Seminário de romance no casamento – Parte final

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“Venha, minha tímida e nobre recatada – é hora de sair, vamos passear.”

“Minha amada é como um lírio que desabrocha entre os espinheiros – ela se destaca entre todas as jovens da aldeia.”

“O meu amado é meu, e eu sou dele também. À noite, ele passeia em nosso jardim…”

Cantares – A Mensagem

Espero que as reflexões sobre Cantares nem sequer sugiram que eu sou um marido nota 10. Não é minha pretensão tal embuste. Estou muito longe de praticar tudo que vejo neste livro.  Ofereço a vocês o que antes ofereço a mim, o que eu julgo ser uma ajuda para casamentos sob ameaça do desgaste.

Vamos nos inspirar mais um pouco? Vejamos o que Salomão nos traz…

1. GENTILEZA.

O amor conjugal vive de pequenas gentilezas, mais até do que grandes sacrifícios. Talvez pudéssemos dizer que o grande sacrifício do casamento é a perpetuação das pequenas amabilidades.

A intimidade tem um efeito colateral muito comum: acomodação. E como já disseram por aí: a acomodação é a mãe de todos os vícios. Progressivamente vamos invertendo a ordem das coisas: oferecemos o pior de nós ao companheiro e os milagres e maravilhas a quem está de fora.

Antes dizíamos: com licença, agora ordenamos: sai daí.

Antes era: querida, agora é: abobada!

Antes era: por favor, agora: me dá isso de uma vez.

Antes era: pobrezinha, agora é: bem-feito.

A grosseria é uma escolha voluntária e indesculpável porque sabemos ser agradáveis quando queremos.

2. O ELOGIO.

Há pouco tempo fizemos um curso para casais na igreja. Em uma das noites pedimos que os presentes fizessem uma lista das qualidades do seu cônjuge. Os casais mais novos em poucos minutos numeraram mais de quinze qualidades, os mais velhos pensavam e pensavam. É fácil se tornar presa do espírito crítico a ponto de nos escapar as virtudes que cativaram nosso coração.

O principal inimigo do elogio é a competição. Quando a luta invisível pelo poder se instaura na relação, o elogio começa ser visto como dar armas ao inimigo. Nesse momento é hora de repensar das bases a relação e ver onde tudo se perdeu. Às vezes é preciso intervenção de fora.

Todo defeito que você vê, é uma virtude deteriorada, às vezes desanimada.

Pense diferente!

Você acha que seu cônjuge fala demais? Não esqueça que ela também é muito comunicativa.

Você o acha perfeccionista? Lembre-se da bênção que é a organização dele em sua vida.

Você reclama como ele é raivoso? Lembre que ele também é uma pessoa muito sensível.

Você se incomoda que ele é muito devagar? Pense em como a prudência das suas atitudes já livrou vocês de apuros.

Pense sempre em como seu companheiro se destaca dos outros e você vai descobrir ouro embaixo do sofá.

3. CARÍCIAS DESPRETENSIOSAS.

Há uma infinidade de possibilidades no toque físico. O cafuné, aquele carinho relaxante na cabeça. A massagem no pé que distensiona todo corpo. O abraço que acolhe. Passear de mãos dadas. O toque precisa ser resgatado.

4. FUGA DA ROTINA

Três sugestões de Cantares:

Mudar o contexto do quarto. Aqui as mulheres podem muito mais do que os homens. O bom gosto para escolher uma roupa de cama nova, colocar perfume no quarto e uma luz diferente quebram a mesmice.  1:16-17

Passear. Passear no shopping Center todos os domingos mata a aventura. Mude os cenários. 2:11-14

Usar uma roupa ou adorno que o outro se agrada. Piercings, tatuagens, um corte novo de cabelo pode trazer encantamentos novos. 1:9-11

E você pode acrescentar: trazer um presente fora de época e sem pedido prévio.

Espero ter ajudado você.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério

Entre a excitação e a verdade

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“Eu escolhi o caminho da verdade, e me conformo às tuas normas.”

Salmos 119:30

Escolher o caminho da verdade não significa ter a pretensão de ser a encarnação ou mesmo o dono da verdade, apenas alguém procura mais do que “bijuterias e pastéis de vento”. Até porque donos da verdade são demônios embrionários.

