Você crucificaria Jesus?

Se você se arrepia de ver a intimidade e afeto que Ele tem com aquela prostituta, sem se importar com o que  aquilo parece. Se tudo isso o deixa profundamente incômodo, pois afinal é preciso cuidar com a aparência do mal, e claro até seu futuro religioso pode estar em jogo ao fazer parte dessas loucuras, talvez seja o momento de abrir fora.

Se você se irrita quando alguém que não merece é bem tratado, acolhido ou pago, então você já começou o trabalho.

Se você se incomoda porque ouve que o dinheiro, (ah o dinheiro que resolve tanto os nossos problemas) é uma grande armadilha no caminho espiritual, posso sentir daqui o seu desconforto.

Se você gosta de ocupar os holofotes, de ser cumprimentado por todos, de ser lembrado sobre suas boas obras, de ser honrado, talvez esse homem que se diz Deus seja uma sombra para você na sua instituição. Então porque tolerá-lo e deixa-lo crescer a um ponto sem retorno?

Se o seu negócio é o tráfico de poder, intimidar quem pensa diferente, ameaçar, pisar cachorro morto e colocar todo mundo no seu lugar, então essa pregação inofensiva que não grita no meio das ruas, nem esmaga a tocha que fumega, talvez atraia o seu gosto por sangue.

Se você sente seus sonhos pessoais ameaçados por seu chamado a uma vida de serviço ao próximo, então talvez você considere que algo precisa ser feito logo.

Se você vê toda a sua religiosidade rasa e descomprometida desmascarada por suas palavras, então pode ser que ele seja mesmo um inimigo real.

Se Ele tem derrubado seu ganha pão no templo, tentado se intrometer em uma  vida perfeita como a sua, que funciona muito bem obrigado, talvez eu veja você tramando.

Se Ele conta histórias em que o vizinho espírita é o grande herói e o pastor protestante uma figura indiferente, a chapa está esquentando.

Se Ele não costuma aparecer em suas festas tão asseadas com gente estudada e interessante, que diagnosticam com precisão os problemas do mundo sem jamais olhar o próprio coração ou mover uma palha, mas dá preferência para gente mais simples, que mal sabe fazer a diferença entre o pretérito perfeito e o futuro do presente, então não há porque tolerar esse galileu presunçoso e de mau gosto.

Se você tentou comprar sua atenção com promessas mal intencionadas, com louvores calculados e falsas devoções e não o viu  mover um músculo de impressionado, ah meu amigo sei o quão frustrante isso pode ser. Sempre foi, sempre será. Esse nazareno não se deixa domar pelas manhas de ninguém. Vamos crucifica-lo e assim teremos justificativa dizendo: era apenas um louco pregando um grande devaneio que Ele chamava de boas notícias.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

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Meu encontro com a santa

Ontem fui visitar uma mulher santa.

Talvez a mais santa que conheci.

Aquele tipo de pessoa que a Bíblia se refere como “de quem o mundo não era digno”.

Escondida em um bairro pobre da cidade de Pelotas, resplandece o resultado de uma vida sujeita ao Senhor.

Como uma vela que chega ao fim, assim é o seu corpo. A gordura que restava vai se secando, a voz é fraca e o raciocínio lento. Mesmo assim a luz que nela habita se sobressai na fraqueza.

Ela sabe que os seus dias estão acabando. Diante da certeza da morte, os pensamentos ficam claros. Os dela não sofreram alteração. Continuam vivos como sempre foram. Talvez porque sempre tomou sobre si o morrer de Jesus.

Li a Palavra. Enquanto lia, aquele corpo frágil exaltava a Deus no prazer de ouvir a Palavra. Peguei sua mão e orei. Enquanto orava senti um impulso dentro daquele quarto de me ajoelhar e pedir que ela orasse por mim. Afinal “o superior abençoa o inferior” como diz o escritor de Hebreus. Não o fiz, pois seria muito egoísmo. Ela precisava de mim. Ou não. Mas não tenho dúvida, minha coroa não se comparará a dela quando a realidade do céu se revelar na terra. Só a graça explica como posso dirigir quem está à frente de mim.

Tudo que ouvi ali foi contentamento, alegria, e coragem pessoal. Nem o mínimo resquício de medo.  A mais pura beleza espiritual.

Ela se lembra da comunidade na qual foi ativa durante mais de 25 anos. Pede que expliquemos o porquê ela não está mais presente.  Como último desejo, quer participar de uma reunião. Durante anos, com chuva, com sol, com frio aqueles passos lentos estiveram na nossa história ministerial justificando os pequenos sacrifícios pessoais que fazíamos, afinal se a Dona Rosa podia, nós também deveríamos fazê-lo.

