As Surpresas Desconcertantes do Reino

O texto de Mateus 7:21-23 me chama a atenção e incomoda desde sempre. Lá nós vemos relatados por Jesus pessoas que exerciam atividades que todos reconheceriam como espirituais e importantes do ponto de vista do avanço do Reino de Deus na terra. Expulsar demônios, curar, adorar são relatados na passagem.

No entanto essas pessoas não são conhecidas por Deus, e, por conseguinte também não conheciam a Deus. É um paradoxo trágico a possibilidade de fazermos o trabalho do Reino, mas não conhecermos ao Rei. Sermos engolidos pela adrenalina do dia a dia, pela emoção dos resultados, mas sem que isso faça uma diferença entranhada na vida da gente. Sem dúvida é uma advertência que não posso tomar como direcionada a outros, já que eu mesmo faço todas estas coisas no meu dia a dia. Eu posso ser um desses, só que não quero ser um desses nervosinhos por Jesus.

A leitura dessa passagem me leva a pensar em Sansão e Davi. Do ponto de vista ético, os dois foram um fracasso com as mulheres e família e Davi acrescente-se matou um homem íntegro em nome de uma paixão. Quando descubro que foi chamado de homem segundo o coração de Deus, as coisas ficam ainda mais nebulosas. Esse homem não merece esse epíteto tão honroso, é o primeiro pensamento que me vem a mente. Mas quem mereceria, a graça sussurra no meu ouvido. O diferencial entre os personagens que se movem no cenário bíblico é relacionamento.

A ética é importante, a obediência fundamental, mas nada é mais importante para Deus do que nosso andar com ele. Davi como todos nós tinha muitas coisas das quais gostaria de esquecer, mas mesmo assim viveu cada uma delas na presença de Deus. O seu pecado e arrependimento fica registrado em Salmos. Quem se atreveria a tanto no mundo cosmético dos evangélicos? Suas vitórias são celebradas na presença de Deus a ponto dele perder a roupa dançando de alegria. Quem quebraria tantos protocolos litúrgicos no mundo previsível dos crentes? Sansão por sua vez orgulharia uma geração que tem sangue na boca e curte UFC. Ele era um vencedor e satisfazia o desejo de desforra da nascente e combalida nação de Israel. Cumpria um ministério, só que sua relação com Deus nunca avançou a linha de empregado e patrão. Talvez por isso ele passe para história como uma figura patética, infantil e decadente. Ação sem coração produz condenação.

Na outra ponta do evangelho (1) eu topo com outro texto desarmador de teologia. O cara chega ao juízo final, e recebe um elogio que nunca buscou, por uma ação da qual nunca foi consciente. Ele simplesmente foi compassivo  com quem tinha necessidades pessoais de roupa, comida e visita. Ele não tinha fotógrafos perto dele, não publicou no facebook, não pediu doações. Simplesmente moveu-se a partir do coração sem grandes estratégias. O texto me leva a uma série de questionamentos:

Será que minhas ações corretas levam com elas um coração cheio de simples compaixão?

Será que fazer algo em nome de Jesus, é apenas invocar as letras do nome, vestir uma camiseta, como quem coloca um código de barras?

Será que não seremos tomados de surpresa pelas pessoas que encontraremos no final de todas as coisas?

A conclusão inescapável pra mim é a seguinte: no Reino é a doação sem pretensão que gera promoção. Os grandes acontecimentos do Reino parecem escapar dos holofotes para habitarem nas ações sem a neurose nervosa de nossa cultura.

Que a rotina do dia a dia, sua agenda e seus deveres não roube a dimensão mais importante da fé, a simplicidade de viver, sentir e agir como filho amado. É assim seu coração?

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1)    Mateus 25:31-46

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