O que revela e produz a cultura do palavrão

Meus leitores mais sábios logo se apressarão a apontar a pequenez do assunto que abordo diante dos grandes temas da humanidade. Dirão com razão que um ”glória a Deus” sonoro no templo, mas cheio de hipocrisia é pior que qualquer palavrão dito na crueza da hora. Dercy Gonçalves ficou conhecida como representante mor da irreverência brasileira disse certa vez que palavrão é “não ter cama nos hospitais”. Não lhes tirarei a razão, mas acrescentarei que não precisamos optar entre um e outro. Podemos evitar ambos sem prejuízo para nossas vidas.

Até os tempos da abertura política brasileira, lá pelos idos de 1985 tínhamos um ambiente altamente controlado quanto ao que se dizia no Brasil. A famosa censura. Chico Buarque teve que usar sua genialidade para dar vazão ao seu inconformismo com a ditadura com uma letra de duplo sentido que versava:

“Apesar de você

Amanhã há de ser outro dia

Eu pergunto a você onde vai se esconder

Da enorme euforia?

Como vai proibir

Quando o galo insistir em cantar?

Água nova brotando

E a gente se amando sem parar”

O duplo sentido de hoje não é mais o da genialidade, mas o da vulgaridade. Hoje não é fato incomum um adolescente levantar-se diante do professor e enfrenta-lo com um repertório impublicável de impropérios. Os textos  das novelas  que guardavam certos limites já não tem freios na língua. Os humoristas que antes insinuavam agora se apoiam no palavrão como atalho para fazer rir. Talvez o único setor de programas televisivos que ainda se preserva quanto ao tipo de linguajar são os telejornais.

Toda cultura possui certo tipo de palavras que se encaixa na categoria “palavrão”.  Será que isso é puro moralismo? Acho que não. Palavras são entidades vivas que carregam história e sentimentos dentro de uma cultura. Assim é que os palavrões funcionam como o esgoto dos  sentimentos negativos de uma cultura.  Às vezes literalmente.

Os defensores da cultura do palavrão se baseiam na ideia equivocada de que palavras são apenas palavras. Assim como na experiência humana existem condutas perversas, pensamentos perversos, há também a linguagem perversa. Não dizemos que pensamentos são só pensamentos. Assim como não diremos que palavras são só palavras. Elas sempre revelam algo e produzem algo.

Creem também apoiados na filosofia hedonista, que tudo que é sentido deve ser expressado e colocado para fora conforme essa pesquisa porque faz bem a saúde emocional.

Como discípulo, sou chamado a questionar minha cultura e me parece que através de uma leitura bíblica sem muito rigor já é possível discernir que a excelência da linguagem também é uma questão relevante na Palavra.

“Abençoem os inimigos: não haja maldição em suas palavras”. (1)

“Tenham cuidado na maneira de falar. Nunca saia da boca de vocês nenhuma besteira ou baixaria. Falem apenas o que é útil e que ajude os outros. Cada palavra de vocês deve ser um presente.” (2)

“Erramos quase toda vez que abrimos a boca. Se você achar alguém que não falha ao abrir a boca, está aí uma pessoa perfeita, com total controle da vida… Uma simples palavra pode parecer nada, mas é capaz de construir ou destruir quase tudo!” (3)

Palavras criam realidades, de pensamento, de clima emocional e afetivo. Quem defende o palavrão com base em pesquisas que dizem que ele alivia o stress talvez se surpreendesse com o fato de que bater em alguém também traz um alívio imediato, mas nem por isso recomendamos esse tipo de comportamento.

Tenho um amigo que até bem pouco tempo atrás  trabalhava em uma empresa que não se importava muito com o linguajar dos empregados. Ele testemunhava juntamente com outros colegas que o ambiente era carregado de hostilidade apesar do trabalho ser leve e bem remunerado. Ele pediu para sair e começou a trabalhar em outra empresa que orientava o comportamento recíproco dos empregados. Ele ganha menos, trabalha mais pesadamente, mas pessoalmente está mais feliz. Provando aquilo que parece a mim óbvio: palavras fazem muita diferença.

Lendo a Bíblia sob todos os pontos de vista parece ser coerente afirmar com tranquilidade que além de refletir uma realidade do coração a palavra também é causa do que acontece em nossa vida. Paulo adverte que “as más conversações corrompem bons costumes”. (4) O mesmo podemos dizer a respeito do uso do palavrão na boca do discípulo. Não pretendo escrever aqui algo popular. Até os cristão se acostumaram tanto a uma linguagem de baixo nível que qualquer pensamento diferente soa irritante e legalista. Mas acredito estar sendo fiel ao espírito da Palavra.

Quando escrevo não faço para defender uma conduta que é natural para mim, mas para lembrar a mim mesmo o tipo de vida que sou chamado. Devo confessar que nessa altura da minha vida tem sido mais difícil controlar a boca para não falar besteira do que eu gostaria.

O palavrão é o destino errado que damos aos nossos sentimentos negativos. Em lugar de abrirmos o coração, chorarmos, orarmos, simplesmente insultamos. Aquele que faz uso deles para desabafar logo não hesitará em usá-los (pois já se tornou parte da artilharia pessoal) em direção a outras pessoas.

O palavrão é a violência, a faca afiada das palavras. Ouvi muitas vezes o provérbio: paus e pedras poderão me atingir, mas palavras nada me farão. Mas que grande mentira! Elas ferem mais que paus e pedras. Basta ouvir as pessoas e suas histórias para saber.

Onde se estabeleça a cultura do palavrão, haverá certamente o insulto, o destempero, o reino dos instintos, o desprezo e a ferida mal resolvida, o que não é pouca coisa. Por essas e outras acho recomendável um discípulo cuidar do que fala, pois podemos ser incisivos sem sermos ofensivos, contundentes sem sermos condescendentes. Censura é ruim, mas autocensura é necessária.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1)    Romanos 11:14

(2)    Efésios 4:29

(3)    Tiago 3:2-5

(4)    I Coríntios 15:33

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