Há um sabotador entre nós e precisa ser morto!

“O que muda a nossa história não é o que sabemos, mas o que fazemos com o que sabemos.” Verdade pura. Especialmente quando tratamos da cruz na vida do discípulo de Jesus.

A cruz como conhecimento é apenas uma questão histórica. A cruz como estilo de vida é uma questão existencial. Não é uma recordação sentimentalista é uma resposta radical ao convite de Jesus de levarmos nossa cruz.

O texto de Paulo em II Coríntios 4:10 diz: “Trazemos sempre em nosso corpo o morrer de Jesus, para que a vida de Jesus também seja revelada em nosso corpo.” Observem que ele não fala de algo que acontecerá no futuro, ele fala de um morrer diário que produz uma nova vida diária. Portanto, não há vida de Deus, se não há um morrer diário. Se não levarmos para cruz diariamente o nosso pecado não haverá vida em abundância.

A vida crucificada é fundamental porque a questão do pecado é um tema sério em todo o evangelho. Aliás, a depravação humana é uma questão verificável fora das Escrituras, faz parte do nosso dia a dia.

A palavra pecado incomoda os pós-modernos por duas razões. Uma legítima e a outra ilegítima.

A primeira razão é que religiosos arrogantes utilizaram-na para impor-se, dominar e acusar a outros. Em outras circunstâncias esconderam sua própria sujeira condenando a outros.

A segunda razão é ilegítima. E está ligada com o orgulho humano que em cada geração veste uma roupa diferente, agora está de relativismo. “Quem é você para ditar valores aos outros” é o que ouvimos a todo o momento.

O fato é que o pecado é o grande sabotador dos sistemas econômicos, das soluções políticas, e das boas intenções de líderes. Por isso a necessidade de contratos assinados, autenticados e reconhecidos em cartório que detalhem todas as possibilidades de violação.  A traição dos nossos mais altos valores está em nossas veias. Matamos o Autor da vida.

Como então diariamente posso levar à cruz esse sabotador?

  1. Fale mal do pecado. Do seu pecado. Você o conhece melhor do que ninguém. Tem gente que serve a Cristo, mas fala com um riso saudoso dos tempos em que ele enganava as mulheres. Por essa razão seus antigos hábitos estão vindo sempre de volta a tona. A falsa esperteza, o jeitinho brasileiro é louvado em prosa e verso a boca miúda. Isso é manter o pecado vivo no coração.
  2. Não dê oportunidade ao pecado. Para todos nós existem pessoas perigosas, lugares perigosos e momentos perigosos. Desses precisamos fugir. Vou usar como exemplo o diabético. Ele sabe que não pode comer doces. Então ele entra em um processo de aproximação do mal. Ele pensa assim: eu não vou comer doce, eu só vou passar na frente da confeitaria. Eu só vou dar uma olhadinha na vitrine. Eu só vou ver o preço. Eu só vou comprar, mas não vou comer. Eu só vou comer um pedacinho. Eu só vou comer um. Eu comi todos e estou passando mal.
  3. Confesse o mal sem atenuantes. Confessar golpeia profundamente o nosso orgulho como nenhum outro ato pode fazer. O maior motivo para que as pessoas não confessem seus pecados não é o medo de que outros exponham seu pecado, mas de ver o seu orgulho ferido. Tenho um princípio comigo: quem me viu pecar, precisa me ver pedindo perdão sem um “mas” para atenuar.
  4. Confie que no lugar de morte nascerá o novo de Deus para sua vida. O cara que usava a linguagem insultadora verá Deus usar sua boca para proferir as grandezas de Deus. Aquele que tinha o pavio curto usará sua indignação para mudar realidades de morte nesse mundo. E assim conforme a criatividade de Deus para conosco.

Não esqueça, o novo de Deus não é o que acontece para nós, mas o que acontece em nós!

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

Meu encontro com a santa

Ontem fui visitar uma mulher santa.

Talvez a mais santa que conheci.

Aquele tipo de pessoa que a Bíblia se refere como “de quem o mundo não era digno”.

Escondida em um bairro pobre da cidade de Pelotas, resplandece o resultado de uma vida sujeita ao Senhor.

