Por que a geração y tem tanta dificuldade para argumentar?

Tive o prazer de assistir pela primeira vez ao programa Conexão 4 x 4, em sua segunda edição,  veiculado pelo ClickCarreira. Rico em experiências e expectativas de jovens talentos e gestores de RH, o que me chamou a atenção foi a observação da mediadora do evento, Sofia Esteves, presidente da DMRH, ao final do programa, dizendo que um dos maiores problemas dos jovens nos processos seletivos era a falta de capacidade argumentativa em dinâmicas e entrevistas.

Refleti, pensei nos jovens com quem convivo no trabalho, amigos e parentes e me parece que a observação da especialista tem todo fundamento. Mas por que essa geração tem dificuldade para argumentar, defender suas ideias com acesso a tanta informação? Lembrei da excelente palestra que Sidnei Oliveira fez no Monster, e de seus livros sobre a geração Y. Uma geração formada pelo vídeo game, nativa da web e com uma incrível capacidade de inserção nas novas tecnologias. Bingo!

Ao longo dos últimos 20 anos, assisti e vivi como jornalista a redução drástica dos textos. É preciso comunicar rápido. Nos blogs, a recomendação é de quatro parágrafos e se possível, muitos bullets. Dar dicas. Nas redes socais, no twitter, a informação tem que ser veloz e aqui não vai nenhuma critica. Participo da blogosfera, gosto, trabalho com mídias sociais e acho um cenário maravilhoso de troca de informação em todos os âmbitos. O “Meio é a mensagem”, já teria previsto tio McLuhan décadas atrás.

Ganhamos volume, mas perdemos um pouco da profundidade. Lemos muito menos literatura, a produção cinematográfica é criada para atingir um público de 13 a 35 anos (oi?). Os filmes “adultos” ou de “arte” ganham cada vez menos espaço. E a capacidade de argumentação vem justamente da experiência da complexidade, da riqueza da linguagem, dos sentimentos humanos. É nesse mergulho de palavras, de narrativas que vão “Além do Bem e do Mal”, para citar outro autor maravilhoso, Nietzsche, que estão as pecinhas que vão acrescentar nosso argumentos, nossas crenças, nossos valores, dar um tempero à nossa individualidade, em tudo o que fazemos e na forma como nos relacionamos com o outro. Nossa marca.

Assisti várias palestras de Carlos Faccina no CONARH, maior congresso de RH da América Latina, executivo que fez uma carreira brilhante na Nestlé como diretor de RH e hoje possui sua própria consultoria, a Intuitiva Business (o nome já diz tudo!). Apesar de uma experiência fascinante no ambiente corporativo, Faccina fala em suas apresentações sobre a importância da emoção, da sensibilidade, de exercer sua vida profissional com paixão. Todo mundo chora.

Lista sempre os livros que não podemos deixar de ler para melhorar a performance como gestores de pessoas: Guimarães Rosa, Gilberto Freyre, Machado de Assis, Fernando Pessoa e uma série de autores de obras clássicas da literatura. Em sua experiência, afirma que melhores gestores são melhores pessoas, atentas à profundidade humana. São aquelas capazes de sentir o outro, compreendê-lo em toda sua riqueza e complexidade.

Então #ficaadica. Nessas férias, não exclua o prazer de estar nas redes sociais. Mas guarde umas horinhas para mergulhar de cabeça em alguns grandes romances clássicos, suspirar, fechar um livro no meio para poder pensar no sofrimento ou a conquista daquele personagem. Mergulhe na humanidade dessas obras. Sem perceber, estará esculpindo aquilo que o fará autêntico e apaixonado pelas suas ideias. E com melhor capacidade de sustentar os próprios argumentos. Um humano diferenciado. Boa leitura!

Por Fabíola Lago, Community Manager do Monster Brasil.

Anúncios

Os cumpridores de regras e o espírito do Reino

“Por isso mesmo, sempre que percebo a generosidade no mundo, fico paralisado. O mundo cai no silêncio como se ali estivesse Deus em pessoa, cobrindo a precariedade humana com sua misericórdia.”

