O Pecado Inconfesso

A inveja é a admiração que apodreceu, corrompeu-se e transformou-se no monstro que devora nossa felicidade. Chamada por Shakespeare de o “monstro de olhos verdes”, não respeita classe, educação ou religião.

Esse monstro é motivo de ansiedade para grande parte das pessoas. Existem no mercado amuletos, simpatias e o popular adesivo  “Sai fora olho gordo”, ironicamente aposto nos carros com menos probabilidade de serem vítimas de inveja.

As pessoas preocupadas com a inveja costumam enxergar um inimigo em cada esquina. Além de sentirem medo de que estejam fazendo alguma macumba para elas. O baixo espiritismo explora muito esse tema. Se alguém chegar com qualquer tipo de problema na terreira, quase sempre ouvirá: Alguém fez um trabalho para acabar contigo e tu vais ter que fazer algo para combater. Então a pessoa vai lá compra coisas, paga a mãe de santo e entra em espiral de guerra que parece não terminar nunca.

Pior que isso é o neopentecostalismo, que explora em nome de Jesus o temor das pessoas com campanhas como as que estão sendo divulgadas pela Igreja Universal nos ônibus de muitas cidades brasileiras: Vela acesa contra a inveja!

Essa indústria se baseia na máxima: Criemos o medo e depois vendamos a solução!

Tristemente aqueles que têm medo de “olho gordo” se habituam a não divulgar suas conquistas e as coisas boas que recebem. Perdem o prazer da celebração, com medo de sabotagem dos olhos invejosos.

A inveja que deve nos preocupar é aquela que habita nossa alma e se manifesta de maneiras sutis buscando se esconder atrás de nomes bonitos. Somos tentados especialmente quando alguém que ocupa a mesma posição e faz o mesmo que nós e obtém resultados mais significativos. Ouvi um professor dizer: chorar com os que choram é difícil, mas mais difícil ainda é encontrar quem consiga se alegrar com nossas vitórias.

Aconselho pessoas há mais de 23 anos, e, portanto estou habituado a ouvir de tudo que você possa imaginar. De adultérios a corrupção financeira. Orgulho, ciúmes, preguiça e avareza. Mas um pecado permanecesse inconfesso na minha prática pastoral: a inveja.

Quando digo ouvir, falo de alguém admitindo em alto e bom som: eu estou invejando uma pessoa e preciso de ajuda. O que em geral a gente escuta é :

– Estou tendo problema com a Glaucia porque ela é uma exibida e está sempre tentando fazer a gente se sentir menor do que é!

Que traduzido para a língua da verdade é:

– Não consigo suportar o sucesso da Glaucia, ela é bem sucedida em tudo que faz, e não consigo encontrar um motivo para diminuir seu sucesso.

Lembro-me de uma história que deve ser fictícia, mas verdadeira na sua essência que conta o seguinte:

Um evangelista pregava e um pastor invejoso no banco pensava consigo:

– Ninguém vai se converter.

E o evangelista fez o apelo e muitos se converteram.

Então o pastor invejoso pensou:

Ninguém vai se batizar. Mas muitos se batizaram.

Finalmente o pastor invejoso disse:

– Vão todos se desviar!

Percebi esse processo perverso de uma maneira bem evidente na minha vida quando estava no seminário. Todos nós sonhávamos em adquirir uma coleção de comentários versículo por versículo do Novo Testamento apelidada por todos de “Azulão”. Era uma coleção cara e distante das possibilidades de um reles seminarista que contava seus tostões para pagar as fotocópias do mês.

Um colega nosso, que não se destacava muito nos estudos foi para o ministério de final de semana, ocasião em que ajudávamos igrejas da região. O dono da casa onde ele estava hospedado lhe levou até sua extensa biblioteca onde ele se topou com uma coleção novinha do “Azulão”. Em razão de o homem ser um advogado, ele se surpreendeu e comentou:

– Puxa, você tem uma coleção do Novo Testamento versículo por versículo que usamos no seminário.

O homem respondeu prontamente:

– É, mas eu não uso nunca! Se você usa, vou te dar para você levar! Pegue.

Ele contou isso pra nós transbordando de felicidade. Mas eu não esqueço e com vergonha digo o que passou pela minha mente enquanto ele contava:

– Senhor, mas tu dás pão para quem não tem dente! Eu aqui tirando boas notas e mal consigo comprar um livrinho texto pra estudar!

Logo desse pensamento tortuoso, senti uma cutucada do Senhor: Lembra que eu já te capacitei de outra maneira!

A inveja nasce na alma quando nos acostumamos ao processo mental de comparação. Saul andava bem até que escutou o cântico comparativo das mulheres: “Saul  feriu aos seus milhares, mas Davi feriu aos seus dez milhares”.

Olhe pra dentro de si mesmo e se despreocupe com as macumbas da vida, e preocupe-se com as macumbas na sua alma. Pense nos sintomas de quem inveja e olhe-se no espelho:

Você vive de mau humor?

Você critica intensamente a quem é apreciado por todos?

Você é violento em suas palavras e atitudes?

Você vive desconfiado e teme a inveja por parte dos outros?

Então olhe com mais atenção.

Cultivar a inveja é apontar uma arma contra nossa própria alma, pois enquanto pensamos em diminuir os outros esquecemos de desenvolver nossos próprios potenciais. Por não suportar o sucesso dos outros nosso amor é limitado, pois a essência do amar é querer o bem do outro. Viveremos em guerra permanente, sem desfrutar de alegria. Por outro lado quando nos fazemos partícipes da alegria dos outros nunca nos faltarão motivos de festejo.

Quanto aos que lhe invejam saiba que Jesus mesmo nunca se perturbou com a inveja. Ele sabia que os fariseus o atacavam não somente  por suas ideias, mas muito mais por seu apelo junto ao povo. Eles não suportavam a possibilidade de compartilhar seu lugar de autoridade e eminência com quem quer que fosse.

Não seja ingênuo, mas não fique obcecado: “Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, a sombra do Onipotente descansará”. Os acusadores de Daniel conspiraram contra ele, mas Deus corria na frente, assim como corre até hoje. Quando pequeno ouvi em minha terra a seguinte frase que apesar de tosca diz o que precisa ser dito: “Praga de urubu magro, não pega em cavalo gordo!”

Como um cavalo engordado pela mão do Seu  dono, sigo em paz.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

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