Como uma vela que chega ao fim, assim é o seu corpo. A gordura que restava vai se secando, a voz é fraca e o raciocínio lento. Mesmo assim a luz que nela habita se sobressai na fraqueza.

Ela sabe que os seus dias estão acabando. Diante da certeza da morte, os pensamentos ficam claros. Os dela não sofreram alteração. Continuam vivos como sempre foram. Talvez porque sempre tomou sobre si o morrer de Jesus.

Li a Palavra. Enquanto lia, aquele corpo frágil exaltava a Deus no prazer de ouvir a Palavra. Peguei sua mão e orei. Enquanto orava senti um impulso dentro daquele quarto de me ajoelhar e pedir que ela orasse por mim. Afinal “o superior abençoa o inferior” como diz o escritor de Hebreus. Não o fiz, pois seria muito egoísmo. Ela precisava de mim. Ou não. Mas não tenho dúvida, minha coroa não se comparará a dela quando a realidade do céu se revelar na terra. Só a graça explica como posso dirigir quem está à frente de mim.

Tudo que ouvi ali foi contentamento, alegria, e coragem pessoal. Nem o mínimo resquício de medo.  A mais pura beleza espiritual.

Ela se lembra da comunidade na qual foi ativa durante mais de 25 anos. Pede que expliquemos o porquê ela não está mais presente.  Como último desejo, quer participar de uma reunião. Durante anos, com chuva, com sol, com frio aqueles passos lentos estiveram na nossa história ministerial justificando os pequenos sacrifícios pessoais que fazíamos, afinal se a Dona Rosa podia, nós também deveríamos fazê-lo.

Ontem eu pude experimentar a convicção de que a Vida é muito mais poderosa do que a morte. O poder da ressurreição se manifestou a mim como nunca antes. De fato Deus não habita em templos feitos por mãos humanas, mas sua glória visível pode habitar um templo plenamente humano. Eu sei.

Obrigado Dona Rosa, por transbordar a graça a ponto de nos encharcar. Só o reino vindouro poderá revelar totalmente a sua nobreza aqui na terra.

Um abraço quebra costelas

O discípulo gaudério

Seus roteiros, sua vida!

Palavra ministrada na Assembléia de Deus Palavra da Fé de Rio Grande no dia 07/04/2013.

O líder do louvor que foi afastado por não viver um padrão mínimo de integridade agora abandona a fé.

O membro cuja presença não foi notada pelos líderes da comunidade  nunca mais apareceu nas reuniões na igreja.

O pastor de pregações inflamadas foi flagrado em adultério dentro do templo com a secretária e nunca mais pensou em entrar novamente em uma igreja.

Por detrás desses problemas mais prosaicos até os mais escabrosos, típicos de igrejas evangélicas está uma identidade frágil. A superficialidade da experiência das pessoas faz delas uma folha ao vento das situações.

Quando alguém é de fato tocado pelo Deus altíssimo, sua verdadeira identidade é redescoberta. É como se no ato humilhante de nos reconhecermos pecadores  resgatássemos nossa dignidade.

Aconteceu com Jacó, que segundo os eruditos tinha nome que exprimia um traço característico de seu jeito de ser: “aquele que age traiçoeiramente”. A Bíblia nos relata que quando ele pede para ser abençoado, tudo o que Deus faz é mudar seu nome. Agora ele se chamaria “Israel” que significa “príncipe de Deus”. A grande mudança foi sua identidade. Daquele momento em diante, toda vez que ele manquejasse ele lembraria que era um “príncipe de Deus”.

Ora, porque Deus mudaria um nome? É simples, para mudar uma identidade. Porque uma identidade nova produz uma pessoa nova. Por outro lado uma identidade velha, com uma nova religião só produz frustração.

Nossa identidade é nosso roteiro de vida. As provações, as perdas, as dores trarão a tona o que realmente pensamos de nós. As pessoas seguem fielmente os scripts inseridos e cridos no profundo dos seus corações. Qual é o seu roteiro?

Alguns veem sua vida como um drama, e eles as vítimas, então tudo será uma conspiração cósmica contra elas.

Outros acreditam que sua vida é um circo e que eles são os palhaços. Precisam fazer rir sempre.

