AULA DE DIREITO!

Uma manhã, quando nosso novo professor de “Introdução ao Direito” entrou na sala, a primeira coisa que fez foi perguntar o nome a um aluno que estava sentado na primeira fila:

– Como te chamas?
– Chamo-me Juan, senhor.
– Saia de minha aula e não quero que voltes nunca mais! – gritou o desagradável professor.

Juan estava desconcertado.
Quando deu por si, levantou-se rapidamente, recolheu suas coisas e saiu da sala.
Todos estávamos assustados e indignados, porém ninguém falou nada.

– Agora sim! – E- perguntou o professor – para que servem as leis?…

Seguíamos assustados, porém pouco a pouco começamos a responder à sua pergunta:
– Para que haja uma ordem em nossa sociedade.
– Não! – respondia o professor.
– Para cumpri-las.
– Não!
– Para que as pessoas erradas paguem por seus atos.
– Não!!
– Será que ninguém sabe responder a esta pergunta?!
– Para que haja justiça – falou timidamente uma garota.

– Até que enfim! É isso… para que haja justiça.
E agora, para que serve a justiça?

Todos começávamos a ficar incomodados pela atitude tão grosseira…
Porém, seguíamos respondendo:
– Para salvaguardar os direitos humanos…
– Bem, que mais? – perguntava o professor.
– Para diferençar o certo do errado… Para premiar a quem faz o bem…
– Ok, não está mal porém… respondam a esta pergunta:
Agi corretamente ao expulsar Juan da sala de aula?…
Todos ficamos calados, ninguém respondia.

– Quero uma resposta decidida e unânime!
– Não!! – respondemos todos a uma só voz.
– Poderia dizer-se que cometi uma injustiça?
– Sim!!!
– E por que ninguém fez nada a respeito?
Para que queremos leis e regras se não dispomos da vontade necessária para pratica-las?

– Cada um de vocês tem a obrigação de reclamar quando presenciar uma injustiça. Todos.
Não voltem a ficar calados, nunca mais!

– Vá buscar o Juan – disse, olhando-me fixamente.

Naquele dia recebi a lição mais prática no meu curso de Direito.
Quando não defendemos nossos direitos perdemos a dignidade e a dignidade não se negocia.

Vi no blog do Mario Marcos.

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Vinhetas do amor de Dona Ida

“A mão que balança o berço, rege o mundo.”

Peter DeVries

As imagens que ficam retidas na memória são consciente e inconscientemente uma bússola para o nosso jeito de viver. Quem me conhece já terá ouvido muitas das histórias que vou contar sobre minha mãe, pois elas fazem parte da inspiração que tenho para viver. Essa mulher que gostava de teatro e música, que nunca se acomodou a miséria, que começou a trabalhar com 14 anos e sem ter qualquer curso superior chegou a ser a chefe dos registros acadêmicos de uma Universidade é uma coluna de amor em meu coração. Abro minha alma e apresento as cenas simples da minha vida que eu amo contar de novo.

A mãe é nosso primeiro contato com o mundo feminino. E definitivamente a Dona Ida me ajudou a andar em paz entre as mulheres. Nunca carreguei aquela carência doida que coloca os homens em temporada de caça permanente. Tive muitas amigas sem jamais confundir amizade com amor o que me ajudou a não deixar rastros de mágoas ao longo do meu caminho. Não que a mãe tivesse me dado qualquer orientação direta sobre isso, foi só a simplicidade de ser amado que me ensinou essas lições. Desejei desde meus oito anos ser pai, casei cedo, amo minha esposa e filhas porque a mãe me deu uma excelente primeira experiência do mundo feminino. Obrigado por essa felicidade mãe.

Aprendi com ela a tolerar os gostos diferentes dos meus filhos e das pessoas em geral. Não foram poucas as vezes que escutando som a todo vapor(!?) trancado no quarto naqueles anos 80, de Michael Jackson e Madonna quando minha mãe vinha me acompanhar dançando e curtindo o que eu curtia, não porque gostasse (agora eu sei) mas porque simplesmente aquilo me trazia alegria.

