Procuram-se ouvidos

– Preciso falar contigo Fabiano.  Estou passando uma série de problemas. Posso falar contigo terça-feira a  tarde.

– Claro, respondi prontamente.

Clara chegou duas horas da tarde, logo após deixar os filhos da escola. Conversou, conversou, conversou.  Naquela época, minha inexperiência não me permitiu estabelecer um tempo para conversa e então para surpresa minha, nosso bate papo se estendeu durante três horas. Durante todo esse tempo, eu apenas fazia perguntas de checagem de dados, e procurava entender o que ela estava tentando me dizer. Abruptamente, antes que eu pudesse dar qualquer conselho ou aprofundar o assunto, ela saltou  da cadeira:

– Tá na hora de pegar meu filho na escola. Muito obrigado pelo aconselhamento disse ela.

Eu já estava sentindo um pouco de cansaço, e me preparava para falar algo, quando ela saiu estabanada porta afora. Me senti frustrado porque não consegui exercer minha função de conselheiro, e aquela situação toda me surpreendeu. Mas qual não foi minha estupefação quando a líder de mulheres veio conversar comigo dizendo:

– Olha, a Clara nunca tinha pedido conselhos pra ninguém. Pela primeira vez ela se abriu com alguém. Ela está maravilhada com os conselhos que tu destes a ela. Disse que foi uma experiência libertadora.

Eu só pude dizer com sinceridade:

– Mas eu não falei absolutamente, nada pra ela. Eu só ouvi…

Essa experiência foi marcante na minha vida no entendimento de uma necessidade desesperada dos pós modernos : a de serem ouvidos. Simplesmente, em qualquer lugar que chego, percebo que se você der um instante de sua atenção, se tornará um confessionário ambulante.

Ouvi a história de um monge que  após partir do monastério para o trabalho social entre populações pobres declarou:  “o tempo de falar acabou”.  Não serei tão radical, mas ouso dizer: é tempo de falar menos, e ouvir mais.

Os cristãos tem fama de falarem demais, de darem conselhos sem entenderem bem os problemas. De simplificarem tudo com chavões famosos, que frustram a qualquer um que necessite uma conversa mais profunda. São pérolas como: Deus vai te dar vitória, Não esquenta, Não fique assim, Estamos em Cristo, não em crise. E com essa palavras vamos sendo descartados.

Cristo é a resposta declaramos, mas não queremos ouvir as perguntas. Eu arriscaria dizer que nestes tempos em que vivemos se quisermos alcançar as pessoas com o evangelho, precisaremos de mais ouvidos ungidos e menos línguas falantes. Seja tardio para falar, aconselha Tiago na sua epístola, e pronto para ouvir.(1)

Um grupo de estudantes universitários americanos teve a ideia de montar uma barraca no meio do campus universitário da faculdade com o simples propósito de ouvir os estudantes. Eles se surpreenderam com o sucesso da iniciativa. Pessoas dos mais diversos panos de fundo abriam seu coração com aqueles desconhecidos. Eles queriam ser ouvidos.

Vejo como é importante para meu filho que eu o ouça. Pai, Pai, olha pra mim! Ele costuma dizer, enquanto fala as coisas que aconteceram na escola. Com certeza o fato de ser ouvido edifica a autoestima de qualquer um e quando olho nos olhos dele e pergunto  sobre os detalhes de suas aventuras escolares, algo mais profundo está sendo sedimentado na alma dele: sou importante!

Nosso problema moderno com ouvir, vem do fato que nunca estamos presentes no momento. Sempre estamos no futuro ou no passado. Essa ansiedade crônica priva as pessoas do nosso ouvido. As vezes até estamos presentes com o corpo, mas viajando no espírito. Enquanto as pessoas falam, nossa alma competitiva está pensando como se defender, ou falar algo tão interessante quanto o que estamos ouvindo. Ou então olhamos o relógio, olhamos para o lado, sacudimos a perna com ansiedade, comunicando o fato que não estamos mais ali.

Desaprendemos a arte de ouvir. Não saboreamos as palavras. Não discernimos  para além do que é dito. Os tons, as ênfases, as pausas. Talvez um novo curso devesse fazer parte de nossos currículos: como aprender a  arte de ouvir as pessoas, sem dar a impressão que você é uma estátua!

Como substituto aos antigos ouvidos de amigos, a sociedade criou o profissional ouvidor, o psicanalista e o psicólogo. Não que esses profissionais não tenham sua importância, longe disso. Tenho formação em aconselhamento e sei muito bem a utilidade das ferramentas que uso, mas certamente teríamos gente mais centrada, sadia emocionalmente se as pessoas recebessem a graça de serem ouvidas.

Não ser ouvido, produz isolamento, e o isolamento produz fantasmas em nossas mentes. Acabamos acreditando em todas as viagens de nossa mente, pois precisamos das pessoas para serem nossos espelhos e nos darem a real. Dificilmente chegamos à fonte de nossos problemas, se alguém não nos ouvir. Nosso processamento de dados sempre estará defeituoso, sem um ouvido humano.

Pense no drama de nossas crianças que passam seu dia inteiro na escola, ou que a vida passa diante da televisão. Quando os pais chegam pela noite, exaustos e ansiando por uma compensação por sua jornada de trabalho competitiva e estressante, já não tem mais a paciência para ouvi-los e os encaixarão em algum divertimento que os distraia convenientemente. Eles vão formando uma geração cheia de medos. Os fantasmas do quarto não vão embora, apenas amadurecem e continuam atormentando os adultos, fortalecendo o consumo de substâncias que são paliativos, para uma formação carente de ouvidos.

Quero desafiar você a pedir, que o Senhor, unja seus ouvidos. Quero pedir a você, que comece a parar para ouvir, e ver o que acontece. Seu mundo nunca mais será o mesmo. Sentado na roda de chimarrão estou esperando ouvir você compartilhar aqui neste espaço sua experiência.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1)    Tiago 1:19

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2 pensamentos sobre “Procuram-se ouvidos

  1. Fabiano. Me lembro de quando tu contou esta estória da irmã do começo do texto. Tomei a liberdade, algumas vezes, de usá-la como ilustração. Esta aula eu não faltei. Um quebra costelas de duas volteadas e meia.

  2. Oi Fabiano! Cara… concordo plenamente com esse relato! Creio que as pessoas muitas vezes não estão esperando algo pra ouvir da nossa parte ou fórmulas prontas para a solução de seus problemas, mas sim alguém que simplesmente escute seu desabafo.
    Grande abraço, Feipe Teixeira.

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