Não, não é tudo igual!

“Como todos os sonhadores, confundi o desencanto com a verdade.”

Sartre

Minha filha e um amigo voltaram do cinema e entraram em casa agitados. Ele voltou desgostoso com o filme que acabara de ver.

– Que sem graça. O herói morre no meio do filme.

Minha filha respondeu:

– Cara, o filme não era conto de fadas.

Até certo ponto de nossa vida, embora não de forma conceitual, mas afetiva, acreditamos que a vida é um conto de fadas! Cremos que todos os camaradas são amigos e que todos que nos sorriem desejam realmente o nosso bem.

Só que à medida que as experiências negativas com a vida e humanidade se acumulam corremos um risco terrível: bebermos do veneno invisível do ceticismo. Se antes acreditávamos em tudo, agora nos vingamos da vida ingrata e não acreditamos em nada.

O ceticismo pode tomar conta da nossa vida quando a gente descobre que o herói pode morrer no final! Ou talvez de que o herói é vilão.

O ceticismo é o estabelecimento da lei de Murphy como meu guia de vida: se alguma coisa deu certo é porque algo deu errado! É a generalização da maldade. É uma leitura parcial da realidade.

É fácil detectar o ceticismo:

A versão religiosa: “Todas as igrejas são iguais e todo pastor é vigarista”

A versão feminista: “Todos os homens são igualmente opressores.”

A versão petista decepcionado: “Todo o político é sem vergonha.”

A versão existencial: “Por mais que se faça, nada vai adiantar.”

Cazuza conseguiu descrever com muito talento essa armadilha na música Ideologia:

“E aquele garoto queria mudar o mundo, mudar o mundo

Hoje assiste a tudo, em cima do muro, em cima do muro.”

Mas é preciso fazer uma declaração em alto e bom som: não, não é tudo igual!

Cair nesta arapuca sutil pode ser fatal para nós.

Por quê?

O ceticismo desanima o homem de boa fé. A generalização faz mal porque só atinge quem não se enquadra nela: o honesto. Porque o safado tem cara de pau. Quantas vezes tive que enfrentar a cara de suspeita quando revelava que era pastor. Era como se estivesse escrito “vigarista” na minha testa! Estava pagando a conta alheia.

O ceticismo esconde o patife declarando a todos patifes. A quem interessa que as manifestações nas ruas em favor de mudanças no Brasil sejam vistas como puro vandalismo?

O ceticismo faz com que eu deixe de me cobrar e cobrar os outros. Se eu não creio na mudança vou aceitando cada vez mais aquilo contra o qual deveria morrer lutando.

O ceticismo paralisa minhas ações. Foi o ativista Martin Luther King que disse: tudo que é feito nesse mundo, é feito pela esperança.

O ceticismo me afoga em um mar de superficialidade. Um dia acreditei que todas as pessoas miseráveis eram simplesmente pobres vítimas de um sistema perverso. Era uma leitura superficial, uma leitura romântica. Depois de trabalhar um pouco com pessoas em condição de pobreza descobri que muita gente escolhe a miséria. A tentação foi espalhar essa constatação para todas as outras pessoas. Seria uma boa desculpa, embasada na experiência. Só que tão superficial quanto meu romantismo inicial seria esta conclusão. O que se requer de nós como discípulos é o exercício constante do discernimento.

Talvez você não possa mudar o mundo como um dia pensou, mas pode mudar muito mais coisas do querem tentar fazer você pensar.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

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