Discursos farisaicos na tumba de um profeta moderno.

“Se existem sonhos de uma linda África do Sul, também existem estradas que levam a este objetivo. Duas dessas estradas podem ser chamadas de Bondade e Perdão.”

Nelson Mandela

Jesus comentava com ironia, que os líderes religiosos do seu tempo costumavam chorar em cima do túmulo dos profetas lamentando não estarem vivendo no seu tempo, pois segundo sua percepção jamais cometeriam as atrocidades que seus antepassados perpetraram contra eles. Puro autoengano. Ali estava o filho de Deus, e eles o crucificaram sem dó nem piedade.(1)

Ouvindo a declaração do Presidente Obama sobre a morte, foi impossível não lembrar dessa passagem dos evangelhos.

Segundo Obama:

“Eu sou um dos milhões que se inspiraram na vida de Nelson Mandela. Minha primeira ação política – a primeira coisa que fiz na vida relacionada a política foi um protesto contra o apartheid. Eu estudava as palavras e os textos dele. O dia em que ele foi libertado da prisão me deu um senso do que os seres humanos são capazes de fazer quando são guiados por esperanças, e não por medos.

E como tantos ao redor do mundo, não consigo imaginar a minha própria vida sem o exemplo deixado por Nelson Mandela. E enquanto eu viver, farei o que puder para aprender com ele.”

Esse discurso elogioso soou aos meus ouvidos como a mais pura catilinária farisaica. Ora, não poderia existir política no trato com os diferentes mais distante da prática de Mandela do que a política americana.

Os latinos que o digam. É quase uma via crucis a busca por um lugar ao sol na América de todos os sonhos possíveis. Primeiro na busca do Green Card, e depois por um tratamento igualitário e um emprego decente.

Além disso, a política internacional das oligarquias americanas de invadir nações sem o aval da ONU e destruir países para “libertá-los” para a democracia compromete qualquer possibilidade de semelhança com o legado de Mandela.

Poucos líderes de alcance mundial encarnaram como ele o espírito da não retaliação do evangelho. Vinte e sete longos anos de sua juventude sacrificados na causa da liberdade. Penso naquela prisão, e imagino como cada minuto se torna  uma gota de eternidade. Penso na força interna, as decisões penosas de cada dia para permanecer sóbrio e sadio de mente. O desejo de vingança, o ódio que circula a alma qual um abutre em busca de um cadáver. A família fraturada que chora a ausência, o tempo que à medida que passa vai enfraquecendo a esperança de um final feliz. Até que um dia o jogo vira. Todas as possibilidades de vingança estão à mão. Afinal, as cicatrizes estão ali, de que forma só Deus pode saber. E o que acontece é a inversão da lógica histórica pela manifestação da mais pura graça.

Então nossa mente volta-se para 11 de setembro de 2001. Um país atacado chora legitimamente a morte dos seus civis inocentes pela estupidez do ódio. Qual a resposta dos seus líderes? “Nós somos fortes!”. Ninguém jamais duvidou disso, a pergunta era se poderiam ser mais fortes do que ódio, essa bomba que ataca de dentro para fora.

O que aconteceu depois como a história mentirosa das armas de destruição em massa e a guerra do Iraque é a mais contundente prova de que os fariseus adoram chorar na tumba dos grandes profetas, mas repudiam com veemência suas obras.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

(1)   Mateus 23:29-32

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Porque acredito que a política partidária é a forma mais ineficaz de mudar o país

Política é a gestão dos negócios da cidade ou no grego “polis”. Ninguém deveria deixar de se preocupar com política, muito menos os cristãos, que são sal e luz. Os desavisados, porém acham que a única forma de fazer política é votando ou participando de um partido político. É preciso que esse erro seja corrigido, pois ele interessa a quem é conveniente nossa omissão. Mas primeiro quero direcionar minha atenção a responder a pergunta que deu origem a esse post.

Suponha que encontramos (como de fato há), um cidadão competente, com liderança e boas intenções e que deseja entrar para a política partidária. Quais são as barreiras que ele encontrará que a meu juízo travarão todo o seu potencial?

Primeiro, o contexto partidário. Ninguém poderá atuar como político com efetividade sem o apoio dos seus pares. E todos, eu enfatizo todos, os partidos tem figuras enraizadas há muitos anos em seus escalões com uma rede de apoiadores que precisam ser mantidos e interesses a serem defendidos. Se você não tiver apoio e o voto destes, não poderá se mover no ambiente que escolheu. E para obter esse apoio precisará abrir mão de alguns valores e projetos, ou morrerá na solidão e abandono. É só você observar.

Segundo, você nunca escalará um cargo importante como prefeito, governador ou presidente da república sem dinheiro. Propaganda é alma da eleição. Ou você já viu algum candidato novo e sem expressão conseguir vencer eleição? Políticos que se elegem sem máquina de propaganda são exceção a regra. E para obter dinheiro você precisará de fortes colunas econômicas para a campanha que não doarão dinheiro que eles ganharam a um alto custo apenas porque enxergam um bonito ideal. Eles são homens de negócio e eles vão querer fazer negócio. É o lado negro do princípio ganha-ganha.

Terceiro, uma vez eleito, seja para a câmara, seja para o executivo, você precisará de uma associação com várias pessoas para criar um fato novo. Vejamos o exemplo de Collor de Melo eleito democraticamente no ano de 1989 após anos de ditadura militar. Ele não caiu no impeachment porque o país foi tomado de uma sanha de honestidade. Longe disso. O que aconteceu foi que pelo temperamento impulsivo o então presidente, tentou atropelar o famigerado processo político. Resultado, ficou sem apoio e sem apoio foi fácil acabar com ele.

Ora, diante destas realidades perversas dessa política que nos desanima, creio que existem outras mil maneiras de se fazer política de maneira efetiva e que pode mudar realmente o nosso país. Veja algumas delas:

Pressão organizada. A ABRACCI,  (Articulação Brasileira contra a Corrupção e a Impunidade) mantém um controle da execução da lei de ficha limpa que é uma conquista da mobilização dos brasileiros. Políticos só respondem a mobilizações que envolva muita gente e com visibilidade.

Engajamento em causas de dimensões sociais amplas. Racismo, pobreza, abuso sexual, reintegração social são só alguns dos temas de interesse público que podemos nos envolver para fazer a diferença.

Participação na solução dos problemas do seu bairro não só quando o seu sapato aperta.

Essas são só algumas possibilidades para você derramar seu potencial político e não se alienar em seu individualismo egoísta, e ao mesmo tempo se livrar dessa máquina de produzir mentiras e engolir potenciais que se chama política partidária.

Sei que minha posição pode incomodar a muitos, mas está aberta a conversa, quem quiser chegar e falar será bem-vindo.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo e também cidadão gaudério.