Uma história de amor firme!

Uma de minhas lembranças mais indeléveis diz respeito ao tempo em
que eu era paciente de um centro de reabilitação numa cidadezinha ao
norte de Mineápolis, em abril de 1975. O cenário era uma sala de
recreação ampla e de dois andares na orla de uma colina com vista para
um lago artificial. Vinte e cinco dependentes químicos estavam reunidos.
Nosso líder era um experiente conselheiro, hábil terapeuta e membro
veterano da equipe. Seu nome era Sean Murphy-O’Connor, mas ele
normalmente anunciava sua chegada dizendo:
— É ele mesmo. Vamos trabalhar.
Sean mandou que um paciente chamado Max assumisse a “cadeira de
interrogatório” no centro do grupo disposto em “U”. Max, um homem
franzino e de baixa estatura, era um cristão nominal, casado e com cinco
filhos, proprietário e presidente de sua empresa, rico, afável e dotado de
uma pose notável.
— Desde quando você tem bebido como um porco, Max? — Murphy-
O’Connor havia começado o interrogatório.
—Isso é injusto — Max recolheu-se.
—Veremos. Quero saber da sua história com a bebida. Quanta cachaça
por dia?
Max reacendeu seu cachimbo.
—Tomo dois Marys com os rapazes antes do almoço e dois Martins
depois que o escritório fecha, às cinco. Depois…
—O que são Marys e Martins? — interrompe Murphy-O’Connor.
—Bloody Marys: vodca, suco de tomate, uma pitada de limão e de
Worcestershire, um toque de extrato de pimenta vermelha; e martinis:
gim, extra-seco, gelado com uma azeitona e uma espremida de limão.
—Obrigado, Mary Martin. Prossiga.
—Minha esposa gosta de um drink antes do jantar. Viciei-a em Martins
há muitos anos. Claro que ela os chama de “aperitivos”, — sorriu Max.
— Vocês naturalmente entendem o eufemismo, não é verdade,
senhores?
Ninguém respondeu.
—Como eu ia dizendo, tomamos dois martinis antes do jantar e mais
dois antes de dormir.
—Um total de oito drinks por dia, Max? — quis saber Murphy-O’Connor.
—Exatamente. Nem uma gota a mais nem a menos.
—Você é mentiroso.
Sem se abalar, Max explicou: — Vou fingir que não ouvi isso. Estou na
ocupação há vinte e tantos anos e construí minha reputação em cima da
honestidade, não da falsidade. As pessoas sabem que minha palavra é de
confiança.
—Já chegou a esconder uma garrafa em casa? — perguntou Benjamim,
um índio navajo do Novo México.
Mateus, e que a história do roto e do rasgado era um provérbio secular
que não constava nos Evangelhos. Senti, porém, que um espírito de
presunção e um ar de superioridade espiritual haviam me envolvido de
repente como um nevoeiro. Decidi abrir mão da correção fraternal. Afinal,
eu não estava em Hazelden fazendo uma pesquisa para um livro. Eu era
apenas um bêbado incorrigível como Max.)
— Tragam-me um telefone — disse Murphy-O’Connor.
Um telefone foi trazido num carrinho para a sala. Murphy-O’Connor
consultou um bloco de notas e discou um número interurbano — para a
cidade de Max. O receptor era amplificado eletronicamente, de modo que
a pessoa do outro lado da linha podia ser ouvida claramente por todos no
salão do lago.
—Hank Shea?
—Ele mesmo. Quem está falando?
—Meu nome é Sean Murphy-O’Connor. Sou conselheiro de um centro de
reabilitação de drogas e álcool no Meio-Oeste. Você se recorda de um
cliente chamado Max? (Pausa) Ótimo. Com a permissão da família dele
estou pesquisando a história de Max com a bebida. Como você
trabalha como barman nesse lugar todas as tardes, fiquei pensando se
você saberia me dizer aproximadamente quantos drinks o Max
consome diariamente.
—Conheço o Max muito bem, mas você tem certeza que tem
permissão para me interrogar?
—Tenho uma declaração assinada. Pode falar.
—Max é um cara fantástico. Gosto demais dele. Ele despeja trinta
contos no balcão toda tarde. O Max toma os seus seis martinis básicos,
compra mais uns drinks e sempre me deixa uma gorjeta de cinco
dólares. Grande sujeito.
Max pôs-se de pé num salto. Erguendo a mão direita
desafiadoramente, ele despejou um caudal de palavrões digno de um
estivador. Ele atacou os ancestrais de Murphy-O’Connor, colocou em
dúvida a legitimidade de Charlie e a integridade de toda a unidade de
tratamento. Ele agarrou-se ao sofá e cuspiu no tapete.
Então, num feito notável, recuperou imediatamente a compostura. Max
sentou-se e observou sem qualquer afetação que até mesmo Jesus havia
perdido a paciência no Templo ao ver os saduceus comercializarem
pombas e bolos. Depois de uma prédica improvisada sobre a ira
justificada, ele reabasteceu o seu cachimbo, imaginando que o
interrogatório havia terminado.
—Você já tratou mal algum dos seus filhos? — Fred perguntou.
—Fico feliz que você tenha levantado esse assunto, Fred. Tenho uma
profunda ligação com meus quatro garotos. No último dia de Ação de
Graças levei-os para uma expedição de pescaria nas Rochosas. Quatro
dias de vida dura no mato. Foi memorável. Dois de meus filhos
formaram-se em Harvard, você sabe, e Max Jr. está no terceiro ano
da…
—Não foi o que eu perguntei. Pelo menos uma vez na vida todo pai
