Quanto o Universo me paga para não estar no Facebook

Duas cur­tas adver­tên­cias: [1] sou tão super­fi­cial quanto qual­quer um; [2] claro que um dia vou capi­tu­lar: claro que um dia vou fazer parte da rede social mais popu­lar do planeta.

Isso não muda o fato de que o uni­verso me paga, dia após dia, para não ceder ao Face­book. Falo, é claro, do uni­verso offline do café com bolo de fubá, da tra­ves­sia de fer­ry­boat, da casa alu­gada na praia, do boli­nho de carne seca comido no bar, de espe­rar que o amigo saia final­mente da sala de desem­bar­que, da cor­te­sia na fila do cor­reio, das pes­soas que impri­mem livros e das que os com­pram, das ruas de Mor­re­tes, dos últi­mos pas­to­res de ove­lhas da Itá­lia, da velha senhora que é tia de alguém e que mora sozi­nha entre mor­ros arre­don­da­dos no inte­rior de Minas Gerais e faz a pró­pria fari­nha de milho num mon­jolo movido a córrego.

Incri­vel­mente, esse uni­verso me veste, me ali­menta, faz água cair do céu e faz o vento var­rer meus cabe­los no alto da mon­ta­nha como num comer­cial de sham­poo. Ele me manda livros, car­tões pos­tais, cho­co­late e batata frita, e me mas­sa­geia las­ci­va­mente as cos­tas na cacho­eira. Como um apai­xo­nado que não se sabe mode­rar, o uni­verso me manda gente que me ofe­rece café, que me faz comida, que me chama de irmão, que me toca a mão, que me ouve cho­rar, que se mara­vi­lha com as mes­mas coi­sas, que dorme comigo, que colhe comigo cogu­me­los, que me pre­sen­teia com CDs, que me serve chá de capim-​​cidreira, que me traz gar­ra­fas de bom vinho, que me dá flores.

Dia após dia, em todos os seus dia­le­tos, o uni­verso me repete uma mesma frase:pegue o que você precisar.

“Brabo,” o uni­verso me diz, “pegue o que você precisar”.

Ele pede uma única coisa em troca, e o que ele pede é tre­men­da­mente exi­gente: que eu con­ti­nue a dese­jar aquilo que con­si­dero desejável.

É claro que o mundo de abra­ços e de café e de pura cone­xão entre as pes­soas que desejo não existe fora da minha cabeça, mas repito: o uni­verso não cessa de me pagar para con­ti­nuar sonhando com ele. E é com essa pro­pina que ele vai me impe­dindo de dese­jar o Facebook.

O Face­book sabe que é com frequên­cia difí­cil para mim estar onde estou, e ele quer me con­for­tar com a impres­são de que estou em outro lugar. O Face­book sabe que às vezes é difí­cil para mim estar com quem estou, e ele quer me con­for­tar com a lem­brança de que tenho cone­xões muito reais em outro lugar. O Face­book sabe que mui­tas vezes não tenho paci­ên­cia ou cora­gem de mover-​​me de onde estou para onde gos­ta­ria de estar, e ele quer me con­for­tar com a sen­sa­ção de ter trans­posto a distância.

Meu desa­fio pes­soal mas antigo foi sem­pre expe­ri­men­tar a rea­li­dade sem sub­ter­fú­gios: estar onde estou. A solu­ção, quando há, sem­pre foi mover-​​me para onde não estou.

O Face­book me con­vida inces­san­te­mente a fazer o con­trá­rio: a não estar onde estou e a não mover-​​me para onde não estou– e seria tal­vez mais fácil ceder ao con­vite se ele não for­çasse a barra cha­mando essa doce imo­bi­li­dade de cone­xão. Natu­ral­mente, é pre­ci­sa­mente essa moda­li­dade de cone­xão aquela que quero, e tal­vez seja a única que expe­ri­mento. Como tudo mundo, quero obser­var a beleza do uni­verso sem comprometer-​​me com seus desa­fios; quero admi­rar gente de longe sem ter de pagar os ris­cos de uma rede viva e com­plexa de rela­ções. Minha vida seria mais fácil se os cofres do cora­ção não trans­bor­das­sem daquilo que o uni­verso me dá coti­di­a­na­mente para con­ti­nuar a não con­si­de­rar essa con­di­ção (veja aqui o comer­cial) como desejável.

Paulo Brabo em A Forja Universal

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