Como domar um potro chucro?

Acordo pela manhã.

Abro as janelas..

Deixo o cachorro sair.

Faço um suco de limão.

Tomo o medicamento para a hipertensão.

Preparo meu chimarrão.

Sento para ter um tempo com Deus e estendo a mão para pegar o celular que guarda as canções de adoração que selecionei para o devocional diário.

Tudo certo na minha sacrossanta rotina.

Procuro os fones que tornam esse hábito mais recluso e não os encontro. Como deixei em lugar certo, sei que alguém deve ter pego sem avisar.

Em apenas dois segundos fico possesso… de ira.

Todo o clima bucólico celestial se transforma em um furacão descontrolado cuja realidade só eu percebo. Resolvo o problema.

Sento a mesa e logo penso: tanto por tão pouco!

O texto do profeta Jonas então ribomba na minha alma quase que instantaneamente: É justa essa tua ira? (1)

Pelos teus fones?

Pelas coisas fora do lugar?

Por alguém que não te olhou?

Pela tua porção que foi esquecida?

Porque teu sangue não ferve o suficiente quando não cumpres tuas promessas?

Porque não ferve quando a injustiça não é contigo?

Sinto vergonha e peço perdão. Outra vez a Palavra me derruba desse potro selvagem que se solta porteira a fora de vez em sempre.

Para completar a sova de laço me deparo com essa frase de Dietrich Bonhoeffer nas páginas do meu livro:

“Senhor, mesmo que nos dês a beber o cálice amargo do sofrimento, cheio até as bordas, nós o aceitamos gratos e sem tremer, pois ele vem de tuas mãos boas e amadas.”

O fato de saber que essas palavras foram escritas com sangue só aumenta o impacto dentro de mim e me desconserta.

Sei que o morrer de Jesus também inclui coisas menos heroicas do que lutar contra o nazismo. Coisas do tipo: não dar razão a si mesmo tão rapidamente.

Talvez seja essa atitude descuidada que acabe nos custando relacionamentos queridos ou tenha manchado sua história de uma forma que você lamenta até agora.

A ira é sedutora, e se apoia em três argumentos falsos para tomar conta da situação:

  1. sou incontrolável
  2. preciso sair agora e
  3. posso resolver seus problemas imediatamente.

Os pesquisadores nos informam que: “Com ira, o sangue flui para as mãos, tornando mais fácil pegar uma arma ou golpear um inimigo; os batimentos cardíacos aceleram-se, e uma onda de hormônios como a adrenalina gera uma pulsação, energia suficientemente forte para uma ação vigorosa.”

Nessa hora a frase de Deus a Jonas pode ter o poder de desmontar essa bomba atômica: é justa essa tua ira?

Pergunte muitas vezes quando a bomba estiver pronta para ser detonada ou aguente as consequências.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1)  Jonas 4:9

Meu encontro com a santa

Ontem fui visitar uma mulher santa.

Talvez a mais santa que conheci.

Aquele tipo de pessoa que a Bíblia se refere como “de quem o mundo não era digno”.

Escondida em um bairro pobre da cidade de Pelotas, resplandece o resultado de uma vida sujeita ao Senhor.

Como uma vela que chega ao fim, assim é o seu corpo. A gordura que restava vai se secando, a voz é fraca e o raciocínio lento. Mesmo assim a luz que nela habita se sobressai na fraqueza.

Ela sabe que os seus dias estão acabando. Diante da certeza da morte, os pensamentos ficam claros. Os dela não sofreram alteração. Continuam vivos como sempre foram. Talvez porque sempre tomou sobre si o morrer de Jesus.

Li a Palavra. Enquanto lia, aquele corpo frágil exaltava a Deus no prazer de ouvir a Palavra. Peguei sua mão e orei. Enquanto orava senti um impulso dentro daquele quarto de me ajoelhar e pedir que ela orasse por mim. Afinal “o superior abençoa o inferior” como diz o escritor de Hebreus. Não o fiz, pois seria muito egoísmo. Ela precisava de mim. Ou não. Mas não tenho dúvida, minha coroa não se comparará a dela quando a realidade do céu se revelar na terra. Só a graça explica como posso dirigir quem está à frente de mim.

Tudo que ouvi ali foi contentamento, alegria, e coragem pessoal. Nem o mínimo resquício de medo.  A mais pura beleza espiritual.

