Quando você encontrar minha sombra

Quando você cruzar com minha sombra por aí

Por favor não se surpreenda

Não sou feito só de luzes.

Elas também fazem parte de mim

Não consegui disfarçar

Minha escuridão me fez tropeçar

Tirei a melhor foto, escolhi a melhor pose

Pra você ver no meu álbum

Mas minha falta de esperteza me fez revelar

O que eu sempre tive medo de mostrar

E agora?

O que você vai fazer?

Será que posso continuar como seu amigo?

Será que ainda terei lugar de honra na sua volta?

Será que ainda serei normal?

Mas antes de responder,

Não se esqueça

Que você pode ter sombra parecida

Ou talvez

Terrivelmente pior

Lembre-se que diante do Sol fulgurante da justiça

Não há quem não revele suas sombras

Diante dEle esteve a covardia de Abraão

A violência de Caim

A cabeça quente de Moisés

O nascimento bastardo de Jefté

A omissão de Eli

O assassinato e o adultério de Davi

A idolatria de Salomão

A prostituição de Israel

A violência de Paulo

Jesus também viu a sombra de Pedro

Antes que ela curasse

Antes dele mesmo

Pior do que ele jamais havia imaginado

Todos menos eu, Senhor!

Mas Ele tratou de o colocar no seu devido lugar

Dizendo

Apascenta meus cordeiros.

Querendo dizer

Ainda há um lugar para você Pedro.

Não acima, mas ao lado dos seus irmãos.

Oh Senhor, guarda-me de minhas sombras

Que eu jamais diga que elas pertencem a outrem

Que eu jamais as negue

Que eu jamais deixe de olhá-las nos olhos

Que eu jamais pense que elas são tudo

Que eu jamais pense que elas são nada

Que eu jamais pense que até elas não pode chegar tua luz.

Um abraço quebra costelas

O discípulo gaudério.

Amy Winehouse e a auto sabotagem

Quem em sã consciência deseja destruir a si próprio? Quem na busca de ser bem sucedido dá uma rasteira nas próprias pernas? Quem depois de lutar arduamente para uma conquista, quando está às portas de conseguir coloca tudo a perder? Os auto sabotadores!

Algumas pessoas que sofreram abusos de qualquer ordem, sexual, física ou psicológica acostumam-se a um aterrador estado de miséria.

Pessoas assim, estranhamente gostam de ser mal tratadas. Na verdade preferem a miséria conhecida às aventuras e possibilidades desconhecidas. Aprendi isso trabalhando com populações em extrema pobreza. Tinha certo romantismo a respeito do assunto. É difícil para um jovem simpatizante da esquerda socialista chegar a admitir como veio a acontecer comigo que a pobreza e a miséria é em certos casos uma escolha pessoal.

Você vê pessoas que são exploradas e são incapazes de reagir. Baixam a cabeça, aceitam, apenas lamentam um pouco pelos cantos e gostam de contar suas histórias tristes a quem lhes dá os ouvidos por alguns minutos. Mas tão logo são ajudadas, elas começam  a achar que a compaixão que lhes demonstram é na verdade fraqueza e então mudam o tom e a atitude e começam a ficar exigentes, revelando uma crueldade até então escondida. No fundo elas entendem que não podem ser bem tratadas.

É estranho, pode ser até politicamente incorreto falar, mas existem pessoas que se acostumam a serem escravas, e acham que o tratamento adequado que se deve lhes dar é o de escravo. Se você for uma pessoa que acredita que o certo é o que dá certo, você vai tratar essas pessoas com rigor e terá os melhores resultados. Mas se você for um discípulo de Jesus, você proclamará as boas notícias do amor incondicional de Deus, que nos tira da vida miserável, pois nunca foi seu plano para nós.

Gosto da história do cego Bartimeu. Aí está um personagem bíblico que não acreditou que o seu destino era viver mendigando a sobrevivência durante toda a sua vida. Ouso especular que muitas pessoa na época de Jesus não foram transformadas porque mesmo que recebessem a bênção da saúde, não conseguiriam viver como gente sadia pois a mente estava obstinadamente doente.

Quando Bartimeu ouviu as histórias sobre Jesus, deve ter pensado consigo mesmo:  “Se eu tiver ao menos uma oportunidade, eu vou sair dessa!” Então ele descobriu que o dia havia chegado. O Nazareno passava bem pertinho dele. “Jesus filho de Davi tem misericórdia de mim!” Se esgoelava gritando o cego até o ponto de que tudo o que se ouvia era sua voz. Jesus então pára, e o chama. “Eu já estou curado” pensou ele, e largou a capa que representava a vergonha e o peso de ser cego pelo meio do caminho. Jesus o tocou e ele foi feliz pelo meio do caminho. (1)

Por outro lado vemos Naamã, que durante anos era castigado pela maldição daquela época, a lepra, mas não conseguia ver que tinha diante de si a oportunidade da sua vida: ser curado. Ele havia se acostumado com a lepra. Não queria banhar-se no rio Jordão, porque não estava a sua “altura”. Um doente que recusa remédio. (2)

Seria aconselhável pensarmos até que ponto nós mesmo não somos auto sabotadores. Até que ponto não nos metemos em dívidas financeiras porque no fundo acreditamos que a prosperidade financeira é algo que não merecemos. Até que ponto não estragamos tudo no nosso casamento porque nos sentimos culpados por sermos felizes em meio a tanta infelicidade, até que ponto não encontramos defeitos mortais em nossa vida apenas pelo fato de não tolerarmos que afinal não possamos mais culpar a ninguém nem nos fazermos mais de vítimas.

