Sete diferenças gigantescas entre juízes e profetas.

“Pois o mandamento é lâmpada, a instrução é luz, e as advertências da disciplina são o caminho que conduz à vida.”

Provérbios 6:23

Estamos em tempos de altas suscetibilidades e melindres no meio evangélico. Se você conversar com alguém sobre seus maus caminhos logo se levantam autodefesas “escriturísticas” dizendo: a Bíblia diz para não julgar!

É verdade, mas nem todo confronto é julgamento. Inclusive a repreensão na verdade é um dos mais poderosos instrumentos de mudança para o discípulo de Jesus. Jesus repreendeu fortemente seus discípulos e justamente por isso foram forjados poderosamente.

Creio que a formação deficitária dos discípulos do nosso tempo tem tudo a ver com a impossibilidade cultural do chamado a verdade do evangelho.

O Novo Testamento indica no mandamento: sujeitem-se uns aos outros a formação de uma comunidade que se ajuda na jornada espiritual através da lembrança amorosa um ao outro dos caminhos de verdade e justiça.

O individualismo ocidental também contribui para alienação das pessoas da igreja, afinal somos um corpo, mas até o ponto em que ninguém se meta na nossa vida. Queremos comunidade para nos ajudar no que cremos que precisamos, mas definitivamente ouvir verdades desconfortáveis não está no nosso cardápio. Pensamos como a canção do Cazuza: “mentiras sinceras me interessam”.

Há um abismo entre um juiz e um profeta. Precisamos de profetas, mas de juízes não precisamos de nenhum, porque já temos um infalível. Qual a diferença?

1. O juiz dá sentenças definitivas, o profeta confronta com expectativa de mudança. O apóstolo Paulo instrui que devemos repreender na expectativa da mudança(1) e não procedermos com declarações definitivas como: “esse não tem mais jeito!” O único que não tem mais jeito é o diabo.

2. Quem julga fala com tom de superioridade, quem confronta sabe que pode cair no mesmo erro. A metáfora do juiz pressupõe uma atitude de superioridade. Quem confronta fala com consciência, comunica a possibilidade de cair no mesmo erro. Não aponta o dedo, mas coloca o braço ao redor e fala com carinho.

3. Quem julga fala precipitada e superficialmente, quem confronta pensa bem antes de falar. Quem ama a verdade usa o princípio do jornalismo: sempre checa suas fontes esmeradamente antes de afirmar qualquer coisa.

4. Quem julga fala a distância e indiretamente, quem confronta olha no olho, vai direto ao assunto e não usa intermediários. Hoje as pessoas utilizam muito o Facebook para lançar para todos uma palavra que se destina a um só. Além de covardia, o efeito desse expediente é nulo além de produzir aquilo que Jesus disse: o contraveneno. “Quem é esse homem para falar da minha vida se ela faz isso e isso.” É a reação típica.

5. Quem julga tem como grande motivação o sentimento de superioridade, quem confronta faz isso com um coração pesaroso. Aliás, um dia ouvi um conselho que carrego comigo para sempre. Se você sente prazer em repreender, você não está preparado para fazê-lo.

6. Quem julga está sempre com um espírito crítico de prontidão, quem confronta não é afoito para crer no mal. Essa talvez seja a maior diferença. Um juiz não cessa de falar palavras condenadoras. Toda conversa dele é  a respeito do mal que outras pessoas perpetraram. Sua atitude geral é de um azedume insuportável. E mesmo falando a verdade acaba contaminando o seu conteúdo com seu negativismo. Ao passo que um coração que está cheio do Espírito não acredita no mal de primeira.

7. Quem julga fala e depois ouve, quem confronta ouve e depois fala. Se você tem temor de Deus no seu coração, sabe que aquela vida que você vai conversar é preciosa e então você pergunta primeiro sobre o que você sabe ou que ouviu em lugar de despejar seu sermão. Talvez sabendo o que está por detrás de uma atitude ajude você a ter um coração mais misericordioso.