É um caminho duro e estreito. Humilhante as vezes, por essa razão pouco trilhado.

Quem escolhe o caminho da verdade é chamado a pensar, investigar e refazer suas idéias num indo e vindo permanente. É aprendiz, discípulo. Para eles a palavra dever é mais do que um peso, é orientação.

Nossa geração, escolhe hoje o caminho do tesão, por isso não consegue pensar. Diante de qualquer assunto, suas impressões segue com as reações:

“Não gostei” (tesão)

“Eu quero” (tesão)

“Não acho atraente” (não tesão)

“Tenho nojo” (não tesão)

“Tenho vontade” (tesão)

Por essa razão é fácil mentir a esse povo. Basta conhecer seus desejos, o que lhes excita e oferecer satisfação imediata e a presa está na jaula.

A propaganda vende cerveja aos homens  associando-a a ideia de mulheres bonitas, embora o que acontece de verdade é um bando de marmanjos mal cheirosos saindo do jogo de futebol e um indivíduo gordo, barbudo e desgrenhado servindo a bebida.

A religião das igrejas neo-pentecostais nestes tempos se presta a mesma charlatanice. Vida fácil só a uma oferta gorda de distância.

Os políticos vendem segurança com a certeza que só os canalhas conseguem ter, com campanhas bem estudadas nas melhores agências de publicidade.

O desejo cega todos que o servem. A cada um da sua própria maneira.

E você tem sido guiado pela verdade ou pelo tesão?

A resposta revela seu caminho: o discipulado ou do gado que vai para o abate.

O caminho da verdade nos prepara para os embates da vida e fundamenta uma alegria sóbria. O caminho do desejo nos envolve em névoa densa que só é dissipada quando caímos no precipício de nossas escolhas.

Cada um saiba o que escolhe.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

Salomão continua seu seminário sobre romance.

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“Beije-me bem na boca! Sim! Pois o seu amor é melhor que o vinho.”

Cantares 1:2

“Celebraremos e cantaremos as mais belas canções.”

Cantares 1:4

“Dance, dance, querida Sulamita, princesa sem igual! Dance e encante-nos com sua beleza!”

Cantares 6:13

Salomão, não parou com seus ensinamentos, ainda há muita carne suculenta nesse livro esquecido na vida do casal depois do primeiro ano de casamento.

1. O beijo.

Sintoma clássico que o casal deixou de namorar: acabam-se os beijos na boca. Não o beijo que é parte da relação sexual em si, mas o beijo que é uma pequena faísca para o desejo ou um aquecimento dos corações. Com o tempo o casal apenas dá uma “bicota” como diziam os mais antigos. Há inclusive um livro chamado “O beijo de dez segundos” que ensina a resgatar essa dimensão simples do namoro do casal. Qual foi o seu último beijo profundo sem ligação direta com o sexo? Talvez esteja na hora de surpreender seu cônjuge com um beijo longo e despretensioso. Não é preciso dar show para os outros. Aproveite momentos furtivos a sós para roubar aquele beijo a tanto tempo adormecido.

2. A dança.

Talvez você não tenha vocação para a dança profissional. Eu também não. No entanto, todos podem aprender a dançar ou pelo menos serem principiantes nesta arte. E antes que cheguem os legalistas de plantão, não é só de coreografia de igreja que vive o cristão, mas também da troca pessoal que envolve os movimentos de qualquer música. A dança é um poderoso instrumento de sedução, especialmente as mulheres quando dançam para seus maridos. Observe bem o texto da epígrafe desse artigo.  E por favor, não seja religioso  a ponto de  colocar um louvor para dançar com o seu cônjuge. Não esqueça que o livro bíblico que estamos estudando é Cantares, não Salmos. Cada coisa no seu lugar. Na dança o casal desenvolve quatro elementos básico de um relacionamento: sincronia, jogo de cintura, trabalho em equipe e paciência. Escolham músicas que agradam ao gosto de ambos com um tom bem romântico e de alto nível e aproveite.