Luiz Felipe Pondé

O cristão evangélico normal é conhecido como alguém que cumpre as regras. Se a lei determina algo ele será voluntarioso em cumpri-la com a tendência para não questionar sua natureza. Como exemplos da história recente do Brasil têm a horda de pastores que sustentava que o impeachment do presidente Collor era um desrespeito ao mandamento de honrar as autoridades. Muitos foram os que se opuseram ao afastamento do ex-presidente.

O entendimento geral em nossa aldeia é de que precisamos ser zelosos com as regras. Embora seja uma ética admirável para muitos, não reflete o espírito do verdadeiro cidadão do Reino que Jesus sempre quis exemplificar. No Reino de Deus o espírito é de fazer aquilo que está além de nossas obrigações. Cumprir regras é pouco para quem recebeu tanta graça.

Uma cena do Novo Testamento chama a atenção pelo tamanho da liberalidade. Jesus chega à casa de Simão o fariseu e segundo os costumes da época é destratado ostensivamente. Não recebe o tradicional lava-pés, não é beijado ou ungido como se fazia quando um convidado de honra vem a casa. Segundo Levison: “No caso de um Rabi, todos os membros da família do sexo masculino esperam à entrada da casa, e beijam suas mãos. Na casa, a primeira coisa que se faz é lavar os pés do hóspede.” (1)  No entanto, Jesus não perde a paciência, nem se toma ares  ofendidos, apenas ensina através do exemplo da generosidade da prostituta que enxerga a vida como deve ser: como perdoada. Só quem realmente sabe que é perdoado pode ser verdadeiramente generoso. A inteligência, a beleza e o status quo exigem honra constante, o perdoado só quer demonstrar gratidão. Os demais vivem sob a lógica do bom cidadão, apenas fazendo sua obrigação.

Obrigação é amar seus familiares e amigos, no Reino somos chamados a amarmos nossos inimigos e orarmos por eles. Constam na sua lista de oração aqueles que são seus inimigos?

Obrigação é você cumprir com suas funções no trabalho, no Reino somos chamados a ajudarmos os colegas que se encontram em dificuldades.

Obrigação é você ser o primeiro quando chega primeiro. No Reino quem precisa mais pode ter nossa bondade.

Obrigação é que eu coopere financeiramente quando faço parte da junta diretiva da igreja. No Reino contribuir é um hábito que me dá alegria.

Obrigação é o  professor  dar aula em tempo e corrigir provas. No Reino, ele fará de tudo para que seus alunos aprendam.

Nosso mundo está cada vez mais mesquinho. Seríamos comunidades mais vibrantes se tão somente fossemos mais generosos. Exigimos a saudação esquecida, o reconhecimento sonegado, a vaga do estacionamento ocupada, a cadeira que tradicionalmente usamos na igreja, a menção na lista de agradecimentos.  Não toleramos atrasos, somos grosseiros com a atendente nova na loja que se atrapalha porque não conhece as mercadorias.

Cumpridores de regras são previsíveis e limitados em seus afetos, atitudes e pensamentos. Não há surpresas entre eles. Para eles ainda não tocou a doce canção da graça que anuncia que a promissória de sua dívida impagável foi rasgada definitivamente.

A visão de credor na vida, incentivada por nossa criação, acaba detonando o estopim do orgulho e presunção em nossas relações cotidianas. Cremos que todos nos devem algo, e estamos com a alma armada para cobrar as dívidas de cada um, centavo por centavo. Para quem vive assim ir além das regras soa irracional, se assemelha a uma perda é visto até como motivo de riso. São aqueles que no momento em que as coisas não vão conforme planejado, abandonam família, blasfemam contra Deus e abandonam velhos amigos.

Na parábola do bom samaritano tudo ocorreu conforme o previsto. O sacerdote cumpriu sua obrigação e foi para casa, o levita idem, apenas o bom samaritano que era desprezado pelo povo representado por aquele necessitado caído à beira da estrada teve a generosidade que o momento requeria e fez aquilo que transcendia a obrigação. Então ele se torna o herói da história. Sim  porque na história de Deus, os heróis são aqueles que não se guiam por suas obrigações apenas, mas tem coração para ir além.

