Fazendo as pazes com minha humanidade

Deus não requer santos ou escritores; ele é mais ambicioso e requer gente.”

Paulo Brabo

“Todo homem quer ser rei

Todo rei quer ser Deus

Mas só Deus quis ser homem”

Anônimo (por enquanto)

“A humanidade é desumana, mas ainda temos chance…”

Legião Urbana

Eu havia chegado atrasado ao funeral. Assim que entrei no cemitério, comecei a ouvir um choro que era quase um alarido. A menina que chorava, havia perdido o pai repentinamente quando ele caiu morto em seus braços vítima de um infarto fulminante.

Fiquei ali quieto, e reverente diante daquela dor exposta. Após dez minutos a menina me viu, e antecipou-se a qualquer coisa que eu pudesse dizer a ela:

– Pastor, desculpe-me por estar chorando assim. Estou sentindo demais a morte do pai.

Querida, eu respondi, esse é o momento de chorar. Então chore, que faz bem.

Tenho aprendido com situações como esta que os evangélicos precisam fazer as pazes com sua humanidade. Fazer isso tem muitas implicações para nossas comunidades:

Muita gente em nossas igrejas vive sob um fardo que precisa ser retirado de suas costas: a dificuldade em admitir e expressar suas emoções. Sofremos mais de diagnóstico do que com a doença propriamente dita. “Eu não aceito essa doença” é o que costumo ouvir de cristãos que sofrem de depressão. Como pode um crente sentir depressão? E eu me pergunto: Se Jesus se deprimiu diante da cruz e do sono de seus discípulos, como não me deprimiria eu? Se Paulo dizia ter um espinho na carne que apontava para o sua realidade menos gloriosa, não teria eu também meus espinhos?  Certamente os tenho!

Se os evangélicos lessem a Bíblia, tanto quanto eles compram Bíblias, eles veriam que o livro de Salmos é nas palavras de Elben Cezar, “o livro dos desabafos”. Provavelmente ficariam chocados ao lerem relatos de emoção nua e crua. Como por exemplo:

“tive inveja dos arrogantes”(1)

“que a morte apanhe meus inimigos de surpresa”(2)

“tenho por eles ódio implacável”(3)

Como ensinam os estudiosos: os salmos nos ajudam a expressar nossas emoções, sem contudo pecar.

As carpideiras eram mulheres contratadas para chorar nos funerais. Alguns perguntam qual o sentido de elas existirem, e eu penso comigo que uma das razões talvez fosse o fato de elas ajudarem as pessoas a converterem sua perplexidade diante da morte em lágrimas.

Tenho uma colega pastora que também é assistente social, que revelou que o crente é o tipo mais difícil de ser tratado, pois vive negando suas doenças. Um médico lhe informou que são grandes os índices de membros de igrejas que acabam nas instituições de saúde mental, vítimas de comunidades insanas onde ninguém pode expressar suas emoções.

Fazer as pazes com minha humanidade também implica andar pacientemente com aqueles que como eu, são imperfeitos. As vezes ficamos lamurientos porque temos que suportar  pessoas cujas manias e esquisitices nos incomodam. Mas nunca deveríamos esquecer que embora não percebamos com clareza, todos os dias, as pessoas suportam nossas esquisitices também. Um perfeccionista jamais consegue enxergar isso, e essa é a razão de que ele tenha poucos amigos. A obsessão pela perfeição nos torna cruéis.

Envolve também admitir a realidade e o desafio de que sou um peregrino que ainda não chegou em casa, mas que continua caminhando. Sou imperfeito, mas estou em obras. Líderes cristãos sustentam a mentira de que estão com a vida sob controle até o ponto de falirem e seus problemas passarem a linha do contornável. Talvez essa aura de perfeição é o que impeça as pessoas de praticarem a saudável e tão necessária confissão. Perfeição cria muralhas.

Fazer as pazes com minha humanidade é aceitar o óbvio de que eu preciso das pessoas. O mundo funciona na interdependência. Além de mim e de você lendo esse texto, muitas pessoas trabalham ou trabalharam para que pudéssemos estar escrevendo e você lendo essas linhas. O mundo lhe tratará melhor se você respeitar essa lei.

Fazer as pazes com minha humanidade implica que como líder devo abandonar a falsa imagem  de que nossas comunidades são a prova de pecado. Enganamos tanto nesse quesito que muitas vezes precisamos trabalhar a cabeça de quem chega, pois eles não querem se comprometer a seguir a Jesus até que arrumem suas vidas. Pensam que só quem está bem ajustado tem lugar na igreja. Eu costumo afirmar no púlpito: aqui é lugar do sujo, quebrado e esfarrapado. Igreja não é lugar dos certinhos, não é o ponto de encontro ideal para o pessoal da classe média onde apenas  o bom mocismo impera. Igreja é essa colcha de retalhos que as vezes parece confusa e as vezes gloriosa.

Fazer as pazes com a minha humanidade também envolve separar tempo para descansar. Enfrentar esse pensamento dominante que interessa as potestades econômicas que não podemos parar nunca. ”Não sois máquinas, homens é que sois” discursa Charles Chaplin em um de seus filmes. Quando cheguei para pastorear a igreja que hoje lidero, o presbítero me advertiu quando anunciei que tiraria férias: Os pastores aqui de Pelotas não tiram férias! E eu não me sofri: Mas eu vou tirar! O dia que eu tiver um colapso nervoso, não faltará pessoas para dizerem que eu deveria ter me cuidado.

Fazer as pazes com minha humanidade implica em aceitar que eu não tenho todas as respostas.  Nem Jesus tinha todas as respostas. Quando indagado sobre sua segunda vinda ele responde que nem mesmo ele sabia. Caminharemos entre dúvidas e descobertas até a revelação dAquele no qual habitam todos os tesouros de sabedoria do universo.

Inspirado no meu Mestre, rejeito o projeto tecnológico do homem máquina, o projeto animal instintivo do hedonismo reinante e projeto farisaico de perfeição da comunidade religiosa e abraço a humanidade que chora, que ri, que tem dúvidas e que não está pronta, para dessa forma me tornar útil nas mãos dAquele que escandalizou aos gregos por não ser impassível e foi tropeço para judeus por habitar entre nós e conhecer cada uma de nossas limitações.

Um abraço quebra costelas

O discípulo gaudério.

(1) Salmos 73:3

(2) Salmos 55:15

(3) Salmos 139:22

4 pensamentos sobre “Fazendo as pazes com minha humanidade

  1. Fabiano, todos os teus textos e reflexões são excelentes. Mas este aqui é de uma profundidade e, ao mesmo tempo, uma simplicidade extraordinária. Pr “Geração Coca-cola” é isso aí, que Deus continue te abençoando. Um grande quebra-costelas bem chinchado!!!

  2. Excelente: Afirma la idea de que la iglesia es un hospital. Es lamentable cuando oímos a siervos de Dios diciendo que no aceptan ese pensamiento cuando Jesucristo dijo “Yo no he venido para los sanos sino para los enfermos” ¿Qué es eso sino nuestra humanidad caída que aún permanece con nosotros? Jesús mismo confirmó nuestra humanidad enferma con la cual devemos convivir diariamente.
    Un abrazo desde Uruguay

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