Conheci um casal cuja vida havia sido marcada pelo ciclo vicioso do alcoolismo.  A mulher chorava e reclamava que o grande motivo da infelicidade de sua vida era o fato de que seu marido havia bebido toda vida e exposto a família a situações de grande vergonha pessoal e pública. Ela dizia que tudo que queria era ver o marido limpo e sóbrio. E então veio a boa nova, chegou o dia em que o marido abraçando a fé em Cristo, largou tudo. Só que o vício não escraviza apenas o viciado, escraviza também a mente da família do viciado, que desaprende a viver bem, e então começa como essa mulher fez, a atazanar a vida do ex viciado, expondo-o a tristeza, raiva e o stress. Condições que pavimentam o caminho de volta ao alcoolismo. E foi o que aconteceu. O marido voltou ao vício e a mulher parecia mais pacificada, pois podia lamuriar-se como antes. Hoje o marido está limpo há muitos anos, mas ela crê que lhe falta “algo”, não consegue sossegar a alma. Mas o que lhe falta é aceitar que pode ser feliz.

Sei que muitos que lêem esses relatos quase não conseguem acreditar, mas o fato é que nós muitas vezes somos os sabotadores de nossa própria alegria, por razões que precisam ser expostas e transformadas pela verdade.

Pobre Amy Winehouse, mais que o corpo, sua mente era escrava e nunca pode encontrar a saída. Ela não sabia o valor que tinha, não do talento que todos sabiam era brilhante, mas o de ser humano criado à imagem e semelhança de Deus. Pobre desta geração que segue pelos mesmos passos, e que precisa de uma etiqueta, uma marca, o álcool, milhares de plásticas para sentir-se bem consigo mesma. Que vão pelo meio do caminho tropeçando em relacionamento problemáticos, aventuras promíscuas, noitadas intermináveis  e escolhas autofágicas sem encontrar paz.

A mensagem da cruz nunca foi tão crucial: Mas Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores. (3)

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1)    Marcos 10:46

(2)    II Reis 5

(3)    Romanos 5:8

A Pedofilia nos Cinemas

Em fevereiro deste ano, numa sessão parlamentar sobre um projeto de lei relativo a crimes sexuais contra crianças em OTTAWA, Ontario, Canadá, especialistas em psicologia afirmaram que a pedofilia é uma “orientação sexual” comparável à homossexualidade ou heterossexualidade. Já não é tão difícil encontrar na internet quem defenda a pedofilia como algo normal, apenas mais uma forma de expressão amorosa na diversidade de possibilidades. Na Holanda, já existe até um partido político criado por pedófilos com o objetivo de defender os seus interesses. É evidente que hoje a mídia é quem dita as tendências. Basta que os donos do poder mediático queiram para que um determinado produto faça sucesso e arrecade milhões. É assim que jogadores de futebol são projetados, roupas são colocados em evidência e viram moda, comportamentos são moldados. Quem algum dia já assistiu a uma telenovela sabe do que eu estou falando. Quem nunca ouviu a expressão “já é normal!”?
Os festivais de cinema no Brasil estão apresentando atualmente o filme “A Serbian Film: Terror sem Limites”. Para que o leitor tenha uma idéia, este é o filme mais censurado dos últimos 16 anos no Reino Unido (só foi liberado para exibição após 49 cortes). De acordo com o site Folha.com “o longa tem incesto, pedofilia, necrofilia, violência a granel (incluindo dois assassinatos em que a arma é um pênis) e, em seu momento mais polêmico e chocante, o estupro de um recém-nascido”. O trailer do filme já pode ser visto em sites e blogs na rede. Enquanto alguns argumentam que o filme mostra apenas a ‘realidade’, outros ainda conseguem demonstrar a saudável capacidade humana de se indignar. Já o diretor do filme, o sérvio Srdjan Spasojevic, 35, argumenta contra as críticas dizendo que “estamos no século 21, seria de imaginar que tudo já foi dito e visto, mas de novo estamos vendo uma caça às bruxas porque alguém não gostou de um filme”. Ou seja, parece que estar no século XXI justifica qualquer coisa. O diretor estreante se surpreende de que ainda haja alguma coisa que não seja normal!
Mesmo que o filme não queira exaltar a pedofilia nem a necrofilia, fica a questão a respeito dos limites da arte. Sim, o ser humano é capaz das coisas mais horrendas. E, o fato de muitos sentirem algum tipo de prazer mórbido com esse tipo de espetáculo, apenas confirma isso. Portanto, não serei surpreendido quando os ‘moderninhos’ da televisão começarem a ‘inovar’ também nas telenovelas brasileiras, gerando debates e entrevistas em programas de auditório para abrir a mente da retrógrada sociedade brasileira sobre a beleza do amor ‘diferente’. Afinal, é a realidade, não é!? Viva a diversidade! Dizer algo mais seria atentar contra a liberdade de expressão! Enquanto isso, os verdadeiros artistas, aqueles que realmente conseguem enxergar a realidade e expressar isso em sua arte, permanecem no ostracismo.

Fonte:

http://rodomar.blogspot.com

Fantasias do Passado

Você fantasia os velhos tempos?

A distância histórica de realidades passadas

Faz mal a memória,

faz você colocar chantilly na tragédia de outrora.

Faz esquecer que não havia só pepinos e melões no Egito. (1)

Havia o rigor da agenda, o estalar da chibata

A truculência, o desprezo e o medo no coração.

Você acredita que o que foi jamais será de novo?

O maná pode e será novo. (2)

O de ontem não serve para hoje.

O de amanhã virá naturalmente, sobrenaturalmente.

Dê tudo de si hoje, não guarde nada, a noite que vem restaurará tua vida.

Não se doe as gotas, derrame-se aos baldes.

Você já enterrou seus mortos?

Não vigie cadáveres que já morreram. (3)

Antes que o mau cheiro comece a fazer de você comida atrativa para os abutres da existência.

Enterre-os, coloque um ponto final.