3. O manter-se interessante.

Sabe aquela pessoa que você sempre sabe o assunto que ela vai falar, as tiradas que vai dizer e as piadas que vai contar. Essa pessoa não pode ser você! Precisamos sair dos contextos acomodados da novela e do futebol e aprendermos coisas novas. A mulher que fica em casa não precisa falar só do que acontece no lar, pode aprender com as notícias, e ter curiosidade. O homem pode ir além do seu interesse profissional e observar novos campos da existência.  Vermos novos programas na televisão. Lermos livros,  desvendarmos temas diferentes, descobrirmos novos universos. Todo o dia tenho um tempo de conversa significativo com minha esposa, e nunca me canso desse tempo. Sabe por quê? Porque aprendo muitas coisas novas com ela. Agora mesmo ela está lendo um livro que eu quero muito ler, mas ainda não consegui: “Inteligência Emocional”. A troca de informações e percepções na parte da manhã sempre é renovadora.

Você pode também se manter interessante no visual. É triste que nosso visual na maioria das vezes é construído para agradar quem não participa da nossa relação. Está na hora mudar.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

Seminário de Salomão: como manter o romance no casamento?

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“Ah, minha amada, você é um jardim secreto.”

Cantares 4:12

“Ansiosa em meu leito, perdi o sono. Esperei pelo meu amado, por quem minha alma anseia. Como doía a saudade!”

Cantares 3:1

“Meu amado é como um sachê perfumado…”

Cantares 1:13

O amor conjugal é maravilhoso, mas não é fácil. O romance só se mantém a custo de muito trabalho e não de fantasias sobre o outro.

Paulo que não era casado diz que os casados devem se ocupar em descobrir sobre como agradar o outro.

Creio que Salomão em Cantares, deixa uma série de pistas que podem nos ajudar. O livro é um tesouro para quem tem olhos atentos. Vejamos três delas:

1. Mistério.

O que nos fez cair no amor além dos hormônios? A mistura de curiosidade e mistério. O estado intermediário entre conhecer e não conhecer. Os casamentos ao longo dos anos acabam desenvolvendo uma pornografia branca. Aquela exposição um do outro que acaba totalmente com o necessário mistério na relação. Mulheres que se deixam ver facilmente acabam com a curiosidade do marido. Homens prosaicos demais, que soltam “pum” embaixo das cobertas, revelam demais da sua intimidade também acabam com o mistério. É necessário esconder algo e saber revelar na hora certa. Nossa geração  contribuiu para o  fim do segredo do corpo. Tudo está revelado, a todo o momento ao ponto de cansar os nervos. Quando isso acontece o ser humano procura a perversidade como forma de resgatar o mistério. Não é preciso andar por esse caminho. Basta aprender de novo a esperar e se esconder.

2. Saudade.

Viver colado realmente não faz bem. Viver totalmente em função um do outro pode transformar a relação em overdose. É preciso cultivar a capacidade de ir embora de vez em quando. A familiaridade bem como a distância são duas formas de conhecer o outro.

O pensamento comum é que conhecemos de perto. Não nego essa verdade obvia. Mas não é só isso, de longe também se conhece. Temos uma perspectiva diferente. Quantas pessoas com dons maravilhosos cuja família foi a última a perceber quem estava a seu lado? A ausência fala com eloqüência. Sim, às vezes é necessário sair de casa para conhecer a família, e no nosso caso o cônjuge, antes que seja tarde demais.

Conheci gente que pensava que o companheiro era um peso, uma dificuldade na sua vida, mas ao perdê-lo para a morte, não conseguiu continuar vivendo. Descobriu tarde demais. Nós não precisamos dessa tragédia para aprender.

As programações de cada um com os seus amigos podem fazer bem. Um curso de aperfeiçoamento e o abandono voluntário do celular que controla podem fazer milagres também. E depois é só matar a saudade.

3. Perfume.

Ouvi de um casal já idoso, que todo velho tem cheiro característico. Eles então capricham no perfume, para manter a relação interessante.

Os cheiros mexem profundamente com nossas emoções; evocam memórias precisas do que nos aconteceu. Nessa característica tão peculiar da humanidade temos uma grande oportunidade, marcar nosso cônjuge com a memória de nossos cheiros. Bons, é claro.

É uma forte tentação para algumas mulheres viverem com cheiro a alho nas mãos e a fritura na cabeça. Algumas. Por outro lado hipsters da hora, acham que são Arão e deixam a gordura do churrasco impregnar naquela barba soltando um cheiro sordidamente inesquecível. Deus nos livre de tamanho descuido. A cama deve ser um lugar sagrado de encontro do casal onde recenda o perfume. A boca cheirando a limpeza, os pés impecavelmente limpos, a roupa íntima seca e o corpo banhado no melhor perfume. É um maravilhoso presente que devemos ao nosso cônjuge.