Um dia tomado de bobeira pré-adolescente cheguei em casa zombando de um colega de aula que chamávamos “Mosquito”,  porque  alguém durante o final de semana descobriu que ele vendia pulseirinhas para ajudar a família. Todos acharam não sei por que razão muito engraçado e intimidávamos  o guri chamando-o de camelô como se isso fosse uma ofensa. Minha mãe foi tomada de um ar solene e me disse com ênfase que carrego no meu coração: Meu filho, a gente jamais pode achar desprezível quem trabalha, não importa o que faça! Dali para frente enxerguei o trabalho com lentes reverentes.

Aprendi com ela os valores básicos da civilidade: ser honesto, íntegro e pagar minhas contas. Um dia voltando do supermercado me vangloriei com ela de haver sido esperto o suficiente para subtrair alguns brinquedinhos escondidos sem que ninguém me visse.  Descobri sem demora que aquilo não era esperteza era roubo mesmo. Minha mãe, como só uma mãe sabe fazer, desfilou um daqueles sermões expositivos acerca da feiura da minha atitude, destruindo meu orgulho despropositado a ruínas. Quando eu voltei a olhar aqueles brinquedos, eles queimavam em minha mão e em minha consciência de tal maneira que tive de jogá-los no lixo pela vergonha que senti. Obrigado mãe, o mundo naquele dia contabilizou um ladrão a menos.

Muitas vezes naqueles dias de inverno rigoroso de Bagé, de tormentas elétricas, de céus escuros, ventos assustadores e de preguiças paralisantes, a Dona Ida me fazia levantar para ir  ao colégio. Não havia alternativa era escola ou escola. Eu me levantava quase me arrastando pensando: “é uma ditadora”. Só pensando é claro.  Talvez seja essa a razão pela qual debaixo do mau tempo da vida eu me resista sempre a desistir. Talvez aí tenha começado a ser construída a identidade que me faz repetir e tempos difíceis: “Eu não sou daqueles que retrocedem…”.

Quando minha mãe se aposentou, continuou trabalhando, conseguiu receber um bom dinheiro que lhe proporcionou aos 55 anos a compra do carro que ela nunca pode ter. Fiquei surpreendido e mais uma vez admirado com a disposição dela para aprender a dirigir e tirar sua carteira naquela altura da vida. E ela conseguiu. Viajava pelas estradas e pela cidade, com medo, mas sem recuar. Essa imagem faz com que a cada ano eu me imponha desafios que me deem frio na barriga, pois é isso que nos faz crescer.

No final do segundo grau (era assim que chamavam ensino médio na pré-história) decidi que faria Teologia e partiria para o Seminário. Naquela época eu recém havia completado meus 17 aninhos, mas tinha convicção do que queria. Mas também sabia que o desejo de minha mãe era de que fizesse uma carreira mais “segura” e tal e coisa. Sabia também que ela queria que o filhote continuasse no ninho, mas naquele momento ela fez valer a voz da sabedoria materna, e me deixou voar sem ataduras. “Meu filho, tu tens que fazer o que tu gostas” foi o que ouvi dela sempre escondendo as lágrimas. E lá fui eu para nunca mais voltar a casa. Obrigado mãe por cortar o cordão umbilical, me ajudou a voar alto.

Recordo do dia a dia da Dona Ida, levantando cedo, limpando toda a casa, que eu só contribuía para sujar, pois nunca dei qualquer ajuda significativa a não ser comprar o que precisava na venda, no tempo em que não era perigoso soltar uma criança na rua para fazer mandados. Depois disso ela cozinhava, sempre, todos os dias. Terminada a comida ela se vestia discreta e caprichosamente e se dirigia a universidade onde trabalhou durante quarenta anos ininterruptos sem faltar ou se atrasar. Ela voltava as 22:30h sempre de bom humor e nos ensinava: eu sou a única que teria direito de estar de mau humor em casa, e não estou, portanto não quero ninguém aluado aqui dentro. Sim, mãe, é incrível que eu nunca escutei nenhuma reclamação de tua boca, nem queixa por trabalhar, virtude que ainda tento copiar de maneira trôpega já que sou um resmungão recorrente.