Ela se lembra da comunidade na qual foi ativa durante mais de 25 anos. Pede que expliquemos o porquê ela não está mais presente.  Como último desejo, quer participar de uma reunião. Durante anos, com chuva, com sol, com frio aqueles passos lentos estiveram na nossa história ministerial justificando os pequenos sacrifícios pessoais que fazíamos, afinal se a Dona Rosa podia, nós também deveríamos fazê-lo.

Ontem eu pude experimentar a convicção de que a Vida é muito mais poderosa do que a morte. O poder da ressurreição se manifestou a mim como nunca antes. De fato Deus não habita em templos feitos por mãos humanas, mas sua glória visível pode habitar um templo plenamente humano. Eu sei.

Obrigado Dona Rosa, por transbordar a graça a ponto de nos encharcar. Só o reino vindouro poderá revelar totalmente a sua nobreza aqui na terra.

Um abraço quebra costelas

O discípulo gaudério

Não, não é tudo igual!

“Como todos os sonhadores, confundi o desencanto com a verdade.”

Sartre

Minha filha e um amigo voltaram do cinema e entraram em casa agitados. Ele voltou desgostoso com o filme que acabara de ver.

– Que sem graça. O herói morre no meio do filme.

Minha filha respondeu:

– Cara, o filme não era conto de fadas.

Até certo ponto de nossa vida, embora não de forma conceitual, mas afetiva, acreditamos que a vida é um conto de fadas! Cremos que todos os camaradas são amigos e que todos que nos sorriem desejam realmente o nosso bem.

Só que à medida que as experiências negativas com a vida e humanidade se acumulam corremos um risco terrível: bebermos do veneno invisível do ceticismo. Se antes acreditávamos em tudo, agora nos vingamos da vida ingrata e não acreditamos em nada.

O ceticismo pode tomar conta da nossa vida quando a gente descobre que o herói pode morrer no final! Ou talvez de que o herói é vilão.

O ceticismo é o estabelecimento da lei de Murphy como meu guia de vida: se alguma coisa deu certo é porque algo deu errado! É a generalização da maldade. É uma leitura parcial da realidade.

É fácil detectar o ceticismo:

A versão religiosa: “Todas as igrejas são iguais e todo pastor é vigarista”

A versão feminista: “Todos os homens são igualmente opressores.”

A versão petista decepcionado: “Todo o político é sem vergonha.”

A versão existencial: “Por mais que se faça, nada vai adiantar.”

Cazuza conseguiu descrever com muito talento essa armadilha na música Ideologia:

“E aquele garoto queria mudar o mundo, mudar o mundo

Hoje assiste a tudo, em cima do muro, em cima do muro.”

Mas é preciso fazer uma declaração em alto e bom som: não, não é tudo igual!

Cair nesta arapuca sutil pode ser fatal para nós.

Por quê?

O ceticismo desanima o homem de boa fé. A generalização faz mal porque só atinge quem não se enquadra nela: o honesto. Porque o safado tem cara de pau. Quantas vezes tive que enfrentar a cara de suspeita quando revelava que era pastor. Era como se estivesse escrito “vigarista” na minha testa! Estava pagando a conta alheia.

O ceticismo esconde o patife declarando a todos patifes. A quem interessa que as manifestações nas ruas em favor de mudanças no Brasil sejam vistas como puro vandalismo?

O ceticismo faz com que eu deixe de me cobrar e cobrar os outros. Se eu não creio na mudança vou aceitando cada vez mais aquilo contra o qual deveria morrer lutando.

O ceticismo paralisa minhas ações. Foi o ativista Martin Luther King que disse: tudo que é feito nesse mundo, é feito pela esperança.

O ceticismo me afoga em um mar de superficialidade. Um dia acreditei que todas as pessoas miseráveis eram simplesmente pobres vítimas de um sistema perverso. Era uma leitura superficial, uma leitura romântica. Depois de trabalhar um pouco com pessoas em condição de pobreza descobri que muita gente escolhe a miséria. A tentação foi espalhar essa constatação para todas as outras pessoas. Seria uma boa desculpa, embasada na experiência. Só que tão superficial quanto meu romantismo inicial seria esta conclusão. O que se requer de nós como discípulos é o exercício constante do discernimento.

Talvez você não possa mudar o mundo como um dia pensou, mas pode mudar muito mais coisas do querem tentar fazer você pensar.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.