Ontem eu pude experimentar a convicção de que a Vida é muito mais poderosa do que a morte. O poder da ressurreição se manifestou a mim como nunca antes. De fato Deus não habita em templos feitos por mãos humanas, mas sua glória visível pode habitar um templo plenamente humano. Eu sei.

Obrigado Dona Rosa, por transbordar a graça a ponto de nos encharcar. Só o reino vindouro poderá revelar totalmente a sua nobreza aqui na terra.

Um abraço quebra costelas

O discípulo gaudério

Não, não é tudo igual!

“Como todos os sonhadores, confundi o desencanto com a verdade.”

Sartre

Minha filha e um amigo voltaram do cinema e entraram em casa agitados. Ele voltou desgostoso com o filme que acabara de ver.

– Que sem graça. O herói morre no meio do filme.

Minha filha respondeu:

– Cara, o filme não era conto de fadas.

Até certo ponto de nossa vida, embora não de forma conceitual, mas afetiva, acreditamos que a vida é um conto de fadas! Cremos que todos os camaradas são amigos e que todos que nos sorriem desejam realmente o nosso bem.

Só que à medida que as experiências negativas com a vida e humanidade se acumulam corremos um risco terrível: bebermos do veneno invisível do ceticismo. Se antes acreditávamos em tudo, agora nos vingamos da vida ingrata e não acreditamos em nada.

O ceticismo pode tomar conta da nossa vida quando a gente descobre que o herói pode morrer no final! Ou talvez de que o herói é vilão.

O ceticismo é o estabelecimento da lei de Murphy como meu guia de vida: se alguma coisa deu certo é porque algo deu errado! É a generalização da maldade. É uma leitura parcial da realidade.

É fácil detectar o ceticismo:

A versão religiosa: “Todas as igrejas são iguais e todo pastor é vigarista”

A versão feminista: “Todos os homens são igualmente opressores.”

A versão petista decepcionado: “Todo o político é sem vergonha.”

A versão existencial: “Por mais que se faça, nada vai adiantar.”

Cazuza conseguiu descrever com muito talento essa armadilha na música Ideologia:

“E aquele garoto queria mudar o mundo, mudar o mundo

Hoje assiste a tudo, em cima do muro, em cima do muro.”

Mas é preciso fazer uma declaração em alto e bom som: não, não é tudo igual!

Cair nesta arapuca sutil pode ser fatal para nós.

Por quê?

O ceticismo desanima o homem de boa fé. A generalização faz mal porque só atinge quem não se enquadra nela: o honesto. Porque o safado tem cara de pau. Quantas vezes tive que enfrentar a cara de suspeita quando revelava que era pastor. Era como se estivesse escrito “vigarista” na minha testa! Estava pagando a conta alheia.

O ceticismo esconde o patife declarando a todos patifes. A quem interessa que as manifestações nas ruas em favor de mudanças no Brasil sejam vistas como puro vandalismo?

O ceticismo faz com que eu deixe de me cobrar e cobrar os outros. Se eu não creio na mudança vou aceitando cada vez mais aquilo contra o qual deveria morrer lutando.

O ceticismo paralisa minhas ações. Foi o ativista Martin Luther King que disse: tudo que é feito nesse mundo, é feito pela esperança.

O ceticismo me afoga em um mar de superficialidade. Um dia acreditei que todas as pessoas miseráveis eram simplesmente pobres vítimas de um sistema perverso. Era uma leitura superficial, uma leitura romântica. Depois de trabalhar um pouco com pessoas em condição de pobreza descobri que muita gente escolhe a miséria. A tentação foi espalhar essa constatação para todas as outras pessoas. Seria uma boa desculpa, embasada na experiência. Só que tão superficial quanto meu romantismo inicial seria esta conclusão. O que se requer de nós como discípulos é o exercício constante do discernimento.

Talvez você não possa mudar o mundo como um dia pensou, mas pode mudar muito mais coisas do querem tentar fazer você pensar.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

Sete diferenças gigantescas entre juízes e profetas.

“Pois o mandamento é lâmpada, a instrução é luz, e as advertências da disciplina são o caminho que conduz à vida.”

Provérbios 6:23

Estamos em tempos de altas suscetibilidades e melindres no meio evangélico. Se você conversar com alguém sobre seus maus caminhos logo se levantam autodefesas “escriturísticas” dizendo: a Bíblia diz para não julgar!