Toda vez que eu cheguei a casa entristecido, fracassado e chorando, minha mãe sentou e sentiu comigo. Creio que ela me deu aulas básicas de aconselhamento pastoral  anos antes de eu entrar para o seminário. Com aquele exemplo Deus preparou uma vocação em mim.

Hoje tenho sempre em meu coração o propósito de não envergonhar jamais os meus filhos com minhas atitudes, de amar minha esposa fielmente e sacrificar o bocado em minha boca a favor deles porque as imagens do teu amor sacrificial tatuaram minha alma para sempre.

Muito obrigado.

August Landmesser: um homem só com sua consciência

Por Elizabeth Flock no Washington Post.

Traduzido por F. B. Goulart

Estamos na Alemanha Nazista em 1936, e uma multidão de pessoas tinha se ajuntado para o lançamento de um navio de treinamento da marinha. Enquanto centenas respondiam em uníssono a saudação nazista, um homem permaneceu com seus braços cruzados e os olhos torcidos a quem estava comandando a saudação.

Esse homem não foi identificado até o ano de 1991 como August Landmesser, um trabalhador da Blohm + Voss construtora de navios em Hamburgo, por uma de suas filhas, depois que ela viu a foto em um jornal alemão.

Essa semana, a foto ressurgiu depois que um blog que havia sido lançado para facilitar os esforços em aliviar o impacto do terremoto no Japão e posterior tsunami, compartilhou-a em sua página no Facebook. Junto com o texto, a foto tem aproximadamente 25.000 compartilhamentos.

Landmesser aparentemente tinha uma razão bem pessoal para não repetir a saudação.

Acredita-se que ele tenha sido um membro do partido Nazista de 1931 a 1935, e foi mais tarde expulso do partido por casar com um mulher judia, Irma Eckler, de acordo com Fasena, um sítio educacional no campo de concentração Nazista em Auschwitz.

Depois que ele criou duas filhas com Irma, ele foi enviado para prisão por “desonrar a raça”. Acredita-se que Irma tenha sido detida pela Gestapo na prisão policial de Fuhlsbüttel em Hamburgo. Suas filhas foram separadas.

Landmesser foi libertado da prisão em 1941 mas logo foi convocado para servir na guerra. E mais tarde foi declarado perdido em ação e dado como morto.

Em 1996, uma das filhas de Landmesser, Irene, escreveu a história da família na Alemanha, dizendo esperar compartilhar a história de como sua família tinha sido separada.

Dezesseis anos mais tarde, aquela história está se espalhando pelo Facebook, graças ao hábito dentro da Internet de redescobrir tesouros históricos. Muito como o renovado interesse da semana passada em uma carta de um ex-escravo de 1865 ao seu senhor, a resposta a lição fotográfica de Landmesser, fala  alto para uma audiência virtual faminta por histórias de heroísmo moral.

Um Espinho na Carne

No meio da floresta, perto do vilarejo de Aladi em Nagercoil, na Índia, eis que se ouve:

– Aaaaaaaaaaaaaaaaaai! Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaai!!

Elizabeth Geikie, uma bela mulher de olhos azuis e pele morena, vinda de Dundee, Escócia, saiu de sua cabana de taipa para ver de onde esse barulho aterrorizante estava vindo e descobriu que vinha da trilha que conduzia para onde ela estava morando.

Logo, um grupo de homens de Aladi estava se aproximando de sua cabana. Eles carregavam um homem, que era a causa de todo aquele barulho. Primeiro, Elizabeth pensou que ele estivesse maluco e os moradores da vila o estavam trazendo para atormentá-la. Ela esperava ansiosamente enquanto o grupo parava em frente à sua cabana e deitaram o homem aos pés dela.

Um dos homens do grupo disse:

– Tem alguma coisa errada com esse homem e nós não sabemos o que fazer.

Em pouco tempo, Elizabeth percebeu que o homem não estava louco, mas estava gemendo por conta de uma dor torturante. Mas, de onde vinha essa dor? Teria ele comido algo venenoso ou sido picado por alguma cobra? Ela se ajoelhou e começou a examinar seu corpo em busca de indícios de causas da dor. Foi então que ela percebeu que o pé esquerdo dele estava inchado. Ela o tocou e o homem deu outro grito aterrorizante de dor. Cuidadosamente, ela examinou o pé dele de cima a baixo até encontrar a razão de todo aquele sofrimento: um pequeno ponto se projetando da planta do pé. Era o final de um grande e profundo espinho.