Não é preciso dizer que quem vive assim, vive para ver corações tocados, comunidades prósperas, reconciliações e vidas transformadas. É tudo que eu quero para mim.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1)    As parábolas de Lucas. Kenneth Bailey. Página 45

Dúvida Irracional

As razões para a descrença são mais complexas dos que os ateus tentam demonstrar.

Por James Spiegel

Fonte: Revista Cristianismo Hoje

A recente publicação do livro do gênio da física Stephen Hawking em coautoria com Leonard Mlodinow Uma nova história do tempo(Ediouro) reiniciou o recorrente debate acerca da existência de Deus. Ao sugerir que o cosmos pode ter sido originado espontaneamente, “do nada” – contrariando parte do que disse em seu bestseller anterior, Uma breve história do tempo, em que admitiu a possibilidade física da Criação –, o cientista britânico deu vigor ao neoateímo, movimento que cresce em todo o mundo e tem um de seus epicentros justamente no Reino Unido. Ateus e agnósticos celebram a obra como fonte de novos argumentos para dispensar as crenças religiosas acerca do tema origens e decretar, à semelhança do que o filósofo alemão Nietzsche fez no século 19, a morte de Deus. Ou, mais modernamente, como o pensador americano Thomas Nagel, que disse esperar que ele não exista. “Eu quero que o ateísmo seja verdade. Não quero que exista Deus, não quero que o universo seja assim.”

A atitude de Nagel, ainda que sutil de alguma maneira, não pode ser considerada comum entre os ateus. A maioria dos céticos demonstra ter chegado a este ponto de vista através de questionamentos legais e racionais. Mas, será que existem outros fatores envolvidos? Cristãos defensores da fé têm respondido aos argumentos dos novos ateus – que geralmente só refazem objeções tradicionais – com argumentos próprios. Como já é de costume, não falam muito sobre as causas irracionais para a descrença. Mas, como seres humanos, não somos feitos apenas de razão; temos também emoções, desejos, livre arbítrio – e tudo isso tem sua influência sobre o conjunto de crenças de todo ser humano. Por mais importante que seja relembrar aos ateus das evidências racionais para a existência de Deus, o problema real em muitos casos tem natureza moral e psicológica.

Esta sugestão é potencialmente ofensiva para os descrentes; mas, ainda precisamos nos perguntar se é verdadeira. De acordo com as Escrituras, a evidências para a existência de Deus são irresistíveis. O apóstolo Paulo diz que o que se pode conhecer de Deus é manifesto. Segundo ele diz em sua Epístola aos Romanos, 1.19-20, os atributos divinos, conquanto invisíveis fisicamente, podem ser claramente compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que aquele que não crê é indesculpável. Já o salmista descreve, com lirismo: “Os céus declaram a glória de Deus; e o firmamento proclama a obra das suas mãos” (Salmo 19.1). Isso naturalmente leva ao questionamento de que, se as evidências da existência de Deus são tão abundantes, por que existem ateus? Novamente, Paulo fornece parte da resposta no mesmo texto da carta à Igreja em Roma, observando que algumas pessoas “suprimem a verdade pela injustiça.”

A verdade é que todos nós sofremos de espaços de cegueira intelectual criados por nossos vícios pessoais e desejos imorais. Dependendo da dimensão à qual sucumbimos a tal estado, somos tentados a adotar perspectivas que nos fazem racionalizar um comportamento perverso. Quanto a isso, estudiosos não são diferentes de outras pessoas. O filósofo e educador novaiorquino Mortimer Adler (1902-2001) confessou rejeitar um compromisso religioso durante a maior parte de sua vida, pois acreditava que tal confissão interferiria demais no seu jeito de viver, nas escolhas do dia a dia e nos seus objetivos. “A simples verdade desta questão é que eu não queria viver para ser uma pessoa genuinamente crente”, escreveu. Tanto, que preferiu ser batizado anonimamente, aos 81 anos de idade.

CRENÇA E COMPORTAMENTO

O historiador Paul Johnson, em seu fascinante e perturbador livroIntelectuais, expôs este padrão de vida em célebres pensadores do período moderno, como Rousseau, Shelley, Marx, Ibsen, Hemingway, Russell e Sartre. Em suas vidas privadas (e muitas vezes públicas), estes gênios intelectuais do Ocidente eram moralmente arruinados. Será que sua rejeição a Deus – e, em particular, ao cristianismo, com seus padrões morais – era totalmente intelectual e imparcial? Ou será que os mesmos desejos confessados por Nagel e Adler tinha parte em seu ateísmo?