É verdade, mas nem todo confronto é julgamento. Inclusive a repreensão na verdade é um dos mais poderosos instrumentos de mudança para o discípulo de Jesus. Jesus repreendeu fortemente seus discípulos e justamente por isso foram forjados poderosamente.

Creio que a formação deficitária dos discípulos do nosso tempo tem tudo a ver com a impossibilidade cultural do chamado a verdade do evangelho.

O Novo Testamento indica no mandamento: sujeitem-se uns aos outros a formação de uma comunidade que se ajuda na jornada espiritual através da lembrança amorosa um ao outro dos caminhos de verdade e justiça.

O individualismo ocidental também contribui para alienação das pessoas da igreja, afinal somos um corpo, mas até o ponto em que ninguém se meta na nossa vida. Queremos comunidade para nos ajudar no que cremos que precisamos, mas definitivamente ouvir verdades desconfortáveis não está no nosso cardápio. Pensamos como a canção do Cazuza: “mentiras sinceras me interessam”.

Há um abismo entre um juiz e um profeta. Precisamos de profetas, mas de juízes não precisamos de nenhum, porque já temos um infalível. Qual a diferença?

1. O juiz dá sentenças definitivas, o profeta confronta com expectativa de mudança. O apóstolo Paulo instrui que devemos repreender na expectativa da mudança(1) e não procedermos com declarações definitivas como: “esse não tem mais jeito!” O único que não tem mais jeito é o diabo.

2. Quem julga fala com tom de superioridade, quem confronta sabe que pode cair no mesmo erro. A metáfora do juiz pressupõe uma atitude de superioridade. Quem confronta fala com consciência, comunica a possibilidade de cair no mesmo erro. Não aponta o dedo, mas coloca o braço ao redor e fala com carinho.

3. Quem julga fala precipitada e superficialmente, quem confronta pensa bem antes de falar. Quem ama a verdade usa o princípio do jornalismo: sempre checa suas fontes esmeradamente antes de afirmar qualquer coisa.

4. Quem julga fala a distância e indiretamente, quem confronta olha no olho, vai direto ao assunto e não usa intermediários. Hoje as pessoas utilizam muito o Facebook para lançar para todos uma palavra que se destina a um só. Além de covardia, o efeito desse expediente é nulo além de produzir aquilo que Jesus disse: o contraveneno. “Quem é esse homem para falar da minha vida se ela faz isso e isso.” É a reação típica.

5. Quem julga tem como grande motivação o sentimento de superioridade, quem confronta faz isso com um coração pesaroso. Aliás, um dia ouvi um conselho que carrego comigo para sempre. Se você sente prazer em repreender, você não está preparado para fazê-lo.

6. Quem julga está sempre com um espírito crítico de prontidão, quem confronta não é afoito para crer no mal. Essa talvez seja a maior diferença. Um juiz não cessa de falar palavras condenadoras. Toda conversa dele é  a respeito do mal que outras pessoas perpetraram. Sua atitude geral é de um azedume insuportável. E mesmo falando a verdade acaba contaminando o seu conteúdo com seu negativismo. Ao passo que um coração que está cheio do Espírito não acredita no mal de primeira.

7. Quem julga fala e depois ouve, quem confronta ouve e depois fala. Se você tem temor de Deus no seu coração, sabe que aquela vida que você vai conversar é preciosa e então você pergunta primeiro sobre o que você sabe ou que ouviu em lugar de despejar seu sermão. Talvez sabendo o que está por detrás de uma atitude ajude você a ter um coração mais misericordioso.

Que o medo de ser juiz não lhe roube a vocação profética e que o desejo de ser profeta não tire a doçura do seu coração.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1) II Timóteo  2:24,25

11 mandamentos para usar o Facebook sem insanidade

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“Use a mídia a seu favor, ou então ela vai usá-lo contra você mesmo.”

1. Não baseie seu humor ou seu valor na quantidade de curtidas que seus compartilhamentos na rede possam ter! Se for assim está na hora de edificar sua identidade em uma base mais firme!

2. Lembre-se que a vida não é como publicam na rede. 90% das pessoas compartilham a melhor foto, os melhores momentos, os pontos altos o que pode fazer você pensar que sua vida real é uma grande porcaria. Mesmo assim…

3. Alegre-se com quem está alegre.

4. Não abra seu coração publicamente. Você não tem ideia da maldade humana escondida no coração de “amigos” da sua rede. Deixe para fazer isso quando estiver olhando no olho de outra pessoa, o que será bem menos arriscado.

