Dúvida Irracional

As razões para a descrença são mais complexas dos que os ateus tentam demonstrar.

Por James Spiegel

Fonte: Revista Cristianismo Hoje

A recente publicação do livro do gênio da física Stephen Hawking em coautoria com Leonard Mlodinow Uma nova história do tempo(Ediouro) reiniciou o recorrente debate acerca da existência de Deus. Ao sugerir que o cosmos pode ter sido originado espontaneamente, “do nada” – contrariando parte do que disse em seu bestseller anterior, Uma breve história do tempo, em que admitiu a possibilidade física da Criação –, o cientista britânico deu vigor ao neoateímo, movimento que cresce em todo o mundo e tem um de seus epicentros justamente no Reino Unido. Ateus e agnósticos celebram a obra como fonte de novos argumentos para dispensar as crenças religiosas acerca do tema origens e decretar, à semelhança do que o filósofo alemão Nietzsche fez no século 19, a morte de Deus. Ou, mais modernamente, como o pensador americano Thomas Nagel, que disse esperar que ele não exista. “Eu quero que o ateísmo seja verdade. Não quero que exista Deus, não quero que o universo seja assim.”

A atitude de Nagel, ainda que sutil de alguma maneira, não pode ser considerada comum entre os ateus. A maioria dos céticos demonstra ter chegado a este ponto de vista através de questionamentos legais e racionais. Mas, será que existem outros fatores envolvidos? Cristãos defensores da fé têm respondido aos argumentos dos novos ateus – que geralmente só refazem objeções tradicionais – com argumentos próprios. Como já é de costume, não falam muito sobre as causas irracionais para a descrença. Mas, como seres humanos, não somos feitos apenas de razão; temos também emoções, desejos, livre arbítrio – e tudo isso tem sua influência sobre o conjunto de crenças de todo ser humano. Por mais importante que seja relembrar aos ateus das evidências racionais para a existência de Deus, o problema real em muitos casos tem natureza moral e psicológica.

Esta sugestão é potencialmente ofensiva para os descrentes; mas, ainda precisamos nos perguntar se é verdadeira. De acordo com as Escrituras, a evidências para a existência de Deus são irresistíveis. O apóstolo Paulo diz que o que se pode conhecer de Deus é manifesto. Segundo ele diz em sua Epístola aos Romanos, 1.19-20, os atributos divinos, conquanto invisíveis fisicamente, podem ser claramente compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que aquele que não crê é indesculpável. Já o salmista descreve, com lirismo: “Os céus declaram a glória de Deus; e o firmamento proclama a obra das suas mãos” (Salmo 19.1). Isso naturalmente leva ao questionamento de que, se as evidências da existência de Deus são tão abundantes, por que existem ateus? Novamente, Paulo fornece parte da resposta no mesmo texto da carta à Igreja em Roma, observando que algumas pessoas “suprimem a verdade pela injustiça.”

A verdade é que todos nós sofremos de espaços de cegueira intelectual criados por nossos vícios pessoais e desejos imorais. Dependendo da dimensão à qual sucumbimos a tal estado, somos tentados a adotar perspectivas que nos fazem racionalizar um comportamento perverso. Quanto a isso, estudiosos não são diferentes de outras pessoas. O filósofo e educador novaiorquino Mortimer Adler (1902-2001) confessou rejeitar um compromisso religioso durante a maior parte de sua vida, pois acreditava que tal confissão interferiria demais no seu jeito de viver, nas escolhas do dia a dia e nos seus objetivos. “A simples verdade desta questão é que eu não queria viver para ser uma pessoa genuinamente crente”, escreveu. Tanto, que preferiu ser batizado anonimamente, aos 81 anos de idade.

CRENÇA E COMPORTAMENTO

O historiador Paul Johnson, em seu fascinante e perturbador livroIntelectuais, expôs este padrão de vida em célebres pensadores do período moderno, como Rousseau, Shelley, Marx, Ibsen, Hemingway, Russell e Sartre. Em suas vidas privadas (e muitas vezes públicas), estes gênios intelectuais do Ocidente eram moralmente arruinados. Será que sua rejeição a Deus – e, em particular, ao cristianismo, com seus padrões morais – era totalmente intelectual e imparcial? Ou será que os mesmos desejos confessados por Nagel e Adler tinha parte em seu ateísmo?

Como filhos do Iluminismo, temos a tendência de dar forte ênfase ao impacto da crença no comportamento humano. Contudo, ocorre o contrário – nossa conduta afeta a maneira como pensamos. De um lado positivo, a sabedoria das Escrituras nos diz que a humildade e a obediência nos dirigem para a compreensão e o discernimento; numa abordagem negativa, basta dizer que, quando cedemos ao comportamento imoral, nosso julgamento é distorcido. Ou, conforme Paulo descreve, a desobediência endurece o coração, que abre caminho para pensamentos fúteis, escurecimento da compreensão e ignorância (Efésios 4.18-19). Em outras palavras, o pecado tem consequências cognitivas.

O filósofo Alvin Plantinga, da Universidade de Notre Dame, desenvolveu tal ideia em profundidade. Ele observa que, como todas as outras coisas da vida, nossas faculdades mentais na formação das crenças foram desenhadas para funcionar de uma maneira. E, nas condições apropriadas, a tendência é formarmos crenças verdadeiras acerca do que percebemos ou raciocinamos. Mas algumas coisas podem impedir o funcionamento cognitivo – e o pecado é uma dessas coisas. Quanto mais desobedecemos e nos entregamos aos nossos vícios, menos confiável será nossa formação de crença no que diz respeito a questões morais e espirituais.