Muita gente  se enxerga como herói de um grande épico. Precisam resolver o problema do mundo. Não aceitam ajuda, mas se matam para satisfazer as mais loucas necessidades de todos.

Outros acreditam que a vida é um palco, e que eles precisam ter a atenção de todos, de qualquer maneira. Seja tocando no barzinho a noite, seja dirigindo o louvor na igreja. Quando a vida não confirma o script, eles entram em curto circuito.

Antes que Jesus fizesse qualquer coisa, ou realizasse qualquer milagre  Deus fortaleceu sua identidade: “Tu és meu filho amado, em quem tenho prazer.” Logo após Jesus foi levado para o deserto para ser tentado. E não foi por acaso que a estratégia do diabo foi questionar precisamente sua identidade de filho: “Se és filho de Deus…”

Minha identidade determina meu destino diante de tentações, e encruzilhadas da vida. Só que todos nós antes de ouvirmos a voz de Deus, ouvimos a voz daqueles que nos revelaram quem éramos para nós mesmos.

O que essas vozes disseram, cada um tem que discernir por si mesmo, e conferir se é verdade pela Palavra.

Quem as pessoas mais importantes da sua vida disseram que você era?

Máquina de trabalho?

Corpão?

Indesejado?

Lixo?

Rebelde?

Incompetente?

Fraco?

O Cara?

Vejam aquele povo que saiu do Egito,(1) eles não conseguiram conquistar a terra prometida porque não conseguiram tirar o roteiro que os egípcios tinham imposto sobre a cabeça deles. Imagino quantas vezes sob o peso da chibata eles não ouviram:

– Parem de reclamar seus fracos!

– Não adianta sonhar, vocês sempre serão escravos!

– Não tentem nada diferente, ou terão de provar algo pior do que a vida de escravo!

Aquilo foi sendo injetado como um vírus letal, e no momento da pressão de conquistar, de se depararem com o desafio, eles acabaram crendo no Egito e não em Deus. Minha identidade determina meu destino.

Lembro das palavras de uma jovem que foi entrevistada em um programa da MTV sobre a AIDS alguns anos atrás. Ela falava com lágrimas nos olhos sobre como havia sido infectada pelo vírus e o processo penoso de tomar vários medicamentos antirretrovirais todos os dias.

– Em uma noite estávamos entre amigos bebendo em um bar, quando chegou um pessoal que nunca tínhamos visto na vida, e nos convidaram para irmos ao apartamento deles continuar bebendo. Fomos pra lá e colocaram algo na minha bebida, e quando fiquei descordada um dos caras transou comigo. Alguém comentou comigo, e eu decidi fazer o exame e deu positivo. Até hoje eu me pergunto como é que eu pude me rebaixar tanto!

O problema são os roteiros.

Às vezes depois de anos de vida com Deus o diabo e toda força das trevas também investem contra nossa vida tentando nos fazer esquecer quem somos. Um relacionamento quebrado pode ser devastador. Quem diz que divórcio é fácil, certamente não sabe do que está falando. Nem sequer levar um fora de alguém que a gente gosta em um relacionamento de namoro é fácil. E os pensamentos que nos assolam costumam nos remeter a lata de lixo.

Em outras circunstâncias o narcótico do sucesso, nos faz esquecer amigos preciosos e maltratar as pessoas mais importantes de nossa vida. Mais uma vez é nossa identidade que é afetada. “Sou o que sou diante de Deus e nada mais” são palavras de Francisco de Assis, que repito a mim mesmo quando fico “alto” por alguma coisa que considero conquista.

Em outras ocasiões pessoas fortes tentam nos intimidar, nos colocar “no nosso lugar” como tentou fazer Acabe com Elias quando disse a ele:

“É você mesmo, perturbador de Israel?” (2)

Elias não se dobrou diante daquele homem poderoso, pois a voz de Deus estava soando mais forte na alma dele. Mas o fato é que nunca estamos totalmente seguros.

Por isso precisamos lembrar que intimidade fortalece a identidade. Sou quem Deus diz que sou.

Não precisamos acreditar em nós mesmos, precisamos acreditar no que Deus diz de nós.