Que o medo de ser juiz não lhe roube a vocação profética e que o desejo de ser profeta não tire a doçura do seu coração.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1) II Timóteo  2:24,25

O inimigo número 1 do discipulado hoje.

Meu sogro conta que quando era pequeno, a venda mais próxima da sua casa ficava pelo menos à uma hora de caminhada distante de casa. O que significava que para ir e voltar contava-se duas horas.

Em um tempo em que a psicologia moderna não dominava as mentes dos pais com a obsessão do trauma, as crianças desempenhavam o papel de quase lacaios na família, sem nenhum drama de consciência.

Quando chegavam de volta da jornada a mãe podia pedir sem nenhum constrangimento: “Esqueci de algumas coisas, meninos. Vocês precisam voltar lá!” E “ai” de quem resmungasse!

Chegando lá, eles ainda precisavam contar com a boa vontade do dono da venda. Muitas vezes, eles eram recebidos de mau humor e o homem fechava as portas sem nenhum motivo que justificasse: “Não vou atender ninguém agora”. E lá ficavam eles esperando que o homem se decidisse atende-los.

Essa cena comum cinquenta anos atrás, hoje seria um suicídio comercial. Os direitos do consumidor dominam a cabeça do cidadão. O que para mim é um passo adiante nas relações comerciais.

O grande problema, é que essa mentalidade consumidora invadiu também o reino da espiritualidade. A relação com a igreja, a comunidade dos que creem em Cristo, tem sido transformada na mente de muitos em uma relação de consumo. Só que onde prevalece relações com a lógica do mercado, inexiste discipulado.

Na Bíblia existem três casos típicos de consumismo descarado:

O primeiro deles é Mica, que contrata um levita para ser seu sacerdote particular. Juízes 17.

O segundo são os nove leprosos que foram curado mas não foram capazes de voltar para agradecer. Lucas 17:11

O terceiro é Simão que tem a cara de pau de querer comprar o dom do Espírito Santo. Atos 8:9-25

Infelizmente, muita gente imperceptivelmente passou de discípulo para consumidor, o que explica a crise da igreja hoje.

Quer saber a diferença? É possível perceber em pelo menos onze aspectos.

  1. Consumidores pensam no que podem aproveitar dos outros, discípulos pensam no que podem fazer pelos outros.
  2. Consumidores vão embora assim que algo não atende suas expectativas, discípulos perseveram no que sabem ser a vontade de Deus.
  3. Consumidores não se envolvem, discípulos participam intensamente.
  4. Consumidores fazem cobranças, discípulos sugerem mudanças.
  5. Consumidores são exigentes, discípulos incentivam os outros.
  6. Consumidores aparecem quando tudo está bem,  discípulos estão sempre presentes.
  7. Consumidores agem como sanguessugas, discípulos aliviam as cargas dos outros.
  8. Consumidores não se apegam, discípulos estão envolvidos com as pessoas até a medula.
  9. Consumidores oferecem sobras, discípulos dão o seu melhor.
  10. Consumidores pensam localmente, discípulos pensam globalmente.
  11. Consumidores funcionam na base de direitos e deveres, discípulos funcionam na base da graça e da gratidão.

E você onde está?

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

Quatro razões que fazem do discipulado uma questão de vida ou morte!

A grande mentira da cristandade é a que define discipulado como algo destinado apenas a  uma tropa de elite da igreja. A verdade é que ou seguimos a Jesus com seus riscos e benefícios ou simplesmente não seguimos.

A grande comissão define que a prioridade da ação da igreja é o discipulado. Sem discipulado estamos andando na contramão do Espírito. E dura coisa é lutar contra Deus.

Qual a razão dessa importância toda?

Encontro pelo menos 4 razões básicas.

