Jesus e a cartilha evangélica

Alguns meses atrás meu amigo Valnir Peralta, em uma conversa sobre questões espirituais e os assuntos que escrevo no blog, me fez a seguinte pergunta: Fabiano, o que tu queres dizer com cartilha evangélica? Foi uma boa provocação, que me levou a escrever esse post. Com certeza alguns lerão e ficarão revoltados, a estes recomendo que transformem sua revolta em diálogo. Outros dirão que suas comunidades evangélicas não se parecem em nada com o que descrevo. A esses direi primeiramente: Que bom! Mas também esclarecerei que é bom não presumir com isso que tudo está bem, pois somos inclinados a criarmos nossa “lei não escrita” que via de regra contraria o que a Palavra nos orienta.

Toda liderança corre o risco de criar sua cartilha. E de fato criamos. Como nota Brennan Manning em O Evangelho Maltrapilho, há ao longo do tempo dentro de qualquer instituição cristã uma mudança de pergunta motriz quando enfrenta cada questão da vida. De o que Jesus diz sobre isso, para o que a Igreja diz sobre isso.(1) Quem pensar que isso só acontece no quintal dos outros já sucumbiu. Quem pensar que as duas coisas significam o mesmo, ou está cego ou ainda é criança. Quando voltamos a primeira pergunta (o que Jesus diz), é sinal de que os bons ventos do Espírito estão soprando.

Certo de que sou como qualquer homem,  não falo na tentativa de escrachar ou generalizar as idiossincrasias de nossas comunidades, mas de alguma forma ajudar as pessoas a largarem vacas sagradas do  pensamento e da militância que não valem a pena nossa dedicação. Que são o tipo de coisa que no futuro talvez digamos: como eu pude pensar daquele jeito!

Posso dizer que já visitei quase todos os erros que aponto hoje. Mas pelo fato de entender que ser discípulo é ser aprendiz, vou seguindo pela estrada me desfazendo de todo peso desnecessário para minha jornada em paz comigo mesmo e com Deus.

Não sou da turma que critica  tudo e não  se compromete com nada. Cujo esporte principal é apontar o dedo sem autocrítica, cuja arrogância e ressentimento lhes cegou para os próprios pecados.  Faço parte de uma comunidade de discípulos que assumiu que são gente menos que perfeita.

Sou daqueles que entendem que a igreja precisa constantemente construir e desconstruir. E entendo que é minha tarefa  cutucar os discípulos acomodados como certamente Jesus fez a todo o momento. Estremeço diante da afirmação de Dietrich Bonhoeffer em seu livro Discipulado: Se pregássemos o evangelho conforme ele é, aqueles que se sentam para nos ouvir levantariam e iriam embora, e aqueles que nos criticam sentariam e começariam a nos ouvir.

É nosso dever, fazermos um inventário juntamente com nossa liderança para questionarmos o que fazemos e nos livrar daquilo que é ranço, tradição morta, sem sentido, e nos voltarmos sempre para Jesus.

A Cartilha

Na cartilha evangélica o uso do nome de Jesus justifica qualquer empreendimento (música, política, construção de templos, falcatruas) mesmo que não tenha nada a ver com o espírito e a intenção do evangelho. É para Jesus, em nome de Jesus então se pensa que deve ser aprovado por Jesus. Esquecem que em nome de Jesus, significa sob a autoridade de Jesus.

Na cartilha evangélica é proibido usar piercing e tatuagens porque o AT assim o diz, mas versos como: “não aparem as pontas da barba”, “não cortem o cabelo dos lados da cabeça”, “não usem roupas  com dois tipos de tecido” e o restante dos versículos da Torá  são esquecidos. Para dizer a verdade os costumes são adaptados sempre para agradar a parte mais conservadora da igreja que se esconde atrás da palavra “escandalizar-se” para controlar o comportamento do restante da congregação.

Na cartilha evangélica a dança é pecaminosa. Ninguém tem ideia que em Israel toda festa e banquete tinham dança. E não era dança de caráter cúltico, mas dança para diversão mesmo. Não vemos Jesus em nenhum momento condenando a dança como “mundanismo”. Aliás verdade seja dita, algumas festas com danças são mais santas do que certas reuniões de cúpulas de igrejas. Quando conheci a Jesus eu amava dançar, e quem me conheceu naquela época sabia que eu era um fanático pelo estilo de dançar de Michael Jackson. Mas por uma compreensão limitada, fui aconselhado a deixar essa paixão pessoal para servir apenas a Deus. Apesar de alguns progressos ainda vejo nós evangélicos desconfortáveis a respeito do assunto

Um dia falei em uma reunião sobre a importância da dança para a vida amorosa dos casais e uma das pessoas presentes me respondeu: Mas isso vai acabar em outra coisa, pastor! E eu disse: E qual o problema? Qual o problema de ir a festas e dançar com sua esposa e amigos? De acordo com Jesus certamente nenhum.

