Maldição hereditária?

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“Desse modo, adoraram e serviram coisas que Deus criou, em lugar do Criador, que é digno de louvor eterno!”

Romanos 1:25

Dona Maria, padeceu muito na sua infância, convivendo com um pai alcoólatra que a espancava ao sabor de suas alterações de humor. Não suportando mais, ela tomou a difícil decisão de fugir de casa. O relacionamento com o primeiro namorado, cinco anos mais velho e voluntarioso, abriu a porta de saída do inferno. Ela foi pra nunca mais voltar. Pelo menos era o que parecia. Casou, e dois anos após o casamento seu marido começou a beber, e como o pai, descarregava nela suas frustrações, infalivelmente.

Ela pensava, consigo mesma.

– Parece perseguição. Será que eu nasci para sofrer?

Quando se senta no sofá e troca canais, com a cabeça em modo automático, ela desperta de sua catatonia quando ouve um homem bem vestido com o sotaque do Cabo Daciolo dizer:

– Seu problema é um encoxxto meu amigo!

Ela conclui da pregação: sou vítima de maldição hereditária!

Histórias como estas não são raras. O fenômeno existe, por isso os cultos de libertação também se multiplicam Brasil afora, mas será que o diagnóstico é correto? Será que existe maldição hereditária? Minha vida está a mercê de forças fora de mim, que me elegeram como “persona non grata” neste universo misterioso?

A resposta Paulo nos dá na carta aos cristãos romanos, apontando como a questão mais basilar da vida espiritual, o péssimo negócio de trocar a Deus por deus.

A carta deixa claro: colocar o humano no lugar do divino é o diabo. Esperar salvação para o inferno existencial nos seres humanos é receita de desespero. Nada além de Deus poderá satisfazer nossa indigência espiritual.

Adoração gera estilo de vida. E não falo de encontro de música de louvor, nem declarações tonitruantes de fé, é quem nosso coração se apega como fonte de vida.

Essa pobre gente com medo de maldição, é perseguida pelos próprios deuses que adoram.

Não, essa temática não pertence aos aborígenes ou habitantes do interior da África semiárida, das tribos germanas, ou dos hunos espreitando os limites do Império Romano. É temática da essência humana.

Quem possui o coração, controla os atos.

Outro dia, enquanto andava de carro, liguei o rádio e logo em seguida começou a tocar a música de John Lennon “Woman”. Nunca tinha prestado atenção na letra, e o que ouvi me deixou impressionado. Era mais do que romantismo destilado na letra, era pura adoração. Há deslumbramento, louvor e dependência total. “Minha vida está em suas mãos”, verso da canção, caberia tranquilamente em uma canção congregacional de igreja.

John Lennon fugiu da religião, mas como todos os filhos dos homens, não foi capaz de evitar a adoração.

Não foi à toa, que ela conseguiu desfazer uma das parcerias mais geniais da música popular.

Roma o alvo da carta onde baseamos essa reflexão, é a mais perfeita encarnação dessa verdade. Segundo a mitologia, Rômulo e Remo fundadores da nação eram filhos de Marte, o deus da guerra. Estava embrenhada na alma romana a noção da conquista, ambição e violência como valores máximos. Não surpreende as lutas encarniçadas entre famílias, senado e imperadores.

Seus deuses, sua vida.

O raciocínio é obscurecido. Os impulsos são descontrolados e a vida que resulta é pura desordem.

Se você não gosta nada da vida que leva, é hora de olhar para as mais profundas afeições do seu coração. Elas são a força misteriosa que molda sua vida.

Cristo veio nos salvar dessa busca desorientada, veio nos revelar quem Deus é de forma irretocável. Ele é a fonte para onde as pulsões de adoração apontavam sem, contudo, alcançar. Ele pode suportar o peso de nossa pobreza e desespero. Ele estanca o ciclo de espremermos a laranja até o bagaço, angustiados diante de suas últimas gotas. Agora a alma pode descansar, e dar descanso aos outros.

Um abraço quebra costelas

O discípulo gaudério

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