Como filhos do Iluminismo, temos a tendência de dar forte ênfase ao impacto da crença no comportamento humano. Contudo, ocorre o contrário – nossa conduta afeta a maneira como pensamos. De um lado positivo, a sabedoria das Escrituras nos diz que a humildade e a obediência nos dirigem para a compreensão e o discernimento; numa abordagem negativa, basta dizer que, quando cedemos ao comportamento imoral, nosso julgamento é distorcido. Ou, conforme Paulo descreve, a desobediência endurece o coração, que abre caminho para pensamentos fúteis, escurecimento da compreensão e ignorância (Efésios 4.18-19). Em outras palavras, o pecado tem consequências cognitivas.

O filósofo Alvin Plantinga, da Universidade de Notre Dame, desenvolveu tal ideia em profundidade. Ele observa que, como todas as outras coisas da vida, nossas faculdades mentais na formação das crenças foram desenhadas para funcionar de uma maneira. E, nas condições apropriadas, a tendência é formarmos crenças verdadeiras acerca do que percebemos ou raciocinamos. Mas algumas coisas podem impedir o funcionamento cognitivo – e o pecado é uma dessas coisas. Quanto mais desobedecemos e nos entregamos aos nossos vícios, menos confiável será nossa formação de crença no que diz respeito a questões morais e espirituais.

Apoiando-se em grandes teólogos cristãos como Tomás de Aquino e João Calvino, Plantinga propõe que todos os seres humanos têm o chamado sensus divinitatis, uma percepção inata do divino. Semelhante consciência natural de Deus nos leva a refletir nele conforme experimentamos a vida. Mas o sensus divinitatis, diz Plantinga, pode ser “corrompido e ferido pelo pecado”, ao ponto de levar o ser humano a negar a existência de Deus. De acordo com esse modelo, os ateus sofreriam de uma forma de disfunção cognitiva ou enfermidade. Assim, fatores externos poderiam influenciar nossa consciência natural de Deus, contribuindo para uma caminhada em direção ao ateísmo.

Em seu livro A fé dos órfãos: A psicologia do ateísmo, título em tradução livre, Paul Vitz, da Universidade de Nova Iorque – ele mesmo, um ex-ateu – examina a vida da maior parte dos ateus do modernos, incluindo ícones como Hobbes,Hume, Voltaire, Feuerbach, Nietzsche, Sartre, Camus e Freud. Ele observou que todos eles tinham algo em comum: uma relação distante e conturbada com seu pai. Por diversos fatores, como morte, abandono, abuso ou outros, a relação daqueles conhecidos ateus com seus pais foi imperfeita.

Por outro lado, Vitz também examinou a vida de teístas proeminentes durante o mesmo período: Pascal, Reid, Berkeley, Wilberforce, Kierkegaard, Schleiermacher, Newman, Chesterton e Bonhoeffer, entre outros. Em cada caso, encontrou biografias que registravam bons relacionamentos com os pais, ou, ao menos, uma figura forte de pai. Naturalmente, a vida é muito complexa para colocar uma regra rápida e imutável sobre tais questões; mas, ao menos, essa realidade histórica demonstra que existem dimensões morais e psicológicas no ateísmo, instâncias que não podem ser ignoradas. Ao menos isso sugere que ateus podem ser desmotivados a descrer em Deus. O evolucionista Richard Dawkins britânico (autor de Deus, um delírio, lançado no Brasil pela Companhia das Letras), é famoso por declarar que os teístas são iludidos. Mas se Adler, Plantinga e o apóstolo Paulo estão certos, então o ateu Dawkins necessariamente está equivocado.

