Como o menino Bernardo pode nos inspirar?

“Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme. Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica diminuída, como se fosse uma península, como se fosse o solar dos teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano, e por isso não me perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.”

John Donne

 

Diante do inominável que aconteceu com Bernardo, fogem adjetivos, desejo de falar. Sobra apenas perplexidade! Mas precisamos mais do que isso!

Por que sofremos?

Essa é uma pergunta feita há séculos pelos homens questionando Deus.

Respostas lógicas não satisfazem nem a mim, nem a quem vive o desgosto, a consternação.

Servem para uma sala de aula, não servem para o luto inexplicável.

A pergunta certa é o que faremos?

Deus não nos deu respostas, deu a si mesmo em paixão, entrega e serviço.

Deus não nos dará respostas, nos chama para sermos respostas de compaixão e sensibilidade.

Vou continuar pelo caminho sem explicações, mas com atitude. Afinal alguém já disse: “a fé é conviver com perguntas sem respostas.”

O mal espreita a todos nós. Não está só lá em Três Passos. Ele só espera que lhe demos a senha para crescer e infestar! Ele está na porta ao lado, na multidão suscetível como feno seco e que se torna assassina de irmãos, no clima inexplicavelmente sinistro, mas o que é pior ele jaz dentro de nós. A Bíblia chama isso de carne, mundo e Diabo.

Como um bumerangue a pergunta que tenho novamente diante de mim é: o que vamos fazer diante do mal?

Se não é com a gente, não fazemos nada?

Isso se chama indiferença. Fomos treinados para isso. Condicionados a sentar no sofá e chorar um choro inconsequente.

Vamos esperar, na expectativa que tudo mude naturalmente?

Nada muda para melhor “naturalmente”. Para mentir, tomar o que é dos outros, e negar o que é seu, isso é o que vem naturalmente.

Vamos fazer que não ouvimos?

E quando clamarmos quem vai nos ouvir?

Vamos banalizar?

O pior que podemos fazer é nos acostumarmos.

Vamos fugir?

Ninguém pode fugir, o planeta está doente.

Vamos nos perder dissecando razões, motivos psicológicos, sociais e filosóficos?

Isso é burocracia intelectual. É preciso mais.

Da minha parte me sinto  mais premido do que nunca a fazer missões, a falar mal do pecado social e pessoal. Primeiro os meus e depois o dos outros. Vou continuar levando e pregando a cruz, e sustentando a bandeira do discipulado. Sustentando para sempre a bandeira do amor.

O poema de Edward Shillito me inspira neste momento:

 

“Se nunca te buscamos antes, nós te buscamos agora

Teus olhos queimam em meio as trevas, são nossas únicas estrelas

Precisamos da visão dos espinhos cravados em tua fronte

Nós precisamos de Ti, Ó Jesus das cicatrizes

 

Os céus nos assustam, quão calmos eles estão

Não há lugar para nós em todo o universo

Nossas feridas nos machucam, onde está o bálsamo procuramos em vão

Ó Jesus, por tuas cicatrizes, por tua graça clamamos então

 

Se quando as portas estão fechadas, tu acercas-te de nós

Apenas mostra-nos aquelas mãos, teu lado perfurado

Nós sabemos hoje o que é estar ferido, não receie

Mostra-nos tuas cicatrizes, nós sabemos também o que é estar machucado

 

Outros deuses eram fortes, mas Tu fraco tinhas de ser

A caminho do Trono cavalgaram, mas Tu tropeçaste ali

Para nossas feridas, somente as feridas de Deus podem falar

E nenhum Deus tem feridas, como Tu a nos mostrar.

Um abraço quebra costelas

O discípulo gaudério.

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As Surpresas Desconcertantes do Reino

O texto de Mateus 7:21-23 me chama a atenção e incomoda desde sempre. Lá nós vemos relatados por Jesus pessoas que exerciam atividades que todos reconheceriam como espirituais e importantes do ponto de vista do avanço do Reino de Deus na terra. Expulsar demônios, curar, adorar são relatados na passagem.

No entanto essas pessoas não são conhecidas por Deus, e, por conseguinte também não conheciam a Deus. É um paradoxo trágico a possibilidade de fazermos o trabalho do Reino, mas não conhecermos ao Rei. Sermos engolidos pela adrenalina do dia a dia, pela emoção dos resultados, mas sem que isso faça uma diferença entranhada na vida da gente. Sem dúvida é uma advertência que não posso tomar como direcionada a outros, já que eu mesmo faço todas estas coisas no meu dia a dia. Eu posso ser um desses, só que não quero ser um desses nervosinhos por Jesus.

A leitura dessa passagem me leva a pensar em Sansão e Davi. Do ponto de vista ético, os dois foram um fracasso com as mulheres e família e Davi acrescente-se matou um homem íntegro em nome de uma paixão. Quando descubro que foi chamado de homem segundo o coração de Deus, as coisas ficam ainda mais nebulosas. Esse homem não merece esse epíteto tão honroso, é o primeiro pensamento que me vem a mente. Mas quem mereceria, a graça sussurra no meu ouvido. O diferencial entre os personagens que se movem no cenário bíblico é relacionamento.

A ética é importante, a obediência fundamental, mas nada é mais importante para Deus do que nosso andar com ele. Davi como todos nós tinha muitas coisas das quais gostaria de esquecer, mas mesmo assim viveu cada uma delas na presença de Deus. O seu pecado e arrependimento fica registrado em Salmos. Quem se atreveria a tanto no mundo cosmético dos evangélicos? Suas vitórias são celebradas na presença de Deus a ponto dele perder a roupa dançando de alegria. Quem quebraria tantos protocolos litúrgicos no mundo previsível dos crentes? Sansão por sua vez orgulharia uma geração que tem sangue na boca e curte UFC. Ele era um vencedor e satisfazia o desejo de desforra da nascente e combalida nação de Israel. Cumpria um ministério, só que sua relação com Deus nunca avançou a linha de empregado e patrão. Talvez por isso ele passe para história como uma figura patética, infantil e decadente. Ação sem coração produz condenação.

Na outra ponta do evangelho (1) eu topo com outro texto desarmador de teologia. O cara chega ao juízo final, e recebe um elogio que nunca buscou, por uma ação da qual nunca foi consciente. Ele simplesmente foi compassivo  com quem tinha necessidades pessoais de roupa, comida e visita. Ele não tinha fotógrafos perto dele, não publicou no facebook, não pediu doações. Simplesmente moveu-se a partir do coração sem grandes estratégias. O texto me leva a uma série de questionamentos:

Será que minhas ações corretas levam com elas um coração cheio de simples compaixão?

Será que fazer algo em nome de Jesus, é apenas invocar as letras do nome, vestir uma camiseta, como quem coloca um código de barras?

Será que não seremos tomados de surpresa pelas pessoas que encontraremos no final de todas as coisas?

A conclusão inescapável pra mim é a seguinte: no Reino é a doação sem pretensão que gera promoção. Os grandes acontecimentos do Reino parecem escapar dos holofotes para habitarem nas ações sem a neurose nervosa de nossa cultura.

Que a rotina do dia a dia, sua agenda e seus deveres não roube a dimensão mais importante da fé, a simplicidade de viver, sentir e agir como filho amado. É assim seu coração?

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1)    Mateus 25:31-46

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