Passos para derrotar o demônio pacato

Philip Yancey conta no seu livro “Para que serve Deus?” a seguinte história:

Alguns anos atrás, eu aceitei fazer uma palestra num encontro da Visão Mundial, em Myanmar, ex-Birmânia, país vizinho de vocês (Índia). “Você precisa saber que a maioria dos pastores que estão presentes passou algum tempo na cadeia devido a sua fé”, disse o homem que me convidou. “Este é um regime muito tirânico”.

“Então devo falar sobre a dor e o sofrimento?”, perguntei. “Não, não, não, eles esperam estas coisas”, respondeu ele de imediato. “Estão acostumados com isso. Gostaríamos que você falasse de graça. Sabe, os vários grupos cristãos daqui não conseguem se dar bem uns com os outros”.

O fato dos cristãos de lá entenderem o sofrimento como natural é um contraste com a nossa realidade. Aqui nossa cultura nega o sofrimento e a cultura evangélica oxigena espiritualmente o sistema com teologias de satisfação total, sem mencionar a necessidade de renúncia que Jesus tanto falou.

A colunista de época Cristiane Segatto acrescenta dados sobre essa realidade quando fala sobre o  documentário “Muito além do peso”  a respeito  de crianças obesas no Brasil que revela o estado geral dos filhos desta geração.  Ela escreve:

“Crianças de 9 ou 10 anos vivem como velhos, imóveis e cheios de doença. Na minha infância – e provavelmente na sua – a grande preocupação das mães era cuidar de joelhos ralados, braços quebrados, dentes perdidos nas brincadeiras de rua.

Bem diferente do que acontece hoje. No filme, um menino olha a estante cheia de brinquedos e diz: “Tenho várias bolas. Não gosto de jogar porque faz cansar”.

Acomodação é a palavra que expressa o jeito de ser predominante desta época. Chamo o comodismo de demônio pacato, porque ele não assusta, mas seus efeitos são devastadores, não agride,  mas não deixa agir, não fere mas também não deixa curar, é silencioso e nos mantém fazendo barulho inócuo. Nossa luta hoje é mais sutil do que nunca. ”Nós nunca seremos qualquer coisa a não ser barulhentos.  piolhentos, abusados,  e maluquinhos sujos” revela a cantora Pink em um de seus sucessos.

Imagino o diálogo desta geração e Jesus quanto a grande comissão:

Jesus: Ide!

Discípulo ocidental água com açúcar: Só se for de primeira classe.

Jesus: Por todo o mundo!

Discípulo ocidental água com açúcar: Para o primeiro mundo?

Jesus: Ensinem a praticar tudo que tenho ordenado a vocês!

Discípulo ocidental água com açúcar: Só quando estiver de acordo com o politicamente correto, possa me fazer popular e não seja deprimente.

Como não sou de ficar só no “mimimi” quero sugerir a você passos para sair da “zona de conforto”.

1. Aproxime-se de gente de alto nível de combustão. A mediocridade é altamente contagiosa, especialmente a do espírito. Talvez você não tenha gente desse calibre para se aproximar neste exato momento. Não tem problema. Leia muitas biografias de gente excelente. Quando leio sobre a vida de gente da estirpe de Bonhoeffer, Spurgeon, Martin Luther King, vejo que é possível ter uma vida muito melhor. Impossível esquecer o testemunho dado a respeito dos últimos dias de Bonhoeffer antes de ser enforcado pelo regime nazista: “nunca vi em minha vida um homem tão submisso a vontade de Deus” . A  frase citada por Spurgeon ainda desafia minha vida pastoral: “seria totalmente monstruoso, um homem estar no ofício mais elevado, e ser o mais baixo de alma”. O discurso emblemático de King “Eu tenho um sonho” emociona e me empurra para ser um homem envolvido nos problemas do meu tempo. Poderia falar de muito mais gente, mas estes bastam para colocar fogo em lenha seca.