Como cristão, geralmente sou questionado sobre as implicações da defesa da fé para os ateus. Minha resposta é que precisamos analisar caso a caso. Converso com muitos ateus para os quais se aplica o alerta de Jesus de não se atirar pérolas aos porcos. Mas sei que outros estão interessados em um diálogo genuíno, ainda que sejam dogmáticos em sua descrença. Para estes, estou sempre disposto a conversar sobre suas evidências racionais. Em muitos casos, os ateus se convertem após rever as boas razões para a fé. Antony Flew, estudioso e líder ateu por meio século, tornou-se cristão após evidências que considerou indiscutíveis. E alguns cristãos apologistas, como Lee Strobel e C.S.Lewis, foram ateus anteriormente. O que não se sabe é como e quando o Espírito Santo pode se mover na vida de alguém, iluminando sua mente uma vez obscurecida por um coração endurecido e concedendo a fé a alguém que genuinamente espera que Deus não exista.

James Spiegel é professor de filosofia na Universidade Taylor

Cicatriz

A engrenagem da vida

As boas intenções

A beleza exibida

A conversa, o diálogo

A inteligência que impressiona

Sem perdão nada funciona.

O casamento de papel passado

De compromisso anunciado

A festa tão perfeita

Com todo mal antecipado

Sem perdão está tudo acabado.

A igreja que busca a perfeição

Que foge da lei do cão

Que visita a Palavra a cada domingo

E ama seu círculo de oração

Sem perdão não tem jeito não.

A justiça desejada

A trégua tratada

O conflito esmiuçado

A razão toda explicada

Sem perdão ficou espicaçada.

A busca por Deus

A palavra revelada

O reencontro celebrado

Redenção anunciada

Sem perdão ficaria impossibilitada.

O primeiro tapa

Um tiro disparado

O bumerangue que volta

Mil vezes piorado

Sem perdão, o armistício após mil anos, é ainda esperado.

A porta antes escancarada

Para o sonho acalentado

A saída silenciosa

Uma história em suspense

Sem perdão é sempre castelo trancafiado.

A equipe encaixada

Com cada peça em seu lugar

Na dança dos contratempos

Anda agora a passo lento

Sem perdão a derrota é questão de tempo

A saudade do amigo

Do riso escrachado

Que um momento de deslize

Deixou tudo manchado

Sem perdão é assunto abafado.

Minha razão toda razão

Mil razões para tiros de canhões

Para o que doeu continuar ser revivido

Uma única pra deixar tudo esquecido:

Sem teu perdão eu não haveria existido.


Limoeiros e videiras no pomar de Deus.

“Eu sou a Videira Verdadeira, e meu Pai é o Agricultor. Ele retira de mim todo ramo que não produz uvas. Já o que produz ele poda para que produza ainda mais. Vocês já estão podados pela mensagem que comuniquei.”

João 15:1-3

Jesus toma o exemplo da videira para falar de vida frutífera, pujante. Só tive a ideia clara do que ele tinha em mente quando pude observar a videira se desenvolvendo no pátio da casa que passei a alugar desde 2009.

Nos primeiros anos não imaginávamos que ela pudesse dar  uvas boas. Então tive a visita do meu sogro que entende mais de plantação do que eu, e ela foi podada. No ano subsequente a poda tivemos uvas profusas e doces.

Quando a videira é podada em maio e junho, ninguém consegue imaginar que em novembro ela terá seus galhos abundantes e verdejantes.

Nossa vida espiritual tem o mesmo processo e a mesma necessidade. Ser podado pode significar duas coisas: dor, e que Deus enxerga a possibilidade de mais frutos em nós.

Aqueles que veem a nossa vida podada geralmente desacreditam que possamos dar fruto novamente, mas a semelhança da videira, se acatarmos a poda com um coração dócil não teremos motivos para arrependimento.

O livro de Eclesiastes fala do ciclo da vida que gostaríamos que não existisse. Mas é nesses momentos amargos do pêndulo da vida que a doçura de Deus vai se formar em nós. Na hora de morrer, matar, destruir, chorar, lamentar, abstinência, afastar, perder, largar, consertar, calar a química de Deus vai gerar algo transcendente e improvável em nós. Nossas cicatrizes serão sinais de vitória.

Vocês já estão podados pelas minhas palavras disse Jesus aos discípulos.

As circunstâncias tem uma Palavra de Deus para nós.

Deus pode nos podar nos tirando da frente da batalha como fez com Moisés que permaneceu no deserto até que Deus o levantasse no tempo certo para libertar o Egito.