Elizabeth foi até sua cabana e apanhou seu “kit” médico de primeiros socorros, mas, dentro dele, havia apenas vaselina, sulfato de magnésio e óleo de rícino, porém, não encontrou o fórceps que precisava para arrancar o espinho do pé daquele homem Era teria de improvisar.

Para o nojo daqueles que estavam ao redor, Elizabeth se ajoelhou, inclinou-se para frente e pôs os lábios contra o pés sujo e calejado daquele homem. Então, ela encaixou se dente tal como um gancho em volta do final do espinho que s projetava para fora, e, vagarosamente, ela moveu sua cabeça para trás. Pedaço por pedaço, o profundo espinho começou a sair do pé até sua cabeça sacudir para trás, arrancando-o fora por inteiro. Imediatamente, o homem deixou escapar um grito de alívio na medida em que sua dor começava a diminuir.

Com o espinho arrancado, Elizabeth banhou o pé com óleo de coco e então envolveu com um curativo à base de fios de linha. Em seguida, o homem e o grupo que o trouxe desapareceram tão rápido quanto tinham chegado.

No dia seguinte, o grupo de homens estava de volta. Dessa vez, eles não traziam consigo nenhuma outra pessoa ferida. Ao contrário, eles queriam respostas:

– Por que é que você, uma mulher branca, queria salvar a vida de um homem, colocando os seus lábios – que é a parte mais sagrada do corpo – contra o pé dele – que é a parte do corpo mais desprezível?

Ela respondeu:

– Porque meu Deus, que ama e valoriza todos os homens, pediu a mim que fizesse isso.

Essa tinha sido a porta de entrada pela qual Elizabeth Geikie tinha estado orando e, em pouco tempo, aqueles homens estavam clamando para conhecer mais sobre o Deus dela.

Primeiro, o homem de cujo pé ela tinha arrancado o espinho, juntamente com sua esposa, tornaram-se cristãos. Em breve, outros da vila seguiram o exemplo deles, até que o núcleo de uma pequena congregação tinha sido formado.”

Extraído do livro: Sopa,sabão e salvação – A história de William Booth.  Janet & Geoff Benge

Histórias da graça

Talvez você já tenha ouvido esta história: há quatro anos, numa grande
cidade do extremo oeste, começaram a correr os rumores de que certa
mulher católica estava tendo visões de Jesus. Os relatos chegaram ao
arcebispo. Ele decidiu verificar. Existe sempre uma linha tênue entre o
místico autêntico e a extremidade fanática.
—E verdade, minha senhora, que a senhora tem visões de Jesus? —
perguntou o clérigo.
—E — respondeu singelamente a mulher.
—Então, na próxima vez que a senhora tiver uma visão, quero que
peça que Jesus lhe conte os pecados que confessei na minha última
confissão.
A mulher ficou perplexa.
—Estou ouvindo direito, bispo? O senhor quer mesmo que eu peça a
Jesus que me conte os pecados do seu passado?
—Exatamente. Por favor, ligue-me se alguma coisa acontecer. Dez dias
depois a mulher informou o seu líder espiritual da aparição mais
recente.
—Por favor, venha — disse ela.
Uma hora depois o bispo havia chegado. Ele olhou-a nos olhos.
—A senhora acaba de me dizer ao telefone que teve de fato uma visão
de Jesus. A senhora fez o que pedi?
—Sim, bispo, pedi a Jesus que me contasse os pecados que o senhor
confessou na sua última confissão.
O bispo inclinou-se para frente, na expectativa. Seus olhos se
estreitaram
— O que Jesus disse?
Ela tomou a mão dele e olhou fundo nos seus olhos.
— Bispo — ela disse, — essas são as exatas palavras dele: EU NÃO ME
LEMBRO.

Uma história de amor firme!