1. Por que frequentemente não somos capazes de percebermos nosso potencial para Deus. Jesus começou seu trabalho com uma declaração pequena, mas de imensos significados. Ele disse: Sigam-me eu os farei pescadores de homens. O fato de aqueles homens estarem pescando significava que o sistema religioso de sua época os havia considerados inaptos para servirem a Deus. Segundo os mestres de Israel eles jamais poderiam ser homens de alto nível espiritual. Por isso seguiam a profissão de seus pais. Quando Jesus, o Mestre, faz um convite a eles, ele está dizendo entre outras coisas que vê coisas neles que ninguém tinha visto. Que acredita que eles podem se tornar influenciadores poderosos nas mãos de Deus. Que iria trabalhar na vida deles a ponto de serem instrumentos divinos. Que chamado! Mas eles jamais entenderiam isso a partir de uma única chamada, eles precisavam de um acompanhamento. O mesmo acontece conosco. Nossos problemas de autoimagem, frequentemente tornam-se pedra de tropeço. Um discipulador sadio será capaz de mostrar o potencial que repousa escondido dentro de nós e que não somos capazes de enxergar.

2. A segunda razão do discipulado é de que somos lentos para enxergarmos nossos próprios erros. Davi foi capaz de se indignar com a parábola de Natã, sem perceber que ele se referia a ele. Só caiu em si quando Natã, lhe disse: esse homem mau que te indignas és tu mesmo! Confrontado com a verdade Davi, lamentou: Pequei contra o Senhor! Quem senão alguém que nos acompanha de perto pode nos apontar erros sem que entremos em crise? O discipulado foi desenhado para isso. Você já imaginou que  pode poupar dores imensas, se puder enxergar hoje os caminhos equivocados que está tomando? O discipulado fará isso por você!

3. Por que fraquejamos fácil diante da oposição. Timóteo é o melhor exemplo documentado dentro das Escrituras de como podemos ser intimidados em nossa vida espiritual. Podemos deixar de exercitar nossos dons, podemos nos achar muito velhos, muito novos, sem preparo, até o ponto de congelarmos. Mas um discipulador cheio do Espírito Santo, será capaz de nos incinerar o coração com palavras como as de Paulo a Timóteo: “ninguém despreze tua juventude”, “tem cuidado de ti”, “seja exemplo dos fiéis”.

4. Por que somos mornos quanto aos assuntos espirituais. Temos muita facilidade de falar de futebol, mas de falarmos do evangelho raramente. Somos capazes de sacrifícios espartanos pela nossa carreira, mas para servirmos outras pessoas sequer pensamos no assunto. Se você é acompanhado por um discipulador você será questionado, terá que render contas de sua vida, o que certamente é incomodo para uma geração treinada no individualismo, mas que trará imensos retornos para a vida espiritual. Eliseu colou em Elias, e o resultado foi um ministério que frutificou duas vezes mais que a do seu pai espiritual.

 

Não perca mais tempo, procure um homem de Deus ou uma mulher de Deus, que possa lhe acompanhar na jornada de conhecer a Deus, e experimente como a obediência ao mandato de Deus pode revolucionar sua vida.

 

Um abraço quebra costelas.

 

O discípulo gaudério.

 

Adeus a um cara complicado

“Jesus dizia a todos: Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente sua cruz e siga-me.”

Lucas 9:23

Quando me deparo com a ordem e o pré-requisito de Jesus, que preciso negar a mim mesmo para poder segui-lo, a sensação que tenho é de morte. Isso toca a parte essencial do meu ser. Quem não se sentiria assim?

Mas quando me ponho a pensar em quem é esse tal de “si mesmo” já começo a cogitar uma mudança de pensamento.

Esse tal do “si mesmo” é realmente um cara complicado!

Ele se isola das pessoas procurando só o que é bom para ele.

Ele não liga para o sentimento dos outros.

Ele quer sempre o primeiro lugar nas atenções e nos privilégios.

Ele procura sempre ser servido e se esconde quando precisa servir.

Ele nunca está satisfeito com nada. Nada mesmo. Nem com pouco nem com muito.

Ele é cego para os próprios problemas.

Ele não leva desaforos para casa. Trama o mal com sutilezas. É vingativo.