trata mal um de seus filhos. Tenho sessenta e dois anos e posso
assegurar que é assim. Agora dê-nos um exemplo específico.
Seguiu-se uma longa pausa. Finalmente:
—Bem, fui um tanto duro com minha filha de nove anos na última
véspera de Natal.
—O que aconteceu?
—Não lembro. Apenas fico com uma sensação de pesar quando penso
nisso.
—Onde aconteceu? Quais eram as circunstâncias?
—Espere aí um minuto — a voz de Max ergueu-se com fúria. — Já disse
que não lembro. Só não consigo me livrar dessa sensação ruim.
Sem alarde, Murphy-O’Connor discou mais uma vez para a cidade de
Max e falou com a esposa dele.
—Sean Murphy-O’Connor falando, minha senhora. Estamos no meio de
uma terapia de grupo e seu marido acaba de contar que tratou mal sua
filha na véspera do Natal passado. A senhora poderia fornecer os detalhes,
por favor?
Uma voz suave encheu a sala.
—Sim, posso contar-lhe a coisa toda. Parece que foi ontem. Nossa filha
Debbie queria um par de sapatos de presente de Natal. Na tarde de 24 de
dezembro meu marido levou-a de carro até a cidade, deu-lhe sessenta
dólares e disse que ela comprasse o melhor par de sapatos que houvesse
na loja. Foi exatamente o que ela fez. Quando entrou novamente na
caminhonete que meu marido estava dirigindo, ela beijou-o no rosto e
disse que ele era o melhor pai do mundo. Max estava orgulhoso como um
pavão e decidiu celebrar no caminho de volta para casa. Ele parou no
Cork’n Bottle, um bar que fica a alguns quilômetros da nossa casa, e disse
a Debbie que voltava já. Era um dia limpo e extremamente frio, cerca de
vinte graus abaixo de zero, por isso Max deixou o motor funcionando e
fechou as portas do lado de fora de modo que ninguém pudesse entrar.
Isso era um pouco depois das três da tarde, e…
Silêncio.
—Sim?
O som de uma respiração pesada encheu a sala de recreação. A voz
esmoreceu. Ela estava chorando.
—Meu marido encontrou no bar alguns velhos colegas do exército.
Envolvido na euforia da reunião, ele perdeu a noção de tempo, de
propósito e de tudo o mais. Ele saiu do Cork’n Bottle à meia-noite. Bêbado.
O motor havia parado de funcionar e as janelas do carro estavam
bloqueadas com o gelo. Debbie tinha graves ulcerações de frio nas orelhas
e nos dedos da mão. Quando a levamos ao hospital, os médicos tiveram
de operar. Amputaram o polegar e o indicador da mão direita. Ela vai ficar
surda pelo resto da vida.
Max parecia estar tendo um ataque do coração. Ele lutava para manterse
de pé, fazendo movimentos desajeitados e descoordenados. Os óculos
voaram para a direita e o cachimbo para a esquerda. Ele caiu de quatro,
soluçando histericamente.
Murphy-O’Connor levantou-se e disse suavemente:
—Vamos circulando.
Vinte e quatro alcoólicos e viciados subiram a escadaria de oito
degraus. Viramos à esqueda, reunimo-nos ao longo da amurada do
mezanino e olhamos para baixo. Ninguém consegue esquecer o que viu
naquele dia, vinte e quatro de abril, exatamente ao meio-dia. Max ainda
estava de quatro. Seus soluços haviam crescido a berros. Murphy-
O’Connor aproximou-se dele, pressionou seu pé contra o tórax de Max e
empurrou. Max rolou de costas no chão.
—Seu canalha miserável — urrou Murphy-O’Connor. — Tem uma porta à
sua direita e uma janela à sua esquerda. Tome o que for mais rápido. Saia
daqui antes que eu vomite. Não dirijo um centro de reabilitação para
mentirosos.
A filosofia do amor duro está baseada na convicção de que nenhuma
recuperação efetiva pode ser iniciada até que o homem admita que é
impotente diante do álcool e que a vida tornou-se ingovernável. A
alternativa a encarar a verdade é sempre uma forma de autodestruição.
Para Max havia três opções: a insanidade eventual, a morte prematura ou
a sobriedade. Para libertar o cativo é preciso dar um nome ao cativeiro. A
negação de Max teve de ser revelada através de uma interação
implacável com seus companheiros. Seu auto-engano teve de ser
desmascarado em todo o seu absurdo.
Mais tarde naquele dia Max implorou e obteve permissão para continuar
o tratamento. Ele acabou experimentando a mais impressionante
mudança de personalidade que já testemunhei. Max tornou-se
transparente e mais aberto, sincero, vulnerável e afetuoso que qualquer
homem do grupo. O amor duro tornou-o real e a verdade o libertou.
O desfecho da história: na noite anterior ao dia em que Max completou
seu tratamento, Fred passou pelo quarto dele. A porta estava aberta. Max
estava sentado à sua escrivaninha lendo um romance chamado
Watership down. Fred bateu e entrou. Por diversos momentos Max
permaneceu sentado olhando para o livro. Quando levantou os olhos, sua
face estava marcada de lágrimas.
— Fred — ele disse roucamente —, acabo de orar pela primeira vez em
minha vida.
Max estava no caminho do conhecimento de Deus.

Extraído de O Evangelho Maltrapilho, livro que não canso de ler, e que tem revolucionado minha vida nos últimos anos como poucos.

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