Shakira, Sandy e a luta com expectativas

Shakira e Sandy são casos de estudo quando o assunto são expectativas. Shakira começou sua carreira no final dos anos noventa com um estilo pop original com letras impregnadas de um romantismo simples. Com o potencial performático singular já que dançava em um estilo diferente de todas as artistas do gênero e com o talento de compositora associado a ela, Shakira despertou a atenção dos gringos que abriram as portas da grande indústria da música acenando para ela com a possibilidade de tornar-se uma estrela pop mundial. Só que o pop não poupa ninguém como diria Humberto Gessinger, e para que o passo gigantesco fosse dado, ela teria que vender sua alma ao diabo da indústria. E foi o que ela fez. Atendendo as expectativas do mercado mundial, ela pintou o cabelo de loiro, tirou a roupa e começou fazer pose de mulher sensual com gemidos e trejeitos típicos de toda artista desse “calibre”.

Aqui na terra brasilis, temos a Sandy que foi educada em valores familiares “normais” com uma presença forte dos pais na sua vida. Ela não faz o tipo esperado pelo mundo pop, mas ao mesmo tempo quer permanecer na crista da onda. Fez sucesso enquanto era pequena mas vê sua carreira declinando a medida em que se recusa a fazer o que todos querem que ela faça: o gênero “devassa”. Nessa luta ela dá um passo a frente e dois atrás, ora ela faz uma propaganda que sugere que ela vai ceder a pressão das expectativas, ora ela dá explicações de que não vai expor sua vida pessoal em praça pública. O que a mídia toda espera dela e não esconde em entrevistas e matérias sem fim é que ela seguindo os passos de todas as outras tire a roupa, chute o balde, seja polêmica e banque a mulher objeto.

Diferente do que se diz por aí nenhum astro pop é revolucionário quanto a implementar novos valores, pelo contrário são astutos para conseguirem discernir o que o povo espera deles e ganhar com isso. Lady Gaga dá a meninada tudo o que eles querem em doses paquidérmicas: extravagância, hedonismo e sensualidade sem freios, da mesma forma como a vovó Madonna fez nos anos 80.

Mas não são só os artistas que precisam lidar com o que esperam os outros. Desde pequeno vivemos sob expectativas. Um dia participando de um curso de liderança alguém parafraseou a primeira lei espiritual da Cruzada Estudantil da seguinte maneira: Deus te ama e todo mundo tem um plano maravilhoso para sua vida. Quanto mais pública se torna a nossa vida, tanto mais as expectativas se amontoam sobre nós. Estar consciente delas e saber quais atender e quais rejeitar é um segredo de sobrevivência.

Jesus lutava constantemente com elas:

Sua mãe: “Eles não tem mais vinho”. (1)  Como que dizendo:  Faça alguma coisa logo.

Fariseus: “Mestre queremos ver um sinal miraculoso feito por ti”  Talvez pedindo: Nos surpreenda.

Amigas: “Senhor se estivesses aqui meu irmão não teria morrido”   Sutilmente dizendo: Esperávamos você aqui mais cedo.

Povo: “Mestre ordena a meu irmão que reparta comigo a herança” Impondo o peso: Resolva todos os nossos problemas.

Atrás de cada frase que Ele ouviu havia algum tipo de pressão. Mas Ele nunca se sentiu obrigado a atender a todos em tudo, embora atendesse a muitos.

Isso pode se tornar algo muito doido.  Conheci um homem que impunha a tirania de suas expectativas à família. Um dia ele chegou em casa, e logo fechou o rosto demonstrando descontentamento. A família ficou na volta querendo saber o que tinha acontecido. Ele respondeu: Vocês não fizeram a comida que eu queria comer. O pessoal se defendeu: Mas tu não disseste nada! Ele respondeu deixando a todos sem palavras: Mas vocês tinham que saber!

Os pais também tem sonhos a respeito de seus filhos que talvez sejam um pouco dos sonhos deles próprios. Lembro de um rapaz  cujo pai era incansável para que o filho fizesse Direito. Quero que tu faças Direito! Tu tens que ser advogado insistia o pai como uma ladainha. O filho obedeceu estoicamente e concluiu o curso depois de 5 anos e no dia da formatura atirou o diploma na mesa do pai dizendo: Aqui está o teu diploma. A partir de agora eu vou atrás do meu diploma.

Pessoalmente, na minha tarefa como pastor, sinto constantemente a pressão das expectativas das pessoas. Das coisas mais pequenas até as mais significativas. Algumas pessoas gostariam que eu me vestisse de forma mais conservadora: E ai Pastor quando vai colocar um paletó?, minha esposa me pergunta quando vou ter a coragem de colocar uma argola na orelha, e um membro me encontra e sutilmente reclama: Estive doente e ninguém foi me visitar! Ou ainda: Essa igreja precisa de mais poder! Ou até: Bem que poderíamos investir mais na construção e reforma do nosso templo.

Por essa razão corremos loucamente, usamos inúmeros disfarces  e sentimos tantas dores de estômago. Só alguém que tem sua identidade ligada a Deus como filho amado pode desagradar às pessoas e assim mesmo permanecer em paz. Estar consciente de como cada lugar tenta nos escravizar a suas expectativas é um começo da cura.

Não que ser alvo de expectativas seja algo ruim. Não é. Eu costumo dizer que expectativas são uma indicação de que as pessoas acreditam que podemos dar bons frutos.

Há também a opção de rompermos com tudo. De não aceitarmos nenhuma exigência, de sermos totalmente independentes. Conheço pessoas que dizem: “Porque as pessoas se metem em minha vida?” Essa independência que muitas vezes parece desejável também aponta para  certo egocentrismo já que também somos lembrados pela Palavra: “tenham cuidado para que o exercício da liberdade de vocês, não se torne uma pedra de tropeço para os fracos”(5) O problema é que muita gente na igreja abusa desse texto de Paulo, para manipular as pessoas a fazerem e terem um estilo de vida que lhes agrade.

Quando Jesus chama seus discípulos para serem pescadores de homens ele coloca sobre eles algumas expectativas que os liberta da mediocridade para um novo nível de vida.(6) Quando um homem judeu seguia sua profissão era sinal que ele não tinha sido considerado capaz pelo sistema educacional judaico de seguir um Rabi. O que o sistema não viu naqueles homens Jesus viu. Quando ele os chama está mandando várias mensagens não verbais que eles entenderam muito bem:

Vocês podem ser como eu.

Vocês podem fazer o que eu faço.

Vocês vão fazer a diferença.

Mas saiba que certamente você enfrentará ataques injustos, acusações doloridas e caras feias, o que é o preço da liberdade de ter apenas um Senhor. E será neste preciso momento que você será mais livre do que nunca. Antes isso do que tendo todos a volta sorrindo, você implodir por dentro e não realizar  aquilo que Deus tem planejado para você.

Abraçar as expectativas de Deus, estar preso a Ele acima de tudo é o segredo para saber o que devo atender e o que devo esquecer. Assim é que no evangelho sou livre das expectativas de todos e da minha independência egoísta para respondendo a Deus servir as pessoas para o bem delas e minha própria sanidade.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1)    João 2:2

(2)    Mateus 12:38

(3)    João 11:21

(4)    Lucas 12:13

(5)    I Coríntios 8:9

(6)    Mateus 4:18

 

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