5. Não faça publicações mandando uma letrinha, para quem lhe incomoda. Isso se chama covardia. Seja homem e mulher de verdade que fala para quem tem que falar.

6. Não exagere no número de publicações. Sério. Isso incomoda muito as pessoas. É o equivalente a um tagarela que não para de falar no nosso ouvido. Se você falar muito provavelmente será bloqueado.

7. Não morda a isca da polêmica. Você acaba ofendendo quem não queria, falando o que não devia e o espaço favorecerá ao argumento “ad hominem” e não ao pensamento produtivo, justamente porque esse espaço não se presta ao debate argumentativo.

8. Pesquise antes de publicar qualquer informação bombástica, você pode estar pagando um grande mico!

9. Quando for falar com as pessoas, aproveite esse privilégio único e desconecte-se. O Facebook é apenas uma ferramenta de comunicação e não a essência dos relacionamentos, se é que você ainda não percebeu.

10. Isso é o óbvio ululante, mas ainda precisa ser dito: estabeleça um horário para navegar. Olhar notícias dos outros o dia inteiro treinará sua mente para o pensamento interrompido (aquele que não consegue se aprofundar em nada) e para se tornar um fofoqueiro empedernido. Sua mente precisa de conteúdo sólido. E…

11. Pergunte sem fazer objeções, a quem está a sua volta, se acham que você está exagerando na dose!

Em uma dieta restritiva…

O discípulo gaudério.

Alguns são culpados, todos são responsáveis

“Não há nenhum justo, nem um sequer”

Romanos 3:10

‎”Ah se tudo que realmente existisse, fossem pessoas más agindo insidiosamente em algum lugar, e tudo que precisássemos fosse separá-las de nós e destruí-las. Mas a linha que separa o bem e o mal cruza o coração de cada ser humano, e quem está disposto a destruir um pedaço do seu próprio coração?”

Alexander Solzhenitsyn

James Holmes 24 anos é o nome de mais um tímido e solitário americano, como foram também todos os outros americanos que mataram em Columbine, Virginia Tech, Chardon. Já nos habituamos a ouvirmos essas histórias das bandas de lá. Parece que é questão de tempo até que tenhamos notícias de um novo massacre do tipo. Será que são apenas coincidências? Os jornais dizem nas manchetes que o sucedido reabre um debate sobre o acesso fácil que os americanos têm as armas. As pesquisas revelam que o americano médio, fica chocado com as mortes, mas não muda convicção nenhuma em razão delas. Se quisessem evitar que a mesma história continuasse a se repetir como tem sido, a reflexão deveria ser diferente. Em razão da indústria da notícia, que ganha muito com reproduções cinematográficas a atenção acaba sempre se voltando para as vidas dos assassinos e os detalhes sobre a sociopatia deles.

O raciocínio individualista e os interesses econômicos acabam destruindo a capacidade de diagnóstico preciso. O problema é dele, não é nosso é o que se pensa. Cômodo, mas não  honesto. O fato é que não se pode isolar o problema de um homem do contexto onde ele vive.  Quando vejo esses crimes em série penso que é incrível que se passe por alto essa violência brutal que um adolescente  é exposto desde cedo na sociedade americana. Pelos enlatados televisivos que recebemos de lá podemos perceber o quanto um jovem precisa ser competitivo, popular, enquadrado em certo tipo específico de beleza para conseguir ter dignidade entre seus pares. Não é de estranhar que alguns reajam com outro tipo de violência, especialmente os tímidos que parecem não ter vez por lá. James Holmes será julgado culpado, mas todos são responsáveis.

Em outros tempos da história do Brasil, as famílias condenavam oficialmente as prostitutas chamadas de mulheres de vida fácil e esse moralismo acusatório parecia dar um ar de nobreza aos outros. Na verdade uma olhada na história dessas mulheres revela que não havia nada de fácil na vida que escolhiam, haja visto que em sua maioria esmagadora elas eram  órfãs, ou tinham sido abandonadas, quase nenhuma se prostituía por prazer. A hipocrisia era tanta, que o pai de família ao mesmo tempo em que se posicionava a favor da moral e dos bons costumes no discurso politicamente correto, era o mesmo que consumia os serviços carnais prestados pelas prostitutas. As prostitutas tinham culpa, mas todos eram responsáveis.

