Provérbios para discernir as pessoas

“Mas Jesus não se confiava a eles, pois conhecia a todos. Não precisava que ninguém lhe desse testemunho a respeito do homem, pois ele bem sabia o que havia no homem.”

João 2:24,25

Não pense que quem trai para ficar com você, vai ser fiel para sempre. Será fiel ao seu caráter desleal.

Cuidado com os murmuradores que reclamam nas costas dos amigos, dos parentes e de tudo que é passado em suas vidas. Que deixam portas fechadas em todos os lugares aonde vão. Eles certamente são pessoas desleais, e quando não precisarem mais de você esquecerão toda a sua história.

Preste atenção em quem sempre critica o sucesso dos outros, eles não suportarão o seu sucesso também.

Observe quem tem a língua solta, e não fale nada de muito importante a ela, pois logo ali adiante ela entregará o segredo, pois mesmo que tenha boa intenção, não é senhora da própria língua.

Cuidado com quem se diz vítima de todo mundo em todo lugar, provavelmente é um vilão dos mais sutis que você encontrou.

Preocupe-se se todo mundo que está a sua volta só elogia e lhe cobre de louvores. É certo que você não vive em um ambiente de transparência.

Não pense que todo mundo lhe amará pelo bem que você faz, alguns justamente pelo bem que você faz lhe odiarão.

Mulher, o homem que não ama a própria mãe jamais lhe amará, homem, a mulher que não acertou as contas com seu pai, jamais poderá confiar em você.

Se você estiver procurando alguém para trabalhar bem e duro, procure quem está ocupado, pois os preguiçosos sempre encontram um motivo para estarem parados e quem quiser sempre terá o que fazer.

Não se baseie no discurso brilhante dos falastrões, os maiores executivos que conheço, fazem e depois falam.

Acautele-se daqueles que fazem um cavalo de batalha de um só pecado, quase sempre você descobrirá que eles possuíam uma afinidade que desejavam dissimular.

Mas apesar de tudo a Escritura nos ensina:

“Assim foram alguns de vocês. Mas vocês foram lavados, foram santificados, foram justificados no nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito de Deus.” (1)

E também diz:

“Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas!” (2)

E convém não esquecer:

“E não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo próprio colheremos, se não desanimarmos.” (3)

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1)    I Coríntios 6:11

(2)    II Coríntios 5:17

(3)    Gálatas 6:9

A lágrima mentirosa.

Um estudioso que eu não lembro o nome observou que depois do cristianismo conquistar o mundo, a vítima, até então desprezada pelo mundo antigo como uma derrotada, começou a ser levada em consideração pelas pessoas em razão de que Jesus teria sido a vítima divina da maldade humana. A partir daí as minorias começaram a ter uma atenção maior. O infanticídio começou a ser combatido entre cristãos, crianças que eram abandonadas em praças públicas por serem defeituosas ou por serem  do sexo feminino foram cuidadas. Enfermos abandonados por suas famílias que acreditavam que elas eram canais de maldição eram acolhidas nos lares dos seguidores de Jesus que entendiam que aqueles que sofriam deveriam ser cuidados como Jesus fez quando esteve na terra.

Como tudo que é bom na raça humana repete a história do Éden, o ser humano perverteu a legítima preocupação com as pessoas afetadas pela opressão dos outros para esconder-se atrás da máscara da vitimação. Ao perceberem que a vítima sempre tem a simpatia dos outros, os espertos e  mal intencionados não poupam esforços artísticos para torcerem situações e se colocarem como oprimidos. Dessa forma elas conseguem ter a atenção, os benefícios pelos quais não querem suar, e tantas outras coisas que repousam em seu colo sem o menor esforço. Ah, como há lágrimas mentirosas nesses tempos, ah como precisamos aprender a discernir.