O ativismo de nossa época rouba o tempo da comunhão com Deus, e acabamos nos agarrando a valores exteriores para forjar nossa identidade: beleza, riqueza e fama. Esquecemos a voz outrora retumbante e escorregamos feio.

Mas na presença de Deus descubro quem sou:

Amado de Deus

Pecador

Servo de Deus.

Sal da terra.

Luz do mundo.

Chamado para ser santo.

Discípulo.

Nova criação.

E por aí vai.

Qual roteiro você está seguindo?

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1)    Números 13:33

(2)    I Reis 18:17

As leis da burocracia e a espiritualidade

1. Você nunca vai no lugar certo da primeira vez que precisa de um serviço público.

2. Quando você finalmente descobre o lugar certo o horário foi mudado por alguma razão.

3. Quando você for no horário certo, o funcionário que pode resolver seu problema faltou ou está tomando cafezinho.

4. Quando o funcionário estiver disponível, será lento ou não estará de bom humor.

5. Quando você for atendido nunca terá todos os papéis requeridos.

6. Quando tiver todos os papéis requeridos o atendente será outro e lhe dirá que não  foi informado a você que ainda precisava de um outro papel.

7. Quando você conseguir o bendito papel você será informado que precisa de uma cópia do papel.

8. Quando você conseguir a cópia do papel referido, será informado que é necessário uma cópia autenticada.

9. Quando conseguir uma cópia autenticada, descobrirá que o custo de todo aquele processo que você paga com altos impostos para existir é exorbitante.

10. Quando finalmente pagar, será informado que precisará esperar pelos seus documentos mais do que seus prazos podem esperar.

Tudo isso porque o Estado não pode, nem nunca vai amar, pois no amor, não há burocracia.

Por essa razão tudo em Jesus é simples. Não há complicações desnecessárias. Ele não enrola, ele vai direto aos fatos, é realista. Destrói sonhos de vaidade e utopia humanas e mostra caminhos de utopia divina que desafiam a vida como ela é.

Os discípulos são chamados a simplicidade também.

São informados que a oração não precisa de palavras calculadas, não precisa de um lugar específico e pode ser feitas sem genuflexões compulsórias. Tudo porque Deus está acessível e sabe o que nós precisamos antes de orarmos. Então segundo Jesus o segredo da oração é que não existe segredo nenhum. (1)

A palavra do discípulo deve ter o mesmo caráter de Deus: objetividade. Se disse sim, quer dizer sim, se disse não quer dizer não. Nada de subterfúgios, enrolação, ambiguidades propositais para desviar os interlocutores. O que dele discípulo quer se saber deve ser dito sem armadilhas semânticas que os advogados tanto apreciam. (2)

A atitude do discípulo também não deve presumir honrarias de qualquer tipo. Deve sempre esperar nada, e tudo que receber é lucro de quem nunca exigiu qualquer coisa. Se a cama for boa glória a Deus, se não vamos em frente. Assim é que Jesus sem beijo, sem pés limpos e sem ser ungido seguiu seu ministério na casa do fariseu e ali mostrou lição de humildade. (3)

A alegria também segundo Ele, não vem de conquistar algo distante em um futuro incerto, mas de conseguir abrir os olhos para o que já está consumado, as maravilhas ao nosso redor e pelo que se é nEle.

Quem é discípulo que aprenda logo.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1) Mateus 6:5

(2) Mateus 5:37

(3) Lucas 14: 8

O Deus que dança

Caio Fábio 

Meu pai não dançava, e não apenas porque a muleta o impedia, mas porque na família dele a dança não era tão celebrada, embora alguns dos meus tios gostassem de um arrasta pé à moda cabocla.

Minha mãe dançava menos ainda. Filha da Mãe Velhinha, protestante, puritana, com mania de limpeza, com ódio de festa, e seu trauma com um marido mulherengo, minha vovó não poderia nem sequer se imaginar dançando. Daí minha mãe jamais ter dançado, exceto depois de velha, e já puxada por mim como brincadeira.

Eu cresci sem dançar, embora, aí pelos 7 anos, eu adorasse tentar bailar. Dancei a primeira vez já aos 12 anos, quando, forçado por uma namoradinha, me vi diante de um “ou dança, ou dança”.