Apoiando-se em grandes teólogos cristãos como Tomás de Aquino e João Calvino, Plantinga propõe que todos os seres humanos têm o chamado sensus divinitatis, uma percepção inata do divino. Semelhante consciência natural de Deus nos leva a refletir nele conforme experimentamos a vida. Mas o sensus divinitatis, diz Plantinga, pode ser “corrompido e ferido pelo pecado”, ao ponto de levar o ser humano a negar a existência de Deus. De acordo com esse modelo, os ateus sofreriam de uma forma de disfunção cognitiva ou enfermidade. Assim, fatores externos poderiam influenciar nossa consciência natural de Deus, contribuindo para uma caminhada em direção ao ateísmo.

Em seu livro A fé dos órfãos: A psicologia do ateísmo, título em tradução livre, Paul Vitz, da Universidade de Nova Iorque – ele mesmo, um ex-ateu – examina a vida da maior parte dos ateus do modernos, incluindo ícones como Hobbes,Hume, Voltaire, Feuerbach, Nietzsche, Sartre, Camus e Freud. Ele observou que todos eles tinham algo em comum: uma relação distante e conturbada com seu pai. Por diversos fatores, como morte, abandono, abuso ou outros, a relação daqueles conhecidos ateus com seus pais foi imperfeita.

Por outro lado, Vitz também examinou a vida de teístas proeminentes durante o mesmo período: Pascal, Reid, Berkeley, Wilberforce, Kierkegaard, Schleiermacher, Newman, Chesterton e Bonhoeffer, entre outros. Em cada caso, encontrou biografias que registravam bons relacionamentos com os pais, ou, ao menos, uma figura forte de pai. Naturalmente, a vida é muito complexa para colocar uma regra rápida e imutável sobre tais questões; mas, ao menos, essa realidade histórica demonstra que existem dimensões morais e psicológicas no ateísmo, instâncias que não podem ser ignoradas. Ao menos isso sugere que ateus podem ser desmotivados a descrer em Deus. O evolucionista Richard Dawkins britânico (autor de Deus, um delírio, lançado no Brasil pela Companhia das Letras), é famoso por declarar que os teístas são iludidos. Mas se Adler, Plantinga e o apóstolo Paulo estão certos, então o ateu Dawkins necessariamente está equivocado.

Como cristão, geralmente sou questionado sobre as implicações da defesa da fé para os ateus. Minha resposta é que precisamos analisar caso a caso. Converso com muitos ateus para os quais se aplica o alerta de Jesus de não se atirar pérolas aos porcos. Mas sei que outros estão interessados em um diálogo genuíno, ainda que sejam dogmáticos em sua descrença. Para estes, estou sempre disposto a conversar sobre suas evidências racionais. Em muitos casos, os ateus se convertem após rever as boas razões para a fé. Antony Flew, estudioso e líder ateu por meio século, tornou-se cristão após evidências que considerou indiscutíveis. E alguns cristãos apologistas, como Lee Strobel e C.S.Lewis, foram ateus anteriormente. O que não se sabe é como e quando o Espírito Santo pode se mover na vida de alguém, iluminando sua mente uma vez obscurecida por um coração endurecido e concedendo a fé a alguém que genuinamente espera que Deus não exista.

James Spiegel é professor de filosofia na Universidade Taylor

O pecado que trará o fim do mundo

P.S. Não endosso a teologia do Pastor Gondim, mas esse texto acertou em cheio.

Ricardo Gondim

Percebo uma zanga generalizada sobre determinados pecados. “O mundo vai de mal a pior; estamos perto do fim”, alertam. “Mas quais pecados aceleram o fim do mundo?”, pergunto. “Promiscuidade sexual”, respondem; e ainda avisam: “Se não acontecer um avivamento puritano, semelhante ao inglês no tempo da rainha Vitória, vai chover fogo e enxofre”. Insisto; minha inquietação é grande: “Por que tanta ênfase no pecado sexual?”.

Não vamos falar de uma iniquidade que Deus odeia, ou melhor, que ele abomina? O livro de Provérbios é categórico:

Estas seis coisas aborrece o Senhor, e a sétima a sua alma abomina: olhos altivos, a língua mentirosa, e mãos que derramam sangue inocente, e coração que maquina pensamentos viciosos, e pés que se apressam a correr para o mal, e testemunha falsa que profere mentiras,
e o que semeia contendas entre irmãos
 – Provérbios 6.16 9
(o grifo é meu).

Deus odeia toda maldade que gera morte, mas detesta, abomina, maledicência, calúnia, boataria. O Senhor execra a difamação com veemência. Por que não se combate precisamente o mal que pode desencadear a ira divina? O nono mandamento da Lei de Deus não deixava dúvida, Javé não tolera quem semeia suspeita: “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo”.

Por que Deus aborrece a maledicência com tanta força? 

Porque o maledicente só desopila o baço quando, insatisfeito em arranhar uma reputação, busca destruir uma história. O caluniador crava as unhas na vida de pessoas que admira com ânsia de matar.

Porque o maledicente fuça a intimidade alheia para suscitar o que não presta. Para isso gosta de ambientes mal cheirosos. É hiena com fome de carniça. O caluniador se alimenta de notícias estagnadas. Ele sabe revolver as fossas do passado –  fossas podres. O mundo do caluniador rodopia em frases retalhadas de eventos que deveriam jazer no mar do esquecimento. Quando retalha conversas, pinça revelações de contextos íntimos; e  joga ao vento com o intuito de arrasar.

Porque o maledicente se contenta em sussurrar meias verdades. Ele aumenta, nunca inventa. Sua especialidade é imaginar. Evita o risco da calúnia com vagas insinuações. Fantasia, e espalha como fato, o que suspeita. O difamador não passa de rato. Seus movimentos são ágeis pelos esgotos da dúvida. Seu mundo necessita de penumbra; suas alucinações não resistem à luz. Necessita de lusco fusco para que todos fiquem pardos.