Uma pessoa com quem convivi, na tentativa de fazer com que amigos em comum partilhassem de uma postura favorável  a ela em um conflito, foi capaz de inventar uma circunstância humilhante na qual eu era o vilão e ela era a vítima. Arquitetou uma situação fantasiosa com requintes de detalhes e lágrimas nos olhos capazes de granjear a simpatia deles imediatamente.  Como não sou de muito chorar, e costumo resolver meus problemas usando mais razão do que emoção,  perdi momentaneamente a simpatia e a solidariedade dos meus amigos. A situação me fez refletir, e muito. Será que tem que ser assim? Então comecei a observar quem se faz de vítima e percebi que eles viviam a mais arrastada das existências.

Refleti também sobre Cristo. Será que ele morreu para nos ensinar que se fazer de vítima é uma ótima opção de vida. Um estilo de viver esperto. Então lembrei a resposta de Jesus ao choro das mulheres de Jerusalém no momento da crucificação: “Filhas de Jerusalém, não chorem por mim. Chorem por vocês mesmos e por seus filhos. “ (1) Em outras palavras Jesus estava dizendo: chorem pelo que tem que ser chorado. Não tenham pena de mim!

Quando olho para Jesus não vejo o pobrezinho que foi até a cruz, vejo minha maldade que está latente e que frequentemente me leva a arremeter-me contra o que Deus traz a vida. Vejo uma mensagem de esperança de que nossa maldade jamais poderá sepultar permanentemente os propósitos de Deus. Haverá ressurreição, mais poderosa do que nunca.

A vitimação é uma condenação à miséria permanente. Não ensine seus filhos a ser coitadinhos, isso é tirar deles a fibra interior. É certo chorar, enfrentar dias de luto, rasgar a alma diante de Deus, mas há uma hora de dizer chega, que é pra gente não começar a gostar demais da situação.

Outro dia vi um vídeo do Morgan Freeman, que desaprovava o dia da consciência negra e que talvez tenha sido mal entendido que você pode ter acesso aqui.  Entendi o que ele quis dizer: definir-se como vítima é pouco para a história de qualquer povo ou raça. É certo que em muitas circunstâncias de nossa vida, fomos injustiçados e oprimidos, mas essa não pode ser toda a história. Tem que haver o outro lado, o lado da reação, da atitude perseverante, amorosa, que não se amargura e não cede ao ódio heroico, mas  segue em frente.

Para finalizar, uma palavra a você que é discípulo de Jesus:

  1. Não resolva seus problemas em meio ao choro, nunca algo objetivo e profundo sai daí.
  2. Não se apresse a tirar conclusões a partir das lágrimas, peça discernimento a Deus.
  3. Não importa o que possam ter feito a você, você sobreviverá pela graça de Deus, e será (se assim o crer) mais forte do que nunca para glória de Deus. Se o mundo não ama o discípulo de Jesus, ele não  lamenta, apenas se joga nos braços daquele cuja essência é acolher.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1)    Lucas 23:26-31

Passos para derrotar o demônio pacato

Philip Yancey conta no seu livro “Para que serve Deus?” a seguinte história:

Alguns anos atrás, eu aceitei fazer uma palestra num encontro da Visão Mundial, em Myanmar, ex-Birmânia, país vizinho de vocês (Índia). “Você precisa saber que a maioria dos pastores que estão presentes passou algum tempo na cadeia devido a sua fé”, disse o homem que me convidou. “Este é um regime muito tirânico”.

“Então devo falar sobre a dor e o sofrimento?”, perguntei. “Não, não, não, eles esperam estas coisas”, respondeu ele de imediato. “Estão acostumados com isso. Gostaríamos que você falasse de graça. Sabe, os vários grupos cristãos daqui não conseguem se dar bem uns com os outros”.

O fato dos cristãos de lá entenderem o sofrimento como natural é um contraste com a nossa realidade. Aqui nossa cultura nega o sofrimento e a cultura evangélica oxigena espiritualmente o sistema com teologias de satisfação total, sem mencionar a necessidade de renúncia que Jesus tanto falou.