Que Deus nos ajuda a enxergar o casamento como uma obra ainda em construção.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

Como se tornar um filhote de fariseu rapidinho

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“Como é feliz aquele a quem o Senhor não atribui culpa e em quem não há hipocrisia.”

Salmos 32:2

Chame todo mundo de fariseu. O primeiro a acusar será o último a ser lembrado. Aponte o dedo para os religiosos e se coloque acima da hipocrisia.

Corrija o erro da humanidade. Opine sobre tudo e sobre todos, mas, por favor, quando alguém mostrar um espelho a você, faça-se de vítima e diga que estão lhe perseguindo.

Condene sem misericórdia os pecados que não constituem uma tentação forte para você ou para os seus amigos e parentes, mas seja rápido em encontrar justificativas nos outros, na ciência, na má interpretação da Bíblia e na fraqueza humana para aqueles que você e seus companheiros carregam dentro de si.

Jamais diga o que você pensa se isso tiver a mínima possibilidade de ir contra o grupo em que você está inserido no momento.

Seja um leão com os débeis e um cãozinho obediente com os fortes.

Faça leituras superficiais, de livros de autoajuda, fuja daquelas leituras que incomodam, e, por favor, fuja de momentos de silêncio prolongado, pois ele pode trazer a tona muitas coisas desagradáveis que você não gostaria de escutar.

Desconfie das motivações dos outros, mas lembre apenas dos seus bons comportamentos. Não acredite na virtude dos outros, mas creia cegamente nas suas.

Jamais corrija elogios equivocados, faz bem para o seu marketing pessoal. É melhor que as pessoas lhe adorem do que a qualquer outro falso deus.

Assuma a postura de campeão de alguma virtude perdida na sociedade. Nada melhor que um moralismo narcisista para afundar alguém na mentira.

Mantenha distância das pessoas na conversa e no envolvimento para criar uma aura de mistério. Evite a demonstração de emoções fortes como o riso e  choro. Procure demonstrar que você é um ser assexuado. Sempre funciona.

Selecione as histórias que você conta. Fale com detalhes as que mostram você forte, bonito e corajoso, afinal você precisa dar exemplos. Quanto a sua maldade, fale apenas vagamente, como uma possibilidade unicamente teórica.

Nunca peça perdão. Quando seu pecado ficar evidente use palavras do tipo “se por acaso eu errei, não foi minha intenção”. Também utilize o recurso de apontar alguém que está fazendo pior que você.

Classifique os pecados em ordem de feiúra. O que os outros cometem na escala máxima, os que você comete em uma escala baixa.

Procure sempre ter a última palavra em qualquer discussão, mesmo que já tenha percebido o erro de suas afirmações. Quando seu equívoco for indefensável, ataque seus oponentes e esqueça-se das ideias.

Elogie em público e faça picadinho em privado.

Coloque a beleza antes da verdade na sua escala de valores. A beleza da oração, e da pregação antes que a oração sincera e a pregação fiel.

Se estes artifícios não forem suficientes, vá em frente, existem mil e uma maneiras de ser um perfeito hipócrita.

Um abraço quebra costelas

O discípulo gaudério

Cordeiros que falam como dragões

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“como cordeiro, mas que falava como dragão.”

Apocalipse 13:11

Estes dias encontrei na rua um amigo querido. Há muito queria vê-lo e conversar um pouco. Apesar de muitos amigos em comum faziam meses que não nos víamos.  Ao acaso nos encontramos e o diálogo foi mais ou menos assim:

– E aí tchê, por onde andas que não consigo falar contigo? Nem nas festas te vejo mais!

– Difícil, pastor, muito trabalho.

– Tá, mas e à noite não dá para dar um tempo do trabalho?

– Difícil… Segunda tenho reunião de casais, terça de líderes, quarta treinamento, e…

E então ele foi tecendo um naipe de reuniões para cada dia da semana. Por sua aparência podia perceber certo cansaço.

Sei o que é isso. Já confundi exaustão com serviço fiel ao Senhor. “Melhor gastar-se nas mãos de Deus do que enferrujar na mão do diabo.”