Porque o maledicente é escorregadio. Adora o discurso conservador para se proteger de atos falhos, de pequenas escorregadelas. É ortodoxo. Gosta de discutir literalidade; detesta a sua subjetividade. Montado em lógicas incontestes, evita que outros percebam o desconforto que nutre consigo mesmo. A fofoca espalhada serve para esconder a alma exangue do detrator. Como diz José Ingenieros, ele quer empanar “a refutação alheia para diminuir o contraste com a própria”. Quando sugere a dúvida, acredita que a sua leviandade diminuirá o discernimento das pessoas.

Por que o maledicente precisa de cúmplices. Ele só age em quadrilha. Amparado por gente de coração diminuto, espalha o vírus da notícia imprecisa. Procura não aparecer. Basta esperar que a informação suspeita se espalhe pela boca rancorosa de simplórios. A maquinação da maldade não carece de sua supervisão. E não falta gente baixa. Sobra quem se deleita em assistir ao espetáculo de uma biografia enxovalhada na sarjeta. Ele se delicia em saber que outros terminaram o serviço sujo que ele só começou. Desdenha a Bíblia, que tanto repete: “Não se alegre quando o seu inimigo cair, nem exulte o seu coração quando ele tropeçar…”.

Porque o maledicente saliva na iminente derrocada de quem, na verdade, admira. Depois que sabe da desgraça se refastela. Seu sorriso tem uma satisfação satânica. Ele deseja o que o outro desfrutava. Seu ódio é proporcional à admiração. Agora, acredita que não existe mais ninguém acima de si. A língua é fogo, muitas vezes incandescida pelo inferno. A língua produz um mundo de iniquidade e só precisa de uma fagulha para incendiar o curso de uma reputação. Para acabar com alguém, bastam uma breve insinuação, um cenho franzido, um gesto hesitante.

Porque o maledicente é dono de uma perfídia maldosa. Ele é mestre nas perguntas capciosas. Sua intenção é ouvir o segredo e deixar pontos de interrogação no ar: “Será?”; “Foi assim mesmo?” Para isso, oscila sordidamente entre a piedade e a detração. Com a mesma língua bendiz a Deus e amaldiçoa a história de alguém criado à imagem e semelhança do Deus, que ele jura adorar. Se não consegue destruir a biografia, o testemunho observado objetivamente, o caluniador questiona as intenções. Gosta de fazer juízo de valores porque a subjetividade é frágil. Vale-se de seus esgotos interiores para julgar e sentenciar. Davi pecou, mas teve a graça de escolher que tipo de punição sofreria. “Prefiro cair nas mãos do Senhor, pois grande é a sua misericórdia, a cair nas mãos dos homens”. O padre Antônio Vieira comentou a passagem: “O juízo dos homens é mais temeroso do que o juízo de Deus; porque Deus julga com entendimento, os homens julgam com a vontade”.

Porque o maledicente nunca quer ser justo. Sua verdade nasce da sua antipatia. Indisposto, exerce um juízo manchado de inveja. Mal discerne que suspeita, dúvida e sentença veem contaminada com aversão. O acusador não quer saber que encarna a perigosa serpente do Apocalipse e que terá o mesmo destino.

Porque o maledicente, antes de apontar o dedo, esquece de Provérbios: As palavras do caluniador são como petiscos deliciosos; descem saborosos até o íntimo. Como uma camada de esmalte sobre um vaso de barro, os lábios amistosos podem ocultar um coração mau. Quem odeia disfarça suas intenções com lábios, mas no coração abriga a falsidade. Embora a sua conversa seja mansa, não acredite nele, pois o seu coração está cheio de maldade. Ele pode fingir e esconder o seu ódio, mas a maldade será exposta em público. Quem faz uma cova, nela cairá; se alguém rola uma pedra, esta rolará sobre ele – (26.22-27). 

Soli Deo Gloria

Que a amargura da ingratidão não entre em você!

Quem quer que ajude outro na esperança de que isto lhe será crédito de gratidão no coração ajudado, muito se frustrará; pois, quando a alma do ajudado é doente de amargura, inveja e déficit de amor, toda ajuda será humilhante, mesmo que a pessoa peça e agradeça, posto que no dia em que você não esperar [possivelmente em dia de necessidade sua], tal ou tais pessoas se levantarão contra você quase que com certeza.

Somente recebem ajuda como ajuda e com alegria grata os que tiverem entendido o espírito da Graça de Deus no Evangelho, ou aqueles que forem também capazes de, amando, fazerem a mesma coisa por outros, e sem esperar recompensa.

Todo ajuda que espere recompensa, ou que seja feita ao que a recebendo se sinta endividado ao que o ajudou, produzirá um espírito perverso. Acerca de tal espírito se teria que perguntar à pessoa amargurada pela bem recebido: “Por que a minha ajuda fez você me odiar tanto?” — Porém, se assim você fizer perderá toda razão e será odiado com “justa causa” pelo amargurado.

Entretanto, é bom que se diga que há pessoas que somente ajudam se o ajudado ficar se sentindo em débito. Nesse caso, tanto ajudador quando ajudado se merecem na amargura de dar e de receber.

Só vale a pena ajudar as pessoas se elas, à semelhança da recomendada ignorância de minha mão esquerda em relação ao que faz a direita, não sentir que o que recebeu ficou como crédito para o que ajudou, posto que o ajudador tenha se esquecido do bem como “bem” e dele só tenha a memória da alegria de ter podido ajudar.

Em geral a pessoa que mais odeia uma outra é a que foi muito ajudada; e, como disse, isso pode acontecer apenas em razão do espírito amargo de quem recebeu. Porém, entre essas pessoas encontram-se também as que se sentem ofendidas pelo referencial de vida e coração de quem ajudou, ainda que também possam se sentir mal por causa de simples inveja; ou mesmo em razão de se sentirem diminuídas pela necessidade de necessitar de ajuda.