A piada que fazia rir, não tem mais graça.

A chave que abria a porta se desgastou.

A conversa que entretinha, agora só faz dormir.

Pessoas que já foram, deixe que  vão em paz.

Há tempo de lamentar, e tempo de parar de lamentar.

É momento de engravidar do novo pela fé.

Não será igual.

Pode ser melhor.

Porque viver na memória, faz mal pra nossa história.

A alma amedrontada com os desafios do presente,

recorre a mentira de um passado que jamais existiu.

Ah se estivéssemos no tempo dos profetas faríamos diferente diziam os fariseus.

Ah, se Jesus estivesse hoje, como o honraríamos dizem os discípulos seus.

Vejam só como a distância faz o olho ficar míope.

O meu tempo é hoje

A grande oportunidade é agora

A decisão mais importante é aqui.

Um mundo de possibilidades está aberto.

Não há ninguém para culpar

Abrace essa terrível liberdade!

Pare, pense e enxergue.

 

Um abraço quebra costelas

O discípulo gaudério.

(1) Números 11:5

(2) Êxodo 16:16

(3) II Samuel 21:10

 

 

 

 

TESTE OS SEUS NÍVEIS DE MATERIALISMO

Hoje o blog vai ajudar você a fazer um autoexame no coração. Em um mundo materialista cabe ao discípulo vigiar sua vida.

“Os olhos são a candeia do corpo. Se os seus olhos forem bons, todo o seu corpo será cheio de luz. Mas se os seus olhos forem maus, todo o seu corpo será cheio de trevas. Portanto, se a luz que está dentro de você são trevas, que tremendas trevas são!” (1)

Nesse texto cabe uma explicação: o sentido de “olhos bons” no mundo judaico é ser generoso e ter um “olho mau” é ser avarento, materialista. O que implica que uma vida dominada pelo materialismo se verá afetada em todas outras áreas de sua vida: espiritual, física e relacional. Dores de estômago, frieza espiritual e dificuldades em se relacionar são as consequências dos “olhos maus”.

Vejamos então os sintomas de quem já foi atingido pelo espírito de Mamom:

1.   O tempo gasto exclusivamente no trabalho, sem dedicar-se à obra de Deus, a família e amigos. A vida é uma permanente busca de equilíbrio. Nossa agenda mostra onde está o nosso coração. Se você tem recebido constantes reclamações de sua esposa e filhos de que precisam de atenção, ou ainda recebe aquele tipo de comentário dos amigos: Puxa não te  vejo mais! É hora de tomar cuidado.

2.   Orações que são apenas listas de compras.  Nossa relação com Deus envolve pedir. A Bíblia nos ensina que devemos pedir. Mas quando tudo o que pedimos se refere a ambições financeiras, é possível que estejamos querendo fazer a união entre Deus e Mamom.

3.   Orçamento sem espaço para investir em algo que não seja do interesse pessoal. Faça uma relação dos seus gastos mensais e veja se você está contribuindo com algo que não seja sua causa pessoal.

4.   Constante queixa a respeito da situação financeira. A maioria das pessoas que eu conheço cujos negócios estão prosperando tem o patético costume de ficar reclamando da situação: Tá difícil! Dizem. O que nos faz suspeitar que eles têm medo que alguém lhes peça dinheiro emprestado.

5.   Felicidade ligada exclusivamente a ganhos materiais. Ouvi de uma pessoa conhecida: Eu fico feliz quando tenho dinheiro no bolso. Como fica o seu humor quando você não tem muito dinheiro no bolso? As pessoas que estão na sua volta percebem que o seu humor muda? Você não consegue ver alegria na vida sem dinheiro?

6.   Dificuldade em compartilhar bens que aprecia. Pense naquele bem que é o seu favorito. Que você cuida com muito carinho. Pode ser o carro, mp3, guitarra ou notebook. Pense agora! Você coloca a disposição de Deus se Ele precisar? Jesus quando foi entrar em Jerusalém mandou seus discípulos buscarem um jumentinho na casa de um conhecido com a justificativa: O Senhor o precisa! Quando o Senhor através da vida de outras pessoas precisa do que é seu, Ele pode mandar buscar?

7.   Atitude oportunista no relacionamento com as pessoas. A frase favorita destas pessoas é: “O que é que eu ganho com isso?” Muitas pessoas que conheço selecionam suas amizades de acordo com o status financeiro. Reservam sua afetuosidade e benignidade aqueles que têm dinheiro.  Como você seleciona as suas amizades? Costuma evitar andar com quem não tem nada, para não “queimar seu filme”?

8.  Endividamento crônico. Emergências acontecem. Precisamos internar alguém, pagar medicamentos caros, nosso carro estraga e somos empurrados para as dívidas. No entanto, se  ano após ano permanecemos endividados e continuamos com nosso nome no SPC ou Serasa ou sem pagar aquilo que devemos isso aponta para uma necessidade de viver um estilo de vida que não está adequado ao nosso salário.

9.  Preocupação obsessiva com o futuro. Pessoas assim estão sempre antecipando a desgraça e imaginando um quadro assustador porque o que mais temem em seu coração é perder tudo o que tem.

Se qualquer uma das características acima faz parte do seu estilo de vida, está na hora de você rever seus conceitos sem colocar panos quentes.

Serviremos a Deus com nosso dinheiro, ou serviremos ao dinheiro como a um deus?

A resposta não está nos seus lábios, mas no seu estilo de vida.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1)    Mateus 6:22,23

Futebol e Espiritualidade

Devo confessar que o futebol é uma das características mais peculiares do que é minha humanidade primitiva.  Sim, porque muitas vezes me coloco a pensar naquilo que costuma dizer minha esposa e tantas outras mulheres e racionalmente concordo com elas. Afinal de contas não são apenas 22 homens correndo atrás de uma bola de couro? Porque tanta tristeza? Porque tanta alegria? Porque tanto tempo conversando no final das reuniões? Porque depois de duas horas assistindo a uma partida ainda toleramos duas horas mais de comentários sobre os comentários do que aconteceu dentro de campo?