O problema dessa pequena heresia são os desdobramentos, tão nocivos quanto um ensino doutrinário equivocado. Os discípulos deixam de ser igreja, para fazer igreja. Como todo aparelho de trabalho transformam-se em seres maquinais: repetitivos, previsíveis e sem vida. É a igreja narcisista, fascinada com sua própria imagem.

A igreja narcisista cria discípulos para andarem em volta de suas próprias atividades. Não há espaço para trabalhar e testemunhar, para comer e testemunhar, para alegrar-se e testemunhar, assim como Jesus fez. Na cabeça dessa gente ministério é tudo que você faz dentro do templo. Nesse contexto convém que templo seja prédio, que vida espiritual seja reunião, que o Reino seja minha denominação e a contagem valha mais que a pesagem.

Não sabem que culto é treino, e o jogo é na vida.

A igreja narcisista não tem horizonte, apenas umbigo. Pelo discurso você tem impressão que estas comunidades presumem que só elas evangelizam, só elas têm visão e tudo que fazem é excelente e único. Temas como missões transculturais, igreja perseguida, serviço social  raramente são mencionados.

A igreja narcisista também é viciada em adrenalina e assim como Marta acaba por dar ordens a Jesus. (1) O ativismo traz  um  sentimento de onipotência inconsciente que faz com que andem na frente de Deus. Não caminham mais por direção, mas por compulsão e acabam inequivocamente fazendo coisas que Deus não chamou-as para fazer.

Por fim a igreja narcisista se torna pirata. Por perder contato com os não crentes e por estar comprometida com a economia de mercado onde os números dizem tudo, e por eles vale tudo, o que lhes resta são outros crentes.  Como a denominação pressiona por números estratosféricos, sua atenção se volta para o trabalho mais fácil de seduzir amigos de outras igrejas. O cerne da mensagem é que: nosso pastor é melhor pregador, nós encontramos a fórmula para produzir mais milagres por metro quadrado, nós temos mais visão e  nossa estrutura é mais convidativa. Em suma, uma traição ao evangelho.

Qualquer comunidade pode ficar assim. Basta a liderança não pensar, ou sucumbir ao desejo de grandeza humano e as pressões da cultura vigente a levarão de roldão para o  abismo das marionetes que repetem bordões denominacionais.

Basta substituir os evangelhos por um manual qualquer como referência máxima. Basta usar o nome de Jesus apenas como avalista de todas as ações e não o exemplo a ser seguido.

E então em lugar de vida em abundância os membros experimentarão um após o outro o esgotamento espiritual que poderá vaciná-los para sempre contra a igreja.

Deus nos conceda o discernimento para diferenciar cordeiro e dragão.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1) Lucas 10:38

O que Jesus faria na guerra cultural entre gays e evangélicos?

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“As Escrituras não oferecem qualquer outra base para a conversão que não o magnetismo pessoal do Mestre.”

Brennan Manning

Quem lê meu blog é cristão de uma forma ou outra. Por isso em meio ao calor dessa guerra de surdos, que todo mundo fala e ninguém ouve, quero fazer uma pergunta essencial para continuarmos a pensar.

O que você acha  que Jesus faria?

Preste bem atenção.

Não é o que o Silas Malafaia , Marco Feliciano ou o Thalles faria, mas o que Jesus faria?

Depois dessa pergunta norteadora, vamos aos evangelhos.

Em uma conversa sobre a polêmica sobre sua identidade em Israel, Jesus pergunta quais são as opiniões sobre ele. (1) As respostas variam como tudo que envolve o ser humano:

João Batista

Elias

Jeremias

Ele também ouviu em outras ocasiões:

– Agitador do povo.

– Comilão.

– Beberrão.

E vocês? Pergunta Jesus, parecendo mais interessado do que nunca na resposta.

Pedro como lhe era próprio, não perde tempo:

– Tu és o Cristo, Filho do Deus vivo.

Gol de placa Pedro.

Jesus se alegra. O que realmente era importante para ele, não era a opinião blasfema, ignorante ou mal informada da multidão.

O que estava em jogo, era o que ele significava para seus discípulos a quem ele havia se dado a conhecer. E se é isso que ele estava preocupado, essa deveria também ser a preocupação da igreja: lutar pela fé daqueles que já estão dentro. O único grupo que Jesus atacou foram os religiosos. Os que sabiam e tinham mais luz. Essa deveria ser também nossa agenda.