A colunista de época Cristiane Segatto acrescenta dados sobre essa realidade quando fala sobre o  documentário “Muito além do peso”  a respeito  de crianças obesas no Brasil que revela o estado geral dos filhos desta geração.  Ela escreve:

“Crianças de 9 ou 10 anos vivem como velhos, imóveis e cheios de doença. Na minha infância – e provavelmente na sua – a grande preocupação das mães era cuidar de joelhos ralados, braços quebrados, dentes perdidos nas brincadeiras de rua.

Bem diferente do que acontece hoje. No filme, um menino olha a estante cheia de brinquedos e diz: “Tenho várias bolas. Não gosto de jogar porque faz cansar”.

Acomodação é a palavra que expressa o jeito de ser predominante desta época. Chamo o comodismo de demônio pacato, porque ele não assusta, mas seus efeitos são devastadores, não agride,  mas não deixa agir, não fere mas também não deixa curar, é silencioso e nos mantém fazendo barulho inócuo. Nossa luta hoje é mais sutil do que nunca. ”Nós nunca seremos qualquer coisa a não ser barulhentos.  piolhentos, abusados,  e maluquinhos sujos” revela a cantora Pink em um de seus sucessos.

Imagino o diálogo desta geração e Jesus quanto a grande comissão:

Jesus: Ide!

Discípulo ocidental água com açúcar: Só se for de primeira classe.

Jesus: Por todo o mundo!

Discípulo ocidental água com açúcar: Para o primeiro mundo?

Jesus: Ensinem a praticar tudo que tenho ordenado a vocês!

Discípulo ocidental água com açúcar: Só quando estiver de acordo com o politicamente correto, possa me fazer popular e não seja deprimente.

Como não sou de ficar só no “mimimi” quero sugerir a você passos para sair da “zona de conforto”.

1. Aproxime-se de gente de alto nível de combustão. A mediocridade é altamente contagiosa, especialmente a do espírito. Talvez você não tenha gente desse calibre para se aproximar neste exato momento. Não tem problema. Leia muitas biografias de gente excelente. Quando leio sobre a vida de gente da estirpe de Bonhoeffer, Spurgeon, Martin Luther King, vejo que é possível ter uma vida muito melhor. Impossível esquecer o testemunho dado a respeito dos últimos dias de Bonhoeffer antes de ser enforcado pelo regime nazista: “nunca vi em minha vida um homem tão submisso a vontade de Deus” . A  frase citada por Spurgeon ainda desafia minha vida pastoral: “seria totalmente monstruoso, um homem estar no ofício mais elevado, e ser o mais baixo de alma”. O discurso emblemático de King “Eu tenho um sonho” emociona e me empurra para ser um homem envolvido nos problemas do meu tempo. Poderia falar de muito mais gente, mas estes bastam para colocar fogo em lenha seca.

2. Tome iniciativa de resolver conflitos pessoais. Procure as pessoas mesmo que você tenha razão. Não deixe um lastro de situações não resolvidas pelo seu caminho.

3. Faça coisas que você não é um expert. Não estou falando quanto a sua profissão, mas da atitude de se arriscar, de pegar em uma pá, de cozinhar, de pintar. Sentir aquele desajeitamento que nos ajuda valorizar o que outros fazem e nos faz contentes de sermos quem somos. No povo de Deus há três tipos de pessoas. Místicos, aqueles que querem é uma boa reunião de oração e vigílias sete dias da semana, intelectuais, que gostam de ler escrever e questionar tudo e os ativistas, aqueles que fazem acontecer, que produzem eventos, pregam, fazem visitas e muito mais. Cada um deles poderia sair da zona de conforto se integrassem em suas vidas as dimensões dos seus irmãos diferentes.

4. Pare com o costume de dar desculpas para suas falhas. Quando nos proibimos de dar desculpas nosso cérebro se move em direção às soluções. Sou muito jovem, sou muito velho, não tenho vontade, são as desculpas que eu mais ouço das pessoas para não se moverem.