Dois anos atrás, Davi Silva líder do grupo Casa de Davi, veio a público assumir que durante anos mentiu sobre visões, experiências sobrenaturais e curas que testemunhou em encontros concorridos nos quais falou durante mais de 10 anos. A liderança do ministério apresentou sua confissão e pedido de perdão. Entre pedradas ressentidas e ofertas de perdão, não se ouviu nem se fez uma tentativa de reflexão sobre a responsabilidade da comunidade pentecostal em sua busca pelo sobrenatural como um fim em si mesmo, ou sobre o papel das multidões que honram as visões e as palavras “novas” mais do que a fidelidade e o caráter. Davi Silva foi culpado, mas a espiritualidade pentecostal também é responsável. Poderíamos para sermos justos mencionar os frequentes tropeços de pastores relacionados à  sexualidade nas igrejas tradicionais, que embora sejam zelosas e duras ao disciplinar não contabilizam na mesma ordem muitas restaurações.

Assim como não posso  desconsiderar que os problemas de caráter e temperamento que os meus filhos evidenciam no dia a dia  são de alguma forma minha responsabilidade, não posso deixar de perguntar a mim mesmo quanto dos problemas da universidade, do ambiente de trabalho, da igreja tem em mim um cúmplice seja pela omissão, seja pela ação desastrada. Gostamos de produzir monstros para legitimar nossa própria loucura.

Creio que foi isso que Jesus quis dizer quando confrontou os judeus que desejavam a morte da prostituta, mas que se esqueceram de trazer o adúltero também, em uma atitude machista e discriminatória. Ele não disse que o pecado não era feio, só comprovou que todos eram responsáveis. (1)

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1)    João 8:1-11 e Levítico 20:10

Quando o universitário se torna otário

“Eu não acredito mais nesses contos de fadas que as igrejas ensinam. Não sei como alguém pode acreditar em um deus que manda matar, que permite o mal no mundo. Para mim Jeová não é diferente de Buda, Shiva, Zeus, Rá. São todas criações humanas para projetar culpa sobre a vida das pessoas.”

Topei com uma declaração desse tipo  enquanto lia as notícias publicadas diariamente no Facebook.  Embora não represente palavra por palavra, é fiel ao pensamento do jovem que faz parte de minha rede de relacionamentos.  Fiquei intrigado com a mudança, pois já havia conversado com ele há poucos anos atrás e ele me parecia na época um cristão entusiasta. Logo descobri que ele recém havia entrado na universidade. Entrei em contato para tentar um diálogo, mas ele pareceu estar mais disposto ao insulto do que ao raciocínio. Repetia palavra por palavra os slogans  pseudocientíficos que se ouvem nas salas de aula das universidades. A situação dele me fez lembrar  muitos, que como ele são profundamente afetados em sua vida espiritual depois de ingressarem na faculdade.

Acostumados que estão as festinhas na igreja, a escola de dança na igreja, entretenimento na igreja, o jovem que entra na universidade não está nem um pouco preparado para a propaganda filosófica que está prestes a enfrentar. É comum depois de alguns meses nos bancos universitários vermos um crescente ar de arrogância e ceticismo e uma atitude desbocada  do outrora dedicado e firme alienado cristão. Ele parece se sentir traído por nunca terem dito a ele que tudo o que ele acreditava com sua vida são apenas contos de fadas.

Segue-se então uma sucessão de tropeços que o levam a se converter no “universitário otário” como eu também já fui um seminarista otário. Aqui vão alguns mitos dos quais ele se torna ingenuamente refém e que fazem com que ele viva em uma ilha de fantasia:

Ele acredita que faz parte da elite cultural do país.  Na cabeça da sociedade brasileira a faculdade está associada à respeitabilidade e capacitação embora o que possamos realmente afirmar é que ela é uma evolução na vida acadêmica, não mais do que isso. Sem dedicação pessoal  e superação é possível sair de lá da mesma maneira que se entrou, só um pouco mais arrogante, quando deveria ser mais curioso. Em alguns casos os estudantes acham que podem dar carteiraço, que seu diploma ou matrícula é o justo argumento contra qualquer questionamento. Uma triste reprodução do que muitos que ocupam cargos chaves no nosso país já fazem quando querem fechar uma desavença em seu favor.

Ele acredita que todos os saberes estão guardados entre quatro paredes. O ambiente de estudos sempre desperta o senso crítico e isso é bom, mas o hermetismo acadêmico que não consegue enxergar nada além da academia é péssimo. Em lugar de aprender a pensar ele aprende a repetir  frases esnobes.  Esquece por exemplo, que a maioria dos grandes empresários é caso de estudo em faculdade de administração não porque foram grandes acadêmicos, mas porque descobriram fora do gueto do conhecimento, novos conhecimentos e os transformaram em resultados. Um caso comum em que a vida informa a universidade em lugar do contrário.