Enquanto o mundo for mundo, (coloque os religiosos nessa barca também) cuspirá, rirá, zombará e crucificará o Filho de Deus. Eles o darão como morto. E então ele ressurgirá novamente no coração de gente que está disposta a seguir a sua voz. Foi assim, e será até o fim. O Estado ou as leis não podem nos ajudar nisso. Não é da competência deles.

Vamos para uma segunda cena. Jesus quer atravessar a aldeia dos samaritanos. Ele é educado e acena com uma atitude de paz. Eles respondem com guerra:  “quem vai a Jerusalém, aqui não passa!” (2)

E o que ele faz? Nada!

E o que seus discípulos querem fazer? Matar!

Você está querendo esfolar o movimento gay agora e acha que está honrando a Jesus?

Ouça o que Ele diria a você: “o Filho do homem não veio para destruir a vida dos homens, mas para salvá-los”. Ore por seus inimigos, essa é a cruz que Ele nos manda carregar. “Perdoa-lhes por que não sabem o que fazem” foi o que Cristo mesmo exemplificou.

O ódio tirou a visão da maioria nessa guerra cultural entre gays e evangélicos.

Eles  se tornaram inimigos para atacar e não gente para alcançar. Como conseguiram passar a perna em nós tão facilmente?!

Guarde essa espada seguidor de Cristo. Os que lutam com a espada vão morrer a espada. (3) 

Jesus nos ensinou a sermos simples como as pombas e astutos como as serpentes.

Você gostaria de ser respeitado? Vou lhe ensinar a ser astuto. Aprendi isso na rua.

Ignore. A ofensa pública mútua arma o circo dos horrores. Vamos dar platéia, pagar ingresso e ainda entrar no palco. Eu não. Minha agenda é outra: pregar para quem quer ouvir. Do contrário pego minhas coisas e sigo em frente.

Além disso, sabe quem tem o maior interesse nessas polêmicas no final das contas? Os líderes xiitas do movimento LGBT assim como os auto-intitulados representantes dos evangélicos. A eles preocupa conquistarem a imagem pública de paladinos da causa para depois colher os frutos do capital político em futuras eleições.

Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1) Mateus 16:13

(2) Lucas 9:51

(3) Mateus 26:52

A virtude dos fracos

“A vida se contrai e se expande proporcionalmente à coragem do indivíduo.”

Anaïs Nin

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Homens de verdade e mulheres faca na bota despertam minha admiração. Talvez por estar plenamente consciente dos meus muitos medos.

Sem medo não existe coragem. E sem coragem qualquer virtude que você possa ter não vale de nada.

O que adianta ser compassivo, se você não tem coragem de amar quem todo mundo apedreja?

O que adianta ser crítico inteligente do sistema, se você tem medo de desagradar a opinião vigente?

O que adianta você orar e ler a Bíblia, se você não assume sua fé publicamente?

A coragem nos chama! Cada um precisa descobrir para si o seu momento!

Para Abraão significou sair do lugar onde estava. Quem sabe não está na hora de você sair também? Vi homens perderem  graça porque não acompanharam o movimento da nuvem de Deus.

Para Daniel significou manter sua posição: servir a Deus como sempre, orar como sempre, ser honesto como sempre. Quem sabe essa igreja que você quer sair como um rato que está abandonando o navio que afunda, não precisa de você?

Para Elias foi afrontar homens poderosos como o rei. Talvez seja o momento de você ser forte com os fortes.

Para Eliseu foi suceder o maior profeta de Israel. Não estará na hora de você descobrir quem é maior que o profeta?

Para Gideão foi encarar a maioria absoluta. Talvez esteja passando da hora de você abandonar essa ilusão tola e vaidosa de ser unanimidade?

Para José foi enfrentar a dor de anos de mágoas e os fantasmas da vingança. Quem sabe esse é o momento de parar de lamber as feridas e seguir em frente?

Para Davi foi uma confissão sem atenuantes de um pecado repulsivo. Até quando você vai suportar essa vida dupla?

Para Barnabé foi apostar em um recém convertido quando os sábios do conselho de Jerusalém diziam que era um grande risco para igreja. Talvez você precisa mudar seus investimentos em craques para as categorias de base.

