Quando a rapidez é lentidão

Paula se sentia muito sozinha. Olhava a sua volta e todas as suas amigas já estavam namorando. Algumas já falavam em casar. Ela se olhava no espelho e percebia que não era uma miss Brasil, mas também não era alguém para ser esquecida. Ela se perguntava por quê? Claro, ela tinha se proposto a não ser leviana. Não queria namorar por namorar. A maturidade acima da média e a responsabilidade de Paula já tinham feito dela uma menina mulher. Dia dos namorados, sábado a noite depois da reunião de jovens e Natal eram cada vez mais insuportáveis. As noites na cama se tornaram uma tortura solitária. Quando saía pela rua olhava com inveja doída aqueles casais que desfrutavam da doçura do encontro. Ansiava por romance. Foi quando descobriu Eduardo. Um cara que ela conheceu na livraria do centro enquanto procurava uma versão luxuosa do clássico da literatura mundial: O idiota de Dostoievski. Eles começaram a namorar (surpreendentemente para quem conhecia Paula) no mesmo dia depois de um convite para comer um lanche e o que era renúncia se tornou paixão. Paula gostava de livros, e o papo meio intelectual de Eduardo com suas frases pontuadas , pensamento fluído e vocabulário articulado como que apertaram um botão dentro da sua alma. Seis meses depois ela começou descobrir a sombra de Eduardo: seu ciúme doentio. Agora ela tem que se acostumar com os telefonemas controladores e insistentes para casa, para o trabalho, para a igreja além de precisar explicar hematomas para a família e amigos frutos dos braços apertados além de administrar semanalmente barracos homéricos. Ela quer dizer a ele que não quer mais, mas os olhares violentos de Eduardo congelam toda coragem que ela possa sentir. Ele intimida, e muito. Soluções rápidas, problemas demorados.

Seu Jorge, é um trabalhador exemplar. Não refuga trabalho pesado, é honesto daquele tipo que o fio do bigode é mais importante do que a assinatura de um papel. Mas já passou dos cinquenta, e uma porção de cabelos brancos denunciam uma vida de dureza no passado. Já faz seis meses que ele não consegue emprego. Seus currículos  foram mais distribuídos na cidade do que santinho de político em época de eleição. Ele chegou ao ponto que não sabe mais o que fazer. Está desesperado ao ver que precisa se sustentar da solidariedade dos amigos e do pessoal da igreja. Como um abutre que sente cheiro putrefato, o dono de uma pequena empresa de  transportes lhe fez uma proposta tentadora:

– Seu Jorge, quer ganhar muito dinheiro? O dobro do que ganharia se estivesse trabalhando? Perguntou Luís fazendo questão de dar ênfase no “se”.

– Mas que negócio seria esse tchê? Respondeu seu Jorge no tom rude e sincero que lhe caracterizava.

–  Vamos trazer uma muamba que vem lá do Paraguai!

– Que tipo de muamba?

– Cigarro. Contrabando de cigarro. Carga grande. Eu venho na frente uns 20 km como batedor, e o senhor vem atrás com a carga. Qualquer coisa eu lhe dou um toque pelo celular e o senhor entra em qualquer estradinha que encontrar e só sai quando eu disser. É garantido!  É muito dinheiro seu Jorge, e pelo que sei a vida não tá muito fácil pro senhor. Sabe como é, a família espera pela gente, não é mesmo? Tudo pela família. Aceita?

Astuto, Luis tocou nos brios de seu Jorge. “Tudo pela família” era algo que orgulhava a alma dele, era tudo que lhe restava, a honra de dar sua vida pela família. Sem titubear mais, ele foi firme:

– Aceito. Quando a gente começa? Disse sufocando a consciência que desejava falar.