Ora, apesar desses riscos estarem presentes em toda ação de ajuda, a recomendação do Evangelho é para se faça o bem sem esperar recompensa, sem fazer o outro sentir-se endividado, e sem “empréstimo”, pois, o ato de ajudar deve libertar o outro e não mantê-lo preso à “gratidão dos amargurados”, que é ódio.

Se eu fosse parar de fazer as coisas em razão do troco de amargura que posso receber [e já recebi aos milhares], há muito que minhas mãos teriam secado quanto a terem vitalidade para ajudar.

Por isso se diz: “Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem”.

Se você não sabe por que aqueles que você mais ajuda parecem ser os que menos olham para você com amor, então fique sabendo: pode ser assim mesmo, mas com você não tem que ser assim.

Nele, que nos ama doentes como somos,

Caio

O Evangelho traduzido para o “gauchês”

Excelente trabalho desenvolvido no Facebook pelo Pastor Gaúcho do guri de apartamento Ander Alves.

“Três guris na fornalha foram jogados, dançaram chula no meio do fogo sem se quer ser sapecados. E a xiruzada abriu o peito louvando por mais esta conquista, o fogarél da fornalha tava virado em faísca.”

Daniel 2

“Guria! não é bom dar do cacetinho dos meus piá para os cuscos. A prenda disse: Até os guaipeca comem do farelo que cai da mesa.”

Mateus 15:26

“Vivente! vê se te toca, se continuar errante vai acabar batendo as bota. Mas a barbada do Patrão Celeste é vida tchê.”

Romanos 6:23

” Tchê! não te falei, seja guapo, seja quera, não te mixa, não froxa. tamo junto na peleia.”

Josué 1:9

“Tchê! O diabo é um baita tramposo, rei dos trovador. Vigia vivente!”

João 8:44

E o Patrão Depois de ter finalizado mundão véio e o criaredo todo disse: Bah! tri bom né tchê?”

Gênesis 1:31

“Faceiro é o vivente que anda tranquilito no mas, esse conquista a estância.”

Mateus 5:5

“Ecoou uma voz do céu: Mas que tal! Esse é meu guri!”

Mateus 3:17

“Buenas! Tchê! Não anda atucanado, na casa do Patrão do céu há bastante pouso.”

João 14: 1 e 2.

“Todo vivente que o Patrão me dá. e esse se aprochega, capaz que largo o vivente de mão.”

João 6:37

“Quando um vivente mais perdido que cebola em salada de fruta, se arrepende e converte. Há uma festança no céu. Oigalê!”

Lucas 15:7

“E o anjo disse a Gideão: Mazá galo véio! Não te mixa! Vai tchê! Passa faca neles tudo.”

Juízes 6:11,16

“O coração faceiro, deixa a lata do vivente mais bonita que laranja de amostra.”

Provérbios 15:13

“Todo lugar que colocar a sola da tua bota, é teu tchê!”

Josué 1

“O vivente que trova fiado é guri do Diabo, pois o Diabo é o rei dos trovadores.”

João 8:44


Educando suas crianças no poder do evangelho

Postado originalmente no IProdigo via Hospital da Alma

“Eu sinto que estou criando pequenos hipócritas.” Muitos pais temem que seus filhos, uma vez que lhes ensinaram formas adequadas de comportamento, crescerão como crianças bem comportadas, mas sem o senso da necessidade da graça.

O problema da hipocrisia é maior em lares que enfatizam o comportamento ao invés do coração. Se o foco da disciplina e da correção é a mudança de comportamento, você perderá o coração. Essa abordagem faz com que o problema esteja no que eu faço, não no que eu sou.
De acordo com a Bíblia, o problema que temos é mais profundo que isso. O problema não está no que eu e você ou seus filhos fazem de errado. O problema não é que nós / eles mentem ou invejam, ou desobedecem. O problema é que você, seus filhos e eu somos mentirosos, invejosos; somos desobedientes.
Pergunte a si mesmo: Um homem é um ladrão porque ele rouba, ou ele rouba porque ele é um ladrão? Ele é um mentiroso porque ele mente, ou ele mente porque é um mentiroso? A resposta da Bíblia é que ele rouba porque ele é um ladrão, mente por ser um mentiroso, desobedece por ser desobediente. Este é o testemunho da Bíblia. “Desde o nascimento os ímpios se desviam, desde o ventre são rebeldes e falam mentiras.” (Salmo 58.3).
Alguém, às vezes, poderá perguntar: “Que tal abordar o comportamento que está errado dizendo-lhes para fazer melhor. Isso não faria parte de ser um bom pai?” A resposta, claro, é que tratar o coração não significa que você não tratará o comportamento, isso apenas lhe diz como abordar com o comportamento. Uma vez que o comportamento é o motivado pelo coração, eu tenho de falar do comportamento de forma que foque a mudança do coração e não simplesmente a mudança de comportamento.
Esta verdade pode ajudá-lo a manter o centro do evangelho na correção e disciplina. Você deve ajudar seus filhos a ver os problemas ocultos do coração que estão por trás das coisas erradas que eles fazem. Você terá conversas como esta:
– Filhinho, você sabe que eu estou preocupado que você mentiu para mim. Dizer a verdade é algo que é muito importante nas relações humanas. Se você não pode confiar em mim e eu não posso confiar em você, nós não temos nenhuma cola para manter nossa relacionamento. Você entende o que estou dizendo?
– “Sim” – ele diz, balançando a cabeça.
– Mas você sabe o que me preocupa ainda mais?
– Não.
– Minha maior preocupação com você é que você é justamente igual a mim. Nós mentimos porque achamos que contar uma mentira será melhor do que dizer a verdade. E, às vezes, nós amamos mais a nós mesmos do que amamos a Deus. É por isso que contamos mentiras.
É por isso que Jesus veio. Se a nossa necessidade era de alguém nos dizer o que fazer, Deus apenas teria enviado um profeta. O problema que temos é tão grande que só saber o que devemos fazer não é suficiente. Precisamos de um Salvador do nosso pecado e precisamos de alguém que tenha poder para nos livrar.
Se você tiver uma criança precoce, a conversa poderia ser assim:
– Você nunca contou uma mentira, papai?
– Bem, filhinho, há muitas maneiras de mentir. Podemos, às vezes, contar uma mentira fazendo alguém pensar algo sobre nós que não é verdade. Por isso, sim, às vezes, o papai conta uma mentira. Então, sabe o que eu preciso fazer?
– O quê?
– Eu preciso confessar o meu pecado a Deus. Deus diz que Ele vai nos perdoar. (1 João 1.9). E eu também tenho de pedir perdão a quem eu menti. E eu preciso pensar em quem eu estava amando mais do que Deus quando eu menti, e assim posso confessar esse pecado também. Sabe de uma coisa, filhinho? Eu preciso de Deus todos os dias, tanto quanto você. Eu preciso do Seu perdão. Eu preciso dEle para me mudar por dentro, e assim eu O amarei mais que tudo. Eu preciso de Seu poder para amá-Lo e aos outros mais do que eu me amo.
Cada oportunidade de corrigir o seu filho é uma oportunidade para confrontá-lo com a sua profunda necessidade de perdão e graça. Enquanto o comportamento for a sua prioridade você nunca terá espaço para compartilhar o que realmente importa: a esperança e o poder do evangelho. Se os seus filhos forem como cãezinhos adestrados eles se tornarão pequenos fariseus, limpos por fora e sujos por dentro.
Tedd Tripp