Uma de minhas lembranças mais indeléveis diz respeito ao tempo em
que eu era paciente de um centro de reabilitação numa cidadezinha ao
norte de Mineápolis, em abril de 1975. O cenário era uma sala de
recreação ampla e de dois andares na orla de uma colina com vista para
um lago artificial. Vinte e cinco dependentes químicos estavam reunidos.
Nosso líder era um experiente conselheiro, hábil terapeuta e membro
veterano da equipe. Seu nome era Sean Murphy-O’Connor, mas ele
normalmente anunciava sua chegada dizendo:
— É ele mesmo. Vamos trabalhar.
Sean mandou que um paciente chamado Max assumisse a “cadeira de
interrogatório” no centro do grupo disposto em “U”. Max, um homem
franzino e de baixa estatura, era um cristão nominal, casado e com cinco
filhos, proprietário e presidente de sua empresa, rico, afável e dotado de
uma pose notável.
— Desde quando você tem bebido como um porco, Max? — Murphy-
O’Connor havia começado o interrogatório.
—Isso é injusto — Max recolheu-se.
—Veremos. Quero saber da sua história com a bebida. Quanta cachaça
por dia?
Max reacendeu seu cachimbo.
—Tomo dois Marys com os rapazes antes do almoço e dois Martins
depois que o escritório fecha, às cinco. Depois…
—O que são Marys e Martins? — interrompe Murphy-O’Connor.
—Bloody Marys: vodca, suco de tomate, uma pitada de limão e de
Worcestershire, um toque de extrato de pimenta vermelha; e martinis:
gim, extra-seco, gelado com uma azeitona e uma espremida de limão.
—Obrigado, Mary Martin. Prossiga.
—Minha esposa gosta de um drink antes do jantar. Viciei-a em Martins
há muitos anos. Claro que ela os chama de “aperitivos”, — sorriu Max.
— Vocês naturalmente entendem o eufemismo, não é verdade,
senhores?
Ninguém respondeu.
—Como eu ia dizendo, tomamos dois martinis antes do jantar e mais
dois antes de dormir.
—Um total de oito drinks por dia, Max? — quis saber Murphy-O’Connor.
—Exatamente. Nem uma gota a mais nem a menos.
—Você é mentiroso.
Sem se abalar, Max explicou: — Vou fingir que não ouvi isso. Estou na
ocupação há vinte e tantos anos e construí minha reputação em cima da
honestidade, não da falsidade. As pessoas sabem que minha palavra é de
confiança.
—Já chegou a esconder uma garrafa em casa? — perguntou Benjamim,
um índio navajo do Novo México.
Mateus, e que a história do roto e do rasgado era um provérbio secular
que não constava nos Evangelhos. Senti, porém, que um espírito de
presunção e um ar de superioridade espiritual haviam me envolvido de
repente como um nevoeiro. Decidi abrir mão da correção fraternal. Afinal,
eu não estava em Hazelden fazendo uma pesquisa para um livro. Eu era
apenas um bêbado incorrigível como Max.)
— Tragam-me um telefone — disse Murphy-O’Connor.
Um telefone foi trazido num carrinho para a sala. Murphy-O’Connor
consultou um bloco de notas e discou um número interurbano — para a
cidade de Max. O receptor era amplificado eletronicamente, de modo que
a pessoa do outro lado da linha podia ser ouvida claramente por todos no
salão do lago.
—Hank Shea?
—Ele mesmo. Quem está falando?
—Meu nome é Sean Murphy-O’Connor. Sou conselheiro de um centro de
reabilitação de drogas e álcool no Meio-Oeste. Você se recorda de um
cliente chamado Max? (Pausa) Ótimo. Com a permissão da família dele
estou pesquisando a história de Max com a bebida. Como você
trabalha como barman nesse lugar todas as tardes, fiquei pensando se
você saberia me dizer aproximadamente quantos drinks o Max
consome diariamente.
—Conheço o Max muito bem, mas você tem certeza que tem
permissão para me interrogar?
—Tenho uma declaração assinada. Pode falar.
—Max é um cara fantástico. Gosto demais dele. Ele despeja trinta
contos no balcão toda tarde. O Max toma os seus seis martinis básicos,
compra mais uns drinks e sempre me deixa uma gorjeta de cinco
dólares. Grande sujeito.
Max pôs-se de pé num salto. Erguendo a mão direita
desafiadoramente, ele despejou um caudal de palavrões digno de um
estivador. Ele atacou os ancestrais de Murphy-O’Connor, colocou em
dúvida a legitimidade de Charlie e a integridade de toda a unidade de
tratamento. Ele agarrou-se ao sofá e cuspiu no tapete.
Então, num feito notável, recuperou imediatamente a compostura. Max
sentou-se e observou sem qualquer afetação que até mesmo Jesus havia
perdido a paciência no Templo ao ver os saduceus comercializarem
pombas e bolos. Depois de uma prédica improvisada sobre a ira
justificada, ele reabasteceu o seu cachimbo, imaginando que o
interrogatório havia terminado.
—Você já tratou mal algum dos seus filhos? — Fred perguntou.
—Fico feliz que você tenha levantado esse assunto, Fred. Tenho uma
profunda ligação com meus quatro garotos. No último dia de Ação de
Graças levei-os para uma expedição de pescaria nas Rochosas. Quatro
dias de vida dura no mato. Foi memorável. Dois de meus filhos
formaram-se em Harvard, você sabe, e Max Jr. está no terceiro ano