Na comunidade evangélica entre os que como eu, são pastores, às vezes rola certa hipocrisia. Ninguém tem coragem de assumir seu amor pelo clube. Pelo menos no primeiro momento. Lembro-me de uma ocasião no ano de 1994 em que estávamos em uma reunião da Convenção para redigir os estatutos  entre vários líderes. Nesse final de semana jogava Brasil e Holanda. Na hora do jogo deveríamos ter uma reunião. Ninguém se animava a propor a suspensão para ver o jogo. Então eu no impulso de juventude decidir propor: quem sabe fazemos a reunião depois e vemos o jogo agora? Todos aceitaram no momento sem contestação, mas com dissimulada frieza.

Durante o jogo ninguém se pronunciava. Tínhamos a impressão que aqueles homens eram indiferentes a questões do futebol. Parecia, mas não eram. O que acontecia era que o jogo estava tranquilo. O Brasil ganhava por dois a zero. Mas logo veio o surpreendente empate da Holanda, e a tensão se estabeleceu entre nós. Branco prepara para cobrar a falta, dispara um petardo, a bola cruza as costas de Romário que instintivamente se desvia e vai morrer no canto esquerdo do goleiro. Nossa máscara cai: aqueles homens como todos os outros brasileiros pulam e gritam na sala como crianças celebrando a vitória da Seleção Brasileira.

O que então faz do futebol um esporte único?

O futebol tem o poder de aproximar. Quando viajei para Singapura para fazer um curso de liderança do Instituto Haggai juntamente com líderes de todo o chamado terceiro mundo, percebi melhor do que nunca como a paixão pelo futebol move as pessoas. Toda vez que eu dizia que era do Brasil, imediatamente meu interlocutor abria um sorriso e falava: Ronaldô ou dizia como outros: Vocês brasileiros nos fazem sonhar.

O futebol é amplamente democrático. Todos podem falar de futebol. O assunto une misteriosamente homens e mulheres de diferentes estratos sociais. Não se requer preparo intelectual e se concede o direito a qualquer pessoa de falar com autoridade sobre a questão.

O futebol tem poder de deprimir e embriagar de alegria. É pura paixão. Casagrande ex- jogador da Seleção e grandes clubes do Brasil e hoje comentarista, foi engolido pelas drogas depois de parar de jogar, apesar de ter família e estrutura pessoal. Quando entrevistado declarou: “Senti falta daquela adrenalina, queria de volta a emoção dos estádios cheios. Foi quando caí de cabeça nas drogas”.

O futebol tem o poder de surpreender. Uma partida de futebol consegue exprimir a existência em 90 minutos. É um microcosmo da vida. Nele podem acontecer a danação ou redenção em poucos minutos. Nem sempre o mais forte vence. O talento é importante, mas não definitivo. Um descuido e a história de uma partida  pode mudar tragicamente. Um erro, e tudo se perde.

Ouço que o futebol é ruim porque transforma a pessoas. Mas o futebol não transforma ninguém, revela como são as pessoas na vida real. Quer saber como é alguém? Coloque a jogar futebol e logo você verá como ela encara o fracasso, como lida com a frustração, como vê o coletivo e o pessoal, como enfrenta adversidades como lida com a limitação dos outros e a sua própria entre outras questões.

No começo dos anos 80 sob a influência do meu irmão mais velho, me assumi gremista. Meu pai era um colorado de bom coração. Nunca gostou nem curtiu ver os filhos sofrerem. Nunca entrou em guerra pessoal por causa do futebol.  Nos áureos tempos dos setenta a única flauta que ele tocava para nós era o comentário sarcástico após os jogos: Vamos ouvir a narração do jogo de novo, quem sabe o goleiro não impede o gol dessa vez. Mas era só.

Tive o privilégio de ver Renato Portaluppi  estraçalhar defesas com personalidade e habilidade. Passei por toda aquela década de 80 e a próxima celebrando as grandes conquistas do tricolor. Mas aprendi a colocar o futebol no seu devido lugar. Jamais perdi uma amizade pelo futebol. Se alguém não sabe brincar ou leva a brincadeira a sério demais, logo me calo. Prefiro perder a discussão a perder um amigo.

A face mais tenebrosa do futebol é a sua capacidade de cegar e fanatizar, o momento em que ele se transforma em religião como tem acontecido nestes tempos. Com a falência dos partidos políticos, a desagregação familiar, a falta de um projeto de vida, o futebol assume o protagonismo na sociedade como opção de transcendência. No clube de futebol se veem projetadas todas as esperanças e expectativas da vida de milhares de pessoas. Quando isso acontece a capacidade de tolerar a frustração cai em seus níveis mais baixos e então pessoas aparentemente sadias são capazes dos maiores absurdos quando enfrentam a derrota do seu time. O pior da natureza humana se vê derramado no estádio. Uma catarse social desatinada.

A cegueira se instala de tal maneira que não conseguimos enxergar que por detrás daquela camiseta adversária existe uma família, dramas pessoais, uma rotina um trabalho, uma pessoa em sua multiforme riqueza. Sim o futebol como religião perverte e desencaminha. Aliás, qualquer instituição  que ocupa o lugar do Reino desencaminha o homem e seu propósito na face da terra.

O evangelho é minha sobriedade. Nada faz sem convidar a pensar e considerar. Arrependimento é mudança de mente. Quando o Reino ocupa o primeiro lugar, regula as  doidices de nossos corações e coloca as instituições humanas no seu devido lugar e proporção de importância. Livre de todos posso servir a todos como disse o apóstolo Paulo.(1)

Podemos ter preferências políticas, paixões clubísticas, e simpatias filosóficas, mas nenhuma pode rivalizar com nossa devoção ao Mestre de Nazaré.