Deus pode nos podar retirando nossas forças. Sansão tinha todas as ferramentas que precisava para fazer um ótimo trabalho para Deus, mas escolheu pavonear-se ao ponto de perder a sobriedade. As lágrimas de uma mulher estrangeira o puseram de joelhos para que ele recuperasse o rumo. Tenho  colega exauridos por razões que desconheço, mas tenho certeza que eles voltarão melhores do que antes.

Deus pode nos podar quando a paz das circunstâncias nos abandona. Davi abriu a porta do inferno com o adultério e o homicídio de um inocente, mas seu coração derreteu-se diante da poda de Deus, e ele foi contado como um “homem segundo o coração de Deus”.

Deus pode nos podar quando perdemos nossa reputação. José passa de favorito do pai a prisioneiro humilhado em poucos instantes, mas no final um desenrolar surpreendente o coloca diante dos irmãos que o vitimaram. Ele não era mais o mesmo esnobe que se gloriava diante dos irmãos, mas um homem responsável.

Deus pode nos podar enviando uma dura repreensão. Muitos pensam que uma dura repreensão é uma condenação definitiva, mas pode ser a porta de saída de um caminho tortuoso. Como dizia o professor de C. S. Lewis: Você pode ter a verdade por 10 centavos e mesmo assim prefere a ignorância?

Deus pode enviar confusão. Paulo que sempre sabia o que fazer, perdeu o rumo no caminho de Damasco. Perdeu para encontrar-se definitivamente.

Deus pode fazer engolirmos nossas palavras. Foi o que aconteceu quando Pedro dizia que todos poderiam tropeçar menos ele. Não imaginava a ironia apenas algumas horas adiante.

Deus pode nos podar nos deixando sozinhos. Um pouco de solidão é um convite a entrar nas profundezas da alma.

Cada pessoa em nossa vida tem uma palavra de Deus para nós.

As pessoas exigentes nos mostram quanto potencial possuímos.

As pessoas difíceis podem lembrar nossos próprios defeitos, pois costumamos odiar aqueles que têm algo em comum conosco.

As pessoas encorajadoras nos ajudam lembrar que nem tudo está errado conosco. As vezes nossa timidez precisa ser podada.

Pessoas amigas me tiram do meu pedestal ao qual me acostumo nas hierarquias das instituições que trafego.

Pessoas sem status me lembram do que é de fato amar as pessoas e não suas competências e afinidades.

No meu pátio também tenho um limoeiro. Ele não é podado nunca. Ele dá fruto abundante, mas seu fruto é azedo. A tesoura está posta nos galhos da videira, quem entende a poda deixa que pode.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

Dica de leitura: Bonhoeffer pastor, mártir, profeta, espião

As boas biografias são maravilhosas porque reúnem em um só gênero, doutrina, história, psicologia e drama. Da mesma maneira que uma frase pode ter seu sentido distorcido fora do contexto também é difícil entender o que alguém escreve sem conhecer sua conjuntura pessoal. Para se ter uma ideia disso em um equívoco monumental, os contemporâneos de Bonhoeffer entenderam o cristianismo sem religião que ele defendia como cristianismo que não crê em Deus, que só se preocupa com a ética. A leitura Bonhoeffer: pastor, mártir, profeta, espião, que a editora Mundo Cristão lançou no ano passado desfaz todas as dúvidas.

Conheci Bonhoeffer nas aulas de seminário com o professor Heinrich Finger. Ele trouxe alguns textos do livro póstumo Ética que trata além de religião  questões como amor, pecado e coragem. Logo após fomos levados a ler Resistência de Submissão um livro de cartas escritas da prisão. Nelas Bonhoeffer falava contra a religiosidade oficial  deixando uma pulga atrás da nossa orelha sobre o que ele estaria tentando comunicar. Mais tarde já pastor de igreja li Discipulado, Tentação e aquele que seria dos seus livros o mais impactante na minha vida: Vida em comunhão.

Bonhoeffer foi um visionário. Ele antecipou debates que hoje fazem parte do nosso dia a dia. O relacionamento da fé com o mundo emancipado, como viver em comunidade de fé,  relação entre igreja e estado e diferença entre religião e cristianismo. Mas nenhuma história é mais cativante do que a que Bonhoeffer escreveu com sangue em um tempo de grande omissão da igreja oficial na Alemanha que aceitou tacitamente a doutrina nazista e seu messianismo monstruoso.

