Os cumpridores de regras e o espírito do Reino

“Por isso mesmo, sempre que percebo a generosidade no mundo, fico paralisado. O mundo cai no silêncio como se ali estivesse Deus em pessoa, cobrindo a precariedade humana com sua misericórdia.”

Luiz Felipe Pondé

O cristão evangélico normal é conhecido como alguém que cumpre as regras. Se a lei determina algo ele será voluntarioso em cumpri-la com a tendência para não questionar sua natureza. Como exemplos da história recente do Brasil têm a horda de pastores que sustentava que o impeachment do presidente Collor era um desrespeito ao mandamento de honrar as autoridades. Muitos foram os que se opuseram ao afastamento do ex-presidente.

O entendimento geral em nossa aldeia é de que precisamos ser zelosos com as regras. Embora seja uma ética admirável para muitos, não reflete o espírito do verdadeiro cidadão do Reino que Jesus sempre quis exemplificar. No Reino de Deus o espírito é de fazer aquilo que está além de nossas obrigações. Cumprir regras é pouco para quem recebeu tanta graça.

Uma cena do Novo Testamento chama a atenção pelo tamanho da liberalidade. Jesus chega à casa de Simão o fariseu e segundo os costumes da época é destratado ostensivamente. Não recebe o tradicional lava-pés, não é beijado ou ungido como se fazia quando um convidado de honra vem a casa. Segundo Levison: “No caso de um Rabi, todos os membros da família do sexo masculino esperam à entrada da casa, e beijam suas mãos. Na casa, a primeira coisa que se faz é lavar os pés do hóspede.” (1)  No entanto, Jesus não perde a paciência, nem se toma ares  ofendidos, apenas ensina através do exemplo da generosidade da prostituta que enxerga a vida como deve ser: como perdoada. Só quem realmente sabe que é perdoado pode ser verdadeiramente generoso. A inteligência, a beleza e o status quo exigem honra constante, o perdoado só quer demonstrar gratidão. Os demais vivem sob a lógica do bom cidadão, apenas fazendo sua obrigação.

Obrigação é amar seus familiares e amigos, no Reino somos chamados a amarmos nossos inimigos e orarmos por eles. Constam na sua lista de oração aqueles que são seus inimigos?

Obrigação é você cumprir com suas funções no trabalho, no Reino somos chamados a ajudarmos os colegas que se encontram em dificuldades.

Obrigação é você ser o primeiro quando chega primeiro. No Reino quem precisa mais pode ter nossa bondade.

Obrigação é que eu coopere financeiramente quando faço parte da junta diretiva da igreja. No Reino contribuir é um hábito que me dá alegria.

Obrigação é o  professor  dar aula em tempo e corrigir provas. No Reino, ele fará de tudo para que seus alunos aprendam.

Nosso mundo está cada vez mais mesquinho. Seríamos comunidades mais vibrantes se tão somente fossemos mais generosos. Exigimos a saudação esquecida, o reconhecimento sonegado, a vaga do estacionamento ocupada, a cadeira que tradicionalmente usamos na igreja, a menção na lista de agradecimentos.  Não toleramos atrasos, somos grosseiros com a atendente nova na loja que se atrapalha porque não conhece as mercadorias.

Cumpridores de regras são previsíveis e limitados em seus afetos, atitudes e pensamentos. Não há surpresas entre eles. Para eles ainda não tocou a doce canção da graça que anuncia que a promissória de sua dívida impagável foi rasgada definitivamente.

A visão de credor na vida, incentivada por nossa criação, acaba detonando o estopim do orgulho e presunção em nossas relações cotidianas. Cremos que todos nos devem algo, e estamos com a alma armada para cobrar as dívidas de cada um, centavo por centavo. Para quem vive assim ir além das regras soa irracional, se assemelha a uma perda é visto até como motivo de riso. São aqueles que no momento em que as coisas não vão conforme planejado, abandonam família, blasfemam contra Deus e abandonam velhos amigos.

Na parábola do bom samaritano tudo ocorreu conforme o previsto. O sacerdote cumpriu sua obrigação e foi para casa, o levita idem, apenas o bom samaritano que era desprezado pelo povo representado por aquele necessitado caído à beira da estrada teve a generosidade que o momento requeria e fez aquilo que transcendia a obrigação. Então ele se torna o herói da história. Sim  porque na história de Deus, os heróis são aqueles que não se guiam por suas obrigações apenas, mas tem coração para ir além.

Não é preciso dizer que quem vive assim, vive para ver corações tocados, comunidades prósperas, reconciliações e vidas transformadas. É tudo que eu quero para mim.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1)    As parábolas de Lucas. Kenneth Bailey. Página 45

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