O que seu Jorge jamais imaginou, era que a polícia não atacaria de frente. Tendo estudado a malandragem e os movimentos do dono da empresa, já havia  discernido como o esquema funcionava. O caminhão que seu Jorge dirigia estava marcado. Interpelado pelos policiais e sem nenhuma documentação da carga, foi encaminhado para delegacia e detido como contrabandista. Uma mancha para sua história de vida. Luis só quer saber de safar seu próprio nome e patrimônio e abandonou seu Jorge a sua própria sorte. Hoje ele sofre atrás das grades uma vergonha que jamais imaginou que poderia passar ao mesmo tempo em que dá explicações a família e luta com pensamento suicidas. Soluções rápidas, problemas demorados.

Helena é uma cristã devota e sincera. Não é do tipo que vive uma vida na igreja e outra em casa. Seus filhos são criados com cordialidade e disciplina. Ela se converteu já com seus 30 anos. Em um momento de vazio pessoal e procurando um sentido para a vida, ouvir a mensagem do amor de Deus em Cristo, respondeu todos os seus anseios e perguntas de uma vez só. Ela agora estava pacificada. Lia a Bíblia diariamente e apreciava as reuniões de intercessões. Os filhos logo se associaram a ela, e estavam bem envolvidos da coreografia ao grupo de jovens. Mas Helena não estava satisfeita. Seu sonho era “ver toda a sua família louvando ao Senhor no domingo juntos”. Já faziam mais de dez anos que ela orava pelo marido Mariano. Mas nem sinal dele sequer pensar em ir a igreja. Ele pensava em seu coração que o fato de sua mulher orar por ele já era o suficiente, aliás mais do que suficiente. Acreditava que era opção pessoal e não transferível como gosto por música. Cansada da falta de resultados de suas orações, Helena resolveu acelerar o processo e  partiu para o ataque verbal diário:

– Até quando vais ficar aí caminhando para o inferno, enquanto tua família marcha para o céu?

– Não tem vergonha de ser o único incrédulo em uma família que serve a Deus.

– Tens ideia de onde vais passar a eternidade?

Com pouca vocação para a dialética e a esgrima verbal ele resmungava de vez em quando ou saía porta a fora. Pouco a pouco ele foi se calando, e uma distância surda se estabelecendo entre eles.  Ela não participava mais de qualquer encontro social que não fosse mediado pela igreja, e seu ressentimento contra ele foi crescendo ao ponto dela também o rejeitar na cama com uma frequência desalentadora.

Hoje ela chegou a casa e encontrou apenas o bilhete do marido:

“Chega! Case-se com a igreja. Não aguento mais tanta humilhação. Sou jovem ainda, acho que posso viver com outros ares. Volto para buscar minhas coisas.”  Soluções rápidas, problemas demorados.

Milhares de anos atrás, antes que qualquer pessoa pudesse imaginar onde poderia chegar essa jornada humana. Abraão e Sara recebem uma promessa de Deus. Seriam genitores de uma nação forte e robusta que seria responsável por mostrar ao mundo os propósitos de Deus. Segundo as palavras da Bíblia, eles seriam bênção. No entanto eles já estavam velhos e não havia inseminação artificial nem tampouco ginecologistas para poder ajudar na tarefa impossível que eles tinham recebido de Deus. A promessa fora dada, mas ela agora pensava: Será que não foi tudo um sonho, coisa de velhos? Será que não morreremos sem descendência? (1)

Sara então decidiu dar uma acelerada na situação, e pediu para que seu marido se deitasse com a serva da casa que se chamava Hagar para que ela tivesse um filho através dela. Hagar atendeu ao pedido ficou grávida e sentiu-se superior a sua senhora. O clima em casa ficou insuportável.  Sara agora via que o escape da sua situação havia se tornado um beco sem saída.

Hoje Ismael e Isaque filho de Sara continuam uma briga milenar que parece não ter fim nem solução a não ser a vinda do Príncipe da Paz. Soluções rápidas, problemas demorados.

Jamais deveríamos esquecer esse princípio espiritual especialmente em tempos de crise afetiva, econômica ou espiritual.  Que Deus nos guarde das urgências disparatadas e nos ajude a respeitar os processos dEle que a nós parecem demorados.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1)    Gênesis 16-18

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