Bonhoeffer foi um profeta. É fácil dizer eu já sabia, quando antes não se ouviu nenhuma voz. Não foi assim com ele. Ele anteviu as ações do nacional socialismo e os perigos que ele representava para a nação alemã.  Quando toda a nação celebrava a chegada de Hitler ao poder como a salvação da Alemanha, ele dizia: “O perigo assustador do mundo atual é que, acima do clamor por autoridade… nós esquecemos que o homem se encontra sozinho perante a autoridade suprema, e que todo aquele que impõe mãos violenta sobre o homem está violando leis eternas e concedendo a si mesmo uma autoridade sobrenatural que acabará por destruí-lo.”

Bonhoeffer foi um grande pastor. Fundou um seminário que ensinava a orar e a ler as Escrituras e a confissão de pecados, coisas difíceis de serem vistas no mundo teológico daquela época e na de hoje mais ainda. Como pastor não se furtou ele mesmo ao hábito de ser discipulado pelo seu cunhado Eberhardt Bethge. Um homem que reuniu profundidade teológica, coragem pessoal e dedicação pastoral a uma comunidade de discípulos merece meu respeito. É esse tipo de homem que eu mesmo quero me tornar.

Creio que a leitura dessa biografia mexerá muito com sua vida além de emocionar com o desprendimento desse homem de Deus. Confesso que chorei ao ler os relatos da morte tão extemporânea de um homem que sob um ponto de vista carnal tinha tanto a dar ao mundo. Ao ser chamado para a execução por enforcamento ele diz ao companheiro de cela: “Esse é o fim, mas para mim o começo da vida”

Bonhoeffer: pastor, mártir, profeta, espião

Editora Mundo Cristão.

O pecado que trará o fim do mundo

P.S. Não endosso a teologia do Pastor Gondim, mas esse texto acertou em cheio.

Ricardo Gondim

Percebo uma zanga generalizada sobre determinados pecados. “O mundo vai de mal a pior; estamos perto do fim”, alertam. “Mas quais pecados aceleram o fim do mundo?”, pergunto. “Promiscuidade sexual”, respondem; e ainda avisam: “Se não acontecer um avivamento puritano, semelhante ao inglês no tempo da rainha Vitória, vai chover fogo e enxofre”. Insisto; minha inquietação é grande: “Por que tanta ênfase no pecado sexual?”.

Não vamos falar de uma iniquidade que Deus odeia, ou melhor, que ele abomina? O livro de Provérbios é categórico:

Estas seis coisas aborrece o Senhor, e a sétima a sua alma abomina: olhos altivos, a língua mentirosa, e mãos que derramam sangue inocente, e coração que maquina pensamentos viciosos, e pés que se apressam a correr para o mal, e testemunha falsa que profere mentiras,
e o que semeia contendas entre irmãos
 – Provérbios 6.16 9
(o grifo é meu).

Deus odeia toda maldade que gera morte, mas detesta, abomina, maledicência, calúnia, boataria. O Senhor execra a difamação com veemência. Por que não se combate precisamente o mal que pode desencadear a ira divina? O nono mandamento da Lei de Deus não deixava dúvida, Javé não tolera quem semeia suspeita: “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo”.

Por que Deus aborrece a maledicência com tanta força? 

Porque o maledicente só desopila o baço quando, insatisfeito em arranhar uma reputação, busca destruir uma história. O caluniador crava as unhas na vida de pessoas que admira com ânsia de matar.

Porque o maledicente fuça a intimidade alheia para suscitar o que não presta. Para isso gosta de ambientes mal cheirosos. É hiena com fome de carniça. O caluniador se alimenta de notícias estagnadas. Ele sabe revolver as fossas do passado –  fossas podres. O mundo do caluniador rodopia em frases retalhadas de eventos que deveriam jazer no mar do esquecimento. Quando retalha conversas, pinça revelações de contextos íntimos; e  joga ao vento com o intuito de arrasar.