Para Neemias foi reconstruir quando o povo inteiro pensava que  tudo estava perdido para sempre. Talvez você possa ser porta voz da esperança ridicularizada.

Para Jesus foi dizer o que precisava ser dito, da maneira que precisava ser dito, a quem precisava ouvir. Quem sabe não é o tempo de você falar pelos mudos?

Encontre sua coragem onde Deus precisa dela agora.

E aí permaneça altaneiro e entonado como moirão de angico.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

Contra a máfia III: gente compassiva.

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A foto acima é de um médico que acaba de perder sua paciente de 19 anos. Ele sai do plantão e vai até a rua para chorar a perda. O colega é quem capta a cena com respeitosa distância. Logo após ele se recompõe e retorna ao trabalho. Esse médico ainda tem um coração.

A alma calejada é um dos piores episódios que podem acontecer ao homem. Anestesiado, ele perde a capacidade de chorar ou de se indignar com aquilo que faz os outros sofrerem. É quase um estado de psicopatia.

Nos evangelhos é possível vermos um contraste que ilumina nosso entendimento:

Jesus…

“Ao ver as multidões, teve compaixão delas, porque estavam aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor.”  (1)

Fariseus…

“Mas essa ralé que nada sabe da lei é maldita.” (2)

Existem pelo menos quatro maneiras de perdermos a sensibilidade:

Desobedecer a Deus.

A perda dos sentidos espirituais tem a ver com rebeldia. Se você age como se Deus não existisse, acaba sentido como se Deus não existisse! Uma parte muito grande dos evangélicos hoje, procura perceber a presença de Deus através da música, o que não é má idéia, mas pode trazer uma superficialidade na espiritualidade se não vier acompanhada de uma disposição de atender a direção de Deus para a vida. Quanto mais ouço a Deus, mais Ele fala comigo, quanto mais ele fala comigo, mais o sentimento de intimidade vai crescendo entre Ele e eu.

Fugir da dor.

O discípulo de Jesus é chamado a um relacionamento saudável com a dor. Ele não é masoquista, não procura a dor, e também não é hedonista, ele não vive sob o princípio do prazer.

Infelizmente muitos ocidentais caíram no segundo erro. A obsessão com a felicidade parece negar a realidade da dor.

As crianças não vão mais a funerais para não serem “traumatizadas” com a perda.

Os adultos preferem não ir a hospitais, pois “não gostam”. Ora quem pode gostar de hospitais?

Os velhos são abandonados para morrerem sozinhos, pois a sociedade não aprecia contemplar o seu futuro.

Então o que resta é gente que fantasia um mundo despoluído do incômodo do sofrimento.

Sentir e não agir.

Toda vez que a minha alma desperta ou é tocada, não posso silenciar a voz que me fala. Não é suficiente chorar.

Compadecer-se é envolver-se com a dor do outro. É orar por ele, tocá-lo, visitá-lo, dar-lhe de comer, falar uma palavra de esperança.

Sentir e não agir promove uma atitude de espectador da vida. Aquele tipo de pessoa que sabe expor bem os problemas, pode teologizar muito bem, pode até pregar com emoção, criticar os outros, mas a conseqüência na vida é zero.

A pessoa se mantém dentro do seu castelo a uma distância segura das pessoas. Afinal envolver-se tem um custo emocional alto, que o digam os cuidadores de almas.

Mas aqui cabe uma palavra de advertência aos líderes cristãos: cuide-se que ao liderar gente você não acabe se guardando das pessoas dando-lhes apenas seu “trabalho”, mas mantendo-se distante da alma e da dor delas. Há muitos profissionais, Deus nos guarde de sermos um deles.

O humor desalmado.

O antigo ensino familiar dizia que a dor alheia precisava ser respeitada. Mas esse ensino perdeu-se no caminho, não porque fosse ruim, apenas porque era antigo.

A cultura do espetáculo transformou tudo em show, até a dor alheia. O humor tão próprio da humanidade se desumanizou entre o cidadão médio. Tudo por mais um vídeo ou foto que alimente o Facebook ou o Whatsapp, enquanto a vida segue clamando pela minha participação.

Deus guarde a nossa alma.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1) Mateus 9:36

(2) João 7:49