Então dancei pra não dançar. E gostei…

Dali em diante passei a dançar, até que conheci, em Manaus, aos 15 anos, alguns dos melhores dançarinos de salão que eu já tinha visto dançar.

Celsinho foi um amigo que me soltou na dança. Ele era habilidoso, e me tirou a timidez de rebolar machamente, de me deixar levar pelo som, de emprestar o corpo à musica, e de deixar a musica fazer possessão da alma, transformando isso em movimento e forma: estética em movimento e sincronia.

Então me soltei, e, durante anos dancei com imenso prazer, todos os dias, às vezes quase o dia inteiro, e, com certeza, todas as noites.

Eu tinha prazer em dançar!

Depois veio a conversão e o dançar entrou na lista das coisas mundanas que deveriam sair de minha existência. E, assim, nunca mais dancei, até que chegou dezembro de 1998, quando voltei a dançar, embalado também pelas agonias de meus desastres e tristezas, bem como da vergonha pública provocada pela exposição no malfadado “Dossiê Caymam”.

Dancei, dancei e dancei. Dancei como índio quando se prepara para a guerra. Escolhi seguir o ritmo das percussões quando dançava. E me abandonava, de olhos fechados, à tirania e à possessão que a musica exerce sobre aquele que entrega sua alma ao ritmo e o corpo ao movimento provocado pela força da musica.

E como me fez bem!

Depois disso não mais deixei e nem pretendo deixar de dançar com minha mulher. Dançamos em casa, dançamos sozinhos, dançamos em casamentos, em festas, e dançamos em pistas dançantes…

A minha pergunta é: por que os cristãos não dançam?

Como? Se o primeiro milagre aconteceu numa festa, se a volta do pecador a Deus é como uma festa com dança, se o convite do reino é para um casamento com festa, se Jesus vivia em festas e banquetes, e também se a Escritura inteira sempre relaciona a vinda da Graça à sociedade, com danças de virgens, folguedos na praça, canções de amor, e vinho de alegria?

Ora, até os judeus da idade da pedra da revelação, dançam. Dançam religiosamente; e dançam por mera alegria.

Mas os cristãos não dançam. Ora, de onde vem isto?

A viagem é longa, mas o roteiro básico é esse: o ascetismo que dominou setores da igreja, inibiu o estético e o artístico; a dicotomia gerada pela absorção do gnosticismo, produziu uma separação entre o material e o espiritual; o sacerdotalismo judaico, revivido pelo sacerdotalismo romano, com muitas absorções dos cultos pagãos, criou a ambiência do ‘misterioso sem movimento’; os movimentos de santificação pela via das mortificações, impediam qualquer que fosse a expressão de afeto e toque; e a chegada do puritanismo protestante, e seus filhotes comportamentais e legais, os pentecostais legalistas, consumaram a obra de paralisia do corpo em relação a nada que não seja sinal de comunicação, expressão de funcionalidade física e profissional, e minimamente no ato conjugal moderado e sóbrio.

Mas dançar? Jamais! Essa coisa de se mexer ao sabor dos contornos de uma música ou melodia, e de se entregar a movimentos coordenados e em harmonia com outro corpo, é algo que ofende o paganismo greco-romano-anglo-saxão-puritano, e que constituiu a parede emocional e cultural do protestante e do evangélico, até mais do que do católico.

Pela dança se celebra a alegria da vida, e tudo que é alegria de viver, é gratidão a Deus.

Dançar não só é gostoso, como também pode até mesmo conduzir a pessoa a uma espécie de êxtase. Não raramente me sinto arrebatado quando danço com sinceridade.

A dança é bela, linda, fascinante, mas só será sensual se quem dançar estiver gerando uma energia sensual; ou se o observador estiver com o olhar contaminado pela cobiça.

Dançar, no entanto, é extravasar a alma mediante uma linguagem supra-racional, e que pode ser pura expressão de ser e sentir.

Todavia, esse dançar não é acontece na “boquinha da garrafa”. Ele é portal dos sentidos e acontece nas fronteiras dos extra-sentidos. Portanto, não se inspira enquanto rebola subindo e descendo até a “boquinha da garrafa”.