Porque o maledicente se contenta em sussurrar meias verdades. Ele aumenta, nunca inventa. Sua especialidade é imaginar. Evita o risco da calúnia com vagas insinuações. Fantasia, e espalha como fato, o que suspeita. O difamador não passa de rato. Seus movimentos são ágeis pelos esgotos da dúvida. Seu mundo necessita de penumbra; suas alucinações não resistem à luz. Necessita de lusco fusco para que todos fiquem pardos.

Porque o maledicente é escorregadio. Adora o discurso conservador para se proteger de atos falhos, de pequenas escorregadelas. É ortodoxo. Gosta de discutir literalidade; detesta a sua subjetividade. Montado em lógicas incontestes, evita que outros percebam o desconforto que nutre consigo mesmo. A fofoca espalhada serve para esconder a alma exangue do detrator. Como diz José Ingenieros, ele quer empanar “a refutação alheia para diminuir o contraste com a própria”. Quando sugere a dúvida, acredita que a sua leviandade diminuirá o discernimento das pessoas.

Por que o maledicente precisa de cúmplices. Ele só age em quadrilha. Amparado por gente de coração diminuto, espalha o vírus da notícia imprecisa. Procura não aparecer. Basta esperar que a informação suspeita se espalhe pela boca rancorosa de simplórios. A maquinação da maldade não carece de sua supervisão. E não falta gente baixa. Sobra quem se deleita em assistir ao espetáculo de uma biografia enxovalhada na sarjeta. Ele se delicia em saber que outros terminaram o serviço sujo que ele só começou. Desdenha a Bíblia, que tanto repete: “Não se alegre quando o seu inimigo cair, nem exulte o seu coração quando ele tropeçar…”.

Porque o maledicente saliva na iminente derrocada de quem, na verdade, admira. Depois que sabe da desgraça se refastela. Seu sorriso tem uma satisfação satânica. Ele deseja o que o outro desfrutava. Seu ódio é proporcional à admiração. Agora, acredita que não existe mais ninguém acima de si. A língua é fogo, muitas vezes incandescida pelo inferno. A língua produz um mundo de iniquidade e só precisa de uma fagulha para incendiar o curso de uma reputação. Para acabar com alguém, bastam uma breve insinuação, um cenho franzido, um gesto hesitante.

Porque o maledicente é dono de uma perfídia maldosa. Ele é mestre nas perguntas capciosas. Sua intenção é ouvir o segredo e deixar pontos de interrogação no ar: “Será?”; “Foi assim mesmo?” Para isso, oscila sordidamente entre a piedade e a detração. Com a mesma língua bendiz a Deus e amaldiçoa a história de alguém criado à imagem e semelhança do Deus, que ele jura adorar. Se não consegue destruir a biografia, o testemunho observado objetivamente, o caluniador questiona as intenções. Gosta de fazer juízo de valores porque a subjetividade é frágil. Vale-se de seus esgotos interiores para julgar e sentenciar. Davi pecou, mas teve a graça de escolher que tipo de punição sofreria. “Prefiro cair nas mãos do Senhor, pois grande é a sua misericórdia, a cair nas mãos dos homens”. O padre Antônio Vieira comentou a passagem: “O juízo dos homens é mais temeroso do que o juízo de Deus; porque Deus julga com entendimento, os homens julgam com a vontade”.

Porque o maledicente nunca quer ser justo. Sua verdade nasce da sua antipatia. Indisposto, exerce um juízo manchado de inveja. Mal discerne que suspeita, dúvida e sentença veem contaminada com aversão. O acusador não quer saber que encarna a perigosa serpente do Apocalipse e que terá o mesmo destino.

Porque o maledicente, antes de apontar o dedo, esquece de Provérbios: As palavras do caluniador são como petiscos deliciosos; descem saborosos até o íntimo. Como uma camada de esmalte sobre um vaso de barro, os lábios amistosos podem ocultar um coração mau. Quem odeia disfarça suas intenções com lábios, mas no coração abriga a falsidade. Embora a sua conversa seja mansa, não acredite nele, pois o seu coração está cheio de maldade. Ele pode fingir e esconder o seu ódio, mas a maldade será exposta em público. Quem faz uma cova, nela cairá; se alguém rola uma pedra, esta rolará sobre ele – (26.22-27). 

Soli Deo Gloria