2. Tome iniciativa de resolver conflitos pessoais. Procure as pessoas mesmo que você tenha razão. Não deixe um lastro de situações não resolvidas pelo seu caminho.

3. Faça coisas que você não é um expert. Não estou falando quanto a sua profissão, mas da atitude de se arriscar, de pegar em uma pá, de cozinhar, de pintar. Sentir aquele desajeitamento que nos ajuda valorizar o que outros fazem e nos faz contentes de sermos quem somos. No povo de Deus há três tipos de pessoas. Místicos, aqueles que querem é uma boa reunião de oração e vigílias sete dias da semana, intelectuais, que gostam de ler escrever e questionar tudo e os ativistas, aqueles que fazem acontecer, que produzem eventos, pregam, fazem visitas e muito mais. Cada um deles poderia sair da zona de conforto se integrassem em suas vidas as dimensões dos seus irmãos diferentes.

4. Pare com o costume de dar desculpas para suas falhas. Quando nos proibimos de dar desculpas nosso cérebro se move em direção às soluções. Sou muito jovem, sou muito velho, não tenho vontade, são as desculpas que eu mais ouço das pessoas para não se moverem.

5. Procure a sensação de frio na barriga. Quais as novidades assustadoras para o próximo ano? Quais os convites que você está com medo de aceitar? O que você precisa fazer que tem medo de fazer? São precisamente estes que podem levar você a sair de sua comodidade.

6. Converse com pessoas que você nunca conversou. Talvez seja legal os cristãos conversarem mais com os ateus, os roqueiros saírem de sua tribo e encontrarem os pagodeiros, essa gente bem vestida e perfumada de nossas igrejas conversarem com gente pobre e fedorenta. Sair da tribo é imperioso nestes tempos, para quem quer ser discípulo de Jesus cuja universalidade nos desafia permanentemente.

7. Seja um protesto contra o consumismo. Você ouve milhares de mensagens diariamente de assédio comercial, eu disse milhares. Se você não protestar, vai acreditar que sua autoimagem depende da compra de algum aparelho legal, ou que vai ficar mais importante na posse de um carro.

8. Não presencie a injustiça calado, seja na escola, no trabalho ou entre vizinhos. Quando silencio diante da injustiça de um sistema perverso, me torno cúmplice dos seus erros. E depois não adianta pedir justiça se eu não sou uma pessoa de postura. Pergunto: por quem você já tirou a cara? Ninguém? Então como você pode reclamar da justiça? Lembro-me do verso da canção dos Engenheiros do Hawaii: “Fidel e Pinochet tiram um sarro de você que não faz nada.” Certa mulher desabrigada depois de ver suas tentativas de ajudar serem negadas com uma promessa de oração, escreveu este poema:

“Eu tive fome,

e tu formaste um grupo humanitário para discutir minha fome.

Estive presa,

e tu te retiraste discretamente para a tua capela e oraste pela minha libertação.

Estava nua,

e, na tua mente, questionaste a moralidade da minha aparência.

Estive enferma,

e tu te ajoelhaste e agradeceste a Deus por tua saúde.

Estava desabrigada,

e tu me falaste do abrigo espiritual do amor de Deus.

Estava solitária,

e tu me deixaste sozinha a fim de orar por mim.

Parecias tão santo, tão próximo de Deus!

Mas eu ainda estou com fome… e sozinha… e com frio.”(1)

9. Seja a solução para os problemas que você critica. Tem gente que adora reclamar da igreja, da escola, do supermercado. Está faltando isso, precisamos disso, é o que eles falam, mas nunca é solução de nada. Precisamos falar mais  a primeira pessoa do plural, dessa forma vamos nos sentir parte dos problemas, não só dos sucessos. Como li em algum lugar: O sucesso tem muitos pais, mas o fracasso sempre é órfão.

10. Mergulhe na oração como começo meio e fim para fazer tudo com doçura.

Na esperança que você possa enxergar o seu comodismo como um verdadeiro demônio manso e comece a fazer algo agora:

O discípulo gaudério.

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