A fé que o diabo gosta.

“Por que vem nos importunar, Jesus de Nazaré? Veio para nos destruir? Sei quem é você: o Santo de Deus!”

Marcos 1:24

Quem poderia imaginar que o diabo seria encontrado nos quintais da religião? Pois nem bem Jesus começou a pregar, e ele é colocado entre as cordas e não aguenta o tranco. “Que tens conosco Jesus de Nazaré?”. Com Cristo, o demônio não tem vez nem voz, pois “não se dá palanque para otário”. Só que antes da chegada de Cristo, lá estava ele bem ajeitado nos redutos da fé, e não fosse a presença de Cristo lá ele continuaria bem ambientado, dando seus pitacos nos rumos da teologia e talvez até contribuindo para que a sinagoga continuasse cada vez mais forte.

Aquele tipo de fé, era fé que o diabo gosta! Pra ser mais preciso, incredulidade, só que impecavelmente trajada de fé. Nada mais útil contra o evangelho do que inimigos dentro da própria fronteira, uma perseguição aberta não seria tão útil, já sabe o velho diabo, quanto uma quinta coluna, um cavalo de Tróia. O trabalho no sapatinho é o mais devastador.

A sinagoga naquele tempo estava infectada mortalmente. Jesus nunca foi bem-vindo naquele lugar. Para cumprimento da ordem, Cristo começa ali, logo se desviando para as periferias onde o novo é acolhido. Tal incredulidade é muito capaz de se manifestar a qualquer grupo cristão religioso. A história não enterra aquilo que é da natureza humana. Isso quer dizer que eu e você podemos ser os vilões e atacarmos o que é do próprio Cristo. De vivermos essa vida cegamente. Não são apenas os grandes pecados que deleitam o inferno, a ferrugem que carcome dia a dia é sua especialidade.

A fé como o diabo gosta é uma fé sem afetos. Embora não explicitada aqui nesse texto, temos o Apocalipse para nos falar de uma vida morna, que Deus vomita da boca. O que Deus vomita da boca o diabo guarda no bolso. Essa fé perdeu o maravilhamento, não sorri e não chora. Não dança de alegria pelo que Deus fez. Recita seus credos indiferente. Não treme diante do mistério tremendo do Deus que se revela, mas que não pode ser definido por palavra alguma. Que não se derrama diante do enigma da cruz, do Deus ali sangrando por mim! Deus nos livre de falarmos de tamanha grandeza com tamanha indiferença!

A fé que o diabo gosta é uma fé seletiva. Escolhe os pecados que quer condenar. É a fé que usa a Cristo como advogado do seu estilo de vida. Não deixa que toquem em suas vacas sagradas. Aceitamos o amor de Deus, mas rejeitamos sua justiça. Aceitamos o perdão de Deus a nós, mas não perdoamos os outros. Vemos o pecado na esquerda, mas não vemos pecado na esquerda. Vemos pecado no Lula, mas não vemos pecado no Bolsonaro. Vemos o pecado na família dos outros, mas rejeitamos nossa própria falibilidade. Condenamos a preguiça, mas aceitamos o trabalho ganancioso. Condenamos o pecado da mulher adúltera, mas esquecemos o homem que estava com ela.

A fé que o diabo gosta vive do orgulho. Tem sentimento de superioridade por causa da denominação que pertence, do templo que frequenta, da família que “ostenta” para os irmãos, da classe social que pertence, pois frequenta uma igreja onde todos são iguais a ela. Orgulho da moral superior, orgulho da teologia que em muitos casos é movida apenas pelo desejo de estar certo, e não de servir melhor.

A fé que o diabo gosta é a fé que não se aventura. A fé do evangelho chama para a vida. Viver em discussões intermináveis sobre questões controversas é muitas vezes tentar fugir dos compromissos inadiáveis do hoje.Não há ação sem ensino, mas também não há ensino sem ação. Uma coisa alimenta a outra. O ensino não é algo para apenas saber (o que traz vaidade), é algo para se fazer.A fé precisa sair do domingo, sair do devocional diário, sair do confinamento privado, e entrar na semana inteira, comparecer no trabalho, ir para reunião de pais, estar na negociação das dívidas no comércio, no protesto contra a injustiça.A fé profunda está em permanente conversão. Ela tem fundamentos, mas tem inúmeros desdobramentos.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério

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