Um bisturi usado para matar

“Se você acredita apenas no que você gosta do evangelho, e rejeita o que você não gosta, não é no evangelho que você acredita, mas em você mesmo.”

Agostinho de Hipona

“Por isso, todo mestre da lei instruído quanto ao Reino dos céus é como o dono de uma casa que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas”.

Mateus 13:52

“Procura apresentar-te a Deus aprovado como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade.”

II Timóteo 2:15

“Como vocês podem dizer: Somos sábios, pois temos a lei do Senhor, quando na verdade a pena mentirosa dos escribas a transformou em mentira?”

Jeremias 8:8

Quando Paulo adverte seu discípulo Timóteo a manejar bem a Palavra da verdade certamente ele tem a preocupação com  a possibilidade contrária: manejar mal a palavra. A metáfora embutida no texto é a de um obreiro e sua ferramenta. A palavra é a ferramenta mais poderosa na vida do discípulo, mas  tudo que é poderoso, pode ser também perigoso.  O que estou procurando?  É a pergunta a ser feita antes de nos achegarmos a ela.

Manejar bem a palavra tem a ver com motivações do coração.

1. É preciso pensar se existe exibicionismo em mim. Soube do “tristemunho” de um pastor da vida real que sabia a Bíblia toda memorizada detalhe por detalhe, vírgula por vírgula. Costumava perguntar muitas vezes no meio de sua pregação coisas do tipo: Quem sabe o que diz: Levítico 19:3? A congregação intimidada não respondia nada. E ele gritava do microfone: Morra de vergonha! E então recitava o versículo palavra por palavra. No final da “apresentação”, todos ficavam profundamente impactados com a memória do pregador, mas não havia nenhum alimento espiritual em suas almas. Algumas pessoas da comunidade cristã  são culpadas como esse homem de utilizarem os versos da escritura para pavonearem-se diante da maioria ignorante que não se interessa pelo estudo. Elas citam um verso após o outro, e depois que obtém um conhecimento razoável e a admiração dos incautos, acham que tem direito a serem líderes e pessoas iminentes na comunidade de fé. Igualam conhecimento com vida com Deus, o que nesse caso não tem nada a ver. Vida com Deus é a vivência da palavra que se faz gente em meio a tensões e provações da vida. Não se ganha em cursos, mas na vida. Já vi gente que vai para cursos bíblicos cujo único objetivo é ter um diploma para impressionar. Esses acabam fazendo companhia para o diabo, que usa as Escrituras para o mal.

2. É preciso saber quem estou querendo agradar. Caio Fábio escrevendo em seu opúsculo “Elias está nas ruas” revela bastidores da luta presidencial entre Lula e Collor, e como seus cabos eleitorais usavam a Bíblia para legitimarem suas candidaturas no longínquo ano de 1989: “Nos folhetos que ambos os grupos divulgaram abundavam expressões messiânicas do tipo: “ele tem cara de homem de Deus…”(dito sobre Collor ); “…tem que ser sustentado pelas orações do povo de Deus, como Moisés…” (dito sobre Lula); é sábio e justo como Daniel e José…” (dito sobre Collor); “…todo verdadeiro cristão tem que votar nas propostas de mudança de…” (dito sobre Lula)”. É impressionante que 23 anos depois esse mal ainda não foi curado. Um amigo meu uma vez foi convidado para pregar em uma igreja e falou sobre honestidade e tocou no tema “contrabando”, só que nessa igreja a grande maioria das pessoas vivia disso. Depois da reunião o pastor chamou ele e falou: “Irmão, você não pode falar isso aqui nessa igreja”. Quem usa a Palavra para bajular está prestando o maior desserviço a causa do Reino.

3. É preciso saber se há sede de sangue em mim. Alguns setores da igreja americana usaram a maldição de Noé sobre Cam para justificar o racismo, afirmando que a maldição seria a “negritude”. Uma péssima exegese a serviço da cultura racista do sul dos Estados Unidos.  Outras pessoas no mesmo tom usam a palavra para chamarem aqueles que não creem de “filhos do diabo”. Já é conhecimento geral que a Inquisição e as Cruzadas  contaram com justificativas “espirituais”. O que foi feito para curar se transforma em instrumento de morte.

4. É preciso saber se tenho a disposição para ir fundo. Ainda é comum  sob o verniz da superespiritualidade  a leitura  de afogadilho. Gente que abre a Bíblia a esmo e coloca o dedo em qualquer versículo e sem contexto algum sai falando o que bem entende.

Uma velha história que ouvi conta sobre um homem que procurava uma palavra de Deus para um momento difícil e recorreu a esse expediente. Ele abriu rapidamente sua Bíblia e colocou seu dedo em um versículo sorteado, e leu:

– Judas foi e enforcou-se.

Meu Deus o que é isso? Ele pensou.

Foi para a próxima tentativa e achou o seguinte:

– Vai tu e faze o mesmo. Ele então começou a entrar em parafuso.

Tentou uma vez mais e encontrou:

– O que tens para fazer, faça-o depressa.

O que aprendemos com isso, é que Deus não condescende com a preguiça mental, mas recompensa aos que buscam com humildade o entendimento de Sua Palavra.

5. É preciso saber se estou se estou vulnerável a ela ou se procuro defesa. Muitas vezes temos uma opinião sobre uma série de assuntos e caímos na tentação de procurarmos textos que “unjam”  nossa posição. O pior que podemos fazer é encaixotar a Palavra em algum “ismo”: marxismo, capitalismo, socialismo. Qualquer “ismo” é um sistema fechado e redutor. Deveríamos aprender a sermos honestos e esclarecermos quando estamos dando uma opinião e quando estamos apenas pregando aquilo que a Palavra ensina. Não é sem rir que me lembro de como todos os colegas e alunos em diferentes seminários que estudei e ministrei aulas, encontravam um texto bíblico para afirmar a singularidade e a natureza “bíblica” da sua igreja: a cidade que moraremos no céu é “quadrangular”, a igreja é uma “assembleia de Deus”, mas deve viver como “família de Deus” e por aí vai.

6. É preciso saber se não estou perdendo o bom senso.  Precisamos  sensibilidade as necessidades das pessoas e os momentos que estão  vivenciando. Você não vai ministrar em um velório e ler “Deus meu, Deus meu porque me desamparaste.” Também não vai a um casamento e dizer: “Nos tempos de Noé, casavam-se e davam-se em casamento”.  É como dar carne gorda a um convalescente, ou aspirina a um paciente terminal. Certa vez fizemos na cidade uma leitura pública das Escrituras na praça. Do ponto de vista cultural uma excelente iniciativa, mas como proveito espiritual eu tenho lá minhas dúvidas, pois da mesma forma que o etíope necessitou que Filipe o ajudasse a entender, uma pessoa sem contexto jamais obterá proveito das Escrituras. Imagine o que as pessoas  entenderam quando ouviram textos como: “Quem dera matasses os ímpios, ó Deus”, ou “Raça de víboras”?

Tão importante quanto ler, é como ler. Que as motivações do seu interior lhe sejam reveladas para que a verdadeira essência da Palavra seja vertida em seu coração. Na certeza de que temos tanta luz quanto queremos:

Um abraço quebra costelas

O discípulo gaudério.

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