Quando leio os evangelhos vejo cada vez mais Jesus se movendo conforme as ondas e melodias de cada musica histórica que o afetava como fado de enfermidade, como danças de curas, como balés de milagres, como poesia de mensagens, como plasticidade cênica incomparável; e como presença certa em muitos jantares e banquetes, não importando a casa, mas apenas a recepção.

Tudo em Jesus tem arte, estética, movimento, poesia, melodia e ritmo. E Suas histórias são cheias de imagens e parábolas de festa, dança e convites a banquetes divinos e casamentos.

Para Jesus até os anjos dançam e bailam quando uma consciência volta a si e se entrega ao amor do Pai.

A grande ironia é que o Evangelho da dança, do banquete, da festa, das bodas, dos beijos de reconciliação, e do bom humor e das histórias até irônicas, virou o Cristianismo e seus filhos, os quais são contra toda alegria que não seja explicitamente litúrgica, que são contra a alegria do corpo, que são contra o bailar livre da alma e do corpo como expressão de gratidão explosiva ou como mera expressão de gáudio humano e sadio.

Quem reclama muito disso hoje em dia são as mulheres dos homens crentes, que dizem que “não é bom”, porque o maridão crente não aprendeu a dançar.

Dançar pode ser terapêutico para tudo, inclusive para a vida sexual, sem falar que é um dos mais eficazes desopilantes psicológicos.

Jesus disse que os jejuns e tristezas seriam normais quando o Noivo (Jesus) fosse tirado dos discípulos. Mas isso seria apenas por “um pouco”, e, outra vez, em apenas um outro “um pouco”, e eles O veriam; e, dessa vez, sua alegria ninguém poderia tirar.

Para mim um dos maiores sinais de cura humana, psicológica, cultural, e de grande libertação acontecerá no dia em que eu vir os crentes dançando pela alegria de dançar, fazendo isto como celebração da vida, conforme Jesus ensina no espírito do Evangelho, o qual se estriba em Sua própria atitude frente às celebrações humanas e ante as simples alegrias desta vida.

O que os cristãos da religião precisam saber é que as danças da Nova Jerusalém não serão Piquiniques Evangélicos, mas ao contrário, serão celebrações de todas formas de expressão de vida que existirem nos povos.

Quem não gosta, melhor é que vença esse preconceito, pois, o convite eterno é para a Festa do Cordeiro.

Nele, em quem meu ser dança,

O linha fina que separa a indiferença e o fanatismo

EQUILÍBRIO

É sadio fazer o bem a quem cruza nosso caminho, mas é fanatismo religioso querer resolver o problema do mundo inteiro.

É sadio amar a todos e por ninguém alimentar o ódio que se alimenta do nosso coração, mas é fanatismo religioso achar que todos são dignos de confiança.

É sadio ter autodisciplina, e aprender a dizer não a si mesmo, jejuar, ler e orar, mas é fanatismo religioso perder a espontaneidade da vida cobrindo cada detalhe da existência com uma regra particular.

É sadio pregar o evangelho a toda criatura, mas é fanatismo religioso continuar falando para quem já tapou os ouvidos há muito tempo.

É sadio crer e orar pela cura física, mas é fanatismo religioso entregar toda responsabilidade a Deus e não fazer pela nossa saúde o que está ao nosso alcance fazer.

É sadio crer e estar aberto a palavras de revelação e profecia, mas é fanatismo religioso querer receber uma a cada dois passos ou abraça-las sem o escrutínio e o juízo devido.

É sadio questionar, perguntar e analisar, mas é fanatismo secularista não duvidar de suas dúvidas também.

É sadio respeitar hierarquias e lideranças diversas, mas é fanatismo religioso acreditar que elas sempre fazem o que é certo ou que não podem ser questionadas.

É sadio e verdadeiro acreditar que existem entidades espirituais do mal, mas é fanatismo religioso ver mais a obra do diabo do que a obra de Deus em uma terra que está cheia da sua glória.

É sadio sentir culpa pelos pecados que cometemos, pois só os psicopatas não sentem culpa, mas é fanatismo religioso sentir culpa por todo prazer legítimo que foi dado por Deus.

É sadio proclamar aos quatro cantos da terra a graça que perdoa sempre e completamente, mas é fanatismo tendencioso esquecer a graça que capacita.