O universitário otário, não consegue ver diferença entre fatos e o significado dos fatos. Não percebe que as descobertas científicas são ensinadas acrescidas de boa dose de filosofia. Tome-se como exemplo a já antiga descoberta de que cada parte do cérebro corresponde a uma função vital e que danificando uma parte do cérebro algo da vida emocional também pode morrer. Um ateu lê esse fato e interpreta através de sua filosofia materialista que isso significa que o corpo é tudo que há. Então o teísta toma a mesma informação e interpreta a partir do ponto de vista que alma e corpo estão tão entrelaçados que o que se faz no corpo afeta a alma e o que se faz a alma afeta o corpo. O mesmo fato, com dois significados diferentes.

Ele acredita que seus professores estão capacitados como um Papa da Idade Média a falar infalivelmente sobre qualquer assunto filosófico. O fato de seu professor de português estar bem embasado na gramática para ministrar suas aulas não quer dizer que o que ele diga sobre teologia seja bem fundamentado da mesma maneira.

Ele acredita que o fato de seu pastor não ser bom em filosofia significa que o evangelho não tem sentido como pensamento. Embora o evangelho não tenha por essência ser um sistema de pensamento, mas um jeito de viver, ele faz sentido com a realidade de como o mundo é e como as pessoas são. Jesus usava a lógica e sempre levou seus seguidores a pensarem através de perguntas que iam ao cerne das grandes questões da vida.

Ele acredita que nada daquilo que ele experimentou pela fé até chegar à universidade tem qualquer valor como experiência. Ele esquece que a maioria das realidades e sistemas humanos dos quais ele faz parte tais como banco, computador, relacionamentos se baseia no princípio da confiança simples, pois ninguém pode o tempo todo examinar cada detalhe da vida para ver se pode acreditar. Em algum momento terá de confiar.

Ele acredita que a coisa mais importante do mundo é ganhar o respeito dos seus colegas. Aqui se evidencia o complexo de vira-lata, que gerado por problemas de autoestima se acha sempre carente de aprovação e age caninamente a fim de se sentir gente, culto, integrado e inteligente. O cara esconde a família humilde, e sua ignorância pra poder sobressair-se.

Ele acredita que todos os grandes intelectuais hoje em dia são ateus. Pura propaganda! William Lane Craig, filósofo cristão renomado tem debatido a fé cristã com os grandes nomes do neo-ateísmo e demonstrado em alto nível a consistência das pressuposições básicas da Palavra. Você pode ver alguns dos seus debates aqui, aqui e aqui. Richard Dawkins  se nega a debater com ele com uma desculpa tão esfarrapada que não há outra alternativa a não ser pensarmos que ele teme o debate.

Ele acredita que a ciência é onipotente. Como se vê a ciência se constitui hoje em um ídolo moderno. Cremos que todas as soluções para nossas vidas virão dos laboratórios. Ora não sou um fanático, creio no valor da ciência e desfruto de cada coisa boa que ela pode me dar, mas também entendo que este universo com leis e racionalidade só poderia ser obra de um Legislador Inteligente. Só que mesmo depois de ter encontrado as respostas para todos os mistérios, haverá ainda mais mistérios e o desejo de transcendência inerente ao homem que pisa nesta terra só satisfeito no seu reencontro existencial com Deus.

Ele esquece que sua vida acadêmica tem tudo a ver com sua vida espiritual. O conhecimento que ele adquire não deve ser pretexto para pavonear-se, mas um instrumento de serviço a Deus servindo aos homens. Só assim ele fica livre das cadeias da vaidade que envolvem qualquer coisa “debaixo dos céus” que não tenha um sentido divino.

Creio que em resposta a tentação “otária”, nossas igrejas deveriam preparar mais seus jovens com uma abordagem consistente e equilibrada sobre as principais pressuposições de nossa fé e um entendimento dos principais ataques que elas enfrentam. Paulo descreve a batalha espiritual no nível intelectual quando afirma “usamos as ferramentas poderosas de Deus para esmagar filosofias pervertidas, derrubar barreiras levantadas contra a verdade de Deus…” (1) sem esquecer jamais que a principal apologética é a da vida com Deus que se explica e se elucida no amor cotidiano.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1)    II Coríntios 10:3,4