Ama as coisas e usa as pessoas.

Sempre quer algo diferente, e ao mesmo tempo não quer.

Faz o mal, e depois tira o time de campo. Dá o tapa e esconde a mão.

Tem medo que lhe tirem o lugar, e qualquer crítica já se constitui em ameaça.

Ele teima em não reconhecer quando está errado, mesmo diante das mais claras evidências.

Ele desliga quando os outros estão falando, mas quer toda atenção quando fala.

Diante desse perfil, só posso dizer: Ok Jesus, definitivamente esse realmente não é um bom cara para seguir. Estou contigo agora e sempre.

O discípulo gaudério.

Você já pensou no tamanho da sua ignorância?

“As coisas encobertas pertencem ao Senhor, o nosso Deus, mas as reveladas pertencem a nós e aos nossos filhos para sempre, para que sigamos todas as palavras desta lei.”

Deuteronômio 29:29

“Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a nossa vã filosofia”.

Ato I – Cena V

Hamlet – Shakespeare

“Mas, quem é você, ó homem para questionar Deus? Acaso aquilo que é formado pode dizer ao que o formou: Por que me fizeste assim?”

Romanos 9:20

“Quem pensa conhecer alguma coisa, ainda não conhece como deveria.”

I Coríntios 8:2

Você já considerou que Deus revelou apenas 0,000000000000000001% sobre a vida espiritual e que mais resta a saber do que sabemos?

E mesmo assim você quase não lê a Palavra, e quando lê ao longo dos anos percebe que do que já sabia precisa aprender ainda mais?

Já pensou que as pessoas mais chegadas a você não falam 80% do que pensam ao longo do dia, e que as pessoas que você diz conhecer não revelam 99% do que são a você?

Já pensou que a maioria dos seus conhecidos abre seu coração ocasionalmente e só em situações de crise?

Que você não sabe nada sobre os seus vizinhos, a não ser o rosto que lhe diz oi, e olá todos os dias iludindo-o com falsa familiaridade?

Que a maioria das pautas dos sistemas políticos, das organizações sociais e das máfias religiosas não vem a tona nem são discutidas publicamente?

Considerou o mistério que você é para si mesmo? O quanto suas emoções e reações o surpreendem nos momentos mais inesperados?

Consegue imaginar que de posse dessa consciência, é impossível elucubrar a série de variantes  de situações que a vida pode te apresentar, e quanto das situação realmente podemos entender?

Que enquanto a mídia veicula 10 notícias, oculta outras 100 que não convém aos patrocinadores?

Tem ideia de que você não sabe nada sobre a maioria dos assuntos que estruturam a existência humana? O que você sabe de química, sobre ler partituras,  sobre as bactérias, sobre os problemas do seu pet, de gestão de negócios internacionais, das milhares de línguas existentes nesse mundo, dos dramas de um adolescente na Mongólia?

E que muitos assuntos você não entenderia nem que quisesse?

E que até os assuntos que você domina, quando confrontado com a crise e a necessidade extrema, você percebe que apesar de haver estudado anos, você ainda tem um oceano para explorar?

Você já pensou que quando você olha a frente, não enxerga ao seu lado, em cima e nem atrás?

Já considerou que afirma categoricamente ideias sobre assuntos que vagamente analisou?

Imaginou o quanto você ainda não leu? O quanto fala sobre autores cujas obras jamais examinou, mas pensa que sabe porque leu uma ou duas citações?

Já pensou que quando a ciência encontra uma resposta, essa mesma resposta abre a porta de mais uns dez questionamentos que quando respondidos, abrirão novos questionamentos e assim sucessivamente?

Já pensou?

Humilhante não?

Mesmo assim você continua tentando dizer a Deus como as coisas deveriam ser.

Ainda faz afirmações categóricas sobre a vida de pessoas com o tom de especialista.

Julga sem ouvir os dois lados da questão.

Tenta impressionar com duas ou três frases calculadas.