5. Procure a sensação de frio na barriga. Quais as novidades assustadoras para o próximo ano? Quais os convites que você está com medo de aceitar? O que você precisa fazer que tem medo de fazer? São precisamente estes que podem levar você a sair de sua comodidade.

6. Converse com pessoas que você nunca conversou. Talvez seja legal os cristãos conversarem mais com os ateus, os roqueiros saírem de sua tribo e encontrarem os pagodeiros, essa gente bem vestida e perfumada de nossas igrejas conversarem com gente pobre e fedorenta. Sair da tribo é imperioso nestes tempos, para quem quer ser discípulo de Jesus cuja universalidade nos desafia permanentemente.

7. Seja um protesto contra o consumismo. Você ouve milhares de mensagens diariamente de assédio comercial, eu disse milhares. Se você não protestar, vai acreditar que sua autoimagem depende da compra de algum aparelho legal, ou que vai ficar mais importante na posse de um carro.

8. Não presencie a injustiça calado, seja na escola, no trabalho ou entre vizinhos. Quando silencio diante da injustiça de um sistema perverso, me torno cúmplice dos seus erros. E depois não adianta pedir justiça se eu não sou uma pessoa de postura. Pergunto: por quem você já tirou a cara? Ninguém? Então como você pode reclamar da justiça? Lembro-me do verso da canção dos Engenheiros do Hawaii: “Fidel e Pinochet tiram um sarro de você que não faz nada.” Certa mulher desabrigada depois de ver suas tentativas de ajudar serem negadas com uma promessa de oração, escreveu este poema:

“Eu tive fome,

e tu formaste um grupo humanitário para discutir minha fome.

Estive presa,

e tu te retiraste discretamente para a tua capela e oraste pela minha libertação.

Estava nua,

e, na tua mente, questionaste a moralidade da minha aparência.

Estive enferma,

e tu te ajoelhaste e agradeceste a Deus por tua saúde.

Estava desabrigada,

e tu me falaste do abrigo espiritual do amor de Deus.

Estava solitária,

e tu me deixaste sozinha a fim de orar por mim.

Parecias tão santo, tão próximo de Deus!

Mas eu ainda estou com fome… e sozinha… e com frio.”(1)

9. Seja a solução para os problemas que você critica. Tem gente que adora reclamar da igreja, da escola, do supermercado. Está faltando isso, precisamos disso, é o que eles falam, mas nunca é solução de nada. Precisamos falar mais  a primeira pessoa do plural, dessa forma vamos nos sentir parte dos problemas, não só dos sucessos. Como li em algum lugar: O sucesso tem muitos pais, mas o fracasso sempre é órfão.

10. Mergulhe na oração como começo meio e fim para fazer tudo com doçura.

Na esperança que você possa enxergar o seu comodismo como um verdadeiro demônio manso e comece a fazer algo agora:

O discípulo gaudério.

Tempo de reciclagem

Tudo nesse mundo cansa, perde o sentido à medida que cai na rotina. O alarme desenhado para ser irritante e chamar a atenção, tocado sem parar na frente de minha casa acaba virando trilha sonora. É verdade no casamento, nas artes e na vida espiritual. Se um casal vive as mesmas coisas dia após dia, enfrentará a fadiga da rotina. Se escutarmos a mesma canção nosso cérebro ficará enfastiado. Uma vida espiritual que não procura momentos de renovação tenderá a envelhecer-se e perder o sentido. Para dizer a verdade, lá dentro de nós a gente acaba se dando conta quando nossa vida precisa de renovação. Quero compartilhar, o que tenho aprendido nestes últimos tempos:

1. Pergunte-se: porque estou fazendo o que faço. É comum fazermos as coisas certas pelas razões erradas. Um pregador pode se ver sutilmente desviado de sua rota de falar a verdade do evangelho para tentar obter aplausos e agradar a homens. Um membro da igreja pode no percurso de sua jornada espiritual, ir à igreja apenas para cumprir uma obrigação religiosa, a leitura da Bíblia pode ficar viciada na busca de um consolo água com açúcar e a oração pode deteriorar em uma repetição de fórmulas, nossa própria conversa fica viciada em clichês que escondem nossa verdadeira situação, não comunica só troca sons sem sentido. A solução não é só mudar o que se faz, mas recuperar o sentido do que  se faz. (1)

