Jesus: a encarnação do paradoxo

Quero me desculpar por esse título pomposo. Sou um adepto da simplicidade a todo custo, mas às vezes a simplicidade não é possível. Paradoxo segundo o Aurélio quer dizer: “Conceito que é ou parece contrário ao comum, contradição  aparente”.  Essa palavra também me traz a memória  uma líder de juventude que se inspirou em uma de suas pregações e começou a falar no paradoxo de Deus. Bom, um de nossos jovens ficou impressionado com essa palavra e depois da pregação foi lá conversar com ela sobre esse conceito do paradoxo de Deus e perguntou: “O que é paradoxo?” A menina olhou pra cima como que buscando a palavra em sua mente e disse: “Sabe que eu não sei!”

Há algumas semanas atrás um pastor brasileiro famoso, disse que não acreditava que Deus fosse soberano. Segundo seu raciocínio, soberania e amor se auto excluíam. Segundo a lógica humana exata e precisa, é verdade. Não dá nem pra tentar conciliar as duas coisas. Mas sem nenhum desejo de entrar nesse debate, quero dizer que Jesus é a encarnação do paradoxo. Nele habitam os extremos que na vida humana parecem irreconciliáveis.

Devemos desistir já de encaixar a Deus na teologia sistemática. Categorias podem nos ajudar a entender algo, mas jamais entender tudo. Requer-se do discípulo que aceite o mistério, o inexplicável, o fim do arrazoamento onde simplesmente adoramos aquele que nos fez conhecer seu amor. As perplexidades da vida derrotarão os sistemáticos, derrubarão todas suas teses, estilhaçarão os vitrais de sua teologia. Abracemos a Cristo e seus paradoxos.

“Acho que vou perder minha fé” dizia um colega, agora pastor nos tempos de seminário enquanto líamos um volume sobre predestinação e livre-arbítrio. O que hoje considero de utilidade apenas como exercício mental. Naquele volume quatro teólogos americanos debatiam essa questão teológica milenar. Calvinismo e Arminianismo como refeição diária, talvez possa abalar a teologia sistemática, mas jamais abalará um discípulo de Jesus, pois em Jesus as duas realidades habitam sem drama.

Quem me ensinou esta verdade foi Chesterton quando escreve: “O paganismo declarou que a virtude estava no equilíbrio, e o Cristianismo veio a declarar que ela estava no conflito: na colisão de duas paixões aparentemente opostas”.

1º Paradoxo: Jesus era absolutamente sério em sua alegria, e absolutamente alegre em sua seriedade.

Tenho em casa um livro fantástico, se chama: A imagem de Jesus ao longo dos séculos, de Jaroslav Pelikan. É um clássico indispensável para aqueles que como eu entendem que Jesus é o centro do evangelho. Verdade que deveria ser óbvia, mas pela observação e vivência diária entre evangélicos não me parece ser. Os evangelhos não são levados a sério por grande parte de nossas comunidades e pregadores. Seríamos mais simples e mais calorosos. Se enfatizássemos a Jesus como centro do evangelho, veríamos o tanto que somos de esquisitos e pomposos. Deslumbrados com qualquer possibilidade de aplauso do mundo ou por algum título eclesiástico. Reféns de nossa autoimagem combalida e esfacelada.

Em nenhuma das dezenas de imagens que foram pintadas ao longo dos séculos por diferentes gênios da pintura, você consegue ver Jesus esboçar um sorriso. Em todos, ele está sisudo, triste, deprimido. Diante deste fato talvez minhas palavras seriam como as de Swinburne:

“Venceste ó pálido Galileu, e o Mundo tornou-se sombrio com o teu sopro.”

Quando eu era pequeno, e fazia a catequese, que era exigida de todo bom católico, para participar da eucaristia, fomos fazer um “tour” pela catedral onde estávamos fazendo o curso. Jamais me esquecerei do impacto deprimente que foi ver várias imagens de Jesus, de tamanho natural, nos recantos interiores da catedral. Aquela imagem triste de Jesus, me afastou definitivamente da igreja católica.

Lembro que no filme “O nome da Rosa”, a grande discussão era sobre a suposta existência de um texto de Aristóteles que defendia o valor do riso. O argumento dos monges era de que Jesus, nos evangelhos jamais era descrito rindo. Mas em minha opinião nem era preciso. Temos muitas razões para crermos que Jesus era um ser cheio de alegria.

Vemos que ele gostava de crianças,(1) e todos sabem que crianças não se sentem atraídas por tipos sisudos e fechados. Elas são atraídas pela acessibilidade e jovialidade. Com certeza elas não chegariam perto de Jesus se sua figura tivesse a semelhança de Cid Moreira recitando com voz tonitruante: Deixem vir a mim todas as crianças.

Vemos que ele era acusado de ser comilão e bebedor de vinho.(2) Pessoas de vida não recomendável se sentiam a vontade com ele, e ele era presença constante na mesa de seus conterrâneos, bebendo e comendo.

Vemos que ele sente-se a vontade em festas de casamento. (3)

Vemos seu entusiasmo até mesmo com os pequenos avanços de seus discípulos. (4)

Nem por isso podemos dizer que Jesus era um pregador fanfarrão, um bobo alegre que desconhece dores ou um triunfalista, que finge que o mal não existe. Ele não ri de tudo, mas se alegra constantemente. Até porque como diz a canção do Frejat: “Rir de tudo é desespero.”  Mas a essência de conviver com Jesus era a alegria.

Depois ter passado por um momento de fracasso moral, um de nossos líderes me falava que não conseguia se sentir perdoado. Não conseguia estar na comunidade e ter aquela alegria de outros tempos. O perdão já havia sido liberado, mas a culpa permanecia ali açoitando a alma e tirando-lhe o brilho dos olhos. Eu disse a ele aquilo que pratico eu mesmo quando sinto que saí do rumo: Querido, quando a culpa te amassar lembra que Jesus está te esperando com ansiedade, assim como fez o pai com o filho pródigo, com o rosto feliz de te ver de volta na casa dEle.

Sei que pra muitos é fácil pensar assim, porém quando sentimos que traímos os princípios de Deus em nós, quando a culpa domina nossa alma, a história é outra. Mas é precisamente nessa hora que precisamos conhecer a ternura, e alegria de Jesus sobre e com nossas vidas.

A alegria é filha da esperança. Está baseada na certeza de que Deus trará um bom fim a todas as coisas.

A alegria é filha da fé na soberania de Deus. Que entende por experiência que Ele é capaz de intervir e levar nossa vida.

A alegria é filha da decisão de olhar para Jesus. Se olharmos unicamente para as misérias humanas, certamente o desespero tomará conta de nós como faz com tanta gente, mas nossos olhos estão fixos nEle no qual as contradições e perplexidades da vida são solucionadas.

No entanto a alegria de Jesus é equacionada com sua seriedade. Ele não colocava chantilly na realidade. Ele encarava a realidade brutal e a expunha, por entender que não há mudança em qualquer âmbito da vida sem a absoluta transparência.

Vejo o rosto de Jesus se fechar duramente quando ele encontra gente cheia de esqueletos no armário e que querem posar de eminências espirituais sobre as pessoas. Aí meu amigo você ouvirá Jesus proferindo suas palavras mais duras.(5)

É nesse paradoxo de alegria séria e seriedade alegre que somos chamados a acompanhar Jesus. Amanhã continuaremos com outros paradoxos.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1)    Mateus 18:1-9

(2)    Lucas 7:34

(3)    João 2

(4)    Mateus 16:17

(5)    Mateus 23

 

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