Se sente dono da situação porque tem um ou outro diploma pendurado em seu escritório, ou porque já viveu algo como 80 anos.

Fala antes de ouvir.

Diante da constatação do mar de ignorância que cobre a sua vida talvez fosse conveniente fazer as seguintes considerações:

Quem sabe você precisa realmente de um Mestre nesta vida.

Quem sabe esse negócio de pedir sabedoria, é realmente uma necessidade imperiosa.

Quem sabe as palavras aprendiz e discípulo são as que melhor lhe caberiam, e talvez Jesus estivesse pensando em nós quando disse: Perdoa-lhes porque não sabem o que fazem!

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

Um bisturi usado para matar

“Se você acredita apenas no que você gosta do evangelho, e rejeita o que você não gosta, não é no evangelho que você acredita, mas em você mesmo.”

Agostinho de Hipona

“Por isso, todo mestre da lei instruído quanto ao Reino dos céus é como o dono de uma casa que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas”.

Mateus 13:52

“Procura apresentar-te a Deus aprovado como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade.”

II Timóteo 2:15

“Como vocês podem dizer: Somos sábios, pois temos a lei do Senhor, quando na verdade a pena mentirosa dos escribas a transformou em mentira?”

Jeremias 8:8

Quando Paulo adverte seu discípulo Timóteo a manejar bem a Palavra da verdade certamente ele tem a preocupação com  a possibilidade contrária: manejar mal a palavra. A metáfora embutida no texto é a de um obreiro e sua ferramenta. A palavra é a ferramenta mais poderosa na vida do discípulo, mas  tudo que é poderoso, pode ser também perigoso.  O que estou procurando?  É a pergunta a ser feita antes de nos achegarmos a ela.

Manejar bem a palavra tem a ver com motivações do coração.

1. É preciso pensar se existe exibicionismo em mim. Soube do “tristemunho” de um pastor da vida real que sabia a Bíblia toda memorizada detalhe por detalhe, vírgula por vírgula. Costumava perguntar muitas vezes no meio de sua pregação coisas do tipo: Quem sabe o que diz: Levítico 19:3? A congregação intimidada não respondia nada. E ele gritava do microfone: Morra de vergonha! E então recitava o versículo palavra por palavra. No final da “apresentação”, todos ficavam profundamente impactados com a memória do pregador, mas não havia nenhum alimento espiritual em suas almas. Algumas pessoas da comunidade cristã  são culpadas como esse homem de utilizarem os versos da escritura para pavonearem-se diante da maioria ignorante que não se interessa pelo estudo. Elas citam um verso após o outro, e depois que obtém um conhecimento razoável e a admiração dos incautos, acham que tem direito a serem líderes e pessoas iminentes na comunidade de fé. Igualam conhecimento com vida com Deus, o que nesse caso não tem nada a ver. Vida com Deus é a vivência da palavra que se faz gente em meio a tensões e provações da vida. Não se ganha em cursos, mas na vida. Já vi gente que vai para cursos bíblicos cujo único objetivo é ter um diploma para impressionar. Esses acabam fazendo companhia para o diabo, que usa as Escrituras para o mal.

2. É preciso saber quem estou querendo agradar. Caio Fábio escrevendo em seu opúsculo “Elias está nas ruas” revela bastidores da luta presidencial entre Lula e Collor, e como seus cabos eleitorais usavam a Bíblia para legitimarem suas candidaturas no longínquo ano de 1989: “Nos folhetos que ambos os grupos divulgaram abundavam expressões messiânicas do tipo: “ele tem cara de homem de Deus…”(dito sobre Collor ); “…tem que ser sustentado pelas orações do povo de Deus, como Moisés…” (dito sobre Lula); é sábio e justo como Daniel e José…” (dito sobre Collor); “…todo verdadeiro cristão tem que votar nas propostas de mudança de…” (dito sobre Lula)”. É impressionante que 23 anos depois esse mal ainda não foi curado. Um amigo meu uma vez foi convidado para pregar em uma igreja e falou sobre honestidade e tocou no tema “contrabando”, só que nessa igreja a grande maioria das pessoas vivia disso. Depois da reunião o pastor chamou ele e falou: “Irmão, você não pode falar isso aqui nessa igreja”. Quem usa a Palavra para bajular está prestando o maior desserviço a causa do Reino.

