando escreve: “O paganismo declarou que a virtude estava no equilíbrio, e o Cristianismo veio a declarar que ela estava no conflito: na colisão de duas paixões aparentemente opostas”.

1º Paradoxo: Jesus era absolutamente sério em sua alegria, e absolutamente alegre em sua seriedade.

Tenho em casa um livro fantástico, se chama: A imagem de Jesus ao longo dos séculos, de Jaroslav Pelikan. É um clássico indispensável para aqueles que como eu entendem que Jesus é o centro do evangelho. Verdade que deveria ser óbvia, mas pela observação e vivência diária entre evangélicos não me parece ser. Os evangelhos não são levados a sério por grande parte de nossas comunidades e pregadores. Seríamos mais simples e mais calorosos. Se enfatizássemos a Jesus como centro do evangelho, veríamos o tanto que somos de esquisitos e pomposos. Deslumbrados com qualquer possibilidade de aplauso do mundo ou por algum título eclesiástico. Reféns de nossa autoimagem combalida e esfacelada.

Em nenhuma das dezenas de imagens que foram pintadas ao longo dos séculos por diferentes gênios da pintura, você consegue ver Jesus esboçar um sorriso. Em todos, ele está sisudo, triste, deprimido. Diante deste fato talvez minhas palavras seriam como as de Swinburne:

“Venceste ó pálido Galileu, e o Mundo tornou-se sombrio com o teu sopro.”

Quando eu era pequeno, e fazia a catequese, que era exigida de todo bom católico, para participar da eucaristia, fomos fazer um “tour” pela catedral onde estávamos fazendo o curso. Jamais me esquecerei do impacto deprimente que foi ver várias imagens de Jesus, de tamanho natural, nos recantos interiores da catedral. Aquela imagem triste de Jesus, me afastou definitivamente da igreja católica.

Lembro que no filme “O nome da Rosa”, a grande discussão era sobre a suposta existência de um texto de Aristóteles que defendia o valor do riso. O argumento dos monges era de que Jesus, nos evangelhos jamais era descrito rindo. Mas em minha opinião nem era preciso. Temos muitas razões para crermos que Jesus era um ser cheio de alegria.

Vemos que ele gostava de crianças,(1) e todos sabem que crianças não se sentem atraídas por tipos sisudos e fechados. Elas são atraídas pela acessibilidade e jovialidade. Com certeza elas não chegariam perto de Jesus se sua figura tivesse a semelhança de Cid Moreira recitando com voz tonitruante: Deixem vir a mim todas as crianças.

Vemos que ele era acusado de ser comilão e bebedor de vinho.(2) Pessoas de vida não recomendável se sentiam a vontade com ele, e ele era presença constante na mesa de seus conterrâneos, bebendo e comendo.

Vemos que ele sente-se a vontade em festas de casamento. (3)

Vemos seu entusiasmo até mesmo com os pequenos avanços de seus discípulos. (4)

Nem por isso podemos dizer que Jesus era um pregador fanfarrão, um bobo alegre que desconhece dores ou um triunfalista, que finge que o mal não existe. Ele não ri de tudo, mas se alegra constantemente. Até porque como diz a canção do Frejat: “Rir de tudo é desespero.”  Mas a essência de conviver com Jesus era a alegria.

Depois ter passado por um momento de fracasso moral, um de nossos líderes me falava que não conseguia se sentir perdoado. Não conseguia estar na comunidade e ter aquela alegria de outros tempos. O perdão já havia sido liberado, mas a culpa permanecia ali açoitando a alma e tirando-lhe o brilho dos olhos. Eu disse a ele aquilo que pratico eu mesmo quando sinto que saí do rumo: Querido, quando a culpa te amassar lembra que Jesus está te esperando com ansiedade, assim como fez o pai com o filho pródigo, com o rosto feliz de te ver de volta na casa dEle.

