Esvaziando o porão

Um programa na TV a cabo tem como tema pessoas que juntam coisas até o ponto de ficarem com suas casas atulhadas. No programa essas pessoas são analisadas profundamente em sua doidice. O que vemos em uma intensidade exagerada nestas pessoas, é algo típico do espírito da nossa época. Estamos assustados, aterrorizados pela possibilidade que nos falte algo. O medo aciona nossa ansiedade e a inquietude domina nossa vida transformando nossos comportamentos habituais em compulsão. Em suma somos todos acumuladores em níveis diferentes. Alguns escondem melhor do que outros.

Acumulamos bens que tem o único fim de fazer-nos sentir seguros. Não emprestamos.

Nos preparamos em um sem número de cursos e nunca escoamos aquilo que se ajunta dentro de nós. Não compartilhamos.

Acumulamos experiência e aprendizados e não temos coragem de dizer o que ninguém vê apenas porque achamos que precisamos de um pouquinho mais. Nos escondemos.

Você precisava tanto falar assuntos de vida com seu amigo ou seu marido, mas você está esperando a morte para entender que é tarde demais? Adiamos o inadiável.

Você aprecia pessoas mas elas não sabem de nada. Você acumula sentimentos ternos dentro de você, e elas se esgotando no anseio por uma gota de esperança. Sonegamos o tributo de amor.

Fazemos cursos sem fim porque acreditamos que ainda não dá, que não sabemos o suficiente. Estamos em um constante aquecimento para o jogo. Já nos chamaram faz tempo, e o jogo pode terminar sem que jamais entremos em campo.

Não espere saber tudo para se doar, você vai aprender enquanto se doa. Você vai se quebrar enquanto se doa, você vai se curar enquanto se doa.

Conheço amigos e pessoas queridas que amam a Deus, mas vivem de congresso em congresso de evento em evento. Eles sentem que precisam “mais de Deus”, querem “mais glória”. São pessoas de grande seriedade de grande intensidade. Acumulam experiências de êxtase, enquanto o mundo lhes mendiga o amor.  Tenho a impressão que já receberam muito, e está na hora de transbordar.

Uma igreja constrói um lindo templo e oferece a si mesma o melhor do melhor. Enche a vida de todos de programações até o ponto que não haja mais tempo nem para respirar. Não se envolve em nada que não possa dar-lhe lucro pessoal ou promova o nome da denominação. Todos estão se sentindo estranhamente inquietos, porque tem medo de sair da bolha. Agora ela ora por avivamento. Como pode haver avivamento em uma alma cheia de si? Deus só enche o que está vazio. O milagre só acontece lá fora!  Quando ovelhas sobrevivem no meio de lobos, onde lobos são transformados em ovelhas.

Um dia Jesus mostrou sua Glória a alguns discípulos íntimos. Foi um daqueles momentos que ficam tatuados na alma, instantes em que a terra se encontra com o céu. Logo em seguida, Pedro quis fazer uma tendinha, ficar ali curtindo aquele momento indefinidamente. Jesus não ficou muito tempo ali. Convidou-lhes para descerem o monte da “transfiguração”(ou seria da acumulação) e avisou: teria que sofrer e enfrentar a cruz.(1)

Então, chega.

Está na hora de dar generosamente. De quebrar o vaso  do alabastro com perfume precioso. De não se importar com as críticas.

Empreste, dê, proclame aos quatro ventos que seu coração e suas mãos estão abertas.

Em um mundo de ajuntar, o Mestre nos diz:

Não existem acumuladores felizes. Estão todos doentes, ensimesmados.

Doer-se

Doar-se

Perdoar.

Perder.

Para encontrar a vida no meio do caminho.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

 

(1)    Mateus 17

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