2. Pare de esperar a bênção de Deus de um modo limitado. Deus é muito criativo como podemos ver em uma leitura rápida da Bíblia. Usa uma mula para falar com Balaão, sustenta Elias através dos corvos que segundo a lei judaica é um animal imundo (necrófago) e de uma viúva pobre que deveria estar sendo ajudada, o que para os conceitos humanos e religiosos era definitivamente humilhante. Qualquer um de nós no lugar de Elias, diria para Deus: Senhor quero carteira assinada, um rancho garantido e um bom carro para fazer tua obra, mas Deus simplesmente sustentou Elias do seu jeito. Lembre-se, seu planejamento de vida não pode se transformar em um plane-jumento. (2)

3. Deixe de viver a partir de feridas não curadas. Que péssima base para viver é a amargura. Distorce nossa visão das pessoas, rejeita a graça de Deus, e nos aprisiona ao passado. Porque muitos idosos são ranzinzas? Não é porque tenham vivido muito tempo, é porque em lugar de celebrarem a vida, acumulam ressentimentos.  Algumas vezes o ressentimento não é nem contra pessoas, mas contra o fato de envelhecerem, perderem a vitalidade. Há outro, cujo projeto é provar para alguém que eles tem valor. A partir desse ponto de vista, não há como a vida ser renovada. Perdemos a percepção da oportunidade que passa diante de nós. Os fariseus representavam a manutenção de um velho sistema, e suas feridas causadas pelo fato de serem escravos de Roma, permaneciam controlando suas percepções do novo que representava Jesus. Eles fizeram a leitura de que Jesus iria roubar-lhes a dignidade há muito tempo arranhada pela dominação romana. E tem muita gente que não consegue seguir o vento de Deus, por viver o projeto reducionista da amargura. (3)

4. Não se compare. Hoje tudo que é valorizado e desejado tem escala industrial. Mas o que Deus faz, não faz em escala industrial. Deus não quer uma porção de soldadinhos de chumbo, iguaizinhos no vestir , no falar e nos projetos. O que Ele faz conosco, é uma história particular, própria. O chamado de uma comunidade, seu jeito de ser, tem que ser descoberto em oração e com sensibilidade, pois os mimetismos espirituais trancafiam nossa mente. Pedro, queria saber o que Jesus faria com João, e foi repreendido. O que Ele faria com João não era assunto dele. (4)

5. Pague o preço. A caminho da terra prometida, o povo de Deus, só lembrava os pepinos e melões do Egito. Alguns de nós estamos querendo manter tudo em nossas mãos, só que quando renovamos, precisamos abandonar o que ficou, mesmo que tenha sido significativo e importante em  certo momento de nossas vidas. (5)

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1) Mateus 6:7

(2) II Reis 17

(3) João 8

(4) João 21

(5) Números 11:5

Viver tem consequências!

Ouça os sussurros, para não ter que ouvir os gritos.

Anônimo

Meu irmão é professor de Português e Literatura em escola pública, e um dia me contou uma experiência de magistério que retrata a mentalidade desta geração.

Durante a realização de uma prova importante e decisiva do ano letivo, ele saiu da sala por uns momentos, e se posicionou imperceptivelmente na janela e durante o tempo que observava os alunos flagrou um deles colando na prova. Imediatamente ele recolheu a prova do aluno e decretou o que a todos os alunos é estabelecido, um zero bem redondo.

Para surpresa dele, o aluno ficou indignado com a “injustiça” e foi reclamar na diretoria. E pasmem, a diretoria lhe concedeu o que não concedia a ninguém: a oportunidade de fazer novamente a prova, diante do fato que ele era um pianista talentoso, e premiado na cidade. Por um momento foi suspensa a lei de causa e consequência.

