Qual é o problema com o Papai Noel?

Para alguns esse post está chegando atrasado, mas acho que vale a reflexão para o restante do nosso ano, em nossa relação com a fantasia, o mito e a metáfora.

Nós evangélicos temos uma dificuldade imensa de fazermos diferenciação entre mentira e metáfora. Ora, nossa herança de pensamento grego que é o fundamento de nossa educação formal contribuiu para que perdêssemos a riqueza do pensamento hebraico. Hoje por incrível que pareça a igreja é mais influenciada por gregos do que hebreus no sentido do pensamento.

O pensamento grego prima pela exatidão, definições, etimologias de palavras, credos que estabeleçam a verdade objetiva do cristianismo. Já o pensamento hebraico que foi o instrumento de Deus para nos legar a Bíblia como testemunho da ação de Deus no mundo  tem paixão pelo paradoxo (livre arbítrio e predestinação), não é sistemático (não há no manuscrito divisões em capítulos e versículos) e usa e abusa de histórias(parábolas) e metáforas (sal, luz, semente, solos) para dizer o que quer dizer. É uma língua visceral.

Por essa razão Deus fez a escolha que fez: a vida é paradoxal, feita de histórias e não pode ser encapsulada em fórmulas. Quando lançamos uma metáfora, ou história ao ar, ela pode tomar a forma que a mente precisar. Inclusive podemos ser evangelizados sem sequer perceber. E o que é mais fascinante, essa mesma metáfora pode nos sustentar em diferentes pontos de nossa jornada sempre comunicando algo novo como em um caleidoscópio de significados. Ouvir diferentes pregadores falando sobre um mesmo texto, é algo que me fascina.

Philip Yancey conta em um de seus livros uma história interessante que ilustra o que quero dizer:

No começo da década de setenta, Malcom Muggeridge foi surpreendido ao ouvir que membros da elite intelectual da União Soviética estavam passando por um reavivamento espiritual … Muggeridge disse: ‘Perguntei a ele (Kusnetsov) como isso poderia acontecer, dada a enorme tarefa de lavagem cerebral antirreligiosa feita entre os cidadãos e a ausência total de escritos cristãos, inclusive dos evangelhos. Sua resposta foi memorável; as autoridades, ele disse, esqueceram-se de acabar com as obras de Tolstoi e de Dostoievski, a mais perfeita exposição da fé cristã dos tempos modernos.’”

Quando julgamos o pensamento hebraico, pensando como grego, achamos que qualquer viagem de fantasia é uma mentira. Tomo como exemplo, o Natal, que para nós cristãos é a celebração do nascimento de Jesus. Além de Jesus, também temos a quase onipresente figura do Papai Noel. Muitos líderes incomodados (com justiça) pela crescente secularização do Natal se arremetem contra a figura do velhinho que distribui presentes, e a razão utilizada é a de que o Papai Noel não está na Bíblia, nem é “verdade”, mas uma mentira inventada.

Ora, se fizéssemos a viagem lógica desse pensamento, logo teríamos que nos insurgir contra figuras mitológicas utilizadas pela própria Bíblia como o Leviatã (1), um monstro das águas segundo o mundo antigo, ou contra a descrição apocalíptica do dragão (2). Todos estes personagens não existem literalmente. No entanto, existem como ideia e até representação. Então embora não seja verdade literal, são verdades. Veja o exemplo do número da besta. Ficamos procurando o número 666, e até rejeitamos morar ou entrar numa casa que tenha esse número, como se o diabo possuísse o número 666. No entanto até os números no pensamento hebraico tem uma simbologia. Acabamos reféns de intérpretes que usam o número para projetar em seus inimigos.

O evangelho de João faz a ponte do literal para o figurado com uma frequência ininterrupta. Ele descreve Jesus dando pão para o estômago e sendo o pão para a alma, Jesus abrindo os olhos dos cegos, e afrontado por cegos espirituais, falando de escravidão política e movendo-se para a escravidão pessoal.

Se eu disser que eu voei para chegar no horário da escola, eu estarei mentindo se eu não vim de avião? Não, apenas utilizei uma metáfora, e como metáfora o que eu disse é verdadeiro, pois eu vim correndo. A questão sobre o Papai Noel ou qualquer outra fantasia não é se ele existe, mas se a ideia toda do Papai Noel é coerente com os princípios bíblicos que sustentamos. Aliás, Nicolau que inspirou a criação do personagem Papai Noel tem uma história muito bonita.

Pessoalmente, eu e minha família convivemos felizmente com a verdade histórica do natal que é o nascimento de Jesus e com o mito do Papai Noel, pois embora ele não seja fato, entendemos que ele comunica uma realidade de amor, e generosidade. Para mim ele é o legítimo representante do amor dos pais. Há algo de errado nisso? Pelo que entendo não!

Quando assisto ficção não tenho necessidade de sentir que o que estou vendo é fato. Apenas avalio se é bem escrita, filmada e se a filosofia que ela sustenta reflete a realidade.

Achamos terrível acreditar no Papai Noel, mas não nos escandalizamos com o fato de crermos cegamente no embuste que somos importantes na medida em que somos empossados em algum cargo pomposo, ou ainda que nosso valor esteja no fato de possuirmos um telefone da Apple, ou dirigirmos um carro importado.

Estou sempre lendo e ouvindo restrições em nossas comunidades sobre filmes populares com o argumento de que tem personagens demoníacos. Ora, a história está cheia de personagens diabólicos como Hitler e outros ditadores cruéis, o jornal todos os dias expõe a violência nua e crua. Nem por isso vamos deixar de estudar história, nem tampouco de ler jornais. O que deveríamos perguntar é se o mal é descrito como mal e o bem é descrito como bem.

Creio que a dificuldade dos cristãos com a fantasia é o que torna muitas vezes nossas peças teatrais previsíveis, nossas músicas sempre circulando em torno das mesmas expressões bíblicas  (poderíamos fazer leituras contextualizadas) e nossa pregação carente de cor e riqueza imagística. Simplesmente temos medo da metáfora!

Kathleen Norris (3) é uma inspiração quando escreve:

A metáfora retira suas imagens do mundo natural, de nossos sentidos, e das estruturas sociais em que o homem se encontra ligando-os a realidades psicológicas e espirituais de uma forma tal que ficamos boquiabertos; não há como explicar o poder da metáfora, apenas constatá-lo.”

O desafio do discípulo é pensar, para poder servir sua geração. Deixemos nosso tempo de meninos literalistas e que o poder da metáfora nos inspire a voar alto em nossa vida espiritual. Que Deus nos ajude.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1)    Isaías 27:1

(2)    Apocalipse 13:1

(3)    O caminho do claustro – pag. 162

2 pensamentos sobre “Qual é o problema com o Papai Noel?

  1. Aplausos!!!!! Los cristianos pensamos ser más espirituales tomando literalmente lo que creemos.
    Papá Noel personaje muy querido sin dejar de amar profundamente a Jesús.

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