3. É preciso saber se há sede de sangue em mim. Alguns setores da igreja americana usaram a maldição de Noé sobre Cam para justificar o racismo, afirmando que a maldição seria a “negritude”. Uma péssima exegese a serviço da cultura racista do sul dos Estados Unidos.  Outras pessoas no mesmo tom usam a palavra para chamarem aqueles que não creem de “filhos do diabo”. Já é conhecimento geral que a Inquisição e as Cruzadas  contaram com justificativas “espirituais”. O que foi feito para curar se transforma em instrumento de morte.

4. É preciso saber se tenho a disposição para ir fundo. Ainda é comum  sob o verniz da superespiritualidade  a leitura  de afogadilho. Gente que abre a Bíblia a esmo e coloca o dedo em qualquer versículo e sem contexto algum sai falando o que bem entende.

Uma velha história que ouvi conta sobre um homem que procurava uma palavra de Deus para um momento difícil e recorreu a esse expediente. Ele abriu rapidamente sua Bíblia e colocou seu dedo em um versículo sorteado, e leu:

– Judas foi e enforcou-se.

Meu Deus o que é isso? Ele pensou.

Foi para a próxima tentativa e achou o seguinte:

– Vai tu e faze o mesmo. Ele então começou a entrar em parafuso.

Tentou uma vez mais e encontrou:

– O que tens para fazer, faça-o depressa.

O que aprendemos com isso, é que Deus não condescende com a preguiça mental, mas recompensa aos que buscam com humildade o entendimento de Sua Palavra.

5. É preciso saber se estou se estou vulnerável a ela ou se procuro defesa. Muitas vezes temos uma opinião sobre uma série de assuntos e caímos na tentação de procurarmos textos que “unjam”  nossa posição. O pior que podemos fazer é encaixotar a Palavra em algum “ismo”: marxismo, capitalismo, socialismo. Qualquer “ismo” é um sistema fechado e redutor. Deveríamos aprender a sermos honestos e esclarecermos quando estamos dando uma opinião e quando estamos apenas pregando aquilo que a Palavra ensina. Não é sem rir que me lembro de como todos os colegas e alunos em diferentes seminários que estudei e ministrei aulas, encontravam um texto bíblico para afirmar a singularidade e a natureza “bíblica” da sua igreja: a cidade que moraremos no céu é “quadrangular”, a igreja é uma “assembleia de Deus”, mas deve viver como “família de Deus” e por aí vai.

6. É preciso saber se não estou perdendo o bom senso.  Precisamos  sensibilidade as necessidades das pessoas e os momentos que estão  vivenciando. Você não vai ministrar em um velório e ler “Deus meu, Deus meu porque me desamparaste.” Também não vai a um casamento e dizer: “Nos tempos de Noé, casavam-se e davam-se em casamento”.  É como dar carne gorda a um convalescente, ou aspirina a um paciente terminal. Certa vez fizemos na cidade uma leitura pública das Escrituras na praça. Do ponto de vista cultural uma excelente iniciativa, mas como proveito espiritual eu tenho lá minhas dúvidas, pois da mesma forma que o etíope necessitou que Filipe o ajudasse a entender, uma pessoa sem contexto jamais obterá proveito das Escrituras. Imagine o que as pessoas  entenderam quando ouviram textos como: “Quem dera matasses os ímpios, ó Deus”, ou “Raça de víboras”?

Tão importante quanto ler, é como ler. Que as motivações do seu interior lhe sejam reveladas para que a verdadeira essência da Palavra seja vertida em seu coração. Na certeza de que temos tanta luz quanto queremos:

Um abraço quebra costelas

O discípulo gaudério.