Vinhetas do amor de Dona Ida

“A mão que balança o berço, rege o mundo.”

Peter DeVries

As imagens que ficam retidas na memória são consciente e inconscientemente uma bússola para o nosso jeito de viver. Quem me conhece já terá ouvido muitas das histórias que vou contar sobre minha mãe, pois elas fazem parte da inspiração que tenho para viver. Essa mulher que gostava de teatro e música, que nunca se acomodou a miséria, que começou a trabalhar com 14 anos e sem ter qualquer curso superior chegou a ser a chefe dos registros acadêmicos de uma Universidade é uma coluna de amor em meu coração. Abro minha alma e apresento as cenas simples da minha vida que eu amo contar de novo.

A mãe é nosso primeiro contato com o mundo feminino. E definitivamente a Dona Ida me ajudou a andar em paz entre as mulheres. Nunca carreguei aquela carência doida que coloca os homens em temporada de caça permanente. Tive muitas amigas sem jamais confundir amizade com amor o que me ajudou a não deixar rastros de mágoas ao longo do meu caminho. Não que a mãe tivesse me dado qualquer orientação direta sobre isso, foi só a simplicidade de ser amado que me ensinou essas lições. Desejei desde meus oito anos ser pai, casei cedo, amo minha esposa e filhas porque a mãe me deu uma excelente primeira experiência do mundo feminino. Obrigado por essa felicidade mãe.

Aprendi com ela a tolerar os gostos diferentes dos meus filhos e das pessoas em geral. Não foram poucas as vezes que escutando som a todo vapor(!?) trancado no quarto naqueles anos 80, de Michael Jackson e Madonna quando minha mãe vinha me acompanhar dançando e curtindo o que eu curtia, não porque gostasse (agora eu sei) mas porque simplesmente aquilo me trazia alegria.

Um dia tomado de bobeira pré-adolescente cheguei em casa zombando de um colega de aula que chamávamos “Mosquito”,  porque  alguém durante o final de semana descobriu que ele vendia pulseirinhas para ajudar a família. Todos acharam não sei por que razão muito engraçado e intimidávamos  o guri chamando-o de camelô como se isso fosse uma ofensa. Minha mãe foi tomada de um ar solene e me disse com ênfase que carrego no meu coração: Meu filho, a gente jamais pode achar desprezível quem trabalha, não importa o que faça! Dali para frente enxerguei o trabalho com lentes reverentes.

Aprendi com ela os valores básicos da civilidade: ser honesto, íntegro e pagar minhas contas. Um dia voltando do supermercado me vangloriei com ela de haver sido esperto o suficiente para subtrair alguns brinquedinhos escondidos sem que ninguém me visse.  Descobri sem demora que aquilo não era esperteza era roubo mesmo. Minha mãe, como só uma mãe sabe fazer, desfilou um daqueles sermões expositivos acerca da feiura da minha atitude, destruindo meu orgulho despropositado a ruínas. Quando eu voltei a olhar aqueles brinquedos, eles queimavam em minha mão e em minha consciência de tal maneira que tive de jogá-los no lixo pela vergonha que senti. Obrigado mãe, o mundo naquele dia contabilizou um ladrão a menos.

Muitas vezes naqueles dias de inverno rigoroso de Bagé, de tormentas elétricas, de céus escuros, ventos assustadores e de preguiças paralisantes, a Dona Ida me fazia levantar para ir  ao colégio. Não havia alternativa era escola ou escola. Eu me levantava quase me arrastando pensando: “é uma ditadora”. Só pensando é claro.  Talvez seja essa a razão pela qual debaixo do mau tempo da vida eu me resista sempre a desistir. Talvez aí tenha começado a ser construída a identidade que me faz repetir e tempos difíceis: “Eu não sou daqueles que retrocedem…”.

Quando minha mãe se aposentou, continuou trabalhando, conseguiu receber um bom dinheiro que lhe proporcionou aos 55 anos a compra do carro que ela nunca pode ter. Fiquei surpreendido e mais uma vez admirado com a disposição dela para aprender a dirigir e tirar sua carteira naquela altura da vida. E ela conseguiu. Viajava pelas estradas e pela cidade, com medo, mas sem recuar. Essa imagem faz com que a cada ano eu me imponha desafios que me deem frio na barriga, pois é isso que nos faz crescer.

No final do segundo grau (era assim que chamavam ensino médio na pré-história) decidi que faria Teologia e partiria para o Seminário. Naquela época eu recém havia completado meus 17 aninhos, mas tinha convicção do que queria. Mas também sabia que o desejo de minha mãe era de que fizesse uma carreira mais “segura” e tal e coisa. Sabia também que ela queria que o filhote continuasse no ninho, mas naquele momento ela fez valer a voz da sabedoria materna, e me deixou voar sem ataduras. “Meu filho, tu tens que fazer o que tu gostas” foi o que ouvi dela sempre escondendo as lágrimas. E lá fui eu para nunca mais voltar a casa. Obrigado mãe por cortar o cordão umbilical, me ajudou a voar alto.

Recordo do dia a dia da Dona Ida, levantando cedo, limpando toda a casa, que eu só contribuía para sujar, pois nunca dei qualquer ajuda significativa a não ser comprar o que precisava na venda, no tempo em que não era perigoso soltar uma criança na rua para fazer mandados. Depois disso ela cozinhava, sempre, todos os dias. Terminada a comida ela se vestia discreta e caprichosamente e se dirigia a universidade onde trabalhou durante quarenta anos ininterruptos sem faltar ou se atrasar. Ela voltava as 22:30h sempre de bom humor e nos ensinava: eu sou a única que teria direito de estar de mau humor em casa, e não estou, portanto não quero ninguém aluado aqui dentro. Sim, mãe, é incrível que eu nunca escutei nenhuma reclamação de tua boca, nem queixa por trabalhar, virtude que ainda tento copiar de maneira trôpega já que sou um resmungão recorrente.

Toda vez que eu cheguei a casa entristecido, fracassado e chorando, minha mãe sentou e sentiu comigo. Creio que ela me deu aulas básicas de aconselhamento pastoral  anos antes de eu entrar para o seminário. Com aquele exemplo Deus preparou uma vocação em mim.

Hoje tenho sempre em meu coração o propósito de não envergonhar jamais os meus filhos com minhas atitudes, de amar minha esposa fielmente e sacrificar o bocado em minha boca a favor deles porque as imagens do teu amor sacrificial tatuaram minha alma para sempre.

Muito obrigado.

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