Como você pode se tornar um Judas Iscariotes?

“Se você pega um cão faminto e o ajuda a ficar bem de vida, ele jamais o morderá. Essa é a principal diferença entre o cão e o homem.”

Mark Twain

Quando eu era guri, além dos chocolates que ganhávamos no domingo, também havia em alguns redutos do Rio Grande do Sul a queima do Judas. As crianças montavam um boneco de palha, pendurava-se em uma árvore qualquer, destruíam o boneco a pauladas e depois o queimavam. Pobre daquele que na época era batizado com esse nome, ainda que fosse Judas Tadeu, ficava marcado. Meu irmão conta sobre um estudante cujo nome era Judas e que na sua época pleiteava a presidência do grêmio estudantil universitário andando de sala em sala fazendo sua campanha. Em meio a conversa, um gaiato gritou no meio de uma das salas: Judas não! Ele vai nos trair. Coitado não conseguiu mais falar. Traidores ficam sempre marcados em qualquer momento da história, na maioria das culturas.

Não acredito que Judas Iscariotes tenha sido chamado por Jesus apenas para desempenhar o papel de traidor. O que aconteceu ao coração de Judas é o que pode, e acontece nos nossos corações.

Somos informados pelos evangelhos que Judas era um homem acostumado a lidar com dinheiro. Ninguém elege um tesoureiro sem que ele tenha alguma experiência com finanças. O apóstolo João escreve que ele costumava roubar dinheiro das ofertas que eram dadas ao grupo de discípulos para sustento do ministério itinerante que realizavam. (1)

Como qualquer outro discípulo, ele viu curas, milagres, libertações espirituais e um ensino consistente de Jesus sobre o Reino de Deus. Como qualquer outro cidadão de Israel oprimido pelo domínio romano naquela época, como a mãe dos filhos de Zebedeu que já brigava por posições, (2) como Pedro que se resistia a idéia da morte de Jesus na cruz, (3) ele sonhava com um reino político que faria todos os outros reinos da terra se curvarem diante da liderança dos apóstolos. Jesus por sua vez pregava o reino que acontecia no coração. Mas o que ele quis ouvir foi a promessa de uma utopia política.

Conforme o tempo passava, Judas como o típico homem de negócios, foi astuto para antever os rumos que a vida de Jesus iria tomar, e não gostou nem um pouco. A palavra para o que aconteceu no coração dele era decepção. Espiritualmente ele se afastou cada dia mais daquele grupo de discípulos.

Nessa lógica, ele decide lucrar com sua decepção, afinal ele havia “perdido” três anos de sua vida em uma ilusão. Então vem a noite trágica. Em nenhum momento Judas admite a traição. Ainda que confrontado por Jesus na Ceia, ele nega e sai sem explicação dali. Talvez dentro dele houvesse alguma racionalização do tipo: “foi ele quem nos enganou primeiro” que mantivesse o sentimento de culpa em níveis toleráveis. Quando  ele volta à companhia dos discípulos sela sua traição com o beijo mais infame da história.

A dissimulação de Judas não é novidade nos registros da aventura humana, mas reforçam o fato de que um espírito traiçoeiro pode tomar a qualquer um, até mesmo quem anda perto de Jesus, até mesmo eu e você. Um espírito desleal se estabelece em razão da decepção com sonhos que se tornaram maiores do que tudo, cresce silenciosamente, escondido atrás de palavras de falsa espiritualidade e irrompe abruptamente surpreendendo a todos.

Porque nós também nos decepcionamos a todo o momento, quero desafiar você a ir à contramão desse espírito. As pessoas não existem (como gostaríamos que fosse) para cumprir nossas expectativas, que podem até ser legítimas e razoáveis. E toda vez que nos decepcionamos abre-se diante de nós uma encruzilhada: um caminho é o da vingança e amargura e o outro o da reinvenção pessoal. O caráter do discípulo se enraíza nesses momentos quando mesmo debaixo da dor de esperanças adiadas e não cumpridas, ele permanece leal, sincero, franco e honesto.

Seja leal.

Seja leal ao seu cônjuge. Quando for assediado por alguém, e em casa o tempo estiver sendo difícil, abra o jogo mesmo assim, pois é nas trevas que a traição floresce.

Seja leal aos seus amigos. Do tipo que eles precisam. Quando você ver que eles se afundam fazendo o que é mal, fale com franqueza e objetividade. Leais são as feridas feitas pelo que ama.

Seja leal ao seu patrão. Sim ao seu patrão. Se você não gosta de algo diga a ele pessoalmente, se acha que não convém não diga a ninguém. Nunca vi alguém leal sem espaço para trabalhar.

Seja leal aos seus colegas de trabalho. Não se preste ao papel patético de dedo duro.

Seja leal a quem lidera você espiritualmente. Diga o que pensa olhando nos olhos. Se não consegue mais respeitar a sua liderança, pegue seu chapéu e vá embora em paz.

Seja leal com quem trabalha com você. Não prometa mundos e fundos que você sabe que não vai cumprir. Não use as pessoas para passar por espertalhão. Afaste-se desse mal.

Seja leal a Deus. Lembre-se que Deus não se impressiona com pregações, citações inteligentes, ou canções bem ensaiadas. Seguir a Jesus é fazer o que Ele manda.

Seja leal até mesmo aos seus inimigos, aqueles que lhe querem mal. Afinal essa é a melhor forma de ser você mesmo.

Mas a essa altura talvez você esteja pensando: “quem não foi desleal alguma vez  na vida, afinal?”

De fato, Pedro e os demais discípulos fugiram como ratos assustados na hora em que Jesus foi preso. No entanto o que os separou de Judas é um exemplo perfeito da diferença entre remorso e arrependimento. O orgulho impediu que ele tomasse o caminho de volta. Ele preferiu sofrer o mal a reconhecer seu erro. Você pode fazer diferente… ainda.

Que nessa semana pascal possamos repensar nossas traições, pois o traidor trai sempre primeiro a si mesmo. E traição é caminho de destruição. Fique de olho!

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1)   João 12:4-6

(2)   Mateus 20:20-28

(3)  Mateus 16:21-28

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