Inferno aqui e agora!

Texto do Rob Bell publicado no blog do Sandro Baggio.

Eu recordo chegando a Kigali, Rwanda, em dezembro de 2002 e dirigindo do aeroporto para nosso hotel. Logo após deixar o aeroporto, vi um menino de provavelmente dez ou onze anos, sem uma das mãos, ao lado da estrada. Depois vi outro menino, na mesma rua, sem uma perna. Depois outro em uma cadeira de rodas. Mãos, braços, pernas – devo ter visto cinquenta ou mais adolescentes sem um dos membros somente naqueles primeiros quilômetros. Meu guia explicou que durante o genocídio, um dos modos de desmoralizar e humilhar o inimigo era remover, com um machado, um braço ou perna de crianças, para que anos mais tarde elas tivessem que viver com a lembrança do que foi feito a elas.

Se eu acredito em um inferno literal?
Claro.
Aqueles não eram braços e pernas desmembrados metaforicamente.

Você já sentou-se ao lado de uma mulher enquanto ela falava sobre como foi para ela ter sido estuprada? Como uma pessoa descreve o que significa ouvir um menino de cinco anos, cujo pai acabou de cometer suicídio, perguntar: “Quando o papai voltará para casa?” Como alguém descreve aquele olhar devastado, vazio, singular, que você encontra nos olhos de um viciado em cocaína?

Tenho visto o que acontece quando as pessoas abandonam tudo o que é bom e correto e afável e humano.

Certa vez, conduzi o funeral de um homem que eu nunca havia conhecido. Seus filhos me alertaram, quando me pediram para fazer o ofício, que eu estava entrando numa confusão e que, quanto mais próximo chegássemos do ofício em si, mais feio as coisas ficariam.

Este homem era cruel e mau. A todos ao seu redor. Ninguém tinha nada de bom para dizer sobre ele. A função do pastor, dentre outras coisas, é ajudar a família e amigos a honrar propriamente o falecido. Este homem tornou minha tarefa bem difícil.

Eventualmente percebi o que eles queriam dizer com “feio”. Quando percebeu que estava para morrer, ele reescreveu seu testamento. Ele propositadamente deixou fora familiares que esperavam receber algo e deu a riqueza para outros membros da família que ele sabia que eram desprezados. Ele mudou seu testamento para que em seu funeral houvesse dor e ira. Ele queria ter certeza de que estaria causando destruição nesta vida, mesmo depois de tê-la deixado.

Conto estas histórias porque é absolutamente vital que reconheçamos que amor, graça e humanidade podem ser rejeitados. Do mais sutil olhar de desprezo à mais violenta degradação de outro ser humano, somos terrivelmente livres para fazer o que nos agrada.

Deus nos dá o que queremos, e se isto for o inferno, podemos tê-lo.
Temos este tipo de liberdade, este tipo de escolha. Somo livres assim.

Podemos usar machados se quisermos.

Então quando as pessoas dizem que não acreditam no inferno e não gostam da palavra “pecado”, minha primeira resposta é perguntar: “Você já se sentou para conversar com uma família que acabou de descobrir que o filho foi molestado? Repetidamente? Durante anos? Por um parente?

Algumas palavras são fortes por uma razão. Precisamos que essas palavras sejam intensas assim, carregadas, complexas e ofensivas, porque elas precisam refletir as realidades que descrevem.

E é isso o que encontramos no ensinamento de Jesus sobre o inferno – uma mistura volátil de imagens, figuras e metáforas que descrevem as experiências e consequências bem reais de se rejeitar a bondade e humanidade dadas por Deus. Algo que todos temos liberdade para fazer, a qualquer tempo, em qualquer lugar, com qualquer um.

(extraído de Love Wins, páginas 70-73)

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