da…
—Não foi o que eu perguntei. Pelo menos uma vez na vida todo pai
trata mal um de seus filhos. Tenho sessenta e dois anos e posso
assegurar que é assim. Agora dê-nos um exemplo específico.
Seguiu-se uma longa pausa. Finalmente:
—Bem, fui um tanto duro com minha filha de nove anos na última
véspera de Natal.
—O que aconteceu?
—Não lembro. Apenas fico com uma sensação de pesar quando penso
nisso.
—Onde aconteceu? Quais eram as circunstâncias?
—Espere aí um minuto — a voz de Max ergueu-se com fúria. — Já disse
que não lembro. Só não consigo me livrar dessa sensação ruim.
Sem alarde, Murphy-O’Connor discou mais uma vez para a cidade de
Max e falou com a esposa dele.
—Sean Murphy-O’Connor falando, minha senhora. Estamos no meio de
uma terapia de grupo e seu marido acaba de contar que tratou mal sua
filha na véspera do Natal passado. A senhora poderia fornecer os detalhes,
por favor?
Uma voz suave encheu a sala.
—Sim, posso contar-lhe a coisa toda. Parece que foi ontem. Nossa filha
Debbie queria um par de sapatos de presente de Natal. Na tarde de 24 de
dezembro meu marido levou-a de carro até a cidade, deu-lhe sessenta
dólares e disse que ela comprasse o melhor par de sapatos que houvesse
na loja. Foi exatamente o que ela fez. Quando entrou novamente na
caminhonete que meu marido estava dirigindo, ela beijou-o no rosto e
disse que ele era o melhor pai do mundo. Max estava orgulhoso como um
pavão e decidiu celebrar no caminho de volta para casa. Ele parou no
Cork’n Bottle, um bar que fica a alguns quilômetros da nossa casa, e disse
a Debbie que voltava já. Era um dia limpo e extremamente frio, cerca de
vinte graus abaixo de zero, por isso Max deixou o motor funcionando e
fechou as portas do lado de fora de modo que ninguém pudesse entrar.
Isso era um pouco depois das três da tarde, e…
Silêncio.
—Sim?
O som de uma respiração pesada encheu a sala de recreação. A voz
esmoreceu. Ela estava chorando.
—Meu marido encontrou no bar alguns velhos colegas do exército.
Envolvido na euforia da reunião, ele perdeu a noção de tempo, de
propósito e de tudo o mais. Ele saiu do Cork’n Bottle à meia-noite. Bêbado.
O motor havia parado de funcionar e as janelas do carro estavam
bloqueadas com o gelo. Debbie tinha graves ulcerações de frio nas orelhas
e nos dedos da mão. Quando a levamos ao hospital, os médicos tiveram
de operar. Amputaram o polegar e o indicador da mão direita. Ela vai ficar
surda pelo resto da vida.
Max parecia estar tendo um ataque do coração. Ele lutava para manterse
de pé, fazendo movimentos desajeitados e descoordenados. Os óculos
voaram para a direita e o cachimbo para a esquerda. Ele caiu de quatro,
soluçando histericamente.
Murphy-O’Connor levantou-se e disse suavemente:
—Vamos circulando.
Vinte e quatro alcoólicos e viciados subiram a escadaria de oito
degraus. Viramos à esqueda, reunimo-nos ao longo da amurada do
mezanino e olhamos para baixo. Ninguém consegue esquecer o que viu
naquele dia, vinte e quatro de abril, exatamente ao meio-dia. Max ainda
estava de quatro. Seus soluços haviam crescido a berros. Murphy-
O’Connor aproximou-se dele, pressionou seu pé contra o tórax de Max e
empurrou. Max rolou de costas no chão.
—Seu canalha miserável — urrou Murphy-O’Connor. — Tem uma porta à
sua direita e uma janela à sua esquerda. Tome o que for mais rápido. Saia
daqui antes que eu vomite. Não dirijo um centro de reabilitação para
mentirosos.
A filosofia do amor duro está baseada na convicção de que nenhuma
recuperação efetiva pode ser iniciada até que o homem admita que é
impotente diante do álcool e que a vida tornou-se ingovernável. A
alternativa a encarar a verdade é sempre uma forma de autodestruição.
Para Max havia três opções: a insanidade eventual, a morte prematura ou
a sobriedade. Para libertar o cativo é preciso dar um nome ao cativeiro. A
negação de Max teve de ser revelada através de uma interação
implacável com seus companheiros. Seu auto-engano teve de ser
desmascarado em todo o seu absurdo.
Mais tarde naquele dia Max implorou e obteve permissão para continuar
o tratamento. Ele acabou experimentando a mais impressionante
mudança de personalidade que já testemunhei. Max tornou-se
transparente e mais aberto, sincero, vulnerável e afetuoso que qualquer
homem do grupo. O amor duro tornou-o real e a verdade o libertou.
O desfecho da história: na noite anterior ao dia em que Max completou
seu tratamento, Fred passou pelo quarto dele. A porta estava aberta. Max
estava sentado à sua escrivaninha lendo um romance chamado
Watership down. Fred bateu e entrou. Por diversos momentos Max
permaneceu sentado olhando para o livro. Quando levantou os olhos, sua
face estava marcada de lágrimas.
— Fred — ele disse roucamente —, acabo de orar pela primeira vez em
minha vida.
Max estava no caminho do conhecimento de Deus.