Na cartilha evangélica tudo o que você corre o risco de exagerar, é proibido. É o caso da bebida alcóolica. Conheço muita gente que faz um esforço enorme para tentar demonstrar que Jesus não bebia vinho, bebia suco de uva. Só que eles sabiam o que era suco de uva. E a Bíblia diz vinho mesmo. Aí você encontra o cara no supermercado carregando uma garrafa de cerveja no carrinho e bate de cara com você: Pastor, não vai reparar não, mas essa bebida aqui é para fazer uma galinha na cerveja! Eu fui logo desfazendo o constrangimento dele: mano, eu não tenho nenhum problema com isso, fique a vontade.  Segundo essa lógica, de que corremos risco e que é melhor proibir do que arriscar, não poderíamos fazer nada. Quem faz sexo, pode se promiscuir, quem bebe pode se embriagar, quem se diverte pode se tornar leviano, quem sai a rua, pode ver uma mulher bonita e adulterar, quem ganha bem poder virar avarento, quem tira férias pode ficar preguiçoso. Imaginem o que aconteceria hoje, se em uma festa de crente Jesus transformasse o refrigerante em vinho. Seria uma heresia, escândalo absoluto. Por outro lado os líderes evangélicos comem como nenhum grupo que eu conheça. Eles não consomem álcool, mas a gordura já elevou o colesterol da maioria a estratosfera. Crente não bebe, mas come que é uma barbaridade! E não acha que os exageros a mesa são pecado.

Na cartilha evangélica, avivamento é ataque nervoso, é grito, é agitação, é ativismo. Conquanto eu não tenha nada contra gritos e coreografias de adoração, sei que sinais de avivamento tem a ver com o que acontece na vida e não com um estilo de culto. Tem a ver com o amor que se desdobra em todas as dimensões, com o perdão, com andar debaixo do senhorio de Cristo.

Na cartilha evangélica, números dizem tudo. A pergunta que se faz em qualquer encontro de pastores é a seguinte: quantos membros têm a sua igreja? Se você tiver um número respeitável na praça, você pode fazer o que quiser que todo mundo vai querer copiar o segredo do seu sucesso. Nós queremos resultados, enquanto Deus quer fidelidade. Muito guru evangélico que anda por aí, descartaria o profeta Jeremias da Bíblia pelos resultados escassos que produziu em seu ministério.

Na cartilha evangélica todos os pecados são perdoáveis, se você sair da igreja e depois voltar. Todos são perdoáveis a não ser o divórcio. Quem se divorcia não pode fazer mais nada, está marcado para sempre. Como disse um amigo que se divorciou: “Era como se eu fosse um leproso”. Não importa se o marido evangélico e líder na igreja inferniza a vida da esposa em casa e faz dela uma escrava, mas se ele não se separa tudo está bem.

Na cartilha evangélica a grande batalha dos dias de hoje é afirmar sua posição contra o homossexualismo. Reconheço que existem exageros na PL 122, mas você não vê nenhum pastor enviando e-mails com material para que a igreja aprenda como ajudar o homossexual a ter uma vida diferente. Devo confessar que meu primeiro contato com o homossexualismo como desafio pastoral há mais ou menos 22 anos atrás foi homofóbico. E devemos confessar como comunidade que embora teologicamente corretos em condenar a prática homossexual,  pastoralmente estamos distantes de ser uma comunidade acolhedora que ajuda o homossexual a mudar de vida. As piadas, os olhares, a distância mostram nossa culpa. Sei que existem pastores que sequer permitem que sejam trazidos para sua igreja travestis porque “a igreja não está preparada”.

Na cartilha evangélica o diabo é um adversário igual a Deus. Mesmo que na teoria não seja, em alguns grupos o ensino sobre o diabo é tão obsessivo que você tem a impressão que ele é onipresente e onisciente. Toda espiritualidade em que o diabo está mais presente do que Deus, é adoecida e produzirá gente neurótica e assustada.