Da mesma forma cabe a nós resistir à tentação de utilizar o nome de Jesus para turbinar essas paixões institucionais com força divina.

O Evangelho não tem nenhuma aliança a fazer, mas tem tudo a dizer para todos.

Com a cabeça e o coração no Reino de Deus em primeiro lugar:

O discípulo gaudério.

(1)    I Coríntios 9:19-22

(2)    Lucas 9:51-56

As Mentiras de Mamom

Ouço de gente bem intencionada que o dinheiro é neutro. Legal, parece uma filosofia equilibrada, mas quando lemos o evangelho não parece que Jesus teve essa opinião. Ele diz claramente que o dinheiro frequentemente é um obstáculo para o crescimento espiritual e para a entrada no Reino de Deus.

“Vocês não podem servir a Deus e as riquezas” (1)

“É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus.” (2)

Ele diz que as riquezas rivalizam com Deus. O dinheiro exerce uma força invisível no coração do ser humano. Se você for ingênuo será dominado rapidamente sem se perceber como um caboclo dormido se vê enrolado e devorado vivo por uma sucuri.

Como o Um Anel da saga de Tolkien, o dinheiro arromba a alma humana exigindo dela devoção e preocupação total. É muito fácil planejar ser generoso com o dinheiro dos outros, é  muito fácil ter as melhores intenções quando o dinheiro não está na nossa mão, mas uma vez que está a coisa muda de figura. Observe a história das pessoas que ganharam altas somas de dinheiro na loteria, e veja como a esmagadora maioria perdeu tudo que tinha em bem pouco tempo sem fazer quaisquer benfeitorias conforme planejou. Veja como você mesmo muda quando tem dinheiro na mão.

Nos últimos anos vim a entender que o dinheiro é uma entidade espiritual, que tem sua lógica e espiritualidade próprias. Nele habitam poderes e promessas que impedem o servir a Deus. Um discípulo deve aprender a lidar com esse poder. E não é uma oração simples de “Sai Mamom em nome de Jesus”, mas uma vida que diariamente submete seu coração ao escrutínio e poder do Mestre. As mentiras do dinheiro tem determinado que a vida das pessoas se torne angustiada, ansiosa e tragicamente longe de Deus. Vamos desmascarar algumas delas:

A primeira grande mentira de Mamom: se tenho dinheiro, tenho segurança. Segurança conforme buscamos, não existe em lugar nenhum nesta terra. Mas todo político ou líder inescrupuloso sabe que vender segurança é um grande negócio entre os homens. Os perigos estão sempre a espreita em cima de nossa cabeça, ao nosso lado e em lugar nenhum. Se formos objetivos veremos que apegar-se ao dinheiro como fonte de segurança é na verdade um maximizador de aflições. Um pai de família morreu tropeçando em seu próprio pátio e batendo a cabeça em um canteiro. O bilionário morreu vítima de uma doença rara e incurável.

A segunda grande mentira de Mamom: se tenho dinheiro, sou importante. Sempre fomos importantes, sempre seremos importantes, porque está consumado! Independentemente do que avaliam meus pares, da cotação na bolsa de valores, uma ponderação realista me diz que sou pó como qualquer outro ser humano, mas também sou gloriosamente menor apenas que os anjos como Deus fala que sou.(3)

A terceira grande mentira de Mamom: se tenho dinheiro, posso controlar meu futuro (e o dos outros). Claro que o dinheiro nos dá muitas possibilidades, mas o desejo pelo controle que nos move na busca desenfreada por mais jamais será satisfeito pelo dinheiro. Alguns pais que possuem muito percebem quando seus filhos crescem que não conseguem que eles façam tudo o que planejaram para eles apenas pelo fato de terem dinheiro. Os discípulos de Mamom são implacáveis em meio a seus delírios! O que você acha que George Bush pensou quando entrou naquela guerra no Iraque? Certamente ele nunca imaginou que teria tantos problemas e que lançaria sua nação em um período de recessão histórico. Mas trilhões de dólares sabem contar uma boa mentira.

A quarta grande mentira de Mamom: se tenho dinheiro, desfruto mais a vida. É o antigo pensamento de que para desfrutar de algo preciso possuir um pedaço ou comprar algo para mim. Assim é que vamos à praia e cremos que teremos mais prazer quando tivermos um pedaço daquele lugar, visitamos a serra e queremos ter uma casa ali, quando na verdade teremos mais desgastes. Aproveitar é simples, você só precisa abandonar a necessidade de possuir.

A quinta mentira de Mamom: se tenho dinheiro, todos devem me servir. Aqui assumimos um complexo de Deus, que faz exigências de todo poderoso. É o último estágio que nos coloca contra o mundo e contra o amor. Nossas relações serão amaldiçoadas transformando-se em puro negócio.

Quando você morrer, o que acontece com 100% das pessoas deste mundo, você deixará tudo que ajuntou para alguém, só levará aquilo que pode habitar o coração.  Será mais lucrativo para você que fosse o amor.

Se você conseguir enxergar o dinheiro como Jesus enxerga, você será um discípulo de grande utilidade no Reino e livre como poucos para dizer o que precisa ser dito e fazer o que precisa ser feito.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1)    Mateus 6:24

(2)    Mateus 19:24

(3)    Salmos 8

Uma história de amor firme!