Extraído de O Evangelho Maltrapilho, livro que não canso de ler, e que tem revolucionado minha vida nos últimos anos como poucos.

O Jarro Rachado

Um homem que transportava água na Índia tinha dois grandes jarros. Ele carregava um em cada ponta de uma madeira apoiada sobre a nuca. Um dos jarros estava trincado, ao paso que o outro era perfeito. Este sempre chegava cheio de água ao fim da longa caminhada do riacho até a casa do patrão do carregador. O jarro trincado chegava com água só pela metade. Todos os dias, durante dois anos, o carregador chegava apenas com um jarro e meio de água.

O jarro perfeito tinha orgulho de suas realizações, pois cumpria com excelência o propósito para o qual tinha sido feito. Mas o pobre jarro trincado tinha vergonha de sua imperfeição e sentia-se abatido por ser capaz de realizar apenas a metade da tarefa para a qual tinha sido feito.

Infeliz, depois de dois anos considerando isso um triste defeito, um dia o jarro falou ao carregador junto ao riacho:

– Tenho vergonha de mim mesmo e quero pedir-lhe desculpas.

– Por quê? De que você sente vergonha?

– Durante os dois últimos anos tenho sido capaz de chegar com apenas metade da minha capacidade, porque essa trinca no meu lado faz que a água vaze por todo o caminho de volta à casa do seu patrão. Por causa dos meus defeitos, você tem de ter todo esse trabalho e não obtém o melhor resultado dos seus esforços.

