Quando o universitário se torna otário

“Eu não acredito mais nesses contos de fadas que as igrejas ensinam. Não sei como alguém pode acreditar em um deus que manda matar, que permite o mal no mundo. Para mim Jeová não é diferente de Buda, Shiva, Zeus, Rá. São todas criações humanas para projetar culpa sobre a vida das pessoas.”

Topei com uma declaração desse tipo  enquanto lia as notícias publicadas diariamente no Facebook.  Embora não represente palavra por palavra, é fiel ao pensamento do jovem que faz parte de minha rede de relacionamentos.  Fiquei intrigado com a mudança, pois já havia conversado com ele há poucos anos atrás e ele me parecia na época um cristão entusiasta. Logo descobri que ele recém havia entrado na universidade. Entrei em contato para tentar um diálogo, mas ele pareceu estar mais disposto ao insulto do que ao raciocínio. Repetia palavra por palavra os slogans  pseudocientíficos que se ouvem nas salas de aula das universidades. A situação dele me fez lembrar  muitos, que como ele são profundamente afetados em sua vida espiritual depois de ingressarem na faculdade.

Acostumados que estão as festinhas na igreja, a escola de dança na igreja, entretenimento na igreja, o jovem que entra na universidade não está nem um pouco preparado para a propaganda filosófica que está prestes a enfrentar. É comum depois de alguns meses nos bancos universitários vermos um crescente ar de arrogância e ceticismo e uma atitude desbocada  do outrora dedicado e firme alienado cristão. Ele parece se sentir traído por nunca terem dito a ele que tudo o que ele acreditava com sua vida são apenas contos de fadas.

Segue-se então uma sucessão de tropeços que o levam a se converter no “universitário otário” como eu também já fui um seminarista otário. Aqui vão alguns mitos dos quais ele se torna ingenuamente refém e que fazem com que ele viva em uma ilha de fantasia:

Ele acredita que faz parte da elite cultural do país.  Na cabeça da sociedade brasileira a faculdade está associada à respeitabilidade e capacitação embora o que possamos realmente afirmar é que ela é uma evolução na vida acadêmica, não mais do que isso. Sem dedicação pessoal  e superação é possível sair de lá da mesma maneira que se entrou, só um pouco mais arrogante, quando deveria ser mais curioso. Em alguns casos os estudantes acham que podem dar carteiraço, que seu diploma ou matrícula é o justo argumento contra qualquer questionamento. Uma triste reprodução do que muitos que ocupam cargos chaves no nosso país já fazem quando querem fechar uma desavença em seu favor.

Ele acredita que todos os saberes estão guardados entre quatro paredes. O ambiente de estudos sempre desperta o senso crítico e isso é bom, mas o hermetismo acadêmico que não consegue enxergar nada além da academia é péssimo. Em lugar de aprender a pensar ele aprende a repetir  frases esnobes.  Esquece por exemplo, que a maioria dos grandes empresários é caso de estudo em faculdade de administração não porque foram grandes acadêmicos, mas porque descobriram fora do gueto do conhecimento, novos conhecimentos e os transformaram em resultados. Um caso comum em que a vida informa a universidade em lugar do contrário.

O universitário otário, não consegue ver diferença entre fatos e o significado dos fatos. Não percebe que as descobertas científicas são ensinadas acrescidas de boa dose de filosofia. Tome-se como exemplo a já antiga descoberta de que cada parte do cérebro corresponde a uma função vital e que danificando uma parte do cérebro algo da vida emocional também pode morrer. Um ateu lê esse fato e interpreta através de sua filosofia materialista que isso significa que o corpo é tudo que há. Então o teísta toma a mesma informação e interpreta a partir do ponto de vista que alma e corpo estão tão entrelaçados que o que se faz no corpo afeta a alma e o que se faz a alma afeta o corpo. O mesmo fato, com dois significados diferentes.

Ele acredita que seus professores estão capacitados como um Papa da Idade Média a falar infalivelmente sobre qualquer assunto filosófico. O fato de seu professor de português estar bem embasado na gramática para ministrar suas aulas não quer dizer que o que ele diga sobre teologia seja bem fundamentado da mesma maneira.

Ele acredita que o fato de seu pastor não ser bom em filosofia significa que o evangelho não tem sentido como pensamento. Embora o evangelho não tenha por essência ser um sistema de pensamento, mas um jeito de viver, ele faz sentido com a realidade de como o mundo é e como as pessoas são. Jesus usava a lógica e sempre levou seus seguidores a pensarem através de perguntas que iam ao cerne das grandes questões da vida.

Ele acredita que nada daquilo que ele experimentou pela fé até chegar à universidade tem qualquer valor como experiência. Ele esquece que a maioria das realidades e sistemas humanos dos quais ele faz parte tais como banco, computador, relacionamentos se baseia no princípio da confiança simples, pois ninguém pode o tempo todo examinar cada detalhe da vida para ver se pode acreditar. Em algum momento terá de confiar.

Ele acredita que a coisa mais importante do mundo é ganhar o respeito dos seus colegas. Aqui se evidencia o complexo de vira-lata, que gerado por problemas de autoestima se acha sempre carente de aprovação e age caninamente a fim de se sentir gente, culto, integrado e inteligente. O cara esconde a família humilde, e sua ignorância pra poder sobressair-se.

Ele acredita que todos os grandes intelectuais hoje em dia são ateus. Pura propaganda! William Lane Craig, filósofo cristão renomado tem debatido a fé cristã com os grandes nomes do neo-ateísmo e demonstrado em alto nível a consistência das pressuposições básicas da Palavra. Você pode ver alguns dos seus debates aqui, aqui e aqui. Richard Dawkins  se nega a debater com ele com uma desculpa tão esfarrapada que não há outra alternativa a não ser pensarmos que ele teme o debate.

Ele acredita que a ciência é onipotente. Como se vê a ciência se constitui hoje em um ídolo moderno. Cremos que todas as soluções para nossas vidas virão dos laboratórios. Ora não sou um fanático, creio no valor da ciência e desfruto de cada coisa boa que ela pode me dar, mas também entendo que este universo com leis e racionalidade só poderia ser obra de um Legislador Inteligente. Só que mesmo depois de ter encontrado as respostas para todos os mistérios, haverá ainda mais mistérios e o desejo de transcendência inerente ao homem que pisa nesta terra só satisfeito no seu reencontro existencial com Deus.

Ele esquece que sua vida acadêmica tem tudo a ver com sua vida espiritual. O conhecimento que ele adquire não deve ser pretexto para pavonear-se, mas um instrumento de serviço a Deus servindo aos homens. Só assim ele fica livre das cadeias da vaidade que envolvem qualquer coisa “debaixo dos céus” que não tenha um sentido divino.

Creio que em resposta a tentação “otária”, nossas igrejas deveriam preparar mais seus jovens com uma abordagem consistente e equilibrada sobre as principais pressuposições de nossa fé e um entendimento dos principais ataques que elas enfrentam. Paulo descreve a batalha espiritual no nível intelectual quando afirma “usamos as ferramentas poderosas de Deus para esmagar filosofias pervertidas, derrubar barreiras levantadas contra a verdade de Deus…” (1) sem esquecer jamais que a principal apologética é a da vida com Deus que se explica e se elucida no amor cotidiano.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1)    II Coríntios 10:3,4

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