Uma de minhas lembranças mais indeléveis diz respeito ao tempo em
que eu era paciente de um centro de reabilitação numa cidadezinha ao
norte de Mineápolis, em abril de 1975. O cenário era uma sala de
recreação ampla e de dois andares na orla de uma colina com vista para
um lago artificial. Vinte e cinco dependentes químicos estavam reunidos.
Nosso líder era um experiente conselheiro, hábil terapeuta e membro
veterano da equipe. Seu nome era Sean Murphy-O’Connor, mas ele
normalmente anunciava sua chegada dizendo:
— É ele mesmo. Vamos trabalhar.
Sean mandou que um paciente chamado Max assumisse a “cadeira de
interrogatório” no centro do grupo disposto em “U”. Max, um homem
franzino e de baixa estatura, era um cristão nominal, casado e com cinco
filhos, proprietário e presidente de sua empresa, rico, afável e dotado de
uma pose notável.
— Desde quando você tem bebido como um porco, Max? — Murphy-
O’Connor havia começado o interrogatório.
—Isso é injusto — Max recolheu-se.
—Veremos. Quero saber da sua história com a bebida. Quanta cachaça
por dia?
Max reacendeu seu cachimbo.
—Tomo dois Marys com os rapazes antes do almoço e dois Martins
depois que o escritório fecha, às cinco. Depois…
—O que são Marys e Martins? — interrompe Murphy-O’Connor.
—Bloody Marys: vodca, suco de tomate, uma pitada de limão e de
Worcestershire, um toque de extrato de pimenta vermelha; e martinis:
gim, extra-seco, gelado com uma azeitona e uma espremida de limão.
—Obrigado, Mary Martin. Prossiga.
—Minha esposa gosta de um drink antes do jantar. Viciei-a em Martins
há muitos anos. Claro que ela os chama de “aperitivos”, — sorriu Max.
— Vocês naturalmente entendem o eufemismo, não é verdade,
senhores?
Ninguém respondeu.
—Como eu ia dizendo, tomamos dois martinis antes do jantar e mais
dois antes de dormir.
—Um total de oito drinks por dia, Max? — quis saber Murphy-O’Connor.
—Exatamente. Nem uma gota a mais nem a menos.
—Você é mentiroso.
Sem se abalar, Max explicou: — Vou fingir que não ouvi isso. Estou na
ocupação há vinte e tantos anos e construí minha reputação em cima da
honestidade, não da falsidade. As pessoas sabem que minha palavra é de
confiança.
—Já chegou a esconder uma garrafa em casa? — perguntou Benjamim,
um índio navajo do Novo México.
Mateus, e que a história do roto e do rasgado era um provérbio secular
que não constava nos Evangelhos. Senti, porém, que um espírito de
presunção e um ar de superioridade espiritual haviam me envolvido de
repente como um nevoeiro. Decidi abrir mão da correção fraternal. Afinal,
eu não estava em Hazelden fazendo uma pesquisa para um livro. Eu era
apenas um bêbado incorrigível como Max.)
— Tragam-me um telefone — disse Murphy-O’Connor.
Um telefone foi trazido num carrinho para a sala. Murphy-O’Connor
consultou um bloco de notas e discou um número interurbano — para a
cidade de Max. O receptor era amplificado eletronicamente, de modo que
a pessoa do outro lado da linha podia ser ouvida claramente por todos no
salão do lago.
—Hank Shea?
—Ele mesmo. Quem está falando?
—Meu nome é Sean Murphy-O’Connor. Sou conselheiro de um centro de
reabilitação de drogas e álcool no Meio-Oeste. Você se recorda de um
cliente chamado Max? (Pausa) Ótimo. Com a permissão da família dele
estou pesquisando a história de Max com a bebida. Como você
trabalha como barman nesse lugar todas as tardes, fiquei pensando se
você saberia me dizer aproximadamente quantos drinks o Max
consome diariamente.
—Conheço o Max muito bem, mas você tem certeza que tem
permissão para me interrogar?
—Tenho uma declaração assinada. Pode falar.
—Max é um cara fantástico. Gosto demais dele. Ele despeja trinta
contos no balcão toda tarde. O Max toma os seus seis martinis básicos,
compra mais uns drinks e sempre me deixa uma gorjeta de cinco
dólares. Grande sujeito.
Max pôs-se de pé num salto. Erguendo a mão direita
desafiadoramente, ele despejou um caudal de palavrões digno de um
estivador. Ele atacou os ancestrais de Murphy-O’Connor, colocou em
dúvida a legitimidade de Charlie e a integridade de toda a unidade de
tratamento. Ele agarrou-se ao sofá e cuspiu no tapete.
Então, num feito notável, recuperou imediatamente a compostura. Max
sentou-se e observou sem qualquer afetação que até mesmo Jesus havia
perdido a paciência no Templo ao ver os saduceus comercializarem
pombas e bolos. Depois de uma prédica improvisada sobre a ira
justificada, ele reabasteceu o seu cachimbo, imaginando que o
interrogatório havia terminado.
—Você já tratou mal algum dos seus filhos? — Fred perguntou.
—Fico feliz que você tenha levantado esse assunto, Fred. Tenho uma
profunda ligação com meus quatro garotos. No último dia de Ação de
Graças levei-os para uma expedição de pescaria nas Rochosas. Quatro
dias de vida dura no mato. Foi memorável. Dois de meus filhos
formaram-se em Harvard, você sabe, e Max Jr. está no terceiro ano
