O lugar errado para impostores

O amor é cego, mas o casamento abre os olhos.

Anônimo

Viajo pela internet procurando subsídios para uma aula sobre liderança, até que caio em uma página sobre mentoria. No artigo uma pergunta de autoconhecimento salta da tela do computador:

Sua família reconhece a autenticidade de sua espiritualidade?

Na comunidade onde sou líder espiritual, as pessoas me veem diariamente chegando em seus quartos de hospital, suas camas de  enfermidade, empacotado em um paletó para celebrar casamento, estendendo as mãos sobre a cabeça delas em oração para rogar por seus problemas, ouvem-me dando instruções, orientando liderança em alguma palestra inspirada e ensinando sempre. Normal nada de estranho, é meu chamado e função que faço com alegria. A imagem que se forma a partir desse trabalho e funções que desempenho pode ser do tipo:

O pastor é um cara sempre disponível quando a gente precisa!

O pastor sempre tem uma palavra boa para nos dar.

Como o pastor é encorajador!

Nunca vejo meu pastor de mau humor.

Pastores nunca estão em crise, sempre em Cristo!

O pastor está sempre certo.

Como ele nos ouve com atenção.

Fecho meus ouvidos, mudo a cena.

Entro em minha casa agora e a pergunta reveladora que faço:

Família, vocês acham que sou isso tudo mesmo?

Estou convencido que eles são realmente as pessoas ideais para checarem a autenticidade de minha espiritualidade, para prepararem minha vida (e eu a deles) para qualquer embate externo e público.

Na vida exterior o que faço, meus títulos definem minha vida, mas na família o que realmente importa é quem sou! Minha esposa e filhos depois de vários anos não ficará impressionada com citações inteligentes, com os livros que leio ou os artigos que escrevo. O que realmente importa para eles é o essencial da vida e do evangelho: como demonstro meu amor.

Na vida exterior posso por conveniência me esconder por detrás de uma camuflagem de autoridade ou zombaria, mas na família todas as pretensões são desmascaradas com uma frase ou olhar que dizem tudo em pouco tempo e espaço.  Quando a família fala, o fanfarrão cai por terra. Se aquilo que dizem por aí de mim não confere com o que minha família experimenta no dia a dia, sou um ator de quinta categoria.

No mundo exterior quando alguma coisa me incomoda, fico indiferente, demito se sou o patrão, me afasto ou fujo, mas na vida em família  preciso enfrentar o problema, agarrar o touro pelas guampas.  Nunca sou tão confrontado com meu pecado como quando estou com meus filhos e esposa. Eles não tem medo de perder minha afeição, sabem que é um dever que tenho com eles, então se sentem a vontade para apontar quando falo e não faço, quando sou egoísta ou pretensioso.  Lá fora posso impressionar com meu desempenho porque seleciono o melhor do melhor de mim, aqui dentro acontece a revelação total. Na família serei visto mal cheiroso, perdendo a cabeça, em situações ridículas,  mal produzido e tentando fazer o que não sei, em suma, em minha humanidade plena.

A família é bênção porque é o lugar errado para impostores. Talvez por isso as pessoas estejam fugindo do casamento e dos filhos. Não é o casamento que está falido, são as pessoas que estão falidas.

Três princípios para toda vida funcionar melhor e que aprendi (de verdade) em casa.

Perdão. Se você ver uma família feliz, não se engane. Isso não acontece por acaso. Não é  porque eles não se magoam, mas porque se perdoam. Sem perdão nenhuma família funciona! É bem mais difícil perdoar aqueles que amamos.

Diálogo. Com minha mulher eu aprendo a arte de fazer acordos para seguir em frente. Sem acordos a vida não funciona.  Só que em família são acordos sem imposições unilaterais. Imposições unilaterais geram resultados de curto prazo em casa.

Humildade. Pessoas que estão sempre certas não tem futuro na família, pois pessoas perfeitas são insuportáveis. Devo confessar que a singela frase: Eu estava errado!  Queima em minha boca. É fundamental, mas são necessários vários minutos de luta com minhas racionalizações, orgulho e desculpas antes de pronunciá-la timidamente. A razão é que em casa eu recebo as avaliações mais realistas possíveis. Ninguém terá cerimônia para apontar coisas do tipo: tu já percebestes como tu criticas constantemente a tudo? Tenho verdadeira gratidão porque o pessoal lá de casa sabe me colocar no lugar quando estou me achando, eles são os meus pés no chão.

Jamais cesso de ficar impressionado que aquilo que fazemos lá fora tem pouco ou limitado impacto no coração daqueles que nós mais amamos.

Se você acha que não, preste atenção no testemunho da nora de Moody o evangelista famoso do século XIX:

“Ah, sim, senhor Moody tinha um temperamento explosivo, porém a lembrança mais agradável de meu marido e de Paul em relação ao pai é a das vezes em que ele perdia a paciência com os filhos, e, depois que estes iam dormir, ouviam aqueles passos pesados se aproximando. O senhor Moody entrava no quarto deles, colocava a mão na cabeça de cada um e dizia: ‘Quero que me perdoem, não foi isso que Cristo ensinou’. Para os filhos, essa foi a maior prova de atitude cristã vista por eles.” (1)

Quer saber se você cresceu espiritualmente?

Sua família comentou como você mudou?

Não? Então esquece.

Sim, aprenda que  a vida começa e termina na família.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério

(1) Moody, uma biografia – John Pollock. Páginas 352,353

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