O que não ler

Delfim Netto tinha uma biblioteca com 250 mil livros.
Doou- os, todos, à USP.
Era o maior acervo particular do Brasil, quase só obras de economia, história, filosofia e geografia.
Pouca coisa de literatura.
Óbvio, ninguém lê 250 mil livros.
Se você ler um livro por dia, serão 365 por ano, 36.500 em cem anos.
Delfim Netto está com 82 anos.
Digamos que tenha se alfabetizado aos cinco.
Não leria 250 mil livros nem se encarasse três por dia, um pela manhã, um à tarde, um à noite.
Certos livros não precisam ser lidos por inteiro, é claro, sobretudo se não são de literatura.
Alguns são de consulta, uns valem só por causa de uma fatia do conteúdo, outros devem ser apenas percorridos, não lidos completamente.
Mesmo assim, é possível que Delfim Netto tenha lido 10% da sua biblioteca.
Ou seja: 25 mil livros.
Um portento.
Minha pequena biblioteca tem cerca de 2% dos livros do Delfim Netto, que inveja dele.
Quantos desses li? Mil? Dois mil? Não faço ideia, mas sei que, felizmente, minha capacidade de ler é bem inferior à quantidade de livros que me interessam.
Por isso, não posso perder tempo.
É preciso estabelecer critérios.
Os autores jovens, por exemplo.
Só leio um autor jovem quando ele fica velho.
Seria pouco inteligente perder tempo com um autor desconhecido, havendo tantos que são consagrados, mas que ainda não li.
Agora, se avanço até, digamos, a centésima página de um livro e concluo que não gostei, fecho- o com estrépito e o ponho de lado para a eternidade.
Antes não conseguia fazer isso, tinha de seguir aos bocejos até o ponto final.
Hoje, não mais.
O tempo urge.
Tempo, tempo, como vou gastar tempo estirando- me nas redes sociais, se ainda não li todos os 10 volumes da lavra de Churchill sobre a II Guerra, que estão a me desafiar em encadernação de couro tingido de vermelho, uma lindeza? Não posso trocar 50 páginas de Churchill por uma hora de Facebook, francamente.
Certos programas de TV também não valem um parágrafo de Ulisses, que tentei ler na adolescência e parei na frase vegetissombras flutuavam silentes na paz matinal.
Aquele paralelepípedo de papel continua esperando pelo dia em que me torne mais inteligente e entenda o que James Joyce queria dizer com tudo aquilo.
Suspeito que esse dia não chegará.
Há muita coisa para ler e, todos os dias, muita coisa é escrita e publicada, e assim mais aumenta a minha defasagem e a minha ignorância.
Esta semana saiu uma pesquisa a respeito disso, do hábito de leitura dos brasileiros.
A cada ano que se vai dezembro abaixo diminui a quantidade de brasileiros que leem livros.
O percentual bateu nos 28%, e esses leem, em média, quatro livros por ano.
Um a cada três meses.
Como será o iletrado brasileiro do futuro? Outro dia, tive um vislumbre dele, desse novo brasileiro.
O todo- poderoso da CBF, o ex- presidente do Corinthians, Andrés Sanchez disse numa entrevista que nunca lê, a não ser um único tipo de livro: sobre o Corinthians.
Disse ter 132 livros sobre o Corinthians em casa.
Eis a diferença: Delfim Netto e seus 250 mil livros de não ficção; Andrés Sanchez e seus 132 livros sobre o Corinthians.
Cada qual com seu acervo, cada qual com seus predicados.
Delfim Netto, um homem do passado; Andrés Sanchez, o brasileiro do futuro.
O Brasil tem tudo para vencer campeonatos de futebol.

*Texto publicado no blog do David Coimbra.

 

O homem que não tem medo de desafiar os poderosos

Fonte: Blog do Mario Marcos

Um dia, o diretor do seminário chamou o garoto de 15 anos a sua sala, nas últimas semanas de aula, para um comunicado surpreendente: ele não poderia voltar no ano seguinte. Teria de seguir outro caminho.

Surpreso, o aluno perguntou por que e exigiu explicações.

O padre olhou para ele e respondeu, com alguma ironia:

– Nossa conversa dá a resposta: em poucos segundos, você me fez três perguntas – acrescentou, lembrando que a igreja tinha verdades consolidadas havia mais de 2 mil anos que não poderiam ser colocadas em discussão por um aluno de 15 anos.