É sadio fazer uso de tecnologias que facilitam nosso trabalho, mas é fanatismo pós-moderno acreditar que a tecnologia resolve todos os problemas.

É sadio amar a comunidade local dos discípulos de Jesus, mas é fanatismo religioso crer que o centro do Reino é a sua denominação.

É sadio termos líderes espirituais que nos dão conselhos, mas é fanatismo religioso permitir que os pastores gerenciem cada detalhe de nossa vida como se fôssemos para sempre crianças irresponsáveis, e seres maquinais e anencefálicos.

É sadio pensarmos sobre Deus e seus propósitos, mas é fanatismo humanista achar que Ele pode ser explicado com categorias humanas.

É sadio entendermos que tudo que é bom e belo vem de Deus, mas é fanatismo religioso achar que é preciso que a palavra “Deus” e “Jesus” esteja presente para justificar que algo tenha origem divina.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério

Os pensamentos íntimos de um fariseu

Há vida inteligente no twitter. André Botelho do ministério Jovens da Verdade escreve em uma conta sob o codinome “fariseu”  com grande número de seguidores, aforismos que eu considero de alta qualidade e muito bom humor que fazem a gente pensar. Aqui vai alguns deles:

“Nada melhor para aliviar a consciência do que a esperança de que amanhã terei mais vontade de obedecer a Deus.”

“Ser fariseu é não ter a consciência da maldade de seu próprio bem.”

“Se não és, ao menos esforça-te em parecer!”

“Ser fariseu é convencer a si mesmo de sua própria mentira.”

“O objetivo de Satanás não é que você o adore no lugar de Deus, mas que você sinta o desejo de ser adorado assim como ele.”

“Enquanto a igreja for uma fogueira de vaidades, no lugar de discípulos teremos só carvão.”

“Manter-se ocupado continua sendo a melhor maneira de negligenciar as coisas mais importantes.”

“O problema do amor ao próximo é justamente a proximidade.”

“A compaixão é como pimenta em conserva, bonito de se ver, difícil é experimentar.”

“Dizem que devo primeiro aprender a me amar para depois amar o meu próximo. Tenho me concentrado na primeira parte.”

“O fariseu sempre acha que o preconceito é mera prudência.”

“Meu único vício é a abstinência.”

“Você pode ficar com a verdade, desde que me deixe ficar com a razão!”

“Máscaras são para amadores, o mundo exige que você realmente tenha duas caras!”

“A diferença entre o fariseu e o íntegro é que um se ofende com a ilegalidade e o outro com a injustiça.”

“Errar é humano, esconder o erro é um vício, mas colocar a culpa nos outros é minha arte.”

“Deixe sua consciência falando sozinha e ela logo se cansará de falar!”

“Escondi tua palavra no meu coração… e nunca mais consegui achar!!”

“Eu sou tão gente boa que eu tenho inveja de quem convive comigo!”

“Fico chateado porque o sermão do culto foi ótimo, mas o irmão que precisava ouvir não foi na igreja.”

“Conhecimento de Deus para um fariseu é uma estante cheia de livros e um diploma de teologia pendurado na parede do escritório.”

“Quer matar um fariseu? Ignore-o!!”

“Eu sei que a perfeição incomoda, mas eu não estou aqui para agradar ninguém.”

“Se fui sincero com você, me desculpe, foi só um deslize.”

“Não sou o dono da verdade, apenas o gerente administrativo.”

“Peco somente por amor, peco em solidariedade a raça humana.”

“Legalismo é quando a lei deixa de proteger e passa a ser protegida.”

“Se o teu olho te faz pecar… use óculos escuros, ou alguém vai acabar descobrindo.”

“Classificados: Procuro discípulos que tenham admiração incondicional, obediência cega e sem antecedentes de senso crítico.”

“Minha única fraqueza é não conseguir admitir as minhas fraquezas.”

“O fariseu tem alma de urubu: nada lhe atrai mais que a carniça da alma alheia.”

“Código de ética farisaica – Parágrafo único: O que ninguém viu, nunca existiu.”

“Precioso remédio é o cinismo, que alivia a dor da incoerência enquanto anestesia a consciência.”

Quem quiser mais, siga a conta no twitter.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.