da…
—Não foi o que eu perguntei. Pelo menos uma vez na vida todo pai
trata mal um de seus filhos. Tenho sessenta e dois anos e posso
assegurar que é assim. Agora dê-nos um exemplo específico.
Seguiu-se uma longa pausa. Finalmente:
—Bem, fui um tanto duro com minha filha de nove anos na última
véspera de Natal.
—O que aconteceu?
—Não lembro. Apenas fico com uma sensação de pesar quando penso
nisso.
—Onde aconteceu? Quais eram as circunstâncias?
—Espere aí um minuto — a voz de Max ergueu-se com fúria. — Já disse
que não lembro. Só não consigo me livrar dessa sensação ruim.
Sem alarde, Murphy-O’Connor discou mais uma vez para a cidade de
Max e falou com a esposa dele.
—Sean Murphy-O’Connor falando, minha senhora. Estamos no meio de
uma terapia de grupo e seu marido acaba de contar que tratou mal sua
filha na véspera do Natal passado. A senhora poderia fornecer os detalhes,
por favor?
Uma voz suave encheu a sala.
—Sim, posso contar-lhe a coisa toda. Parece que foi ontem. Nossa filha
Debbie queria um par de sapatos de presente de Natal. Na tarde de 24 de
dezembro meu marido levou-a de carro até a cidade, deu-lhe sessenta
dólares e disse que ela comprasse o melhor par de sapatos que houvesse
na loja. Foi exatamente o que ela fez. Quando entrou novamente na
caminhonete que meu marido estava dirigindo, ela beijou-o no rosto e
disse que ele era o melhor pai do mundo. Max estava orgulhoso como um
pavão e decidiu celebrar no caminho de volta para casa. Ele parou no
Cork’n Bottle, um bar que fica a alguns quilômetros da nossa casa, e disse
a Debbie que voltava já. Era um dia limpo e extremamente frio, cerca de
vinte graus abaixo de zero, por isso Max deixou o motor funcionando e
fechou as portas do lado de fora de modo que ninguém pudesse entrar.
Isso era um pouco depois das três da tarde, e…
Silêncio.
—Sim?
O som de uma respiração pesada encheu a sala de recreação. A voz
esmoreceu. Ela estava chorando.
—Meu marido encontrou no bar alguns velhos colegas do exército.
Envolvido na euforia da reunião, ele perdeu a noção de tempo, de
propósito e de tudo o mais. Ele saiu do Cork’n Bottle à meia-noite. Bêbado.
O motor havia parado de funcionar e as janelas do carro estavam
bloqueadas com o gelo. Debbie tinha graves ulcerações de frio nas orelhas
e nos dedos da mão. Quando a levamos ao hospital, os médicos tiveram
de operar. Amputaram o polegar e o indicador da mão direita. Ela vai ficar
surda pelo resto da vida.
Max parecia estar tendo um ataque do coração. Ele lutava para manterse
de pé, fazendo movimentos desajeitados e descoordenados. Os óculos
voaram para a direita e o cachimbo para a esquerda. Ele caiu de quatro,
soluçando histericamente.
Murphy-O’Connor levantou-se e disse suavemente:
—Vamos circulando.
Vinte e quatro alcoólicos e viciados subiram a escadaria de oito
degraus. Viramos à esqueda, reunimo-nos ao longo da amurada do
mezanino e olhamos para baixo. Ninguém consegue esquecer o que viu
naquele dia, vinte e quatro de abril, exatamente ao meio-dia. Max ainda
estava de quatro. Seus soluços haviam crescido a berros. Murphy-
O’Connor aproximou-se dele, pressionou seu pé contra o tórax de Max e
empurrou. Max rolou de costas no chão.
—Seu canalha miserável — urrou Murphy-O’Connor. — Tem uma porta à
sua direita e uma janela à sua esquerda. Tome o que for mais rápido. Saia
daqui antes que eu vomite. Não dirijo um centro de reabilitação para
mentirosos.
A filosofia do amor duro está baseada na convicção de que nenhuma
recuperação efetiva pode ser iniciada até que o homem admita que é
impotente diante do álcool e que a vida tornou-se ingovernável. A
alternativa a encarar a verdade é sempre uma forma de autodestruição.
Para Max havia três opções: a insanidade eventual, a morte prematura ou
a sobriedade. Para libertar o cativo é preciso dar um nome ao cativeiro. A
negação de Max teve de ser revelada através de uma interação
implacável com seus companheiros. Seu auto-engano teve de ser
desmascarado em todo o seu absurdo.
Mais tarde naquele dia Max implorou e obteve permissão para continuar
o tratamento. Ele acabou experimentando a mais impressionante
mudança de personalidade que já testemunhei. Max tornou-se
transparente e mais aberto, sincero, vulnerável e afetuoso que qualquer
homem do grupo. O amor duro tornou-o real e a verdade o libertou.
O desfecho da história: na noite anterior ao dia em que Max completou
seu tratamento, Fred passou pelo quarto dele. A porta estava aberta. Max
estava sentado à sua escrivaninha lendo um romance chamado
Watership down. Fred bateu e entrou. Por diversos momentos Max
permaneceu sentado olhando para o livro. Quando levantou os olhos, sua
face estava marcada de lágrimas.
— Fred — ele disse roucamente —, acabo de orar pela primeira vez em
minha vida.
Max estava no caminho do conhecimento de Deus.

