Crônica de um morto vivo

A eficiência pregada pela empresa faz do erro uma possibilidade inaceitável. Torno-me carrasco dos subordinados e escravo dos patrões. Aprendi a odiar a firma adversária e a sacrificar no altar da empresa o sonho e a família. Em troca recebo prêmios que tem o intuito de me fazer sentir um vencedor. Sei que o dia em que o suco da laranja acabar e só sobrar o bagaço, serei lançado no lixo sem dó nem piedade. Mas, que importa? Afinal, sou uma máquina de trabalhar.

Um conhecido adoece gravemente. Resisto pensar nisso. Recuso-me a ir ao hospital. Vejo a tragédia servida em minha sala todos os dias e troco o canal. Sou lembrado do funeral do vizinho e fujo da lágrima. Na verdade nem lembro qual foi a última vez que chorei. Sou uma cidadela para acessar.

Depois do futebol do fim de semana, um companheiro me segreda tentando engolir as lágrimas que está saindo de casa. Faço cara de paisagem, olho o relógio e respondo com constrangedora superficialidade: isso é só uma fase. Virei uma casquinha e nada mais.

Meu filho rabisca em seus papéis uma obra de arte da imaginação, e ansioso pela minha reação entrega o desenho em meu colo e com olhos brilhantes aguarda meu veredito. Travado pela minha própria história, tudo que consigo entregar é um resmungo e um “tente fazer melhor da próxima vez”.  Sou uma repetição dos erros passados.

Um membro antigo e querido da confraria vai embora, meu coração acusa o golpe, mas não admite. Tapo a realidade com a famigerada lógica do mercado: sai um entram dez! Sou contador e não amigo.

Ando pela rua em um traje impecável a caminho de fechar um grande negócio, quando tropeço em meus próprios pés. Um espetáculo cômico. Não consigo rir de mim mesmo. Ajeito sofregamente minha roupa. Olho para os lados e saio aliviado que ninguém percebeu o quão ridículo pode ser aquele homem cheio de planos e pose. Sou uma imagem a preservar.

Os ventos do acaso trazem diante de mim um velho conhecido. Lembranças inestimáveis irrompem do fundo da alma. Um desejo de celebrar, de abrir a boca e os braços e desbragado afeto é agora sufocado. Uma voz de longe repreende: seja homem, contenha-se! Sou um macho que aguenta.

Restaura em nós Senhor a humanidade perdida. Aquele coração de carne morreu tentando viver, se preservar.

Ensina-nos Senhor novamente

A dançar e beber com pecadores

A chorar por Lázaro

A ver o coração da multidão sem nos sentirmos melhores do que eles

A aceitar sem culpa o perfume do alabastro

A pedir companhia para o nosso Getsêmani.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

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