O carregador teve pena do velho jarro trincado e  disse em sua compaixão:

– Quando estivermos voltando, quero que você observe as lindas flores ao longo do caminho.

De fato, ao subirem a colina, o jarro trincado observou as belas flores do campo que estavam ao lado da trilha, brilhando sob os raios de sol, e essa visão o  animou um pouco.

Mas no final da trilha, ele ainda se sentia mal por perder metade da água e, por isso, desculpou-se novamente com o homem.

O carregador então disse ao jarro:

– Você percebeu que havia flores somente do seu lado do caminho e não do lado do outro jarro? Eu sempre soube do seu defeito e o usei para algo bom. Joguei sementes de flores no seu lado do caminho, e todos os dias, enquanto fazíamos nosso percurso de volta do riacho, você as regava. Durante dois anos pude colher lindas flores para enfeitar a mesa do meu patrão. Se você não fosse do jeito que é, ele não teria essas lindas flores para alegrar a casa.

 

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Fonte: Confiança Cega – Brennan Manning pags. 139,140 Editora Mundo Cristão.

Ignorância

O Pastor foi visitar a classe da escola bíblica infantil para avaliar o aprendizado dos alunos e fez uma pergunta para eles:

Quem derrubou o muro de Jerico’?
Um aluno timidamente se levantou no fundo da sala e disse meio trêmulo:

Não fui eu não, Pastor.
O Pastor meio que constrangido, depois procurou a professora da classe em particular e começou expondo sua preocupação, mas ela o interrompeu e disse de pronto:

Pastor, eu acredito no garoto, ele não teve nada haver com esse incidente…
O Pastor, desconversou e ficou mais preocupado ainda. No gabinete, encontrou o tesoureiro da junta paroquial e contou o que tinha acontecido na classe da escola bíblica quando perguntou se alguém sabia quem derrubou o muro de Jerico’.

O tesoureiro, com a mão na cabeça, com o semblante preocupadíssimo, disse aflito:

Precisamos descobrir, Pastor, porque a igreja esta sem dinheiro em caixa para pagar qualquer reparação desse muro…

Qualquer semelhança…

Um homem chegou em casa, vindo do trabalho, e encontrou seus três filhos brincando do lado de fora, ainda vestindo pijamas.
Estavam sujos de terra, cercados por embalagens vazias de comida entregue em casa.
A porta do carro da sua esposa estava aberta.
A porta da frente da casa também.
O cachorro estava sumido, não veio recebê-lo.
Enquanto ele entrava em casa, achava mais e mais bagunça.
A lâmpada da sala estava queimada, o tapete estava e enrolado e encostado na parede.
Na sala de estar, a televisão ligada aos berros num desenho animado qualquer, e o chão estava atulhado de brinquedos e roupas espalhadas.
Na cozinha, a pia estava transbordando de pratos; ainda havia café da manhã na mesa, a geladeira estava aberta, tinha comida de cachorro no chão e até um copo quebrado em cima do balcão.
Sem contar que tinha um montinho de areia perto da porta.
Assustado, ele subiu correndo as escadas, desviando dos brinquedos espalhados e de peças de roupa suja.
“Será que a minha mulher passou mal?” ele pensou.
“Será que alguma coisa grave aconteceu?”
Daí ele viu um fio de água correndo pelo chão, vindo do banheiro.
Lá ele encontrou mais brinquedos no chão, toalhas ensopadas, sabonete líquido espalhado por toda parte e muito papel higiênico na pia.
A pasta de dente tinha sido usada e deixada aberta e a banheira
transbordando água e espuma.
Finalmente, ao entrar no quarto de casal, ele encontrou sua mulher ainda de pijama, na cama, deitada e lendo uma revista.Ela olhou para ele, sorriu, e perguntou como foi seu dia. Ele olhou para ela completamente confuso, e perguntou que diabos havia acontecido em casa, por que toda aquela bagunça?
Ela sorriu e disse:
– Todo dia, quando você chega do trabalho, me pergunta:
“- Afinal de contas, o que você fez o dia inteiro dentro de casa?”
-“Tá, e daí ?”
-“Bem… hoje eu não fiz nada, fofo !”