Quatro anos depois, o mesmo garoto, agora um adolescente de 19 anos, aluno do ensino médio, foi incluído em um programa de férias para incentivar lideranças jovens. Estava lá, meio contra a vontade, quando viu ao lado de uma destas máquinas de salgadinho o anúncio de um concurso de discursos, promovido por um clube de golfe de Michigan – que barrava a entrada de negros. O tema era Abrahm Lincoln. Na mesma hora, ele voltou para seu quarto e, irritado, escreveu um longo discurso sobre a hipocrisia de um clube racista ao patrocinar um concurso sobre um presidente que tinha lutado contra a escravidão.

Ganhou o concurso e, no dia da entrega do prêmio, teve de repetí-lo diante de 4 mil pessoas – entre elas, o presidente do clube. O discurso começava assim:

Como o Elks Club se atreve a denegrir o admirável nome de Abraham Lincoln patrocinando um concurso como este? Vocês não têm vergonha? Como uma organização que não permite negros em seu clube faz parte do Boys State, difundindo sua intolerância sob o pretexto de fazer algo bom?

Ao terminar o discurso, olhou para o atônito presidente do clube, sentado na primeira fila de cadeiras, e gritou: “E o senhor pode ficar com seu troféu nojento”.

Virou notícia nacional, ganhou destaque em jornais e canais de TV, e teve seu discurso incluído em um projeto de um senador de Michigan sobre discriminação. Pouco tempo depois, o clube acabaria com a restrição à entrada de negros em sua sede.

Nome do menino seminarista e do adolescente contestador: Michael Francis Moore, nascido em Flint, Michigan, dia 23 de abril de 1953, escritor, jornalista, cineasta, contestador por vocação e duro crítico da política externa norte-americana implantada pelos republicanos de Bush.

Histórias como a da conversa com o padre e do discurso crítico fazem parte de Adoro Problemas, o novo livro de Michael Moore, eleito pelo jornal The New York Times o melhor  entre todos os que escreveu.

O título é perfeito para a vida de Moore, Oscar de documentário, duro crítico do sistema, tão odiado pelos conservadores que nos últimos anos tem vivido cercado de seguranças. É um excelente livro.

Mesmo quem não gosta de Moore vai curtir e se divertir com Adoro Problemas.

Ele já perdeu as contas de quantas ameaças de morte recebeu. O livro é uma preciosidade: Moore é impiedoso com seus próprios defeitos, diverte ao falar de suas dificuldades para encontrar a primeira namorada, faz rir quando narra certas situações constrangedoras, mas, acima de tudo, mostra que seu poder crítico nasceu com ele. Descendente de imigrantes irlandeses, duros no código moral da família e éticos na relação em seu ambiente, Moore aprendeu a ler com a mãe aos quatro anos, viu seu pai criticar o racismo, ouviu as histórias do avô que pulou as barreiras do preconceito e ajudou índios a combater o sarampo. Aprendeu, principalmente, que ninguém vive isolado – e que o mundo pode ser mudado a partir de iniciativas isoladas. Basta ter coragem para isso.

Moore teve muita. Dia 23 de março de 2003, por exemplo, ele foi chamado ao palco do Teatro Kodak para receber o Oscar de documentário por Tiros em Columbine, o filme que mostrou o massacre na escola. Antes de subir, convidou todos os outros diretores concorrentes ao prêmio de documentário a subir ao palco a seu lado. Apenas quatro noites antes, Bush ordenara a invasão do Iraque e o país vivia um clima de alucinação patriótica, convencido de que Saddam tinha mesmo armas de destruição em massa. Neste ambiente, só alguém com coragem e vocação para o debate faria um discurso assim:

Convidei meus colegas indicados ao Oscar de melhor documentário para subirem ao palco comigo. Eles estão aqui em solidariedade a mim porque gostamos de não ficção. Gostamos de não ficção, embora vivamos tempos de ficção. Vivemos em um tempo em  que temos resultados eleitorais fictícios que elegem um presidente fictício. Vivemos em um tempo em que temos um homem nos mandando para uma guerra por motivos fictícios. Quer seja a ficção da fita vedante ou a ficção dos alertas laranja: somos contra esta guerra, senhor Bush. Tome vergonha, senhor Bush. Tome vergonha na cara. E quando o Papa e as Dixie Chicks (grupo de música country de política conservadora)ficarem contra o senhor, seu tempo terá se esgotado. Muito obrigado“.

Quem assistiu àquela cerimônia vai lembrar. Houve divisão do público. Parte da comunidade artística aplaudiu, parte vaiou. Acima de tudo, o discurso de Moore deixou muita gente desconfortável. Na saída do palco, ele recebeu a primeira ameaça, quando um segurança se aproximou e o hostilizou. No jantar de gala, a comunidade de Hollywood fez silêncio quando ele entrou, e muitos se agitaram com medo de que ele se sentasse à sua mesa. Moore teve de contratar seguranças, viu um caminhão despejar uma montanha de dejetos em frente a sua casa, teve paredes pichadas, foi odiado pelos conservadores. Ainda bem para ele que a farsa do governo durou pouco: um ano depois, o New York Times pedia desculpas a seus leitores por ter acreditado nas mentiras de Bush. As armas de destruição em massa nunca foram encontradas. Moore estava certo desde o início. Começou então o lento processo de reação e, em seguida, lançou Fahrenheit, um filme demolidor sobre George Bush e seus parceiros de guerra. É daquelas pessoas que estão sempre prontas a denunciar eventuais deformações do sistema – e isso é muito bom.

O mundo precisa de pessoas como ele.

