Futebol e Espiritualidade

Devo confessar que o futebol é uma das características mais peculiares do que é minha humanidade primitiva.  Sim, porque muitas vezes me coloco a pensar naquilo que costuma dizer minha esposa e tantas outras mulheres e racionalmente concordo com elas. Afinal de contas não são apenas 22 homens correndo atrás de uma bola de couro? Porque tanta tristeza? Porque tanta alegria? Porque tanto tempo conversando no final das reuniões? Porque depois de duas horas assistindo a uma partida ainda toleramos duas horas mais de comentários sobre os comentários do que aconteceu dentro de campo?

Na comunidade evangélica entre os que como eu, são pastores, às vezes rola certa hipocrisia. Ninguém tem coragem de assumir seu amor pelo clube. Pelo menos no primeiro momento. Lembro-me de uma ocasião no ano de 1994 em que estávamos em uma reunião da Convenção para redigir os estatutos  entre vários líderes. Nesse final de semana jogava Brasil e Holanda. Na hora do jogo deveríamos ter uma reunião. Ninguém se animava a propor a suspensão para ver o jogo. Então eu no impulso de juventude decidir propor: quem sabe fazemos a reunião depois e vemos o jogo agora? Todos aceitaram no momento sem contestação, mas com dissimulada frieza.

Durante o jogo ninguém se pronunciava. Tínhamos a impressão que aqueles homens eram indiferentes a questões do futebol. Parecia, mas não eram. O que acontecia era que o jogo estava tranquilo. O Brasil ganhava por dois a zero. Mas logo veio o surpreendente empate da Holanda, e a tensão se estabeleceu entre nós. Branco prepara para cobrar a falta, dispara um petardo, a bola cruza as costas de Romário que instintivamente se desvia e vai morrer no canto esquerdo do goleiro. Nossa máscara cai: aqueles homens como todos os outros brasileiros pulam e gritam na sala como crianças celebrando a vitória da Seleção Brasileira.

O que então faz do futebol um esporte único?

O futebol tem o poder de aproximar. Quando viajei para Singapura para fazer um curso de liderança do Instituto Haggai juntamente com líderes de todo o chamado terceiro mundo, percebi melhor do que nunca como a paixão pelo futebol move as pessoas. Toda vez que eu dizia que era do Brasil, imediatamente meu interlocutor abria um sorriso e falava: Ronaldô ou dizia como outros: Vocês brasileiros nos fazem sonhar.

O futebol é amplamente democrático. Todos podem falar de futebol. O assunto une misteriosamente homens e mulheres de diferentes estratos sociais. Não se requer preparo intelectual e se concede o direito a qualquer pessoa de falar com autoridade sobre a questão.

O futebol tem poder de deprimir e embriagar de alegria. É pura paixão. Casagrande ex- jogador da Seleção e grandes clubes do Brasil e hoje comentarista, foi engolido pelas drogas depois de parar de jogar, apesar de ter família e estrutura pessoal. Quando entrevistado declarou: “Senti falta daquela adrenalina, queria de volta a emoção dos estádios cheios. Foi quando caí de cabeça nas drogas”.

O futebol tem o poder de surpreender. Uma partida de futebol consegue exprimir a existência em 90 minutos. É um microcosmo da vida. Nele podem acontecer a danação ou redenção em poucos minutos. Nem sempre o mais forte vence. O talento é importante, mas não definitivo. Um descuido e a história de uma partida  pode mudar tragicamente. Um erro, e tudo se perde.

Ouço que o futebol é ruim porque transforma a pessoas. Mas o futebol não transforma ninguém, revela como são as pessoas na vida real. Quer saber como é alguém? Coloque a jogar futebol e logo você verá como ela encara o fracasso, como lida com a frustração, como vê o coletivo e o pessoal, como enfrenta adversidades como lida com a limitação dos outros e a sua própria entre outras questões.

No começo dos anos 80 sob a influência do meu irmão mais velho, me assumi gremista. Meu pai era um colorado de bom coração. Nunca gostou nem curtiu ver os filhos sofrerem. Nunca entrou em guerra pessoal por causa do futebol.  Nos áureos tempos dos setenta a única flauta que ele tocava para nós era o comentário sarcástico após os jogos: Vamos ouvir a narração do jogo de novo, quem sabe o goleiro não impede o gol dessa vez. Mas era só.

Tive o privilégio de ver Renato Portaluppi  estraçalhar defesas com personalidade e habilidade. Passei por toda aquela década de 80 e a próxima celebrando as grandes conquistas do tricolor. Mas aprendi a colocar o futebol no seu devido lugar. Jamais perdi uma amizade pelo futebol. Se alguém não sabe brincar ou leva a brincadeira a sério demais, logo me calo. Prefiro perder a discussão a perder um amigo.

A face mais tenebrosa do futebol é a sua capacidade de cegar e fanatizar, o momento em que ele se transforma em religião como tem acontecido nestes tempos. Com a falência dos partidos políticos, a desagregação familiar, a falta de um projeto de vida, o futebol assume o protagonismo na sociedade como opção de transcendência. No clube de futebol se veem projetadas todas as esperanças e expectativas da vida de milhares de pessoas. Quando isso acontece a capacidade de tolerar a frustração cai em seus níveis mais baixos e então pessoas aparentemente sadias são capazes dos maiores absurdos quando enfrentam a derrota do seu time. O pior da natureza humana se vê derramado no estádio. Uma catarse social desatinada.

A cegueira se instala de tal maneira que não conseguimos enxergar que por detrás daquela camiseta adversária existe uma família, dramas pessoais, uma rotina um trabalho, uma pessoa em sua multiforme riqueza. Sim o futebol como religião perverte e desencaminha. Aliás, qualquer instituição  que ocupa o lugar do Reino desencaminha o homem e seu propósito na face da terra.

O evangelho é minha sobriedade. Nada faz sem convidar a pensar e considerar. Arrependimento é mudança de mente. Quando o Reino ocupa o primeiro lugar, regula as  doidices de nossos corações e coloca as instituições humanas no seu devido lugar e proporção de importância. Livre de todos posso servir a todos como disse o apóstolo Paulo.(1)

Podemos ter preferências políticas, paixões clubísticas, e simpatias filosóficas, mas nenhuma pode rivalizar com nossa devoção ao Mestre de Nazaré.

Da mesma forma cabe a nós resistir à tentação de utilizar o nome de Jesus para turbinar essas paixões institucionais com força divina.

O Evangelho não tem nenhuma aliança a fazer, mas tem tudo a dizer para todos.

Com a cabeça e o coração no Reino de Deus em primeiro lugar:

O discípulo gaudério.

(1)    I Coríntios 9:19-22

(2)    Lucas 9:51-56

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