Extraído de O Evangelho Maltrapilho, livro que não canso de ler, e que tem revolucionado minha vida nos últimos anos como poucos.

Juventude e narcisismo

A história de Narciso vem da mitologia grega. Narciso era um jovem extremamente bonito, mas não sabia de sua beleza, até que foi até o rio onde se banhava e contemplou sua própria imagem. Apaixonado por sua própria imagem, Narciso voltava continuamente para o rio e ficava horas contemplando sua própria imagem até que caiu no rio e morreu afogado. Daí temos a nossa palavra narcisismo que significa, fascínio desmedido com a própria imagem, idolatria do ego. Apesar de ser uma história pagã guarda dentro de si lições valiosas.

Autoimagem saudável é fundamental para saúde de todos os nossos relacionamentos. O narcisismo é um dos polos da relação que temos com nossa imagem. Se uma autoimagem negativa é ruim, do outro lado uma imagem demasiadamente positiva também traz seus prejuízos, além de não condizer com a realidade. (1)

Um narcisista gosta de falar de si mesmo. Aprecia uma entrevista e não é a toa que muitos deles estão na mídia, a custa do pensamento “falem mal, mas falem de mim “. Em geral propalam suas conquistas e suas grandezas sem nenhuma cerimônia.

Às vezes fico pensando na desculpa que ouço de tantas pessoas que frequentam nossas igrejas: “não tenho tempo para orar e ler a palavra e outras práticas de saúde espiritual” e penso no quanto encontramos tempo para o cuidado com nossa imagem. Todos os dias tomamos nosso banho, penteamos o cabelo, procuramos a melhor roupa, gastamos com cremes que retardam envelhecimento, que deixam nosso cabelo mais brilhante e viçoso e não reclamamos nem um pouco do penoso processo diário para deixar nossa imagem irretocável.

As mídias sociais ajudam a exacerbar esse fascínio com a própria imagem. O álbum de fotos é o lugar de deleite de um narcisista. Nele se pode expor a  própria imagem ao mesmo tempo em que se curte cada comentário.

– Como estás bonita na foto! Uau. Qual o número do telefone! Escrevem alguns.

– Ai, brigaduuuu! Responde a menina embriagada com o elogio.

Os homens que não costumavam ser tão afeitos ao espelho também podem ser vistos nas redes sociais com o torso desnudo ensaiando poses sensuais (NOT). Um destes perfis clássicos copiados em muitas apresentações do Orkut de jovens chega a ser chocante pelo nível de narcisismo nele contido. Aqui vai a pérola:

GOSTOU?
PEGA A SENHA…
PEGOU A SENHA?
FINAL DA FILA…
CHEGOU SUA VEZ?
PEGA DE JEITO…
PEGOU DE JEITO?
DÁ VALOR…
NÃO DEU VALOR?
ABRIU PRA CONCORRÊNCIA…
NÃO QUER?
TEM QUEM QUEIRA…
QUER DE NOVO?
DESCULPE MAS FIGURINHA REPETIDA NÃO COMPLETA MEU ALBÚM…
ME ODEIA?
TENTE ME SUPERAR…
ACIMA DE MIM SÓ DEUS!!!!!

O culto da imagem pode ser engraçado por ser patético, mas grande parte de nossa juventude  está obcecada pela própria imagem. Às vezes fico preocupado com o fato de que muitas vezes sequer vivemos nossos momentos especiais, tão preocupados que estamos em registrá-los no nosso álbum fotográfico, afinal imagem é tudo!

Narcisistas terão dificuldades com o processo natural do envelhecimento. Ouvi de uma jovem de dezesseis anos: já estou ficando velha! Quase gargalhei, mas logo percebi como ela enxergava o mundo a partir das lentes da imagem pessoal. Sim o mundo de narciso não suportará as rugas, a perda das sensações, a doença e negará até o fim a realidade da morte. Poucos são os jovens que comparecem a funerais. A maioria deles foge, pois a morte não faz sentido no seu jeito superficial de enxergar o mundo.

Jovens narcisistas jamais pensam em mudar o mundo, tão pouco em mudar pessoalmente, a única mudança com que sonham é a do corpo. Quem sabe mais massa muscular, silicone, ou uma cirurgia plástica.

Narcisistas dificilmente tomarão posição por um amigo se isso não contribuir para sua popularidade, não ajudarão ninguém se isso não contribuir para o aumento do ibope. Basta observar os benfeitores que doam muito dinheiro sempre fazendo questão de publicar o que fazem em alto e bom som. Na família os narcisistas resistirão a reconhecer o valor dos irmãos, se incomodarão com a atenção partilhada, farão pirraça, cenas escandalosas a fim de manterem o foco em si mesmas. Exigirão o melhor pedaço, o melhor quarto, a melhor roupa, serem os primeiros a usar tudo. Sobre eles repousará uma maldição auto imposta: serão incapazes de amar com profundidade a outra pessoa, pois estão fascinadas consigo mesmas. Apesar de o instinto sexual as aproximar dos outros, o narcisismo a afastará, sem que ela consiga explicar.

A face mais perversa do narcisismo é a religiosa. O pecado de Lúcifer foi achar que era maior que Deus, e não faltam pessoas cegas dentro das nossas comunidades brigando para serem os maiores. Nem os próprios discípulos de Jesus foram imunes a um ataque narcisista. Essas pessoas estão focadas em ocupar posições que fortaleçam sua imagem junto ao povo, assim é que você vê uma porção de gente ocupando púlpitos sem terem nada o que dizer, a não ser uma compulsão por estar em evidência, uma multidão de ministros de louvor que entram em crise se não são escalados em um evento de grande exposição pública e outras comunidades insanas que sobrevivem na base da promessa de cargos pomposos que mexem com a vaidade dos ocupantes. Ah quantos rastejam em nossas comunidades apenas em busca de uma massagem em seu ego gigantesco!

Assim é que temos configurada nossa sociedade, as pessoas falam muito dos direitos e esquecem os deveres, querem ser ouvidas, mas não ouvem ninguém, enxergam os defeitos dos outros, mas ignoram os seus.

Aos discípulos de Jesus cabe dizer, que este não é nosso caminho, posto que nele não são admitidos a cruz, o sacrifício e a entrega. O destino desse projeto de vida é a morte e a perdição, apesar de brilhante e desejável aos olhos. Não esqueça, aquelas pessoas que fizeram maior diferença em sua vida, foram aquelas que esquecendo de si mesmas entregaram parte de quem eram para que você crescesse e fosse beneficiado. Aquele que conhece a realidade e não a esconde de nós já deixou dito: quem quiser salvar a sua vida, a perderá, mas quem perder sua vida por minha causa, a encontrará.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1) Romanos 12:3

(2) Mateus 16:25