Moore criou um jornal aos nove anos, com folhas mimeografadas por seu pai na fábrica de GM, lançou um diário alternativo em Flint que virou referência em jornalismo alternativo no país quando estava no fim da adolescência, lutou contra Nixon e a Guerra do Vietnã quando ainda era um guri, aprendeu principalmente que as mudanças no mundo “podem acontecer em qualquer lugar, com até mesmo as pessoas mais simples”.

Basta ter coragem. E isso ele tem de sobra, como você vai constatar com a divertida leitura de Adoro Problemas.

Os perigos da leitura

RUBEM ALVES
colunista da Folha de S.Paulo

Nos tempos em que eu era professor da Unicamp, fui designado presidente da comissão encarregada da seleção dos candidatos ao doutoramento, o que é um sofrimento.

Os candidatos amontoavam-se no corredor recordando o que haviam lido da imensa lista de livros cuja leitura era exigida. Aí tive uma idéia que julguei brilhante. Combinei com os meus colegas que faríamos a todos os candidatos uma única pergunta, a mesma pergunta. Assim, quando o candidato entrava trêmulo e se esforçando por parecer confiante, eu lhe fazia a pergunta, a mais deliciosa de todas: “Fale-nos sobre aquilo que você gostaria de falar!”.

Pois é claro! Não nos interessávamos por aquilo que ele havia memorizado dos livros. Muitos idiotas têm boa memória. Interessávamo-nos por aquilo que ele pensava. O candidato poderia falar sobre o que quisesse, desde que fosse aquilo sobre o que gostaria de falar. Procurávamos as idéias que corriam no seu sangue!

A reação dos candidatos, no entanto, não foi a esperada. Aconteceu o oposto: pânico. Foi como se esse campo, aquilo sobre que eles gostariam de falar, lhes fosse totalmente desconhecido, um vazio imenso. Papaguear os pensamentos dos outros, tudo bem. Para isso, eles haviam sido treinados durante toda a sua carreira escolar, a partir da infância. Mas falar sobre os próprios pensamentos —ah, isso não lhes tinha sido ensinado!

Na verdade, nunca lhes havia passado pela cabeça que alguém pudesse se interessar por aquilo que estavam pensando. Nunca lhes havia passado pela cabeça que os seus pensamentos pudessem ser importantes.

Uma candidata teve um surto e começou a papaguear compulsivamente a teoria de um autor marxista. Acho que ela pensou que aquela pergunta não era para valer. Não era possível que estivéssemos falando a sério. Deveria ser uma dessas “pegadinhas” sádicas cujo objetivo é confundir o candidato. Por vias das dúvidas, ela optou pelo caminho tradicional e tratou de demonstrar que havia lido a bibliografia. Aí eu a interrompi e lhe disse: “Eu já li esse livro. Eu sei o que está escrito nele. E você está repetindo direitinho. Mas nós não queremos ouvir o que já sabemos. Queremos ouvir o que não sabemos. Queremos que você nos conte o que você está pensando, os pensamentos que a ocupam…”. Ela não conseguiu. O excesso de leitura a havia feito esquecer e desaprender a arte de pensar.

Parece que esse processo de destruição do pensamento individual é consequência natural das nossas práticas educativas. Quanto mais se é obrigado a ler, menos se pensa. Schopenhauer tomou consciência disso e o disse de maneira muito simples em alguns textos sobre livros e leitura.

O que se toma por óbvio e evidente é que o pensamento está diretamente ligado ao número de livros lidos. Tanto assim que se criaram técnicas de leitura dinâmica que permitem ler “Grande Sertão: Veredas” em pouco mais de três horas. Ler dinamicamente, como se sabe, é essencial para se preparar para o vestibular e para fazer os clássicos “fichamentos” exigidos pelos professores. Schopenhauer pensa o contrário: “É por isso que, no que se refere a nossas leituras, a arte de não ler é sumamente importante”.

Isso contraria tudo o que se tem como verdadeiro, e é preciso seguir o seu pensamento. Diz ele: “Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: só repetimos o seu processo mental”. Quanto a isso, não há dúvidas: se pensamos os nossos pensamentos enquanto lemos, na verdade não lemos. Nossa atenção não está no texto. Ele continua: “Durante a leitura, nossa cabeça é apenas o campo de batalha de pensamentos alheios. Quando esses, finalmente, se retiram, o que resta? Daí se segue que aquele que lê muito e quase o dia inteiro perde, paulatinamente, a capacidade de pensar por conta própria. Esse, no entanto, é o caso de muitos eruditos: leram até ficar estúpidos. Porque a leitura contínua, retomada a todo instante, paralisa o espírito ainda mais que um trabalho manual contínuo”.

Nietzsche pensava o mesmo e chegou a afirmar que, nos seus dias, os eruditos só faziam uma coisa: passar as páginas dos livros. E com isso haviam perdido a capacidade de pensar por si mesmos. “Se não estão virando as páginas de um livro, eles não conseguem pensar. Sempre que se dizem pensando, eles estão, na realidade, simplesmente respondendo a um estímulo —o pensamento que leram… Na verdade eles não pensam; eles reagem. (…) Vi isso com meus próprios olhos: pessoas bem-dotadas que, aos 30 anos, haviam se arruinado de tanto ler. De manhã cedo, quando o dia nasce, quando tudo está nascendo, ler um livro é simplesmente algo depravado…”

E, no entanto, eu me daria por feliz se as nossas escolas ensinassem uma única coisa: o prazer de ler! Sobre isso falaremos…

Ateus de Deus

Esse texto foi escrito por Caio Fábio. Uma referência essencial em minha vida ministerial. Com ele aprendi que inteligência, espiritualidade, e afetividade podem andar juntas. Não ouvi em minha vida um homem mais lúcido na igreja brasileira. Esse texto vai mexer com você.

