Paternidade Espiritual

Mentor, discipulador, líder são algumas das palavras utilizadas para a indispensável tarefa de cuidar de outra vida. De todas prefiro “paternidade espiritual”. Há muitos órfãos espirituais vítimas de abandono emocional de seus líderes e pais naturais. Essa lacuna a igreja deveria estar preenchendo através de uma ênfase mais forte na necessidade de sermos e de termos um relacionamento de paternidade espiritual.

Quando entramos neste assunto, enfrentamos duas resistências muito comuns e uma delas plenamente justificável. A primeira é o abuso do conceito “paternidade espiritual”. Figuras de autoridade em um tempo como o nosso causam calafrios em muitas pessoas. Os abusos são evidentes, e como colocou um colega pastor temos cinco Pês problemáticos: Professores, Pais, Policiais, Políticos e Pastores. Megalômanos de plantão, utilizam essa ideia como instrumento de controle e proeminência sobre outros. Alguns já entendendo que não lhes cabe mais nenhum título, descaradamente se autodenominam “patriarcas”, a semelhança de antigas vaidades católicas como a história do sumo pontífice, chamado de “papa”. Mas como dizia o provérbio latino “o abuso não cancela o uso”. Não deixaremos de nos referir a um ensino bíblico só porque existem pessoas dele se aproveitando, assim como não deixamos de enviar nossos filhos à escola porque existem professores incompetentes.

Alguém também certamente me fará recordar das palavras de Cristo no evangelho: “A ninguém na terra chamem ‘pai’, porque vocês só têm um Pai, aquele que está nos céus.” (1) Mas aqueles que leem o contexto destes versos entendem claramente que Jesus estava se referindo a títulos que promovem hierarquias e vaidade pessoal e não ao trabalho fundamental de cuidado de vidas que propomos nesta postagem. Você pode falar de pai como um título e pode falar de pai como uma função. É neste último sentido que fazemos referência.

A segunda resistência que enfrentamos, é a cultura individualista que fomos educados. A dimensão comunitária da vida é desencorajada de todas as formas. Uma das frases que mais escuto na igreja é: “ninguém tem nada que ver com minha vida”. Quem assim pensa encontra dificuldade no casamento, em manter amizades e vivendo em comunidade.   Essas mesmas pessoas desmentem suas palavras quando passam por necessidades físicas ou emocionais e procuram ajuda. Assim é que quem nos ama tem sim muito que ver com nossa vida.

As Escrituras nos trazem alguns textos que apontam para a necessidade de paternidade espiritual:

“Embora possam ter dez mil tutores em Cristo, vocês não tem muitos pais, pois em Cristo Jesus eu mesmo os gerei por meio do evangelho. Portanto suplico que sejam meus imitadores.” (2)

“Meus filhos, novamente estou sofrendo dores de parto por sua causa, até que Cristo seja formado em vocês.” (3)

“Pois vocês sabem que tratamos cada um como um pai trata seus filhos…” (4)

“…fomos bondosos quando estávamos entre vocês, como uma mãe que cuida dos próprios filhos…” (5)

É pensamento comum que o crescimento pessoal e espiritual acontece apenas com informação. Então enfatizamos a pregação como instrumento único de crescimento, quando o exemplo de Jesus nos ensina que o crescimento acontece a partir de relacionamentos de cuidado e amor. Nesse relacionamento de cuidado e amor então a informação tem o impacto e lugar que deve ter.

Podemos ver uma série de momentos na Palavra em que relacionamentos de paternidade espiritual geraram resultados impressionantes. São eles: Moisés e Josué, Elias e Eliseu, Davi e Salomão, Barnabé e Paulo, e Paulo e Timóteo para citar apenas alguns.

Quais os benefícios da paternidade espiritual?

O primeiro benefício é um nível de vida mais alto. Não é por acaso que a Escritura nos relata que Eliseu após haver andado com Elias, foi capaz de realizar duas vezes mais do que o próprio Elias. A porção dobrada de poder veio não de um evento como equivocadamente supomos, mas de uma caminhada ao lado do profeta. Sozinhos nosso ego se infla, nos consideramos melhor do que os outros e como a psicologia já nos ensinou, ficamos cegos para uma série de problemas. A melhor pessoa para nos dizer algo é alguém que exerça um relacionamento de mentoria, que esteja interessada em cuidar de nossa vida sem nos controlar. Claro que não podemos querer que tudo seja perfeito logo de início, mas precisamos caminhar em direção ao ideal cada ano de nossa vida de fé. É o que temos feito em nossa comunidade. Ninguém é obrigado a ser discipulado, mas todos são encorajados e ensinados que esse é o caminho do crescimento.

O segundo benefício é um modelo de vida.  Estamos por natureza procurando modelos para nos espelharmos. Você aprende por experiência, que é um método bem doloroso, você aprende por reflexão, que exige muito pensamento, e você aprende por imitação, que é acessível e claro. Todos esses métodos devem estar presentes para uma formação completa. Pessoas cujo projeto de vida é serem imitadoras de Cristo, nos ajudarão como nenhum outro programa na igreja será capaz na jornada de caminhar com Cristo. (6)

O terceiro benefício é proteção espiritual. Quando falo de proteção tenho em mente a cegueira que carregamos em relação a nós mesmos. No momento em que posso ser questionado e perguntado sobre minha vida, uma série de padrões de pensamento e comportamentais são identificados trazendo a tona mentiras que solapam meu crescimento. Também penso na intercessão de Cristo por Pedro,(7) que o livrou das garras do inimigo. A oração de um “pai espiritual” pode significar uma vantagem decisiva na batalha espiritual. Além disso, em um relacionamento dessa qualidade a confissão, uma prática esquecida nos dias de hoje pode trazer cura para aqueles que lutam com os mesmos problemas durante anos e não conseguem se libertar, por não conseguirem se livrar da culpa e por não terem a quem prestar contas. Tenho visto jovens e adultos serem libertos de problemas financeiros, sexuais e emocionais persistentes pelo fato de poderem abrir o coração sem que ninguém os condene, mas os desafie a viver conforme o evangelho.

O quarto benefício é afeto. Ontem assistia a um documentário sobre o fenômeno do boxe: Mike Tyson. Ele foi descoberto por um descendente de italianos que se tornou na motivação pessoal de superação no esporte para ele. Dele Mike Tyson recebeu a atenção paterna que jamais teve. Para sua tristeza esse homem morreu quando ele ainda tinha 19 anos deixando uma lacuna emocional na sua vida. Quando foi o campeão mais jovem dos pesos pesados o grande lamento de Mike Tyson foi de que ele não estivesse ali para assisti-lo. A história dele é a história de muitos em nossas igrejas, que serão mudadas dramaticamente, se os homens e mulheres de Deus encararem o desafio de saírem de seus interesses individuais e investirem sua vida em derramarem seu afeto e o amor em outras pessoas em nome de Jesus. Todos precisamos de pessoas que se aproximem e digam que acreditam em nós e no potencial que Deus colocou em nossas vidas.

Na esperança do nascimento de muitos pais e mães espirituais:

O discípulo gaudério.

(1)    Mateus 23:9

(2)    I Coríntios 4:15

(3)    Gálatas 4:19

(4)    I Tessalonicenses 2:11

(5)    I Tessalonicenses 2:7

(6)    I Coríntios 11:1

(7)    Lucas 22:31

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