Assim como esse menino muitos de nós caminhamos descuidados nessa vida porque recebemos um trato dentro de casa ou em algumas ocasiões que nos deu uma ilusão maléfica de que não importa o que façamos sempre é possível suspender as consequências. Apoiados pela sociedade da imagem, do texto fora do contexto, da leitura apressada, os filhos desta geração acreditam que sua vida pode caminhar a salvo da lei da colheita.

Viver tem consequências. O que nós somos não está desconectado do nosso passado. Tem gente que sonha com um amanhã mágico, espera que algo bom lhe aconteça, mas não sabe ou esquece que o amanhã tem a ver com hoje. Com esse pensamento mágico muitos correm as lotéricas, atiram uma moeda no chafariz e acham que a sua vida é apenas uma questão de sorte, do que lhes acontece, e não do que fazem acontecer.

Essa moçada bonita e cheia de oportunidades precisa aprender o óbvio: pensamentos, palavras e atitudes têm consequências, portanto é preciso solenidade, com o que cultivo em minha mente, com o que falo e as decisões que tomo, pois não são brincadeira de criança.

A serpente que falava com Eva, tentou tirar de sua cabeça que sua decisão teria desdobramentos definitivos e terríveis: “Certamente não morrerão!” foi o que ela ouviu. E você pensa que tem todo o tempo do mundo? Pode não ter. Você acha que dá para reconstruir? As vezes o que se fez não se faz mais, simplesmente porque nossas decisões moveram questões que estão fora do nosso controle, como o coração dos outros. Tem gente que um dia serviu a Deus e se afastou e pensa que controla o tempo e a vida e pensa que  voltarão assim que quiserem, só que não contam que talvez um dia não queiram mais.

Bruna Surfistinha, a prostituta que virou celebridade com a publicação de um livro sobre suas aventuras de alcova, conta em entrevista que a vida que abraçou foi um desaforo ao pai com o qual se relacionava conflitivamente, assim como muitos adolescentes normais. Só que a insolência acabou saindo do controle. Após ter saído da prostituição, ela sentiu que precisava reatar os laços fundamentais da família. Enviou cartas, sinalizou um desejo de aproximação de várias maneiras, mas tudo que recebeu foi o silêncio desesperador. Podemos ter controle sobre nossas decisões, mas as consequências não estão em nosso poder.

Às vezes fazemos como Asafe nos Salmos, olhamos para gente que pratica o mal, faz o que bem entende e nos parece que o sol brilha cada vez mais claro para eles. Entramos em conflito, questionamos a Deus, perdemos o foco. No entanto esquecemos que as consequências podem não ser vistas a olho nu, podem estar dentro de nós. O que nos tornamos pode ser o pior ou o melhor resultado de nossas escolhas.

Outras vezes nos iludimos com  o fato de que o mal não teve ação imediata em nossa vida, mas saiba ninguém que mexe com lixo fétido, pode ficar com as mãos limpas. Sempre fica algo com a gente que nossa própria cegueira impede de ver. Davi, foi para a cama com Bate-Seba, matou seu marido e tudo parecia estar muito bem, até que a verdade veio à tona e ele teve de responder pelos seus atos o restante de sua vida.

Deus perdoa nosso pecado, totalmente, absolutamente, e sem cobranças, mas a graça não anula suas implicações. O ladrão na cruz recebeu um novo amanhã, quando Jesus disse que estaria no paraíso, mas teve que pagar sua pena na cruz.

A pessoa que não assumiu responsabilidade pela vida, que ainda vive no jardim da infância da alma, tentará negar suas próprias escolhas, culpará alguém por sua situação, ou ainda pior, cometerá erros para tapar outros erros. É como aqueles que saindo de um relacionamento complicado, começam um novo relacionamento impensadamente porque não suportam corajosamente a consequência de suas escolhas anteriores. Isso é como diz o gaúcho, corcovear contra as esporas.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.