“A minha mulher eu tenho para mostrar à igreja, às pessoas, e pra validar meu ministério. As outras mulheres eu tenho pra mim mesmo. Pra minha alegria. E eu vou levando… Meu ministério é grande!” — disse mais ou menos assim um pregador evangélico a uma amiga quebrada pela hipocrisia, e que pagou alto preço para botar a verdadeira cara para fora da sombra do engano e da hipocrisia.

É assim que as coisas estão para todo lado!

E quanto mais a pessoa se torna famosa ou dependente do “ministério” para viver, mais profundos vão ficando os disfarces; e como a fama dá à pessoa a drogada sensação de poder e de ter algumas saídas justificadas pela anomalia social de seu modo famoso e poderoso de existir, vai ficando pedrada, cauterizada e ateia em seu ser — embora viva do “ministério”.

Assim, mesmo pregando e falando de Deus, é ateia, mais ateia que os ateus, pois, se alimenta e vive de uma fala acerca de um Deus que para ela existe como função para os outros, posto que o próprio pregador já fala tanto em e de Deus, que ganhou méritos e concessões especiais, e, por tal razão, pode dizer como o jovem pregador cuja frase-confissão-de-fé mencionei acima.

Provavelmente não haja tantos ateus nos laboratórios de engenharia genética e de física quanto há atrás dos “púlpitos incendiados” de fogo de falso avivamento.

Ano passado uma cantora evangélica me contou que havia sido objeto de uma estranha abordagem por parte deste mesmo pregador. Depois uma outra cantora evangélica me disse que ele dissera para ela mais ou menos o mesmo que hoje essa outra amiga me contou.

Assim, por bocas diferentes e que entre si não se conhecem, certa palavra vai se firmando. E isto muito me preocupa, pois, eu não conhecia nem mesmo o tal moço. Tudo veio das pessoas, o que mostra que isso que ele pensa que pode esconder, pela própria volúpia culposa na qual ele vive, começa a se derramar.

Foi mais ou menos acerca de coisas assim que Paulo disse a Tito que tais pessoas “não irão avante”, pois serão alcançadas pelos seus próprios pecados praticados em cinismo.

Os seres humanos em geral pensam que todos os pecados humanos são vistos apenas em razão da falta de habilidade do pecador flagrado, mas que, como é agora com elas, agora será uma outra história, e ninguém as apanhará; nem Deus.

A questão é que se a pessoa vive para falar de Deus e come de tal fala, por mais cretina que ela seja, a bomba da verdade se instala nela e contra ela, e, um dia, de um modo ou de outro, fará com que a pessoa mesma se entregue, até inconscientemente; ou mesmo que fira a si mesma por ir criando um cenário cheio de elementos auto-destrutivos, os quais um dia eclodirão, e, em geral, simultaneamente.

Há os que se especializam em andar por aí “seduzindo mulherinhas sobrecarregadas de pecados”, e que nunca chegam ao pleno conhecimento da verdade, e, por tal razão, seguem enganando e sendo enganados.

É melhor ser ateu do que existir falando de Deus com a alma tão ateia e cínica assim.

A confissão de um ateu honesto geraria um ribombar no céu. Mas as confissões de fé dos “ateus de Deus” enfurecem os céus e produzem algazarra de diabólica festa em todos os escalões do inferno.

Saiba isso!

Fuja disso!

http://www.caiofabio.net

Intolerável

Marina Silva

Corrupção mata. Entender isso é fundamental para atacar um dos males que mais empatam o desenvolvimento socioeconômico e político do Brasil. Ainda há quem não veja a conexão entre corrupção e violência, mas elas estão intimamente ligadas.

Da mesma forma, devemos entender que a baixa eficiência e o mau funcionamento dos serviços do Estado estão tremendamente relacionados à cultura da corrupção, ao patrimonialismo, à falta de transparência e à baixa capacidade de mobilização social.

A morte da juíza Patrícia Acioli, no Rio, não é apenas um crime brutal. A execução de uma servidora pública correta e rigorosa com os crimes, principalmente os cometidos por agentes públicos, revela a força que as máfias têm no país. E o tamanho que elas adquiriram, graças à corrupção.

Quando a propina chancela e incentiva o desvio de conduta, torna-o cada vez maior. E chega a um ponto em que vê na lei um obstáculo que precisa ser removido, tirando do caminho quem a faz cumprir.

É na má política que se choca o ovo da serpente da violência policial e das relações espúrias entre poder de Estado e delinquência. Quem assistiu aos filmes de José Padilha “Tropa de Elite” e “Tropa de Elite 2″ pode ver como a propina de todo dia fortalece a mão que aperta o gatilho contra os inocentes.

A morte de Patrícia Acioli é uma afronta ao Estado democrático de Direito. Ela não é apenas mais uma vítima. Era alguém que, no desempenho de suas funções, buscava combater a barbárie de grupos que querem controlar a vida de quem mora na periferia e, claro, o próprio Estado.

Matar uma juíza revela enorme convicção da própria impunidade. É uma declaração de guerra às leis, à democracia e à sociedade. Assim como é inaceitável que o Brasil conviva com a execução de uma juíza, também não é mais tolerável convivermos com o nível de corrupção que tem marcado o nosso país.

Vemos, na mídia, como a Índia, país com problemas maiores do que os nossos, desperta vigorosamente para o combate à corrupção. E o que falta para o Brasil? Quanto mais indignada for a resposta da sociedade aos escândalos e aos homicídios de cada dia, maior será o poder de reação contra essas mazelas no âmbito do próprio Estado.

A autoridade pública da menor à maior se sentirá fortalecida e incentivada a agir contra a corrupção, que é, em si, uma forma de violência contra a coletividade.

A faxina, então, deixa de ser rápida, como se faz quando chega uma visita inesperada, e passa a ser permanente, vigorosa, profunda. É desse nível de exigência que precisamos. Se nos acostumarmos a deixar barato, perderemos o controle do que é público, do que é de todos nós.

fonte: Folha de S.Paulo