Sei que pra muitos é fácil pensar assim, porém quando sentimos que traímos os princípios de Deus em nós, quando a culpa domina nossa alma, a história é outra. Mas é precisamente nessa hora que precisamos conhecer a ternura, e alegria de Jesus sobre e com nossas vidas.

A alegria é filha da esperança. Está baseada na certeza de que Deus trará um bom fim a todas as coisas.

A alegria é filha da fé na soberania de Deus. Que entende por experiência que Ele é capaz de intervir e levar nossa vida.

A alegria é filha da decisão de olhar para Jesus. Se olharmos unicamente para as misérias humanas, certamente o desespero tomará conta de nós como faz com tanta gente, mas nossos olhos estão fixos nEle no qual as contradições e perplexidades da vida são solucionadas.

No entanto a alegria de Jesus é equacionada com sua seriedade. Ele não colocava chantilly na realidade. Ele encarava a realidade brutal e a expunha, por entender que não há mudança em qualquer âmbito da vida sem a absoluta transparência.

Vejo o rosto de Jesus se fechar duramente quando ele encontra gente cheia de esqueletos no armário e que querem posar de eminências espirituais sobre as pessoas. Aí meu amigo você ouvirá Jesus proferindo suas palavras mais duras.(5)

É nesse paradoxo de alegria séria e seriedade alegre que somos chamados a acompanhar Jesus. Amanhã continuaremos com outros paradoxos.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1)    Mateus 18:1-9

(2)    Lucas 7:34

(3)    João 2

(4)    Mateus 16:17

(5)    Mateus 23

 

O Jarro Rachado

Um homem que transportava água na Índia tinha dois grandes jarros. Ele carregava um em cada ponta de uma madeira apoiada sobre a nuca. Um dos jarros estava trincado, ao paso que o outro era perfeito. Este sempre chegava cheio de água ao fim da longa caminhada do riacho até a casa do patrão do carregador. O jarro trincado chegava com água só pela metade. Todos os dias, durante dois anos, o carregador chegava apenas com um jarro e meio de água.

O jarro perfeito tinha orgulho de suas realizações, pois cumpria com excelência o propósito para o qual tinha sido feito. Mas o pobre jarro trincado tinha vergonha de sua imperfeição e sentia-se abatido por ser capaz de realizar apenas a metade da tarefa para a qual tinha sido feito.

Infeliz, depois de dois anos considerando isso um triste defeito, um dia o jarro falou ao carregador junto ao riacho:

– Tenho vergonha de mim mesmo e quero pedir-lhe desculpas.

– Por quê? De que você sente vergonha?

– Durante os dois últimos anos tenho sido capaz de chegar com apenas metade da minha capacidade, porque essa trinca no meu lado faz que a água vaze por todo o caminho de volta à casa do seu patrão. Por causa dos meus defeitos, você tem de ter todo esse trabalho e não obtém o melhor resultado dos seus esforços.

O carregador teve pena do velho jarro trincado e  disse em sua compaixão:

– Quando estivermos voltando, quero que você observe as lindas flores ao longo do caminho.

De fato, ao subirem a colina, o jarro trincado observou as belas flores do campo que estavam ao lado da trilha, brilhando sob os raios de sol, e essa visão o  animou um pouco.

Mas no final da trilha, ele ainda se sentia mal por perder metade da água e, por isso, desculpou-se novamente com o homem.

O carregador então disse ao jarro:

– Você percebeu que havia flores somente do seu lado do caminho e não do lado do outro jarro? Eu sempre soube do seu defeito e o usei para algo bom. Joguei sementes de flores no seu lado do caminho, e todos os dias, enquanto fazíamos nosso percurso de volta do riacho, você as regava. Durante dois anos pude colher lindas flores para enfeitar a mesa do meu patrão. Se você não fosse do jeito que é, ele não teria essas lindas flores para alegrar a casa.

 

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Fonte: Confiança Cega – Brennan Manning pags. 139,140 Editora Mundo Cristão.