Na cartilha evangélica o pecado que se trata é o pecado que é público e sexual diga-se de passagem. E viver em santidade é ser esperto o suficiente para que ninguém lhe descubra. Aqueles que se atrevem a abrir o coração são premiados com a inquisição psicológica e o trituramento público através da violência passiva do isolamento. Inveja, orgulho, ciúmes, fofoca, preguiça, por não serem mensuráveis ficam fora da lista.

Para cartilha evangélica o sofrimento é  resultado da brecha. Embora alguns sofrimentos advenham de nossa estupidez e tolice, não deveríamos ser tão rápidos em responder com tanta leviandade diante da dor e da perplexidade alheias, pois poderemos colher o que plantamos. A verdade é que tudo acontece a todos. E  o que Jesus promete não é que não teremos sofrimento, mas que venceremos o sofrimento.

Para a cartilha evangélica a igreja é o templo. E servir a Deus e sagrado é o que acontece dentro dele. Para Jesus e o Novo Testamento templo é gente. E sagrada é cada dimensão da vida. Tudo o que fizerdes seja em palavra seja em ação…(2) Acho até engraçado que muita gente com linguagem profana, não fala palavrão no templo, como se isso fizesse alguma diferença para Deus, mas lá fora…

Para a cartilha evangélica a única política possível é a partidária. A igreja lamentavelmente não trabalha como fomentadora de movimentos sociais que são os que de fato produzem mudanças verdadeiras. Os políticos profissionais só produzem leis quando percebem que a opinião pública está altamente mobilizada por algum desses movimentos. A política partidária brasileira está viciada pelo corporativismo e engole todo ingênuo que nela adentra com alianças e ofertas de apoio a causa. Mais ou menos como: tudo isso te darei (dinheiro, influência, respeitabilidade, terrenos para a igreja, leis que privilegiam instituições cristãs) se prostrado me adorares (alianças suspeitas, dinheiro na cueca, apoio a projetos corruptos).

Encarar essas realidades pode ser duro para alguns, mas quero dizer que antes de escrever todas estas palavras enfrentei cada uma delas na minha vida e ministério. Que elas sejam um instrumento de renovação da mente.

Palavra Final

Aconselho os seguintes livros aqueles que desejam entender melhor a mensagem do evangelho:

A poesia e o camponês – Kenneth Bailey

A vida diária nos tempos de Jesus – Henry Daniel Rops

O Evangelho Maltrapilho – Brennan Manning

A conspiração divina – Dallas Willard

Subversion of christianity – Jacques Ellul

Se você quiser continuar esse papo, mande seus comentários questionando e talvez acrescentando algumas temáticas que aqui não abordamos por esquecimento ou omissão.

Um abraço quebra costelas

O discípulo gaudério

(1) O Evangelho Maltrapilho – Brennan Manning página 146

(2) Colossensses 3:17

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2 pensamentos sobre “Jesus e a cartilha evangélica

  1. Bom dia “Gaudério”… Bueno, é teu segundo artigo que tenho o prazer de ler… Me surpreende tua postura.. Estou acostumado a ler e ouvir esse assunto de outra forma.. Muito diferente, para ser sincero.
    Fico vendo os “crentes” e “católicos” e outros tantos mais. se esconderem atraz de falsos conceitos (e pré-conceitos), fingindo-se de santos e agindo nas surdinas da escuridao tratando de suas taras e vícios às escondidas.

    Prefiro teu conceito, ser o que é, à luz do dia, se gostar de beber, beba, com moderação, como deve ser feito por qualquer pessoa, independente de religião, sexo ou raça.

    Se alguem quizer trair sua mulher, problema seu, traia e saiba que lá na frente vai sofrer a separação. Arque com suas responsabilidades.

    Nunca suportei a idéia de que as “igrejas” se escondam atraz da bíblia e dos conceitos que lá existem, usando esses conceitos para seus fiéis, e ao mesmo passo, agir de forma tão diferente.

    Olhe a avareza de algumas igrejas! Iniciando pela ostentação da católica. Pela imensidão dos templos da Universal, pelo sistema de coleta de “dízimos” dos programas evangélicos que hoje povoam as TVS abertas.

    Acho que resumidamente, teu raciocínio chega muito próximo de tudo aquilo que acho.

    Sejas tu mesmo em todas as circunstâncias, em todos os púlpitos, em todos os bares, em todas as casas, e não te envergonhes disso.

    Parabéns…

    p.s. o Peralta tinha razão… tu és Fera..

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